ZOONBOOK

Romance, drama, ficção Histórica

Os Harrison de Westbridge A natureza do desejo

Em produção · 17 capítulos lançados

Margareth e Harry Harrison construíram uma vida respeitável dentro de uma das universidades mais prestigiadas de Westbridge. Ela, uma escritora consagrada. Ele, um respeitado professor de História. A chegada de Bella Olive, uma jovem aluna inteligente e fascinante, começa a alterar silenciosamente o equilíbrio entre os dois. Entre livros, aulas, olhares e convenções sociais, sentimentos inesperados desafiarão aquilo que cada um acreditava saber sobre amor, desejo e escolha.

Capítulo 1

Aquilo que nos move

A primeira imagem que escolho de Harry Harrison não pertence ao começo desta história.

Na verdade, aconteceu bastante tempo depois.

Talvez seja estranho começar por ali, mas a memória não respeita a ordem dos acontecimentos. Aos oitenta anos, descobri que algumas lembranças se recusam a ocupar o lugar correto. Entram antes das outras. Interrompem. Exigem ser vistas.

E sempre que penso em Harry, antes de me lembrar de sua voz numa sala de aula, vejo fogo.

Ele estava sozinho diante dele.

Vestia um sobretudo escuro, as mãos enfiadas nos bolsos, enquanto uma pilha de jornais queimava no pátio de pedras próximo ao portão norte de Westbridge.

Não tentou apagá-los.

Também não foi embora.

Apenas observou.

As manchetes desapareciam uma após outra.

PROFESSOR DE WESTBRIDGE PUBLICA ESTUDO SOBRE O SUBMUNDO DO PRAZER.

Depois:

HARRISON DESAFIA OS LIMITES DA DECÊNCIA BRITÂNICA.

E outra:

PRAZER, DOR E DESEJO: ATÉ ONDE PODE IR A CIÊNCIA?

O motivo daquele escândalo estava num livro.

O livro de Harry.

Anos de pesquisa reunidos num volume que parecia, à primeira vista, apenas mais uma obra acadêmica encadernada em tecido escuro.

Chamava-se A Natureza do Prazer.

Foi provavelmente a obra mais discutida que Harry escreveu.

E certamente a mais odiada.

O que ele fizera, no entanto, não era defender perversões, como alguns jornais afirmaram, nem tentar destruir a moral inglesa, como escreveu um reverendo cujo nome há muito esqueci.

Harry fez uma pergunta.

Uma pergunta bastante simples.

O que dá prazer ao ser humano?

E então cometera o erro imperdoável de procurar respostas onde homens respeitáveis preferiam não olhar.

Estudara comida.

Música.

Poder.

Religião.

Medo.

Admiração.

Obediência.

Domínio.

Entrega.

Dor consentida.

Desejo.

Sexo.

O prazer de vencer.

O prazer de ser visto.

O prazer de desaparecer.

O prazer encontrado naquilo que uma sociedade aprova e naquele outro, muito mais silencioso, que as pessoas escondem atrás das portas de seus quartos.

Harry não dizia que todos os prazeres fossem bons.

Muito menos que fossem iguais.

Afirmava apenas que existiam.

E que uma coisa não deixa de existir porque uma sociedade se recusa a pronunciá-la.

Foi o bastante.

Westbridge convocou-o perante o conselho.

Havia jornais do lado de fora.

Alguns estudantes.

Alguns religiosos.

Alguns homens que provavelmente nunca haviam aberto o livro.

Sir Alistair Pembroke, então reitor da universidade, tinha uma cópia diante dele.

Harry sentava-se sozinho do outro lado da mesa.

Sete homens o observavam.

Ele não parecia nervoso.

Harry raramente parecia nervoso.

— Professor Harrison — começou Pembroke — considera apropriado que um homem de sua posição publique uma obra desse caráter?

Harry permaneceu alguns instantes em silêncio.

Era uma característica dele.

Quando uma pergunta importava, ele não se apressava.

— Depende do que o senhor considera o caráter da obra.

Pembroke fechou o livro.

— O senhor sabe exatamente ao que me refiro.

— Sei exatamente ao que os jornais estão se referindo. Não tenho certeza de que estejamos falando sobre a mesma coisa.

Um dos professores à mesa interveio:

— O senhor discute práticas sexuais.

— Discuto comportamento humano.

— Há diferença?

Harry olhou para ele.

— Uma diferença considerável.

O homem recostou-se.

— Explique.

— Sexo não deixa de ser comportamento humano simplesmente porque deixa certos homens desconfortáveis.

A resposta apareceu nos jornais no dia seguinte.

Não inteira.

Jornais raramente tinham paciência para respostas inteiras.

