ZOONBOOK

O Silencio Entre as Notas

O Silêncio Entre as Notas

Capítulo 1 — A Casa que Ainda Escutava

A casa dos Rivers era grande demais para três pessoas.

Grande demais para Diane, para sua mãe e para a memória de alguém que já não ocupava quarto algum.

Havia corredores onde o silêncio parecia mais antigo que os móveis. Salas que permaneciam fechadas por meses. Janelas altas demais para que uma pessoa pudesse abri-las sem esforço. Retratos de familiares mortos acompanhavam quem passava pelos corredores com a solenidade própria das famílias que haviam aprendido a transformar a própria história em decoração.

Do lado de fora, a propriedade se estendia por campos verdes até encontrar o lago.

Naquela manhã, a neblina estava baixa.

Diane Rivers observava-a da janela da biblioteca.

Segurava uma xícara de café que já havia esfriado havia vários minutos.

Não bebia.

Apenas a mantinha entre as mãos.

Aos trinta e dois anos, Diane tinha a aparência de alguém que aprendera cedo demais a economizar palavras.

Seus cabelos escuros estavam presos atrás da cabeça de maneira simples, sem o cuidado exagerado que sua mãe considerava necessário para uma mulher de sua posição. Vestia uma saia escura e uma blusa de mangas compridas. Nenhum colar. Nenhuma pulseira. Apenas um relógio pequeno no pulso esquerdo.

A governanta entrou discretamente.

— Senhorita Rivers?

Diane não se virou.

Pela maneira como a mulher pronunciara seu nome, já sabia que não se tratava do café da manhã.

— Minha mãe telefonou.

A governanta hesitou.

— Sim.

Diane continuou olhando o lago.

— Quando?

— Há cerca de quinze minutos.

— E o que ela deseja desta vez?

A pergunta não carregava raiva.

Isso tornava tudo um pouco pior.

A governanta aproximou-se.

Chamava-se Martha e trabalhava para a família havia mais de vinte anos. Conhecera Diane criança. Conhecera Eleanor.

Talvez por isso fosse uma das poucas pessoas na casa que sabia quando não insistir.

— Ela pediu que eu avisasse que voltará na sexta-feira.

Diane ergueu levemente as sobrancelhas.

— Sexta-feira?

— Sim.

— Ela não deveria estar em Boston?

— Houve uma mudança.

Diane finalmente tomou um gole do café.

Fez uma pequena careta ao perceber que estava frio.

— Minha mãe nunca muda uma viagem sem ter encontrado uma forma mais inconveniente de ocupar o próprio tempo.

Martha quase sorriu.

Quase.

— Ela também disse que receberemos uma hóspede.

Diane virou o rosto.

O olhar dela tinha uma particularidade que deixava algumas pessoas desconfortáveis.

Não era agressivo.

Era atento demais.

Diane olhava como quem retirava devagar as camadas de uma pessoa até alcançar aquilo que ela ainda não havia dito.

— Uma hóspede?

— Uma senhora chamada Marianne Lieberman.

Diane ficou imóvel por alguns segundos.

O nome não lhe era completamente desconhecido.

Ela o havia visto em jornais.

Talvez em uma revista.

Uma professora de música.

Piano, principalmente.

A compreensão chegou antes que Martha precisasse dizer qualquer coisa.

Diane colocou a xícara sobre a mesa.

— Não.

Martha suspirou.

— Diane...

— Ela contratou alguém.

— Eu não sei exatamente—

— Sabe.

Martha ficou em silêncio.

Diane desviou os olhos para a janela novamente.

A névoa sobre o lago começava a desaparecer.

— Minha mãe é uma mulher admirável.

— Diane.

— Ela consegue transformar preocupação em invasão com uma elegância impressionante.

— Talvez ela esteja apenas tentando ajudar.

Diane sorriu.

Não havia alegria alguma naquele sorriso.

— Pessoas que querem ajudar costumam perguntar onde dói antes de começar a apertar.

Martha observou-a por alguns instantes.

— Você não toca há muito tempo.

A mudança no rosto de Diane foi mínima.

Um pequeno endurecimento ao redor dos olhos.

Nada mais.

— Exatamente.

Martha compreendeu.

— Vou pedir para prepararem o quarto de hóspedes.

Diane fez um gesto leve com a cabeça.

A governanta caminhou até a porta.

Antes de sair, parou.

— Sua mãe sente sua falta.

Diane não olhou para ela.

— Minha mãe sente falta de muitas coisas.

Martha esperou.

Diane acrescentou:

— Quase nenhuma delas está viva.

A porta se fechou.

Diane permaneceu diante da janela.

Do outro lado da propriedade, o lago refletia o céu cinza.

E, junto à margem, quase escondida entre árvores antigas, estava a pequena casa do lago.

Por alguns segundos, Diane fixou os olhos nela.

Depois desviou.

---

O piano ficava na sala oeste.

Era um Steinway negro, enorme, impecavelmente conservado e completamente silencioso.

Diane não entrava naquela sala havia semanas.

Às vezes meses.

Naquele dia, entrou.

Não sabia exatamente por quê.

Talvez porque ouvir o nome de Marianne Lieberman tivesse feito a casa inteira parecer subitamente consciente da existência daquele instrumento.

As cortinas permaneciam fechadas.

Diane caminhou até o piano.

Parou diante dele.

Não levantou a tampa.

Passou apenas a ponta dos dedos sobre a madeira escura.

Uma camada fina de poeira não existia.

Naturalmente.

A equipe de empregados limpava o instrumento regularmente.

Como se esperassem alguém.

Diane retirou a mão.

Durante muitos anos, o piano havia sido a única coisa no mundo diante da qual ela não precisava pensar.

Depois Eleanor morreu.

E a música começou a pensar por ela.

Cada nota encontrava um lugar onde doer.

Cada melodia tinha algum fragmento da irmã.

A risada.

Os dedos errando uma escala.

Uma tarde de verão.

O cheiro de medicamentos.

Uma porta entreaberta.

A respiração fraca.

E a voz da mãe dizendo:

“Você deve continuar, Diane.”

Continuar.

Como se tocar pudesse impedir alguma coisa de terminar.

Diane caminhou para longe do instrumento.

Sobre uma pequena mesa, havia uma fotografia antiga.

Duas meninas.

Eleanor, aos dezesseis.

Diane, aos treze.

As duas estavam sentadas diante do piano da casa do lago.

Eleanor sorria para a câmera.

Diane olhava para Eleanor.

Isso sempre a incomodara.

Mesmo naquela idade, parecia que ela havia passado a vida inteira observando pessoas que acabariam indo embora.

Pegou a fotografia.

— Você sempre olhava para o lugar errado.

A voz surgiu atrás dela.

Diane não se assustou.

Virou-se devagar.

Margaret Rivers estava parada junto à porta.

Usava um elegante conjunto cinza, luvas claras e um chapéu perfeitamente alinhado com os cabelos. Aos cinquenta e oito anos, ainda carregava a beleza rígida de uma mulher acostumada a entrar em lugares e ser imediatamente notada.

Diane olhou para a mãe.

Depois para a mala que o motorista colocava no corredor.

— Sexta-feira chegou cedo.

Margaret tirou as luvas.

— Mudei meus planos.

— Martha mencionou.

— Pensei que você ficaria feliz em me ver.

— Pensou?

Margaret sustentou o olhar da filha.

Era uma das poucas pessoas que conseguia fazê-lo sem se sentir examinada.

Talvez porque tivesse criado aqueles olhos.

— Você poderia ao menos fingir.

Diane colocou a fotografia de volta.

— Nunca fui particularmente talentosa para mentir.

— Não. Apenas para tornar a verdade desagradável.

Diane inclinou levemente a cabeça.

— É uma arte subestimada.

Margaret respirou fundo.

Durante alguns segundos, nenhuma delas falou.

O relógio sobre a lareira marcou onze horas.

Margaret olhou para o piano.

Diane percebeu.

Naturalmente percebeu.

— Não.

Margaret voltou os olhos para ela.

— Eu não disse nada.

— Ainda.

— Marianne chega amanhã.

— Então mande-a embora amanhã.

— Não.

A resposta foi firme.

Diane encostou-se à lateral de uma cadeira.

— Há quanto tempo planeja isso?

— Algumas semanas.

— Algumas semanas.

— Diane—

— Você passou algumas semanas organizando a entrada de uma desconhecida na minha vida sem achar necessário informar a pessoa cuja vida estava organizando.

— Marianne não é uma desconhecida.

— Para mim, é.

— Ela é uma das melhores professoras de piano que encontrei.

Diane ficou olhando para a mãe.

Então sorriu.

Pequeno.

Quase triste.

— Claro.

Margaret estreitou os olhos.

— O que isso significa?

— Nada.

— Quando você diz “nada” dessa maneira, sempre significa alguma coisa.

Diane caminhou até a janela e abriu uma pequena fresta na cortina.

A luz cinzenta entrou na sala.

— Significa apenas que você continua procurando pessoas que possam devolver aquilo que perdeu.

Margaret ficou imóvel.

— Isso não tem relação com Eleanor.

Diane virou o rosto.

Seus olhos encontraram os da mãe.

Não havia raiva neles.

Só uma espécie de cansaço antigo.

— Tudo nesta casa tem relação com Eleanor.

Margaret empalideceu ligeiramente.

— Isso é injusto.

— Provavelmente.

Diane soltou a cortina.

— A verdade não tem obrigação de ser gentil.

Margaret aproximou-se.

— Você tinha uma carreira.

Diane não respondeu.

— Você tinha vinte e quatro anos e salas inteiras paravam para ouvi-la.

Silêncio.

— Pessoas viajavam para vê-la tocar.

Diane cruzou os braços.

— Imagino que tenham encontrado outras coisas para fazer.

— Você desperdiçou anos.

Agora os olhos de Diane mudaram.

Não muito.

Mas Margaret percebeu.

A filha baixou lentamente os braços.

— Cuidado.

— Com o quê?

— Com as palavras que escolhe.

Margaret ficou em silêncio.

Diane continuou:

— Algumas delas sobrevivem mais tempo do que as pessoas.

A mãe desviou os olhos primeiro.

Foi uma pequena vitória.

Diane não pareceu apreciá-la.

Margaret caminhou até o piano.

Tocou a madeira.

— Eleanor não gostaria disso.

Diane fechou os olhos por um instante.

Apenas um.

Quando voltou a abri-los, estavam frios.

— Não use uma morta para vencer uma discussão comigo.

Margaret retirou a mão do piano.

O silêncio tornou-se pesado.

Diane caminhou em direção à porta.

— Marianne ficará três meses — disse Margaret.

Diane parou.

Não se virou.

— Três meses?

— Foi o acordo.

— Desfaça.

— Não.

Diane permaneceu alguns segundos de costas para a mãe.

Então olhou sobre o ombro.

Havia algo quase sereno em sua expressão.

— Então não reclame quando a senhora Lieberman descobrir que dinheiro compra muitas coisas.

Margaret aguardou.

Diane concluiu:

— Mas não compra vontade.

E saiu.

---

No fim da tarde, Diane estava na casa do lago.

Era o único lugar da propriedade onde ninguém entrava sem sua permissão.

Ali, a madeira rangia.

As janelas não fechavam perfeitamente.

O tapete tinha pequenas manchas antigas.

As cortinas haviam perdido parte da cor.

Diane gostava daquilo.

Nada naquela casa fingia ser eterno.

Sentou-se perto da janela com um livro aberto sobre o colo.

Não lia.

Observava o lago.

O vento desenhava pequenas ondas sobre a superfície.

Por trás do vidro, seu reflexo aparecia misturado à água.

Durante algum tempo, pensou na mulher que chegaria no dia seguinte.

Marianne Lieberman.

Diane lembrava-se agora de onde vira o nome.

Uma matéria publicada dois anos antes.

“Uma educadora impiedosa com erros e generosa com talento.”

Diane quase sorriu.

Impiedosa.

Aquilo poderia ser divertido.

Ou profundamente irritante.

Provavelmente ambos.

Fechou o livro.

Atrás dela, coberto por um tecido bege, havia um pequeno piano vertical.

Diane não olhou diretamente para ele.

Mas sabia exatamente onde estava.

Sabia quantos passos separavam sua cadeira do banco.

Sabia qual tecla tinha uma pequena lasca no marfim.

Sabia qual nota desafinava durante o inverno.

Sabia tudo.

Ainda assim, não tocava.

Lá fora, o sol desaparecia atrás das árvores.

Diane encostou a cabeça no vidro.

E pensou que talvez o silêncio tivesse uma música própria.

Era apenas preciso permanecer tempo suficiente para escutá-la.

Na manhã seguinte, Marianne Lieberman chegaria à propriedade.

E, pela primeira vez em muitos anos, alguém entraria naquela casa sem compreender que certos silêncios não estavam esperando para ser quebrados.

Alguns estavam apenas esperando para ver quem teria coragem de permanecer diante deles.

O Silêncio Entre as Notas

Capítulo 2 — A Mulher do Outro Lado do Silêncio

Florença, Itália — 1954

Marianne Lieberman acreditava que havia uma diferença entre tocar uma música e compreendê-la.

A maioria de seus alunos chegava até ela sabendo a primeira coisa.

Poucos aprendiam a segunda.

— Outra vez.

O jovem sentado diante do piano ergueu os olhos para Marianne através do reflexo escuro da madeira.

— Professora, eu já toquei seis vezes.

— Eu contei sete.

— Então por que—

— Porque nas sete você cometeu o mesmo erro.

Ele soltou as mãos sobre as pernas.

Devia ter dezessete anos, talvez dezoito, e possuía aquela segurança própria dos jovens talentosos que ainda não haviam descoberto que talento algum os tornava imunes à mediocridade.

Marianne permaneceu atrás dele.

Não levantou a voz.

Nunca precisava.

— Qual foi o erro? — perguntou o rapaz.

— Se eu disser, você corrigirá porque eu disse.

— Não é esse o objetivo?

— Não.

O rapaz franziu a testa.

Marianne caminhou lentamente até o lado do piano.

Seus cabelos castanhos escuros estavam presos em um coque baixo, impecável, e o vestido cinza que usava parecia ter sido passado minutos antes, embora já fossem quase quatro da tarde.

Ela colocou a ponta dos dedos sobre a madeira.

— O objetivo é que você consiga ouvir quando estiver sozinho.

O rapaz olhou novamente para a partitura.

— Não estou ouvindo nada errado.

— Exatamente.

Ele suspirou.

Marianne percebeu.

Também percebeu que ele estava prestes a tocar novamente sem compreender.

— Levante.

O rapaz virou o rosto.

— Como?

— Você está cansado.

— Eu consigo continuar.

— Não disse que você não consegue. Disse que está cansado.

Ele permaneceu sentado.

Marianne esperou.

Algumas pessoas confundiam rigidez com impaciência.

Marianne não tinha pressa.

Essa era uma das razões pelas quais costumava vencer discussões.

Por fim, o rapaz levantou-se.

— Caminhe até a janela.

— Professora—

— Lorenzo.

O nome bastou.

Ele foi.

A sala dava para uma rua estreita de Florença. Do lado de fora, bicicletas passavam entre carros pequenos, vendedores conversavam junto às portas dos estabelecimentos e duas mulheres discutiam alguma coisa carregando sacolas de pão.

Marianne sentou-se no lugar do aluno.

— Agora, escute.

Lorenzo virou-se.

— A rua?

— Tudo.

Ele pareceu confuso.

Mesmo assim, obedeceu.

Marianne esperou alguns segundos.

— O que você ouve?

— Pessoas.

— Isso eu também vejo.

— Uma bicicleta.

— Continue.

— Um carro.

— Continue.

Ele ficou em silêncio.

Depois:

— Um sino.

Marianne assentiu.

— Mais distante.

Lorenzo fechou os olhos.

Alguns segundos se passaram.

— Dois homens conversando.

— Mais.

— Uma mulher chamando alguém.

Marianne observou o rapaz.

— Agora você está ouvindo.

Ele abriu os olhos.

Marianne levantou-se.

— Volte ao piano.

— E isso vai corrigir a passagem?

— Talvez.

— Talvez?

Marianne aproximou-se dele.

— Música não é colocar os dedos no lugar correto no momento correto, Lorenzo. Um relógio também consegue marcar o tempo e ninguém o convida para um concerto.

O rapaz sorriu involuntariamente.

Marianne apontou para o banco.

— Outra vez.

Dessa vez, quando ele começou, ela ouviu a diferença já nos primeiros compassos.

Não sorriu.

Mas seus olhos suavizaram.

Lorenzo percebeu pelo reflexo.

Era assim que os alunos de Marianne aprendiam a reconhecer sua aprovação.

Precisavam procurá-la nos detalhes.

Quase nunca nas palavras.

---

A última aula terminou pouco depois das cinco.

Marianne organizava algumas partituras quando ouviu duas batidas na porta.

— Senhorita Lieberman?

— Sim?

A secretária apareceu.

— Há uma chamada para a senhora.

Marianne olhou para o relógio.

— Quem é?

— Estados Unidos.

Isso a fez parar.

— Estados Unidos?

— Uma senhora Rivers.

Marianne permaneceu imóvel por um breve instante.

O nome não lhe dizia nada.

— Ela disse do que se trata?

— Trabalho.

Marianne colocou a última partitura sobre a mesa.

— Diga que atenderei.

O telefone ficava em uma sala menor, próxima à recepção.

Quando Marianne pegou o aparelho, a ligação apresentava o ruído característico das chamadas internacionais.

— Marianne Lieberman.

Alguns segundos.

Então uma voz feminina respondeu do outro lado.

— Senhorita Lieberman?

A dicção era perfeita.

Controlada.

A voz de alguém acostumado a não precisar repetir pedidos.

— Sim.

— Meu nome é Margaret Rivers.

— Boa tarde, senhora Rivers.

— Espero não estar interrompendo.

Marianne olhou pela janela.

Lorenzo atravessava a rua levando as partituras debaixo do braço.

— Interrompeu.

Houve um pequeno silêncio do outro lado.

Marianne acrescentou:

— Mas isso não significa que não possa falar.

Margaret soltou uma respiração que poderia ter sido o início de uma risada.

— Disseram que a senhora era direta.

— Quem disse?

— Pessoas que a conhecem.

— Então imagino que também tenham mencionado que não costumo aceitar alunos por telefone.

— Minha filha não é uma aluna comum.

Marianne encostou-se à mesa.

Não gostava daquele tipo de frase.

Quase todo pai rico acreditava que seu filho era extraordinário.

— Nenhum deles costuma ser para os pais.

Margaret não respondeu imediatamente.

— Diane Rivers.

Marianne baixou os olhos.

O nome, ao contrário do primeiro, ela conhecia.

Não pessoalmente.

Mas conhecia.

— A pianista?

— Sim.

Marianne endireitou a postura sem perceber.

Diane Rivers.

Ela se lembrava de concertos.

Recortes.

Críticas.

Um nome que havia aparecido com frequência em jornais americanos e ingleses alguns anos antes.

Depois, silêncio.

— Ela não toca mais.

A voz de Margaret perdeu alguma rigidez.

Marianne percebeu.

— Eu sei.

— Sabe?

— Pessoas desaparecem dos palcos. Os músicos percebem.

Margaret ficou em silêncio.

Marianne continuou:

— O que deseja de mim?

— Quero que ela volte.

— Não posso fazer uma pessoa voltar para um lugar onde não deseja estar.

— Ainda nem a conheceu.

— Não preciso conhecê-la para saber disso.

Houve novamente aquele pequeno ruído na ligação.

Então Margaret disse:

— Três meses.

Marianne franziu levemente a testa.

— Perdão?

— Quero contratá-la por três meses.

— Para quê exatamente?

— Para morar conosco.

Marianne afastou o telefone alguns centímetros do ouvido e tornou a encostá-lo.

— A senhora costuma começar propostas profissionais pela parte menos razoável?

Dessa vez Margaret riu.

Foi breve.

— Temos uma propriedade no interior do estado de Nova York. Minha filha vive lá. Quero que permaneça conosco durante três meses e trabalhe com ela.

— Sua filha concordou?

Silêncio.

Marianne já tinha sua resposta.

— Senhora Rivers.

— Diane é... difícil.

— Isso não respondeu minha pergunta.

— Não.

Marianne fechou os olhos.

— Então não.

— Senhorita Lieberman—

— Não trabalho com pessoas obrigadas.

— Ela não será obrigada.

— A senhora está contratando uma professora sem o consentimento dela para viver na casa dela durante três meses.

— A casa é minha.

Marianne ergueu uma sobrancelha.

— Tenho certeza de que esse argumento será extremamente útil para melhorar a relação entre as duas.

Margaret não respondeu.

Pela primeira vez, Marianne percebeu que havia acertado algo que não fazia parte daquela negociação.

Mudou discretamente o tom.

— Por que eu?

— Porque todos os outros falharam.

Marianne olhou para a porta fechada.