Outro professor abriu o livro em uma passagem previamente marcada.

— O senhor sugere que determinadas formas de dor podem produzir prazer.

— Não sugiro. Há registros que demonstram isso.

— E considera normal?

Harry franziu discretamente a testa.

— Não fui contratado para decidir o que é normal.

— É professor.

— Exatamente.

Então acrescentou:

— Meu trabalho é tentar compreender.

Houve silêncio.

— Compreender tudo? — perguntou alguém.

Harry voltou os olhos para ele.

— Tudo, não. Seria arrogância. Mas aquilo que influencia o comportamento humano merece pelo menos a tentativa.

Foi quando Sir Edward Mallory, velho historiador de Westbridge, fez a pergunta que Harry lembraria por muitos anos.

— Por que prazer, Harrison?

Harry olhou para ele.

— Perdão?

— O senhor é historiador. Poderia escrever sobre guerras, impérios, reis, revoluções. Assuntos respeitáveis. Por que dedicar tanto tempo ao prazer?

Dizem que Harry demorou quase meio minuto para responder.

Depois disse:

— Porque passamos séculos estudando aquilo pelo qual os homens estão dispostos a morrer.

Mallory esperou.

Harry concluiu:

— Pareceu-me razoável tentar compreender aquilo pelo qual desejam viver.

O conselho não o expulsou.

Mas o condenou publicamente por ultrapassar aquilo que chamaram de “limites prudentes da investigação acadêmica”.

Os jornais fizeram o resto.

Dois dias depois, queimaram exemplares de periódicos diante de Westbridge. Alguns afirmam que havia livros naquela pilha também.

Harry dizia que não.

— Livros eram caros demais — explicou-me certa vez.

Perguntei por que ele havia permanecido observando.

Ele não respondeu imediatamente.

Já era muito mais velho quando tivemos aquela conversa.

— Queria saber quanto tempo levaria.

— Para o fogo apagar?

— Não.

Ele me olhou.

— Para eles perceberem que estavam alimentando exatamente aquilo que desejavam destruir.

Foi assim que aquela fotografia surgiu.

Harry diante do fogo.

Os jornais queimando.

Westbridge atrás dele.

Um homem acusado de estudar aquilo que todos sentiam e poucos admitiam.

Mas tudo isso ainda estava distante.

Harry ainda não havia escrito aquelas páginas.

Nenhum conselho o havia interrogado.

Nenhum jornal havia estampado seu rosto.

Nenhuma fogueira havia sido acesa.

E, mais importante:

eu ainda não conhecia Harry Harrison.

Também não conhecia Margareth.

Ainda não sabia como ela segurava um livro quando discordava de alguma passagem.

Não sabia que jamais elevava a voz quando estava irritada.

Não conhecia a pequena contração que surgia entre suas sobrancelhas quando estava concentrada.

Não sabia o cheiro do gabinete dela.

Não sabia que um dia conseguiria reconhecer seus passos num corredor sem precisar olhar.

Naquele tempo, os Harrison não significavam absolutamente nada para mim.

E talvez seja exatamente por isso que preciso voltar até ali.

Antes dos jornais.

Antes do fogo.

Antes deles.

---

No início daquele outono de 1938, minha maior preocupação era chegar a Westbridge sem que William Evans dissesse que eu deveria ter saído de casa quinze minutos mais cedo.

Ele disse mesmo assim.

— Eu avisei.

Olhei para ele enquanto subíamos os degraus largos do edifício principal.

— Ainda temos sete minutos.

William retirou o relógio do bolso do colete.

— Seis.

— Continua sendo antes das dez.

— Chegar antes não significa chegar com tempo.

— Tenho a impressão de que essa frase significaria muito mais se você já fosse membro do Parlamento.

Ele guardou o relógio.

— Um dia serei.

William dizia aquilo sem arrogância.

Essa era precisamente a parte curiosa.

Ele acreditava.

Aos vinte e quatro anos, já havia organizado mentalmente quase toda a própria vida. Terminaria os estudos, estabeleceria relações adequadas, entraria para a política e, com alguma combinação de competência e insistência, acabaria em Westminster.

O futuro de William possuía linhas retas.

O meu não.

Eu tinha vinte e três anos.

Sabia que gostava de literatura.

Sabia que gostava de observar pessoas.

Sabia que fazia perguntas que frequentemente incomodavam minha mãe.

E sabia que William acreditava que, em algum momento não muito distante, nos casaríamos.

Naquele ano, isso me parecia perfeitamente possível.

Não extraordinário.

Não inevitável.

Apenas possível.

Westbridge estava coberta pelo início do outono.