— Quantos?

— Quatro.

— Em quanto tempo?

— Dois anos.

— E todos foram contratados sem que ela pedisse?

Margaret hesitou.

— Sim.

Marianne soltou o ar devagar.

— Talvez eu consiga identificar o problema daqui da Itália.

— Não quero alguém que concorde comigo.

Aquilo chamou sua atenção.

Marianne permaneceu calada.

Margaret prosseguiu:

— Se quisesse alguém para concordar comigo, não teria telefonado para a senhora.

— E o que disseram a meu respeito?

— Que é insuportável.

Marianne sorriu.

— Começo a gostar das suas fontes.

— Disseram também que é excelente.

— Essa parte costuma vir depois.

— Quero alguém que não tenha medo dela.

Marianne deixou o sorriso desaparecer.

— Por que eu teria medo de sua filha?

Margaret demorou alguns segundos.

— Porque Diane tem uma maneira de fazer uma pessoa sentir que está sendo observada por dentro.

Marianne nada disse.

— Ela não grita — continuou Margaret. — Não faz cenas. Às vezes penso que seria mais fácil se fizesse. Diane apenas olha. E espera. Até que as pessoas comecem a falar demais para preencher o silêncio.

— Inteligente.

— Muito.

— E isso a incomoda?

— Às vezes.

Marianne olhou para o próprio reflexo no vidro da janela.

— Ainda não ouvi uma razão para viajar até Nova York.

— Ela foi extraordinária.

Havia algo diferente naquela frase.

Não orgulho.

Dor.

Marianne esperou.

— A primeira vez que ouvi Diane tocar sozinha, ela tinha sete anos. Não havia professor na sala. A irmã dela estava ao lado. Eleanor. Diane viu Eleanor errar uma peça e, quando ficou sozinha, sentou-se e reproduziu tudo o que tinha ouvido.

Margaret parou.

Marianne percebeu que a mulher respirava de maneira diferente.

— Eleanor era musicista também?

— Sim.

— Era?

O silêncio seguinte explicou muito.

Marianne não fez perguntas.

Margaret continuou:

— Ela morreu há oito anos.

Marianne baixou os olhos.

— Sinto muito.

— Diane parou pouco depois.

— Então esse não é um problema de técnica.

— Eu sei.

— E mesmo assim a senhora continua contratando professores de piano.

Outra pausa.

Dessa vez, longa.

— É a única coisa que sei fazer.

A sinceridade desarmou Marianne por um instante.

Ela se sentou.

Através da linha telefônica, duas mulheres que nunca haviam se encontrado permaneceram em silêncio.

— A senhora quer que sua filha volte a tocar — disse Marianne.

— Sim.

— Ou quer sua outra filha de volta?

Margaret não respondeu.

Marianne imediatamente soube que talvez tivesse ido longe demais.

Mas não retirou a pergunta.

Por fim, Margaret falou:

— Talvez seja por isso que preciso de alguém que não concorde comigo.

Marianne passou o polegar pela borda da mesa.

— Sua filha sabe por que parou?

— Nunca me disse.

— Talvez ninguém tenha perguntado corretamente.

— E a senhora saberia?

— Não.

Marianne olhou para as partituras sobre a mesa da sala ao lado.

— Mas sei reconhecer quando uma pessoa está tocando para outra.

Margaret aguardou.

— Se Diane voltar ao piano, senhora Rivers, não será para a senhora.

A voz de Margaret ficou baixa.

— Tudo bem.

— Nem para a irmã.

Silêncio.

— Tudo bem.

— Será para ela mesma.

Dessa vez Margaret demorou.

— É tudo que eu quero.

Marianne não acreditou completamente.

Mas acreditou o suficiente.

— Três meses?

— Três meses.

— Sem garantia de resultado.

— Aceito.

— E eu estabeleço as aulas.

— Aceito.

— Se sua filha disser que não quer tocar, não vou obrigá-la.

Margaret hesitou.

— Aceito.

— A senhora demorou.

— Estou aprendendo.

Marianne quase sorriu.

— E se eu concluir que o problema não é Diane?

Margaret compreendeu imediatamente.

— Ainda assim quero que me diga.

Marianne olhou novamente para Florença.

Viveu naquela cidade durante boa parte da vida.

Conhecia seus sinos.

Seus cafés.

Suas ruas.

Sabia quais janelas recebiam primeiro a luz da manhã.

Talvez justamente por isso a ideia de atravessar um oceano parecesse tão absurda.

E tão estranhamente atraente.

— Quando?

— Quanto antes.

Marianne suspirou.

— Isso também disseram sobre a senhora?

— O quê?

— Que é impaciente.

Margaret riu.

— Aceita?

Marianne permaneceu alguns segundos olhando para a rua.

Um músico que deixa de tocar.

Uma irmã morta.

Uma mãe desesperada.

Uma casa no interior de Nova York.

Três meses.

Ela deveria ter recusado.

— Envie os detalhes.

Margaret não escondeu o alívio.

— Obrigada.

— Não me agradeça ainda.

— Por quê?

Marianne apoiou o cotovelo na mesa.

— Sua filha pode me mandar embora no primeiro dia.

Margaret respondeu imediatamente:

— Diane dificilmente manda alguém embora.

— Então talvez tenhamos sorte.

— Ela faz algo pior.

Marianne esperou.

— Faz você desejar ter ido por conta própria.

A ligação terminou alguns minutos depois.

Marianne continuou sentada diante do telefone.

A secretária apareceu à porta.

— Está tudo bem?

Marianne olhou para ela.

— Vou para Nova York.

A mulher arregalou os olhos.

— Quando?

Marianne olhou para o telefone.

— Aparentemente antes de recuperar o bom senso.

---

Três dias depois, Marianne estava em um avião cruzando o Atlântico.

Não gostava de voar.

Não tinha medo.

Era diferente.

Marianne simplesmente não gostava de estar em um lugar onde não pudesse decidir quando sair.

Talvez isso explicasse várias outras coisas em sua vida.

Tinha um livro sobre o colo.

Passara quase uma hora na mesma página.

Quando finalmente desistiu de fingir que lia, olhou pela pequena janela.

Nuvens.

Nada além delas.

Pensou em Diane Rivers.

Havia encontrado alguns recortes antigos antes de viajar.

Fotografias de apresentações.

Em uma delas, Diane tinha vinte e três anos.

Sentada ao piano.

Cabelos escuros.

Pescoço erguido.

Olhos voltados para algum ponto que não aparecia na fotografia.

Não sorria.

Marianne passou mais tempo olhando para aquela imagem do que gostaria de admitir.

Talvez porque Diane não tivesse a aparência de alguém sendo fotografada.

Parecia estar ouvindo alguma coisa distante.

Margaret havia enviado também uma gravação.

Marianne a escutou na noite anterior à viagem.

Uma interpretação de Chopin.

Diane tinha vinte e dois anos.

Havia imperfeições.

Poucas.

Mas Marianne não se lembrava delas quando a música terminou.

Lembrava-se da sensação.

Diane não tocava como alguém tentando ser admirado.

Tocava como se houvesse alguma coisa dentro dela tentando escapar.

Marianne desligara o aparelho e ficara sentada no escuro.

Depois ouvira novamente.

Agora, acima das nuvens, perguntou-se que tipo de pessoa conseguia abandonar algo que fazia daquela maneira.

E imediatamente se corrigiu.

Pessoas abandonavam aquilo que amavam todos os dias.

Às vezes justamente porque amavam demais.

---

Nova York a recebeu com movimento.

Carros.

Buzinas.

Pessoas apressadas.

Prédios que pareciam competir pelo céu.

Marianne passou apenas algumas horas na cidade antes de seguir para o interior.

Um motorista enviado pela família Rivers aguardava por ela.

A viagem foi longa o suficiente para os prédios desaparecerem e serem substituídos por estradas ladeadas de árvores, pequenos municípios e campos que se estendiam além da vista.

Quando chegaram à propriedade, o fim da tarde já começava a modificar a luz.

Marianne olhou através da janela do automóvel.

Primeiro vieram os portões.

Depois uma estrada privada cercada por árvores antigas.

E então a casa.

Não.

Casa era uma palavra pequena.

A residência Rivers parecia pertencer a outro tempo.

Três pavimentos de pedra clara, grandes janelas, colunas na entrada e uma extensão de jardins que tornava difícil imaginar onde terminava a propriedade.

O motorista abriu a porta.

Marianne saiu.

Ficou alguns segundos olhando.

— Exagerado — murmurou.

— Perdão, senhora?

Ela olhou para o motorista.

— Nada.

A porta principal se abriu antes que chegassem aos degraus.

Uma mulher de aproximadamente cinquenta anos apareceu.

— Senhorita Lieberman?

— Sim.

— Martha Bell. Governanta da família.

Marianne estendeu a mão.

Martha pareceu ligeiramente surpresa, mas apertou-a.

— Bem-vinda.

— Obrigada.

Duas empregadas apareceram para levar a bagagem.

Marianne observou.

— Posso levar minha mala.

— Não será necessário.

— Eu sei. Mas posso.

Martha a observou por um instante.

Depois fez um pequeno sinal.

As empregadas levaram apenas as malas maiores.

Marianne ficou com a bolsa de mão.

Martha quase sorriu.

— A senhora Rivers não está?

— Precisou retornar à cidade esta manhã.

Marianne parou no primeiro degrau.

— Ela não está aqui?

— Voltará em alguns dias.

Marianne olhou lentamente para Martha.

— Naturalmente.

A governanta pareceu compreender.

— Posso mostrar a casa.

Marianne entrou.

O hall tinha um pé-direito enorme.

Uma escadaria dupla subia para o andar superior.

Havia flores frescas sobre uma mesa central.

Pinturas.

Cristais.

Prata.

Tudo era bonito.

Tudo era impecável.

E, ainda assim, a primeira impressão de Marianne foi estranha.

A casa parecia quieta demais.

Não tranquila.

Quietude e tranquilidade eram coisas diferentes.

A tranquilidade descansava.

Aquela casa parecia esperar.

Martha começou a mostrar os cômodos.

Sala de jantar.

Biblioteca.

Sala de leitura.

Escritório.

Jardim de inverno.

Salão principal.

Uma segunda sala de estar.

Marianne começou a suspeitar que os Rivers possuíam mais lugares para sentar do que pessoas para ocupá-los.

Parou diante de um corredor.

Na parede, fotografias antigas.

Família.

Marianne reconheceu Diane antes de Martha dizer qualquer coisa.

Mais jovem.

Talvez dezenove.

Ao lado dela, outra garota.

Loira.

Sorridente.

Marianne não perguntou.

Martha percebeu para onde olhava.

— Eleanor.

Marianne voltou os olhos para ela.

— A irmã.

Martha assentiu.

Nenhuma das duas acrescentou nada.

Continuaram.

No andar superior, Martha mostrou o quarto de Marianne.

Era maior do que seu apartamento em Florença.

Uma cama larga.

Penteadeira.

Armário.

Poltrona.

Uma janela com vista para os jardins laterais.

Marianne colocou a bolsa sobre a cama.

— Ficarei aqui durante todo o período?

— Sim.

— Três meses.

— Foi o que me disseram.

Marianne caminhou até a janela.

Ao longe, entre as árvores, conseguia ver parte do lago.

— A propriedade termina onde?

Martha aproximou-se.

— Muito além do lago.

— Há uma construção perto da água.

Martha ficou quieta por um segundo.

— A casa do lago.

— Também pertence à família?

— Sim.

— Não vi durante a visita.

Martha desviou os olhos para a janela.

— Aquela parte não faz parte da visita.

Marianne virou o rosto.

— Por quê?

— Diane está lá.

Foi a primeira vez que alguém naquela casa mencionou o nome sem utilizar "senhorita Rivers".

Marianne percebeu.

— Ela mora lá?

— Não exatamente.

— Então?

Martha juntou as mãos diante do corpo.

— É onde vai quando deseja ficar sozinha.

— E com que frequência deseja isso?

Martha olhou para Marianne.

— Bastante.

Marianne voltou a observar a construção.

— Ela sabe que cheguei?

— Sabe que chegaria hoje.

— Não foi o que perguntei.

Martha demorou um pouco.

— Não sei.

Marianne soltou uma pequena respiração pelo nariz.

— Começo a entender sua mãe.

— Isso é bom?

Marianne olhou para Martha.

— Ainda estou decidindo.

---

Depois de desfazer parte da mala e trocar o casaco, Marianne tentou descansar.

Durou nove minutos.

Levantou-se.

Ela não conhecia aquele lugar.

Não conhecia as pessoas.

E, acima de tudo, não gostava de ficar parada esperando acontecimentos.

Saiu do quarto.

Os corredores estavam silenciosos.

Passou pela escadaria.

Desceu.

O sol já desaparecia atrás das árvores.

Foi então que viu uma porta que Martha não havia aberto.

Marianne parou.

Olhou para os dois lados.

Depois para a porta.

Não havia nada que indicasse que não pudesse entrar.

Girou a maçaneta.

A sala estava escura.

Cheirava a madeira e tecido fechado.

Marianne encontrou o interruptor.

Uma luz amarelada acendeu.

E então ela viu.

O piano.

Ficou imóvel.

Era um Steinway de cauda negro.

Magnífico.

Marianne entrou.

A porta fechou-se lentamente atrás dela.

Havia alguma coisa quase ofensiva em um instrumento como aquele estar escondido em uma sala fechada.

Aproximou-se.

Passou os dedos sobre a tampa.

Poeira.

Marianne franziu o cenho.

Na verdade, não era muita.

Provavelmente os empregados limpavam ao redor.

Mas havia uma fina camada próxima à parte superior, especialmente junto ao suporte de partituras.

Ela encontrou um pano sobre um móvel lateral.

Hesitou.

Então começou a limpar.

Não estava pensando em Diane.

Pelo menos foi o que disse a si mesma.

Retirou a poeira devagar.

Passou o pano pelas bordas.

Abriu a tampa.

As teclas surgiram.

Marianne ficou olhando.

Uma delas possuía uma pequena marca.

Outra estava ligeiramente mais amarelada.

Havia história naquele instrumento.

Não decoração.

Ela puxou o banco.

Sentou-se.

Pousou as mãos sobre as pernas.

Não deveria tocar.

Sabia disso.

Não por alguma regra.

Por instinto.

Algumas coisas pertenciam profundamente às pessoas mesmo quando estavam abandonadas.

Marianne olhou para as teclas.

E então fez exatamente aquilo que não deveria.

Colocou as mãos sobre elas.

A primeira nota foi baixa.

Quase tímida.

Escutou.

O instrumento estava bem afinado.

Ela tocou outra.

Depois uma terceira.

E, sem perceber exatamente quando tomou a decisão, começou.

Debussy.

Clair de Lune.

Não escolheu conscientemente.

A música simplesmente veio.

Marianne fechou os olhos.

A casa desapareceu.

A viagem desapareceu.

Margaret Rivers.

O contrato.

Diane.

Tudo.

Restou apenas o piano.

Seus dedos percorriam as teclas com uma delicadeza que poucos de seus alunos conheciam.

A mulher rígida desaparecia quando Marianne tocava sozinha.

Não precisava corrigir ninguém.

Não precisava observar postura.

Nem tempo.

Nem precisão.

Apenas escutava.

E tocava.

---

Na casa do lago, Diane Rivers ergueu os olhos do livro.

Ficou completamente imóvel.

Uma nota.

Depois outra.

O vento não faria aquilo.

Por alguns segundos, ela acreditou que tivesse imaginado.

Então veio a melodia.

O livro escorregou lentamente de seus dedos.

Diane levantou-se.

Não respirava direito.

O piano.

Alguém estava tocando o piano.

Seu corpo reagiu antes que sua mente conseguisse organizar qualquer pensamento.

Abriu a porta da casa do lago.

Desceu os pequenos degraus.

Atravessou a margem.

Depois o jardim.

Seus passos ficaram mais rápidos.

A música continuava.

Bonita.

Esse foi o pior detalhe.

Não havia violência nas mãos de quem tocava.

Não havia exibicionismo.

A pessoa conhecia o instrumento.

Conhecia música.

Diane entrou pela porta lateral da casa.

Uma empregada tentou falar alguma coisa.

Ela passou sem ouvir.

A melodia atravessava os corredores.

Cada nota parecia encontrar dentro dela algum lugar que permanecera fechado durante anos.

Diane acelerou.

Não corria.

Diane Rivers jamais corria dentro de casa.

Mas estava perto.

Quando chegou ao corredor da sala oeste, parou.

A porta estava entreaberta.

A música vinha dali.

Diane aproximou-se devagar.

Empurrou a porta.

E a viu.

Uma mulher estava sentada ao piano.

De costas parcialmente para a entrada.

Cabelos castanhos presos de maneira elegante.

Um vestido escuro marcando uma postura impecavelmente ereta.

As mãos se moviam sobre as teclas.

Mas foi o rosto que deteve Diane.

Marianne tocava de olhos fechados.

E havia uma paz em sua expressão que Diane não esperava encontrar em alguém dentro daquela sala.

Nenhuma pretensão.

Nenhuma expectativa.

Marianne não tocava para impressionar ninguém.

Não sabia que havia alguém observando.

Diane permaneceu junto à porta.

Por alguns segundos, esqueceu por que estava irritada.

Apenas olhou.

Os dedos de Marianne deslizavam.

A cabeça ligeiramente inclinada.

A respiração acompanhando a frase musical.

A luz do fim da tarde atravessava uma pequena abertura das cortinas e alcançava parte de seu rosto.

Diane observou a linha do nariz.

Os cílios.

A curva discreta da boca.

A postura das mãos.

Percebeu que Marianne não usava aliança.

O pensamento surgiu sem autorização.

Diane franziu o cenho consigo mesma.

Então avançou.

O salto de seu sapato encontrou o piso de madeira.

Tac.

Marianne abriu os olhos.

As mãos pararam.

A última nota permaneceu no ar por um instante.

E então seus olhos encontraram os de Diane.

Nenhuma delas falou.

Marianne imediatamente soube quem era.

Não precisava de apresentação.

A mulher diante da porta tinha o mesmo rosto das fotografias.

Mas fotografias eram coisas insuficientes.

Diane Rivers era mais difícil pessoalmente.

Não mais bonita.

Embora fosse.

Mais presente.

Seus cabelos escuros estavam soltos naquela tarde, caindo sobre os ombros de maneira que parecia quase acidental. Vestia uma saia azul-marinho e uma blusa clara. Não havia qualquer tentativa evidente de elegância nela.

Mesmo assim, Marianne teve a impressão de que a sala havia reorganizado sua atenção quando Diane entrou.

E os olhos.

Margaret havia falado deles.

Agora Marianne compreendia.

Diane não apenas a encarava.

Estudava.

Marianne sustentou o olhar.

Algo estranho aconteceu no silêncio entre as duas.

Não reconhecimento.

Elas nunca haviam se encontrado.

Também não intimidade.

Seria absurdo.

Era apenas uma sensação súbita de que aquela cena deveria ser lembrada.

Como quando uma música apresenta sua primeira nota e, por alguma razão inexplicável, você sabe que a última terá importância.

Diane foi a primeira a romper o silêncio.

— Afaste-se do piano.

A voz era baixa.

Firme.

Marianne retirou lentamente as mãos das teclas.

Diane entrou.

Seus passos não tinham mais pressa.

Ela olhou para o pano usado para limpar o instrumento.

Depois para a tampa aberta.

Depois novamente para Marianne.

— Ninguém toca nele.

Marianne levantou-se.

Diane continuou:

— Além de mim e da minha irmã.

A última palavra saiu diferente.

Quase imperceptivelmente.

Mas Marianne ouviu.

Havia passado a vida inteira ensinando pessoas a escutar.

Ela percebeu a mudança.

Não perguntou.

Não mencionou Eleanor.

Apenas fechou cuidadosamente a tampa sobre as teclas.

Então se virou para Diane.

— Peço desculpas.

Diane esperava resistência.

Talvez uma justificativa.

Recebeu apenas aquilo.

Marianne fez uma pequena reverência com a cabeça.

Elegante.

Quase antiga.

— Não sabia.

Diane continuou olhando.

— Agora sabe.

— Agora sei.

Silêncio.

Marianne poderia ter dito quem era.

Não disse.

Diane também não perguntou.

Durante alguns segundos, as duas apenas se observaram.

Marianne percebeu que Diane apertava discretamente o polegar contra o dedo indicador.

Tensão.

Diane percebeu que Marianne mantinha a respiração controlada, mas havia uma pequena rigidez em seus ombros.

Desconforto.

Nenhuma demonstrou ter percebido nada.

— Foi você quem limpou? — perguntou Diane.

Marianne olhou para o pano.

— Sim.

— Por quê?

— Estava empoeirado.

Diane ergueu ligeiramente uma sobrancelha.

— Há empregados para isso.

— Eu vi.

— E ainda assim resolveu fazer o trabalho deles.

Marianne fitou-a.