As folhas acumulavam-se junto às paredes de pedra. As torres mais antigas desapareciam parcialmente sob uma névoa fina, e estudantes atravessavam os pátios carregando livros junto ao peito.

Havia algo intimidador naquela universidade.

Não pela grandeza.

Pela idade.

Westbridge fazia uma pessoa sentir que milhares haviam passado por aqueles mesmos corredores antes dela e que milhares continuariam passando quando seu nome já não significasse coisa alguma.

William gostava disso.

Eu ainda não sabia se gostava.

Entramos no edifício de Humanidades.

— Harrison hoje — disse William.

Eu o acompanhei pelo corredor.

— Quem?

Ele virou o rosto para mim.

— Professor Harrison.

— Deveria conhecê-lo?

William pareceu genuinamente surpreso.

— Harry Harrison.

Continuei olhando.

— Isso não ajudou.

— História social. Publicou aquele estudo sobre motins industriais há dois anos.

— Ah.

— “Ah”?

— Agora sei quem é.

— Você não sabe.

— William, às vezes as pessoas podem conhecer um nome sem terem decorado a bibliografia completa do homem.

— Ele é considerado brilhante.

— Isso significa que vou precisar gostar dele?

— Não.

William abriu a porta do anfiteatro.

— Mas significa que deveria ouvi-lo antes de decidir que não gosta.

Entramos.

Escolhi um lugar na quarta fileira.

Ainda me lembro disso.

Quarta fileira.

Terceira cadeira a partir do corredor.

Existem detalhes completamente inúteis que sobrevivem por uma vida inteira.

William sentou-se ao meu lado.

Retirei o caderno e a caneta da bolsa.

— Que matéria exatamente teremos com ele?

William abriu suas próprias anotações.

— História do comportamento social.

— Isso parece suficientemente vago para que ele possa falar sobre qualquer coisa.

— Talvez seja a intenção.

Outros estudantes entraram.

Conversas espalhavam-se pela sala.

Às dez horas em ponto, uma porta lateral se abriu.

O homem que entrou não se parecia em nada com aquele que décadas de memória transformariam para mim em Harry.

Ele era apenas um desconhecido.

Trinta e oito anos.

Alto.

Terno escuro sob um casaco de tweed.

Cabelos cuidadosamente penteados.

Carregava uma pasta de couro debaixo do braço e três livros na outra mão.

Colocou tudo sobre a mesa.

Não cumprimentou imediatamente a turma.

Retirou o casaco.

Dobrou-o sobre o encosto da cadeira.

Pegou um pedaço de giz.

E escreveu uma palavra no quadro:

EMOÇÕES

Depois virou-se.

— O que são?

Ninguém respondeu.

Ele esperou.

Aquilo foi a primeira coisa que aprendi sobre Harry Harrison.

Ele não tinha medo do silêncio.

Na verdade, parecia gostar dele.

Uma jovem na primeira fileira levantou a mão.

— Sentimentos, professor.

Harry inclinou ligeiramente a cabeça.

— Apenas trocou uma palavra por outra.

A jovem ficou sem saber se deveria responder.

Harry voltou ao quadro.

Sob EMOÇÕES, escreveu:

MEDO

Depois:

DESEJO

CULPA

VERGONHA

AFEIÇÃO

RAIVA

Observou as palavras por alguns segundos.

— Durante a maior parte da História, o estudo da mente humana não pertenceu a uma única disciplina.

Apoiou o giz na borda do quadro.

— Aquilo que hoje começamos a reconhecer como psicologia esteve durante séculos misturado à filosofia, medicina, religião e literatura.

Harry caminhou diante da mesa.

— Como ciência autônoma, a psicologia ainda é jovem. Muito jovem. Em instituições como Westbridge, seus estudos vêm apenas recentemente adquirindo verdadeira independência em relação aos departamentos de Filosofia.

Um rapaz levantou a mão.

— Então estudaremos psicologia, professor?

Harry olhou para ele.

— Não.

Alguns alunos trocaram olhares.

— Estudaremos História.

Caminhou novamente até o quadro.

— Mas este semestre terá um problema central.

Apontou para as palavras escritas.

— Emoções humanas.

William começou a escrever imediatamente.

Eu ainda observava Harry.

— Há uma maneira bastante confortável de estudar História — continuou ele. — Memorizar datas. Tratados. Mortes. Coroações. Batalhas.

Fez uma pequena pausa.

— Tudo isso é útil.

Harry se virou.

— E insuficiente.

A sala silenciou.

— Uma guerra não começa numa data. Essa é apenas a data que o historiador decidiu registrar.

Alguns alunos pararam de escrever.

— Antes dela houve medo. Ambição. Ressentimento. Humilhação. Desejo de poder. Talvez orgulho.

Harry apontou para MEDO.

— Antes de uma perseguição, alguém temeu alguma coisa.

Depois para DESEJO.

— Antes de inúmeras decisões políticas, alguém quis alguma coisa.

Para VERGONHA.

— Antes de determinados atos de violência, alguém acreditou ter sido humilhado.

Apoiou uma mão na mesa.

— A História registra o ato. Nosso trabalho será procurar o homem que existia antes dele.

William levantou a mão.

— Professor.

Harry olhou para sua lista.

— Evans.

William pareceu satisfeito por ele já saber seu nome.

— Como podemos estudar emoções de pessoas mortas sem transformar História em suposição?

Harry não respondeu imediatamente.

Cruzou os braços.

— Não podemos eliminá-la completamente.

— Então é especulação.

— Algumas vezes.

William franziu o cenho.

Harry continuou:

— Um bom historiador não é aquele que nunca especula, senhor Evans. É aquele que sabe exatamente onde termina a evidência e começa sua interpretação.

William assentiu lentamente.

— E como saber quando uma interpretação está correta?

— Raramente sabemos.

— Então para que serve?

Harry se aproximou alguns passos.

— Para compreender melhor.

— Mesmo sem certeza?

— A certeza é um luxo bastante raro quando estudamos seres humanos.

Aquilo me fez levantar a mão.

Até hoje não sei por quê.

Harry olhou para mim.

— Senhorita...?

— Olive.

Ele esperou.

— Bella Olive.

— Senhorita Olive.

Baixei a mão.

— Se não podemos ter certeza do que uma pessoa sentiu, como podemos afirmar que uma emoção provocou determinada escolha?

Harry me observou.

Não havia nada naquele olhar.

Nenhuma atração.

Nenhum pressentimento.

Nenhuma dessas invenções que fazemos depois para tornar o passado mais bonito.

Era apenas um professor olhando para uma aluna que fizera uma pergunta.

— Não afirmamos — respondeu.

— Então o que fazemos?

— Investigamos.

— E se a pessoa mentiu nos documentos que deixou?

— Provavelmente mentiu em alguns.

— E se acreditava na própria mentira?

Por um instante, Harry ficou imóvel.

Então pegou novamente o giz.

— Essa é uma pergunta melhor.

William virou discretamente a cabeça em minha direção.

Harry escreveu outra palavra no quadro:

AUTOENGANO

— Talvez este seja um dos maiores problemas no estudo das emoções.

Virou-se.

— Pessoas mentem para outras pessoas. Isso é simples.

Apontou para a palavra.

— O problema verdadeiro começa quando mentem para si mesmas.

Olhei para aquilo.

— Como saber?

Harry apoiou o giz.

— Como saber o quê, senhorita Olive?

— Se estamos fazendo isso.

Ele me encarou por alguns segundos.

— Na maioria das vezes, não sabemos.

— Nunca?

— Algumas pessoas descobrem.

— Como?

Houve uma pausa.

— Quando aquilo em que acreditavam sobre si mesmas deixa de ser suficiente para explicar aquilo que sentem.

Não anotei.

Todos os outros pareciam estar escrevendo.

Eu não.

Hoje me pergunto se alguma parte de mim compreendeu a frase muito antes de saber para que um dia ela serviria.

Harry voltou para a frente da sala.

— Durante este semestre estudaremos medo, desejo, culpa, vergonha, afeição, raiva e outras emoções como forças históricas.

Apagou uma pequena parte do quadro com a mão.

— Não me interessa apenas aquilo que reis fizeram.

Olhou para a turma.

— Interessa-me por que fizeram.

Pegou um dos livros.

— Tampouco me interessa apenas aquilo que sociedades proibiram.

Abriu-o.

— Quero saber por que sentiram necessidade de proibir.

William escreveu novamente.

Eu também.

Ainda não havia Margareth.

Ainda não havia desejo.

Não havia escândalo, jornais ou fogo.

Não havia nada entre Harry Harrison e mim além de uma mesa, algumas fileiras de cadeiras e uma pergunta feita durante uma aula.

E eu gostaria de poder dizer que aquele foi o momento em que minha vida mudou.

Não foi.

A verdadeira mudança começaria alguns dias depois.

Não naquela sala.

Nem com Harry.

Começaria com uma mulher que eu ainda conhecia apenas pelo nome impresso no programa de Literatura.

Professora Margareth Harrison.

Eu ainda não sabia que era esposa dele.

Não sabia que também era a Margareth Harrison cujos romances ocupavam vitrines de livrarias em Londres.