— Poeira não costuma perguntar quem deveria removê-la.

Por um instante, algo mudou nos olhos de Diane.

Marianne quase acreditou que ela fosse sorrir.

Não aconteceu.

— Você é Marianne Lieberman.

Não era uma pergunta.

— Sou.

Diane inclinou levemente a cabeça.

Era um movimento pequeno.

Observador.

— Imaginei que fosse mais velha.

Marianne não demonstrou surpresa.

— E eu imaginei que fosse mais simpática.

Diane ficou imóvel.

Marianne percebeu imediatamente que havia ultrapassado alguma fronteira.

Então viu.

Um movimento mínimo no canto da boca de Diane.

Não exatamente um sorriso.

A lembrança de um.

— Minha mãe não lhe contou? — perguntou Diane.

— Contou muitas coisas.

— Então deveria ter vindo preparada.

— Vim.

Diane olhou para as malas invisíveis como se pudesse vê-las no andar de cima.

— Não parece.

Marianne cruzou lentamente as mãos diante do corpo.

— A senhora Rivers também me avisou que você costuma fazer pessoas desejarem ir embora.

O olhar de Diane ficou mais atento.

— Ela disse isso?

— Disse.

— Minha mãe fala demais quando está nervosa.

— Ela estava nervosa?

Diane aproximou-se alguns passos.

Parou do outro lado do piano.

Agora havia apenas o instrumento entre elas.

— Você me diga.

Marianne sustentou seu olhar.

— Ainda não a conheço o suficiente.

— Não.

Diane passou a ponta do dedo sobre a área que Marianne havia limpado.

— Não conhece.

O silêncio voltou.

Marianne percebeu que havia alguma coisa estranha naquele momento.

Diane estava irritada.

Era evidente.

Mas não parecia querer sair.

E Marianne, que deveria pedir licença e deixá-la sozinha, também não se moveu.

Diane olhou novamente para o piano.

— O que estava tocando?

Marianne demorou um segundo.

— Debussy.

— Eu sei.

Marianne ergueu discretamente uma sobrancelha.

Diane olhou para ela.

— Perguntei para saber se você sabia.

Dessa vez Marianne sorriu.

Pouco.

— Imagino que tenha passado no teste.

Diane observou aquele sorriso.

Demorou um segundo a mais do que deveria.

Então desviou os olhos.

— Não havia teste.

— Claro.

Diane voltou a encará-la.

— Não faça isso novamente.

O sorriso desapareceu do rosto de Marianne.

— Não farei.

Diane examinou-a como se procurasse alguma ironia.

Não encontrou.

Marianne parecia sincera.

Isso a incomodou de maneira inesperada.

Era mais fácil lidar com pessoas que insistiam.

Mais fácil afastá-las.

— Há outro piano — disse Diane.

Marianne franziu a testa.

Diane percebeu que havia falado sem planejar.

— Onde?

Diane permaneceu em silêncio.

Pensou na casa do lago.

No instrumento coberto.

Na fotografia.

Em Eleanor.

— Não importa.

Marianne não insistiu.

Esse foi o segundo detalhe que Diane percebeu.

O primeiro havia sido a maneira como ela tocava.

Diane virou-se.

Caminhou até a porta.

Parou.

Marianne aguardou.

Sem olhar para trás, Diane disse:

— Senhorita Lieberman.

— Sim?

— A música estava bonita.

Marianne ficou imóvel.

Diane continuou:

— O piano continua proibido.

Marianne permitiu que um sorriso muito pequeno surgisse.

— Compreendido.

Diane abriu a porta.

Antes de sair, olhou para Marianne sobre o ombro.

Os olhos das duas se encontraram novamente.

Dessa vez por menos tempo.

Mas havia alguma coisa diferente.

Não menos distante.

Talvez mais consciente.

Diane saiu.

Seus passos desapareceram pelo corredor.

Marianne continuou de pé ao lado do piano.

Olhou para a porta vazia.

Depois para as teclas escondidas sob a tampa.

Margaret Rivers tinha razão.

A filha realmente possuía uma maneira peculiar de olhar para alguém.

Mas estava errada em outra coisa.

Marianne não sentira vontade de ir embora.

Esse era precisamente o problema.

---

Diane atravessou o corredor.

Não sabia para onde ia.

Isso era incomum.

Diane quase sempre sabia exatamente para onde estava indo, mesmo quando não tinha motivo algum para chegar.

Desceu três degraus.

Parou.

Voltou.

Depois mudou novamente de direção.

Uma empregada carregando toalhas quase esbarrou nela.

— Senhorita Rivers!

Diane afastou-se.

— Desculpe.

A mulher pareceu surpresa.

Diane Rivers raramente pedia desculpas por estar no caminho dentro da própria casa.

Ela continuou andando.

A música ainda permanecia em sua cabeça.

Não deveria.

Havia ouvido Clair de Lune centenas de vezes.

Tocara aquela peça.

Eleanor tocara aquela peça.

Mas agora, quando tentava lembrá-la, não via Eleanor.

Via uma mulher desconhecida sentada diante do piano.

Olhos fechados.

Mãos elegantes.

Luz sobre o rosto.

Diane apertou a mandíbula.

Ridículo.

Chegou à porta que levava ao jardim.

Saiu.

O ar frio tocou seu rosto.

Só então percebeu que respirava rápido demais.

Caminhou em direção ao lago.

Não correu.

Dessa vez, fez questão disso.

Ao chegar à pequena casa, entrou e fechou a porta.

O livro continuava no chão.

Diane abaixou-se.

Pegou-o.

Sentou-se.

Abriu na mesma página.

Leu uma linha.

Depois outra.

Não compreendeu nenhuma.

Fechou o livro.

Ficou olhando pela janela.

— Marianne Lieberman.

Pronunciou o nome em voz baixa.

Não gostou do modo como soou naquele lugar.

Como se a casa tivesse escutado.

Virou-se.

No fundo do cômodo, o tecido bege ainda cobria o velho piano.

Diane permaneceu olhando.

Durante muito tempo.

Então se levantou.

Deu três passos em direção a ele.

Parou.

A mão chegou a tocar o tecido.

Não puxou.

Do lado de fora, a noite começava a cobrir o lago.

Diane pensou na última coisa que havia visto antes de sair daquela sala.

Os olhos de Marianne.

Não eram submissos.

Também não eram desafiadores.

Marianne havia recebido sua ordem sem baixar os olhos.

Isso incomodava Diane.

Pessoas costumavam fazer uma das duas coisas diante dela.

Recuavam.

Ou tentavam enfrentá-la.

Marianne não fizera nenhuma.

Apenas permanecera.

Diane retirou a mão do tecido.

— Três meses.

Disse para ninguém.

Três meses eram longos.

Longos o bastante para alguém perturbar os hábitos de uma casa.

Longos o bastante para cometer erros.

Longos o bastante para aprender coisas que seria melhor não saber.

Diane voltou à janela.

Do outro lado do lago, algumas luzes da mansão começavam a acender.

Em algum ponto daquela casa, Marianne Lieberman agora caminhava por corredores que até aquela manhã não sabiam que ela existia.

Diane observou as janelas.

Uma delas se iluminou no segundo andar.

Provavelmente o quarto de hóspedes.

Diane permaneceu ali.

Olhando.

Até perceber o que estava fazendo.

Então fechou a cortina.

Mas, naquela noite, pela primeira vez em muitos anos, não foi a irmã que apareceu em seus pensamentos antes de dormir.

Foi uma desconhecida de olhos fechados diante de um piano que ninguém deveria tocar.

E Diane odiou perceber que ainda conseguia ouvir a música.

# Capítulo 3 — O Lago ao Amanhecer

Marianne acordou antes do relógio.

Por alguns segundos, permaneceu deitada sem compreender exatamente onde estava.

O teto era alto demais.

As cortinas não eram as suas.

E o som que atravessava a janela entreaberta não pertencia a Florença.

Havia pássaros.

Folhas.

Água distante.

Então lembrou.

Nova York.

A propriedade Rivers.

Diane.

O pensamento surgiu rápido demais.

Marianne abriu os olhos completamente.

A luz da manhã entrava pelas cortinas numa faixa fina e clara, cortando o quarto em duas partes. Uma brisa suave movia o tecido e fazia o ar carregar o cheiro úmido das árvores.

Ela permaneceu alguns instantes imóvel, escutando.

Gostava das primeiras horas do dia.

Eram uma espécie de intervalo.

Antes das perguntas.

Antes das pessoas.

Antes de tudo começar a exigir alguma coisa.

Marianne afastou os lençóis.

O piso estava frio sob os pés.

Foi até a janela.

A manhã ainda se formava sobre os jardins.

Uma leve névoa permanecia baixa sobre o terreno e, entre as árvores, podia-se enxergar parte do lago. A água parecia imóvel.

Quase cinza.

Quase prata.

Marianne apoiou uma mão no parapeito.

Era bonito.

Mais bonito do que esperava.

Talvez por isso a casa parecesse ainda mais estranha.

Lugar demais para tanto silêncio.

Ela respirou fundo.

Depois fechou a janela.

Vestiu uma saia escura e uma blusa simples, prendeu os cabelos e saiu do quarto.

O corredor estava vazio.

A casa parecia diferente pela manhã.

Menos solene.

Talvez fosse a luz.

Talvez fosse o fato de Margaret ainda não estar ali.

Marianne desceu os degraus em silêncio.

Quando chegou ao primeiro andar, ouviu sons vindos de um corredor lateral.

Louça.

Água.

Talheres.

Seguiu o ruído.

A cozinha era muito maior do que imaginava.

Não tinha a formalidade do restante da casa.

Havia panelas penduradas, uma mesa central de madeira, potes de vidro, cestos com frutas e uma janela ampla voltada para os fundos da propriedade.

Uma das empregadas estava diante do fogão.

Marianne a reconheceu vagamente da chegada.

Era jovem.

Talvez vinte e poucos anos.

Cabelos castanhos presos sob um lenço claro.

Ela estava preparando uma bandeja com um bule de porcelana, duas torradas pequenas e uma xícara.

Marianne parou à porta.

— Bom dia.

A empregada virou-se rapidamente.

— Senhorita Lieberman.

Marianne percebeu o pequeno susto.

— Desculpe. Não pretendia assustá-la.

— Não, imagina.

A jovem enxugou as mãos no avental.

— Achei que ainda estivesse dormindo.

Marianne olhou para a janela.

— Seria um desperdício.

A empregada acompanhou seu olhar.

Marianne entrou.

— Que manhã bonita.

A jovem sorriu.

— É mesmo.