E certamente não sabia que, dentre todas as pessoas que conheci em Westbridge, seria ela a primeira a fazer com que eu desconfiasse de tudo aquilo que, até então, acreditava saber sobre mim mesma.

Capítulo 2

Aquilo que as palavras escondem

No dia seguinte, conheci Margareth Harrison.

Quando penso nisso agora, tantas décadas depois, preciso tomar cuidado para não permitir que tudo o que aconteceu posteriormente altere aquela primeira lembrança.

É uma tentação difícil de combater.

Quando alguém se torna importante demais em nossa vida, começamos a procurar grandeza até nos momentos em que ainda não havia nada. Transformamos coincidências em presságios. Damos significado a olhares que talvez tenham durado apenas um segundo. Convencemo-nos de que alguma parte de nós já sabia.

Eu não sabia.

Naquela manhã, Margareth Harrison era apenas a professora cuja aula começaria às onze horas.

Ainda assim, eu a notei antes mesmo de ela dizer uma única palavra.

Cheguei cedo.

William não estava comigo. Dissera que precisava falar com um dos professores antes da aula e que me encontraria ali.

A sala de Literatura ficava no segundo piso da ala leste de Westbridge, num dos edifícios mais antigos da universidade. Não possuía o formato de anfiteatro da sala de Harry. Era mais estreita, com janelas altas voltadas para os jardins e fileiras de mesas de madeira escura que pareciam ter sobrevivido a gerações de estudantes.

Quando entrei, havia apenas seis ou sete pessoas.

E Margareth.

Ela estava sentada atrás da mesa.

Lendo.

Foi a primeira coisa que vi.

Não parecia estar esperando alunos.

Parecia estar permitindo que entrássemos enquanto fazia algo mais importante.

Havia um livro aberto diante dela e outro sobre a mesa, acompanhado de algumas folhas cuidadosamente alinhadas. Uma das mãos sustentava a página. A outra descansava próxima a uma caneta-tinteiro.

Sua postura era impecável.

Não rígida.

Impecável.

Existe diferença.

Margareth não parecia uma mulher esforçando-se para demonstrar autoridade. Ela simplesmente possuía autoridade.

Estava vestida com sobriedade. Saia escura abaixo dos joelhos, uma blusa clara de mangas compridas e um casaco ajustado que acentuava a elegância de sua postura sem qualquer ostentação. Os cabelos escuros estavam cuidadosamente arrumados, afastados do rosto.

Eu já vira mulheres bonitas antes.

Margareth Harrison era diferente.

Não porque tivesse a beleza frágil que costumava aparecer nas revistas.

Não havia nada de frágil nela.

Seu rosto possuía linhas firmes. Os olhos pareciam atentos mesmo quando estavam voltados para um livro. E havia na maneira como permanecia sentada uma espécie de segurança que fazia parecer improvável que alguém conseguisse constrangê-la.

Foi então que compreendi uma coisa que William mencionara na noite anterior.

Ela era esposa do professor Harrison.

Harry Harrison era um homem de sorte.

Foi exatamente isso que pensei.

Não há necessidade de tornar aquela lembrança mais elegante do que foi.

**O professor Harrison é um homem de sorte.**

Escolhi uma cadeira aproximadamente no meio da sala.

Coloquei meus livros sobre a mesa.

Abri o caderno.

E, por alguma razão, voltei a olhar para ela.

Margareth continuava lendo.

Havia algo curioso na concentração dela. Não parecia fingida para impressionar os alunos que entravam. Talvez por isso eu tenha permanecido observando por mais tempo do que deveria.

Uma página virou.

Ela passou os olhos pelas primeiras linhas da seguinte.

Depois levantou a cabeça.

Não houve intenção de nenhuma das duas.

Seus olhos simplesmente encontraram os meus.

Foi um instante.

Talvez menos.

Mas lembro-me perfeitamente.

Margareth não sorriu.

Também não demonstrou surpresa.

Apenas me olhou.

Eu fui a primeira a desviar.

Baixei os olhos para meu caderno como se houvesse alguma coisa muito importante escrita numa página inteiramente em branco.

Foi ridículo.

Eu sabia disso no mesmo instante.

Não tinha motivo algum para me sentir surpreendida.

Era perfeitamente natural que uma professora olhasse para uma aluna sentada diante dela.

Ainda assim, ajeitei a caneta entre os dedos.

Foi nesse momento que William entrou.

— Bom dia.

Levantei o rosto.

— Pensei que fosse se atrasar.

— Eu?

Ele colocou os livros sobre a mesa.

— Jamais.

— Ontem você me acusou de chegar tarde faltando seis minutos para a aula.

— Porque seis minutos são seis minutos que poderiam ser usados de maneira produtiva.