Depois voltou ao bule.

— As manhãs aqui são quase sempre assim.

— Quase sempre?

— No inverno é diferente. Mais silencioso.

Marianne ergueu uma sobrancelha.

— Ainda mais?

A jovem soltou uma risada pequena.

— A senhora já percebeu.

— É difícil não perceber.

A empregada colocou água quente no bule.

Marianne observou.

— Chá?

— Para a senhorita Rivers.

Marianne desviou os olhos para a bandeja.

— Ela toma todos os dias?

— Todos.

— No mesmo horário?

— Quase sempre.

Marianne aproximou-se da mesa.

— E sempre aqui?

— Não.

A empregada olhou rapidamente para ela.

— Geralmente levamos até a casa do lago.

Marianne ficou em silêncio por um instante.

— Ela dorme lá?

— Às vezes.

— E hoje?

— Acho que sim.

Marianne acompanhou os movimentos da jovem.

— Qual é seu nome?

Ela pareceu surpresa.

— Anna.

— Marianne.

Anna sorriu.

— Eu sei.

Marianne assentiu.

— Imaginei.

Anna terminou de arrumar a bandeja.

Marianne apontou para uma cesta.

— Posso?

— Claro.

Pegou um pão pequeno.

Depois encontrou outra xícara.

— E o chá?

Anna imediatamente se aproximou.

— Eu preparo para a senhora.

— Não precisa.

Marianne olhou para o bule.

— Suponho que não seja propriedade exclusiva de Diane.

Anna soltou uma risada involuntária.

— Não.

— Ótimo. Seria uma casa com regras demais.

Anna serviu outra xícara.

— A senhorita Rivers não tem tantas regras assim.

Marianne olhou para ela.

— Ontem descobri uma sobre o piano.

O sorriso da empregada desapareceu discretamente.

Marianne percebeu.

— Todos sabem?

Anna mexeu nas xícaras.

— Sobre o piano?

— Sim.

— Sabemos.

— E ninguém pensou em me avisar?

A jovem ficou desconfortável.

— Não imaginei que a senhora fosse entrar naquela sala.

Marianne levou a xícara à boca.

— Nem eu.

Anna ficou alguns segundos em silêncio.

Depois perguntou:

— Ela ficou muito brava?

Marianne pensou.

Lembrou dos olhos escuros.

Da ordem firme.

Da palavra irmã pronunciada de maneira diferente.

— Não sei.

Anna pareceu surpresa.

— A senhora não sabe?

— Ainda estou aprendendo como ela demonstra isso.

A jovem sorriu.

— Normalmente não demonstra.

Marianne encostou-se à mesa.

— Isso explica bastante.

Anna pegou a bandeja.

Antes de sair, Marianne perguntou:

— Ela sempre foi assim?

Anna parou.

— Assim como?

Marianne pensou antes de responder.

— Distante.

Anna olhou para o corredor.

— Não sei.

— Há quanto tempo trabalha aqui?

— Cinco anos.

Marianne compreendeu.

Depois de Eleanor.

— Então nunca a conheceu antes.

Anna não perguntou como Marianne sabia.

Apenas assentiu.

— Martha diz que ela era diferente.

— Quanto?

— Não sei.

Anna segurou a bandeja com as duas mãos.

— Acho que falava mais.

Marianne quase sorriu.

— Difícil imaginar.

Anna riu.

Depois ficou séria.

— Ela é uma boa pessoa.

Marianne olhou para ela.

— Não disse que não era.

— Eu sei.

Anna hesitou.

— Mas as pessoas às vezes acham.

— Porque ela não conversa?

— Porque parece que não quer ninguém perto.

Marianne baixou os olhos para o chá.

— Talvez ela realmente não queira.

— Talvez.

Anna olhou na direção da janela.

— Mas ela sempre percebe quando alguém está triste.

Marianne ergueu os olhos.

Anna continuou:

— Uma vez meu pai ficou doente. Eu não contei para ninguém. A senhorita Rivers percebeu porque eu derrubei uma bandeja.

— Isso não parece muito difícil de perceber.

— Eu derrubava coisas antes.

Marianne sorriu.

— Entendo.

— No dia seguinte, ela pagou o médico.

— Sem perguntar?

— Sem falar nada.

Anna passou a mão no avental.

— Eu só descobri porque o médico comentou.

Marianne ficou pensativa.

— Interessante.

— Ela é assim.

— Como?

Anna sorriu de leve.

— Finge que não se importa.

Marianne desviou os olhos para a janela.

— Algumas pessoas fazem isso muito bem.

Anna não respondeu.

Talvez tivesse entendido mais do que Marianne pretendia dizer.

— Preciso levar isso antes que esfrie.

Marianne assentiu.

— Claro.

Anna saiu.

Marianne permaneceu na cozinha.

Pegou o pão.

Partiu ao meio.

Tomou mais um gole do chá.

Era forte.

Bom.

Ela levou a xícara até a janela.

A vista dos fundos era ainda mais bonita do que a do quarto.

Os jardins terminavam numa descida suave.

Além deles, o lago ocupava boa parte da paisagem.

A névoa desaparecia lentamente.

Na margem, cercada por árvores, estava a pequena casa.

A casa do lago.

Marianne a observou.

Não parecia particularmente grandiosa.

Na verdade, era quase modesta diante da residência principal.

Madeira clara.

Varanda pequena.

Telhado inclinado.

Duas janelas voltadas para a água.

Marianne tomou outro gole.

— Por que você passa tanto tempo lá?

Perguntou em voz baixa.

Não esperava resposta.

— Porque ninguém costuma fazer perguntas de manhã.

Marianne quase deixou a xícara escapar.

Virou-se rapidamente.

Diane estava parada atrás dela.

Não fazia ideia de havia quanto tempo.

Usava calças escuras e uma camisa branca com as mangas dobradas até os antebraços.

Os cabelos estavam soltos.

Mais desarrumados do que no dia anterior.

Havia algo diferente nela pela manhã.

Menos construído.

Menos protegido.

Diane segurava a bandeja que Anna acabara de levar.

A xícara ainda estava cheia.

Marianne levou alguns segundos para reorganizar a expressão.

Diane percebeu.

— Assustei você.

Não era uma pergunta.

— Um pouco.

Diane colocou a bandeja sobre a mesa.

— Você não parece alguém que se assusta facilmente.

Marianne olhou para ela.

— Você não parece alguém que entra numa cozinha sem fazer barulho.

— Minha casa.

Marianne ergueu a xícara.

— Esse argumento é popular na sua família.

Diane ficou imóvel.

Depois, muito discretamente, um canto da boca se moveu.

Quase nada.

Marianne percebeu.

Diane caminhou até a janela.

Parou ao lado dela.

Não perto demais.

Também não longe.

As duas olharam para o lago.

— Gostou?

Marianne virou o rosto.

Diane ainda observava a paisagem.

— Da propriedade?

— Da casa.

Marianne seguiu o olhar dela.

A casa do lago.

— Achei muito bonita.

Diane finalmente olhou para Marianne.

Seus olhos se encontraram.

Foi rápido.

Ainda assim, alguma coisa naquela cozinha pareceu ficar mais quieta.

Marianne colocou a xícara sobre o parapeito.

— Tem uma aparência diferente do restante da propriedade.

Diane inclinou levemente a cabeça.

— Diferente como?

Marianne voltou a olhar para fora.

— Parece habitada.

Diane ficou em silêncio.

Marianne percebeu tarde demais que talvez aquela frase tivesse tocado alguma coisa.

— A casa principal também é habitada — disse Diane.

— Não foi isso que quis dizer.

— Eu sei.

Marianne olhou novamente para ela.

Diane mantinha os olhos sobre o lago.

— O restante da propriedade parece preservado — continuou Marianne. — Aquela casa parece usada.

— Isso deveria ser um elogio?

— É.

Diane permaneceu alguns segundos em silêncio.

— Então obrigada.

Marianne observou o perfil dela.

— Você passa muito tempo lá.

— Parece que já fez perguntas sobre mim.

Marianne não negou.

— Fiz algumas.

Diane a encarou.

— E conseguiu respostas?

— Algumas.

— Anna fala demais.

Marianne sorriu.

— Você percebe tudo?

Diane apoiou uma mão na borda da janela.

— Tudo, não.

— Só o que interessa?

— Não necessariamente.

Marianne esperou.

Diane olhou para ela.

— Às vezes o que menos interessa é o que mais revela.

Marianne sustentou aquele olhar.

— Isso parece cansativo.

— É.

Nenhuma das duas desviou imediatamente.

Diane foi a primeira.

Olhou para a casa do lago.

Depois caminhou em direção à porta dos fundos.

Marianne acompanhou com os olhos.

— Vai para lá?

Diane parou.

Não se virou completamente.

Apenas o suficiente para olhar por cima do ombro.

A postura era tranquila.

Segura.

O rosto praticamente impassível.

— Vou.

Marianne olhou outra vez para a construção.

— Realmente é bonita.

Diane manteve os olhos nela.

A resposta veio com uma segurança quase íntima.

— Ela é.

Havia alguma coisa na maneira como disse aquilo.

Não orgulho.

Afeto.

Marianne percebeu.

Diane abriu a porta.

A brisa entrou na cozinha.

Antes de sair, Diane voltou a olhar para ela.

Por uma fração de segundo.

Depois caminhou pelo jardim.

Marianne permaneceu parada.

Observando.

Viu Diane atravessar a grama.

Descer em direção ao lago.

O vento movimentou seus cabelos.

Não havia pressa nos passos.

Marianne tomou a xícara novamente.

O chá já começava a esfriar.

Ela bebeu mesmo assim.

---

Diane não deveria ter ido à cozinha.

Tinha voltado à casa principal apenas porque Anna esquecera o açúcar.

Essa foi a justificativa que encontrou.

Ainda que nunca usasse açúcar no chá.

Percebeu isso quando já estava do lado de fora.

Continuou andando.

Não olhou para trás.

Não precisava.

Sabia que Marianne provavelmente ainda estava diante da janela.

O pensamento a incomodou.

Ou talvez fosse o fato de saber exatamente como Marianne segurava a xícara.

As duas mãos quando estava distraída.

Uma só quando conversava.

Diane franziu levemente a testa.

Não precisava saber aquilo.

Ainda assim, sabia.

Quando chegou à casa do lago, deixou a porta aberta.

Entrou.

Colocou a bandeja sobre a pequena mesa.

Sentou-se perto da janela.

Não tocou no chá.

Ficou olhando a mansão ao longe.

A cozinha não era visível daquele ângulo.

Isso a desagradou de uma maneira inexplicável.

Diane voltou os olhos para o livro que deixara aberto.

Leu duas páginas.

Depois fechou.

— Irritante.

Disse para o quarto vazio.

Não estava claro a quem se referia.

---

Pouco depois das nove, Marianne decidiu caminhar pela parte da frente da propriedade.

Precisava organizar as ideias.

Margaret havia dito que chegaria naquele dia.

Marianne queria conversar com ela antes de qualquer tentativa formal de trabalho com Diane.

E havia coisas demais para esclarecer.

O encontro no piano.

A maneira como Diane havia falado da irmã.

A casa do lago.

A impressão cada vez mais forte de que o piano era apenas a superfície do problema.

Marianne desceu os degraus da entrada.

O ar estava mais quente agora.

A névoa havia desaparecido.

Um carro se aproximava pela estrada principal.

Marianne parou.

Reconheceu Margaret antes mesmo de o automóvel estacionar.

A porta abriu.

Margaret Rivers saiu.

Vestia um casaco claro, luvas e um chapéu discreto. Parecia tão impecável depois de uma viagem quanto Marianne normalmente parecia antes dela.

Um funcionário caminhou em direção às malas.

Marianne aproximou-se.

— Senhora Rivers.

Margaret virou-se.

Um sorriso surgiu.

— Senhorita Lieberman.

Marianne estendeu a mão.

Margaret apertou-a.

— Bem-vinda oficialmente.

— Obrigada.

Marianne olhou para as malas.

— Posso ajudar.

Margaret soltou uma pequena risada.

— Senhorita Lieberman, tenho quase certeza de que não atravessei metade do mundo para contratá-la como carregadora.

— Imagino que não.

Marianne pegou uma das bolsas menores mesmo assim.

Margaret observou.

— Vejo que pedir não adiantará.

— Geralmente não.

As duas caminharam em direção à casa.

— Tudo correu bem? — perguntou Margaret.

Marianne olhou para ela.

— A viagem?

— A chegada.

Marianne demorou um segundo.

— Sim.

Margaret percebeu.

— Essa pausa não me tranquiliza.

— Cheguei. Fui bem recebida. Conheci a casa. Meu quarto é confortável.

— E Diane?

Marianne manteve os olhos à frente.

— Conheci sua filha.

Margaret diminuiu levemente o passo.

— Já?

— Ontem.

— Como?

Marianne olhou para ela.

— Toquei o piano.

Margaret parou.

Marianne também.

Por alguns segundos, Margaret não disse nada.

— Você fez o quê?

Marianne não desviou o olhar.

— Toquei o piano da sala oeste.

Margaret respirou fundo.

— Ninguém avisou?

— Não.

— Marianne...

Era a primeira vez que usava apenas o primeiro nome.

— Imagino que tenha sido um erro.

— Foi.

Marianne respondeu com naturalidade.

Margaret olhou para a casa.

— Ela ficou furiosa?

— Não.

— Tem certeza?

Marianne ergueu uma sobrancelha.

— Não.

Margaret quase riu.

— Essa resposta é preocupante.

— Estou começando a compreender que sua filha possui um vocabulário emocional particular.

— Isso é uma maneira gentil de dizer.

— Não foi intenção ser gentil.

Margaret soltou uma respiração divertida.

Retomaram a caminhada.

— O que Diane disse?

Marianne pensou.

— Que ninguém toca naquele piano além dela e da irmã.

Margaret parou novamente.

Dessa vez, o rosto mudou completamente.

Marianne percebeu.

— Ela mencionou Eleanor?

— Sim.

— Pelo nome?

— Não.

Margaret desviou os olhos.

— Diane quase nunca fala dela.

— Talvez não precise.

Margaret virou-se.

— O que quer dizer?

Marianne olhou para as janelas da casa.

— A presença de Eleanor está em todo lugar.

Margaret ficou imóvel.

— Você chegou ontem.

— Não é uma observação difícil.

— Talvez para você.

Marianne aproximou-se dos degraus.

— Há fotografias nos corredores. Um piano fechado. Uma casa inteira que sabe que não deve falar sobre uma pessoa. Empregados que mudam de expressão quando alguém menciona música.

Margaret permaneceu atrás dela.

— E Diane?

Marianne olhou por cima do ombro.

— Diane muda quando menciona a irmã.

Margaret subiu os degraus lentamente.

— Como?

— Não sei ainda.

— Mas percebeu.

— Sim.

Margaret entrou no hall.

Um funcionário levou as malas.

As duas caminharam até uma pequena sala de estar.

Margaret retirou as luvas.

— Sente-se.

Marianne sentou-se numa poltrona.

Margaret ficou diante da janela.

— Quero perguntar uma coisa.

— Pergunte.

— Acha que ela pode voltar a tocar?

Marianne manteve os olhos nela.

— Essa ainda é sua primeira pergunta?

Margaret virou-se.

— Por quê?

— Depois de tudo que conversamos ao telefone, achei que pudesse ter mudado.

— Não entendo.

Marianne apoiou as mãos sobre os joelhos.

— Talvez devesse perguntar se sua filha quer voltar a viver antes de perguntar se quer voltar a tocar.

Margaret endureceu.

— Diane não está doente.

— Não disse que está.

— Ela não é frágil.

— Também não disse isso.

— Então o que está dizendo?

Marianne manteve o tom tranquilo.

— Que existe uma diferença entre estar vivo e participar da própria vida.

Margaret ficou em silêncio.

Marianne continuou:

— Sua filha tem trinta e dois anos.

— Eu sei a idade dela.

— Mora numa propriedade quase isolada. Passa grande parte do tempo sozinha. Não toca. Não viaja. Pelo que entendi, quase não recebe visitas.

— Ela escolheu isso.

Marianne inclinou levemente a cabeça.

— Escolheu?

Margaret olhou para ela.

— Está me acusando de alguma coisa?

— Ainda não a conheço o suficiente para acusar.

— Outra vez essa frase.

— É útil.

Margaret caminhou até um pequeno bar.

Serviu água.

— Diane sempre foi reservada.

— Antes de Eleanor?

A mão de Margaret parou sobre a garrafa.

Marianne observou.

— Martha contou?

— Não precisei perguntar muito.

Margaret colocou a garrafa de volta.

— Diane era diferente.

— Quanto?

Margaret permaneceu olhando para o copo.

— Ria mais.

Marianne ficou em silêncio.

— Tinha amigos — continuou Margaret. — Pessoas que vinham até aqui. Homens interessados nela.

Marianne não reagiu.

— Ela recusou todos.

— Isso é relevante?

Margaret olhou para Marianne.

— Estou tentando explicar.

— Entendo.

Marianne percebeu que Margaret esperava alguma reação à informação.

Não ofereceu.

— Ela viajava para apresentações — disse Margaret. — Conhecia pessoas. Tinha planos.

— E depois?

Margaret bebeu a água.

— Depois não tinha.

— Eleanor adoeceu quando?

— Dois anos antes de morrer.

— Diane continuou tocando durante esse período?

Margaret apertou o copo.

— Sim.

— Por vontade própria?

Silêncio.

Marianne compreendeu.

— Senhora Rivers.

Margaret desviou os olhos.

— Eleanor adorava ouvir Diane.

— Não foi o que perguntei.

— Eu sei.

— Diane continuou porque a irmã pediu?

— Às vezes.

— E outras vezes?

Margaret finalmente olhou para Marianne.

— Porque eu pedi.

Marianne não respondeu.

A expressão da mulher parecia menos controlada agora.

— Eu estava perdendo uma filha.

— E tentou manter a outra ocupada.

— Eu não sabia o que fazer.

— A maioria das pessoas não sabe.

Margaret sentou-se.

Pela primeira vez desde que Marianne a conhecera, parecia cansada.

— Quando Eleanor morreu, Diane não tocou por semanas.

Marianne esperou.

— Então um dia sentou-se ao piano.

Margaret baixou os olhos.

— Tocou uma peça que Eleanor amava.

— E?

Margaret demorou.

— Eu chorei.

Marianne permaneceu em silêncio.

— Depois disse que parecia que Eleanor ainda estava ali.

Marianne fechou os olhos por um instante.

Quando os abriu, Margaret a observava.

— Foi depois disso?

— Pouco a pouco.

— Ela parou.

Margaret assentiu.

— Sim.

Marianne inclinou-se levemente para frente.

— Talvez sua filha não tenha abandonado a música.

Margaret franziu o cenho.

— Como assim?

— Talvez tenha abandonado o papel que deram à música.

Margaret não respondeu.

Marianne continuou:

— Se toda vez que ela tocava alguém via a irmã, onde Diane ficava?

A pergunta pairou na sala.

Margaret desviou os olhos.

— Eu nunca quis apagar minha filha.

— Eu sei.

— Não sabe.

— Sei porque não estaria aqui se acreditasse nisso.

Margaret olhou novamente para ela.

Marianne suavizou o tom.

— Pessoas ferem umas às outras tentando impedir que algo se perca.

Margaret apertou os dedos sobre o copo.

— E agora?

— Agora não faremos nada.

— Nada?

— Por alguns dias.

Margaret parecia incrédula.

— Eu a trouxe da Itália para não fazer nada?

— Exatamente.

— Marianne—

— Diane já teve quatro professores.

— Sim.

— Todos chegaram tentando fazê-la tocar.

— Era o trabalho deles.

— E todos falharam.

Margaret ficou em silêncio.

Marianne se recostou.

— Eu não pretendo ser a quinta.

— Então o que pretende?

— Conhecê-la.

— Diane não vai facilitar.

— Não pedi facilidade.

Margaret a estudou.

— E se ela simplesmente não falar com você?

Marianne pensou na cozinha.

No lago.

Na maneira como Diane havia olhado por cima do ombro.

— Ela fala.

— Quando quer.

— Todos falam.

Margaret ergueu uma sobrancelha.

— Isso soa excessivamente confiante.

— Não quis dizer com palavras.

Margaret permaneceu quieta.

Marianne continuou:

— Sua filha diz muito quando olha.

Margaret soltou uma pequena risada sem alegria.

— Percebeu rápido.

— É difícil não perceber.

— E o que ela disse ontem?

Marianne pensou no primeiro olhar.

No piano.

Na maneira como Diane havia dito “minha irmã”.

Depois naquela manhã.

A casa do lago.

“Ela é.”

— Ainda estou ouvindo.

Margaret observou-a longamente.

— Talvez você realmente seja a pessoa certa.

Marianne não sorriu.

— Não tenha tanta certeza.

— Por quê?

Marianne desviou os olhos para a janela.