Antes que eu respondesse, William inclinou-se e me beijou.

Foi um beijo rápido.

Completamente comum entre nós.

Mas não chegamos sequer ao segundo seguinte.

— Modos, senhor Evans.

A voz veio da frente da sala.

William afastou-se imediatamente.

Olhei para Margareth.

Ela ainda estava sentada.

O livro continuava aberto diante dela.

Seu rosto não demonstrava irritação.

Isso tornava a repreensão ainda mais eficaz.

William endireitou-se.

— Perdão, professora Harrison.

Margareth sustentou seu olhar por um instante.

— Agradeço.

Nada mais.

William sentou-se ao meu lado.

Inclinei-me discretamente.

— Belo começo.

— Não diga nada.

— Eu não disse.

— Está dizendo com o rosto.

Margareth fechou o livro.

Nossa conversa terminou imediatamente.

Ela verificou o relógio sobre a mesa.

Onze horas.

Depois se levantou.

Foi curioso observar como a sala se aquietou sem que ela precisasse pedir.

Pegou o livro que estava lendo e caminhou até a parte frontal da mesa.

— Bom dia.

Respondemos.

Margareth passou os olhos pela sala.

Não rapidamente.

Ela realmente observava os alunos.

Quando seus olhos chegaram até mim, não permaneceram.

Nem precisavam.

— Alguns de vocês escolheram esta disciplina porque gostam de romances.

Ela fez uma breve pausa.

— Isso não será particularmente útil.

Alguns estudantes trocaram olhares.

Margareth prosseguiu:

— Gostar de literatura e estudar literatura são atividades diferentes.

Caminhou lentamente diante da mesa.

— Posso gostar de uma obra ruim. Posso detestar uma obra excelente. Nenhuma dessas reações altera aquilo que o texto é.

Uma jovem da primeira fileira ergueu a mão.

— Então o gosto não importa?

Margareth olhou para ela.

— Importa para o leitor.

— E para o crítico?

— Muito menos.

A jovem abaixou a mão.

Margareth colocou o livro sobre a mesa.

— Literatura não existe para confirmar nosso gosto.

Virou-se para o quadro e escreveu:

**O ROMANCE E A VERDADE**

Fiquei olhando para as palavras.

Margareth deixou o giz sobre a borda.

— Esse será o nosso ponto de partida.

Caminhou novamente para a frente.

— O romance mudou muito durante as últimas décadas.

Ela pegou um dos livros.

— Durante muito tempo, esperou-se que o romancista nos dissesse o que aconteceu.

Abriu-o.

— Quem nasceu. Quem morreu. Quem se casou. Quem perdeu uma fortuna. Quem herdou uma propriedade.

Fechou o volume.

— O romance moderno começou a fazer outra pergunta.

Olhou para a turma.

— O que aconteceu dentro deles?

William começou a escrever.

Eu também.

— Não basta mais dizer que uma mulher entrou numa sala.

Margareth caminhou alguns passos.

— Queremos saber o que essa sala representa para ela.

Parou.

— Quem está lá.

Outro passo.

— Quem ela esperava encontrar.

Mais um.

— De quem tem medo.

Seu olhar percorreu a sala.

— E, às vezes, quem ela deseja que a observe.

Minha caneta parou.

Não por causa dela.

Pelo menos foi o que pensei naquele momento.

Margareth continuou normalmente.

— Essa preocupação com a experiência interior não nasceu ontem. Seria absurdo afirmar isso. Mas autores contemporâneos têm levado essa investigação muito mais longe.

Escreveu alguns nomes no quadro.

**Virginia Woolf**

**E. M. Forster**

**D. H. Lawrence**

**James Joyce**

Ouvi alguém atrás de mim murmurar alguma coisa ao ver o último nome.

Margareth percebeu.

Naturalmente.

— Senhor Collins.

O rapaz ficou tenso.

— Professora?

— Parece ter uma opinião.

— Não exatamente.

— Geralmente é quando as pessoas murmuram.

Alguns alunos sorriram discretamente.

Margareth não.

— Fale.

Collins ajeitou-se na cadeira.

— Meu pai considera Joyce ilegível.

— Seu pai não está matriculado nesta disciplina.

A sala ficou quieta.

Margareth voltou-se para o quadro.

— Mas a objeção dele é útil.

Escreveu outra palavra:

**FORMA**

— Quando a experiência humana muda, a forma de narrá-la também pode mudar.

Virou-se.

— Joyce exige do leitor porque não está interessado em organizar a consciência humana como uma sala de estar.

Caminhou diante das primeiras carteiras.

— Nossos pensamentos não entram em fila.

Apontou para o quadro.

— Lembramos. Interrompemos. Associamos. Desejamos. Mentimos para nós mesmos. Uma palavra nos devolve vinte anos. Um cheiro pode destruir uma tarde inteira.

Parei de escrever novamente.

Havia algo na maneira como Margareth falava sobre literatura que não parecia acadêmico.

Ela não tratava livros como objetos mortos.

Falava deles como se fossem organismos.

Como se respirassem.

— Virginia Woolf compreendeu isso de maneira extraordinária — continuou. — A ação externa pode ser mínima enquanto a experiência interior é imensa.

Uma aluna levantou a mão.

— Professora, a senhora considera isso superior ao romance tradicional?

Margareth olhou para ela.

— Não.

— Mas prefere?

— Isso é outra pergunta.

— Prefere?

Margareth permaneceu em silêncio por um instante.

— Prefiro escritores que compreendam aquilo que estão tentando fazer.

A aluna pareceu surpresa.

Margareth prosseguiu:

— Não existe mérito automático em ser moderno. Assim como não existe mérito em ser antigo.

Apoiou uma mão sobre a mesa.

— Uma estrutura simples executada com precisão é infinitamente melhor do que uma experiência formal feita apenas para que o autor pareça inteligente.

Aquilo me fez olhar novamente para ela.

Agora compreendia parte de sua reputação.

Margareth Harrison não dava respostas para agradar.

Também não parecia interessada em parecer acessível.

Ela queria ser compreendida corretamente.

William levantou a mão.

— Professora Harrison.

— Senhor Evans.

— Se o romance tenta mostrar aquilo que ocorre dentro de uma pessoa, como podemos saber se o narrador está dizendo a verdade?

Margareth olhou para ele.

— Não podemos.

William hesitou.

A resposta parecia simples demais.

— Então podemos confiar no narrador?

— Algumas vezes.

— E nas outras?

— Não.

Ela caminhou até a mesa.

— Uma das ingenuidades mais persistentes de um leitor é acreditar que alguém contar uma história significa necessariamente compreendê-la.

Olhei para Margareth.

Aquelas palavras permaneceram comigo.

Por razões que ela não poderia imaginar naquele dia.

Talvez por razões que nem eu poderia.

Margareth prosseguiu:

— Pessoas são perfeitamente capazes de narrar a própria vida e ainda assim não entender aquilo que aconteceu com elas.

Houve alguns segundos de silêncio.

— Às vezes, entendem apenas muito depois.

Minha mão permaneceu imóvel sobre o caderno.

Hoje, quando me lembro daquela frase, existe algo quase cruel nela.

Margareth estava falando de literatura.

Somente literatura.

Não falava de mim.

Não falava de nós.

Não poderia.

Mas eu tinha vinte e três anos naquela sala.

E agora sou uma mulher velha contando a história de pessoas que já não podem interromper minha versão dos acontecimentos.

Margareth estava certa.

Contar não é o mesmo que compreender.

Levei boa parte da minha vida para aprender isso.

Naquela manhã, porém, apenas continuei escrevendo.

Ela pegou outro livro.

— Forster faz uma distinção importante quando discute personagens.

Caminhou até o quadro.

— Há aqueles que podem ser resumidos com facilidade.

Escreveu:

**PREVISÍVEL**

Abaixo:

**CONTRADITÓRIO**

— E existem aqueles que nos surpreendem de maneira convincente.

Virou-se.

— Guardem essas duas palavras.

Alguém perguntou:

— Para a prova?

Margareth olhou na direção da voz.

— Para a vida seria mais útil.

Dessa vez algumas pessoas sorriram.

Margareth apenas continuou.

— Um personagem verdadeiro não precisa ser agradável.

Apagou uma pequena mancha de giz com os dedos.

— Precisa ser humano.

— Há diferença? — perguntou Collins.

Ela se virou para ele.

— Uma diferença enorme.

A sala silenciou.

— Pessoas cruéis amam seus filhos. Pessoas generosas traem. Covardes podem ser corajosos uma vez na vida. Homens respeitáveis cometem atos vergonhosos, e pessoas consideradas vergonhosas podem demonstrar extraordinária dignidade.

Margareth deixou a frase repousar.

— Literatura medíocre julga antes de observar.

Olhou para nós.

— Literatura verdadeira observa primeiro.

Escrevi cada palavra.

— E a senhora? — perguntou uma jovem perto da janela.

Margareth parou.

— Eu o quê?

— Quando escreve seus romances.

Algumas cabeças se voltaram.

Eu também sabia quem Margareth Harrison era como escritora.

Seria impossível frequentar Literatura em Westbridge sem saber.