Ao longe, podia ver parte do lago.

— Porque pessoas não são partituras, senhora Rivers.

— Isso deveria me tranquilizar?

— Não.

Marianne voltou os olhos para ela.

— Partituras são muito mais fáceis.

---

O almoço foi servido pouco depois do meio-dia.

Diane não apareceu.

Margaret percebeu imediatamente.

— Onde está minha filha?

Martha permaneceu junto à porta.

— Na casa do lago.

— Avise que estou aqui.

— Ela sabe.

Margaret fechou os olhos por um instante.

Marianne continuou cortando a comida.

— Não vai buscá-la?

Margaret olhou.

— Se eu for, ela ficará lá por mais tempo.

Marianne assentiu.

— Inteligente.

— Está elogiando Diane ou a mim?

— Ainda estou decidindo.

Margaret quase sorriu.

Durante alguns minutos, comeram em silêncio.

A mesa era grande demais para duas pessoas.

Marianne percebeu uma terceira cadeira vazia na extremidade.

Perguntou-se se costumava ser de Diane.

Não perguntou.

— Marianne.

— Sim?

Margaret segurava o garfo, mas não comia.

— Ontem, quando tocou o piano...

Marianne aguardou.

— O que tocou?

— Debussy.

Os olhos de Margaret mudaram.

— Clair de Lune?

— Sim.

Margaret soltou o talher.

Marianne percebeu.

— O quê?

— Era uma das peças de Eleanor.

Marianne ficou imóvel.

— Eu não sabia.

— Eu sei.

— Diane também tocava?

— Às vezes.

Marianne pensou no modo como Diane havia corrido até a sala.

Agora compreendia melhor.

— Talvez eu tenha feito mais estrago do que imaginava.

Margaret balançou a cabeça.

— Ela ficou lá?

— Onde?

— Enquanto tocava.

Marianne pensou.

— Não sei por quanto tempo.

— Mas ouviu.

— Sim.

Margaret ficou alguns segundos olhando para o prato.

— Há anos Diane sai da sala quando alguém toca.

Marianne ergueu os olhos.

— Ela não saiu.

— Não?

— Não.

Marianne lembrou da figura imóvel junto à porta.

— Ficou até eu parar.

Margaret olhou para ela.

E pela primeira vez naquele dia, algo parecido com esperança apareceu.

Marianne percebeu imediatamente.

— Não faça isso.

Margaret franziu o cenho.

— O quê?

— Transformar cada pequena coisa numa promessa.

— Não estou.

— Está.

Margaret desviou os olhos.

Marianne continuou:

— Se Diane percebe que você está esperando alguma coisa dela, vai se afastar.

— Conhece minha filha há menos de um dia.

— E mesmo assim isso parece evidente.

Margaret respirou fundo.

— É difícil não esperar.

Marianne olhou para a cadeira vazia.

— Talvez seja justamente isso que ela precise de você.

— O quê?

— Que pare de esperar.

Margaret não respondeu.

---

No começo da tarde, Diane finalmente voltou à casa principal.

Entrou pela porta lateral.

Não sabia que Margaret estava na sala de estar.

Ou talvez soubesse.

Marianne estava na biblioteca com um livro aberto quando ouviu vozes.

— Diane.

A voz de Margaret.

Marianne não pretendia ouvir.

Mas a porta estava entreaberta.

— Mãe.

Diane.

Fria.

Controlada.

— Não vai me abraçar?

Silêncio.

Marianne ergueu os olhos do livro.

— Você esteve fora por quatro dias.

— Isso não responde.

— Então provavelmente não.

Marianne reprimiu um sorriso.

Margaret soltou um suspiro.

— Conheceu Marianne.

— Sim.

— E?

— Ela toca bem.

Marianne congelou.

Margaret pareceu igualmente surpresa.

— Isso é tudo?

— O que mais deveria ser?

— Ela ficará três meses.

— Estou ciente.

— Quero que trate a situação com maturidade.

Silêncio.

Marianne quase conseguia imaginar o olhar de Diane.

— Interessante.

— O quê?

— Você contratar alguém sem me consultar e depois pedir maturidade.

Margaret respirou fundo.

— Diane—

— Estou sendo extremamente madura. Ainda não pedi que ela vá embora.

Marianne inclinou a cabeça.

Aquilo poderia ser considerado progresso.

— Não vai pedir.

— Não?

— Não.

Diane ficou em silêncio.

Então:

— Marianne parece capaz de decidir sozinha quando deve ir.

Marianne baixou os olhos para o livro.

A frase era curiosa.

Não hostil.

Quase respeitosa.

Margaret respondeu:

— Ela também não pretende ir.

— Veremos.

Os passos de Diane se aproximaram.

Marianne voltou rapidamente os olhos para a página.

A porta da biblioteca abriu.

Diane entrou.

Parou ao vê-la.

Marianne ergueu o rosto.

Os olhos das duas se encontraram.

Diane imediatamente percebeu que ela ouvira.

Marianne percebeu que Diane percebeu.

Nenhuma disse nada.

Então Diane caminhou até uma estante.

Retirou um livro.

— Boa tarde.

— Boa tarde.

Diane folheou algumas páginas sem realmente ler.

— Minha mãe já a interrogou?

Marianne fechou o próprio livro.

— Conversamos.

— É o modo educado de dizer sim.

— Ela se preocupa.

Diane soltou um som curto.

Não exatamente riso.

— Você a conhece há menos tempo do que me conhece.

— Ainda assim, isso é evidente.

Diane olhou para ela.

— E o que mais é evidente?

Marianne pensou.

— Que você não gosta quando as pessoas acreditam que entenderam você rápido demais.

Diane ficou imóvel.

Depois fechou o livro.

— Está aprendendo.

Marianne sorriu.

— Pensei que eu fosse a professora.

Diane sustentou seu olhar.

— Aqui?

Marianne percebeu o desafio.

Não agressivo.

Curioso.

— Ainda veremos.

Diane baixou os olhos para o livro.

— Está confiante.

— É diferente de certeza.

— Pessoas confundem.

— Você não.

Diane olhou novamente para ela.

Marianne imediatamente soube que havia dito alguma coisa importante.

Não sabia exatamente o quê.

O rosto de Diane não mudou.

Mas o silêncio sim.

— Não — respondeu Diane. — Eu não.

Marianne sustentou o olhar.

Por alguns segundos, havia apenas a biblioteca.

A luz da tarde.

Poeira flutuando junto à janela.

E duas mulheres tentando compreender uma conversa que ainda não tinha palavras suficientes.

Diane desviou primeiro.

Caminhou em direção à porta.

— Senhorita Lieberman.

— Sim?

Diane parou.

— Não entre na casa do lago.

Marianne não demonstrou surpresa.

— Não pretendia.

Diane olhou sobre o ombro.

— Ótimo.

Marianne inclinou levemente a cabeça.

— Mas isso faz parecer que há algo lá que você não quer que eu veja.

Diane permaneceu imóvel.

Depois, lentamente, seus olhos se estreitaram.

Não de raiva.

De interesse.

— Talvez eu só goste de ter uma porta que ninguém abre.

Marianne assentiu.

— Isso eu entendo.

Diane pareceu surpresa.

Muito pouco.

Mas Marianne viu.

— Entende?

— Sim.

— Então não vai perguntar por quê?

— Não.

Diane estudou seu rosto.

— Por quê?

Marianne sorriu.

— Isso foi uma pergunta.

Por um instante, Diane quase riu.

Dessa vez Marianne teve certeza.

Foi apenas um sopro pelo nariz.

Uma suavização súbita no olhar.

Depois desapareceu.

— Boa tarde, Marianne.

Foi a primeira vez.

Não senhorita Lieberman.

Marianne percebeu.

Diane também percebeu que ela percebeu.

E saiu antes que qualquer uma pudesse transformar aquilo em algo maior.

Marianne ficou olhando para a porta.

Depois abriu novamente o livro.

Não leu.

---

Margaret observava a filha da janela do segundo andar naquela noite.

Diane atravessava o jardim em direção à casa do lago.

Marianne surgiu alguns minutos depois no terraço.

Não seguiria.

Margaret percebeu.

A italiana apenas ficou ali, olhando a paisagem.

Diane chegou à margem.

Parou.

Por algum motivo, voltou o rosto.

Mesmo à distância, Margaret soube exatamente para onde olhava.

Para a casa.

Ou para alguém diante dela.

Marianne não se moveu.

As duas permaneceram separadas pelo jardim.

Não havia gesto.

Não havia palavra.

Depois Diane virou-se e continuou andando.

Margaret fechou a cortina.

Talvez Marianne realmente pudesse ajudá-la.

O pensamento trouxe alívio.

Mas, por alguma razão que ainda não conseguia explicar, trouxe também uma inquietação pequena.

Quase invisível.

---

Na casa do lago, Diane acendeu apenas uma luminária.

Sentou-se perto da janela.

Abriu um livro.

Ficou três minutos na mesma página.

Fechou.

Do outro lado da água, algumas janelas da mansão estavam acesas.

Diane reconhecia cada uma.

O quarto da mãe.

O corredor.

A sala de jantar.

Depois olhou para outra.

O quarto de hóspedes.

Luz.

Marianne estava acordada.

Diane ficou olhando por alguns segundos.

Então se irritou consigo mesma.

Levantou-se.

Fechou a cortina.

Ao virar, seus olhos encontraram o piano coberto.

Silêncio.

Diane caminhou até ele.

Parou diante do tecido.

Dessa vez, não apenas tocou.

Segurou uma extremidade.

Puxou.

O pano deslizou lentamente.

A madeira antiga apareceu.

Diane ficou imóvel.

Não se lembrava da última vez que havia descoberto completamente aquele instrumento.

Talvez anos.

Passou os dedos sobre a tampa.

Depois abriu.

As teclas estavam ali.

Algumas ligeiramente amareladas.

Uma pequena marca no dó central.

Eleanor fizera aquilo com um anel.

Diane sentou-se.

Não colocou as mãos nas teclas.

Apenas ficou ali.

Então fechou os olhos.

E ouviu, na memória, Marianne tocando.

A melodia voltou.

Mas não veio acompanhada da voz da mãe.

Nem de Eleanor.

Veio apenas como música.

Isso assustou Diane mais do que deveria.

Abriu os olhos.

Levantou-se.

Fechou o piano.

Mas não tornou a cobri-lo.

Do outro lado do lago, a luz do quarto de Marianne continuava acesa.

Diane ficou junto à janela.

Por alguns segundos, permitiu-se olhar.

Depois apagou a própria luz.

E ficou no escuro.