Seus romances haviam sido publicados em Londres e atravessado o Atlântico. Algumas críticas a chamavam de excepcional observadora da intimidade doméstica. Outras a acusavam de frieza.

Eu ainda não havia lido tudo o que escrevera.

Depois li.

Muitas vezes.

Margareth cruzou as mãos diante do corpo.

— O que deseja saber?

— A senhora observa ou julga seus personagens?

Margareth pareceu considerar seriamente a pergunta.

— Tento não julgá-los enquanto escrevo.

— Mesmo quando fazem algo errado?

— Principalmente quando fazem algo errado.

A aluna franziu o cenho.

— Por quê?

Margareth inclinou ligeiramente a cabeça.

— Porque, se eu já decidir que uma pessoa é um monstro, deixarei de perguntar por que ela fez aquilo.

Meu pensamento voltou involuntariamente à aula de Harry.

**Emoções.**

Medo.

Desejo.

Vergonha.

Aquilo que existia antes do ato.

Foi a primeira vez que percebi uma semelhança entre os dois.

Não física.

Intelectual.

Harry procurava o homem antes do acontecimento.

Margareth procurava a pessoa antes do julgamento.

Talvez tenha sido isso que os aproximou.

Eu não sabia.

Ainda.

Margareth tornou a falar.

— A literatura tem uma vantagem sobre a sociedade.

Pegou o livro da mesa.

— Pode permanecer dentro de uma contradição sem precisar resolvê-la imediatamente.

Abriu algumas páginas.

— A sociedade prefere categorias.

Olhou para nós.

— Correto ou errado. Decente ou indecente. Fiel ou infiel. Homem bom. Mulher ruim.

Fechou o livro.

— Um romance sério deveria desconfiar de qualquer pessoa que possa ser explicada em duas palavras.

Não sei por que aquela frase me incomodou.

Talvez porque eu ainda gostasse de coisas que podiam ser explicadas facilmente.

William era meu namorado.

Eu era sua namorada.

Harry Harrison era meu professor.

Margareth Harrison era minha professora.

As palavras organizavam o mundo.

Naquela idade, eu ainda acreditava que dar nome às coisas significava compreendê-las.

Margareth caminhou até uma das janelas.

— Há outro problema.

Virou-se parcialmente para nós.

— Moralidade.

Algumas canetas voltaram ao papel.

— O escritor não existe fora da sociedade. Mesmo quando acredita que existe.

Ela permaneceu diante da luz cinzenta da manhã.

— Vivemos cercados por regras. Algumas necessárias. Outras herdadas. Algumas tão antigas que ninguém se lembra de perguntar por que ainda existem.

Um rapaz levantou a mão.

— Está dizendo que o escritor deve contestá-las?

— Não necessariamente.

— Então qual é o papel dele?

Margareth pensou.

— Olhar para elas.

— Apenas isso?

— Olhar verdadeiramente para alguma coisa raramente é “apenas isso”.

Ela voltou para o centro da sala.

— Um escritor não precisa destruir uma regra.

Pegou a caneta-tinteiro que estava sobre a mesa.

— Às vezes basta mostrar quem paga o preço para que ela continue existindo.

Foi a primeira frase dela que anotei duas vezes.

Uma abaixo da outra.

Talvez eu tivesse gostado da construção.

Talvez alguma coisa nela já começasse a me inquietar.

Não saberia dizer.

Margareth fechou o livro que usara durante a aula.

— Para a próxima semana, quero um ensaio.

Ouvi alguns suspiros discretos.

— Quatro páginas.

Os suspiros aumentaram.

Ela ignorou.

— Escolham um romance publicado nos últimos vinte anos e respondam a uma pergunta.

Escreveu no quadro:

**O QUE ESTE PERSONAGEM NÃO É CAPAZ DE ADMITIR SOBRE SI MESMO?**

Fiquei olhando.

Margareth largou o giz.

— Não quero resumo da obra. Não quero biografia do autor. Não quero que me digam se gostaram.

Percorreu a sala com os olhos.

— Quero que observem.

Pela segunda vez naquela manhã, seus olhos encontraram os meus.

Desta vez não desviei imediatamente.

Talvez porque ela estivesse olhando para todos.

Talvez porque eu não quisesse repetir o constrangimento anterior.

Foram apenas alguns segundos.

Depois Margareth passou para outra fileira.

— Tentem descobrir o que o personagem sabe sem saber que sabe.

A aula terminou alguns minutos depois.

Cadeiras se moveram.

Livros foram fechados.

William começou imediatamente a guardar suas coisas.

— Ela é extraordinária.

Olhei para ele.

— Você gostou?

— Muito.

— Imaginei que reclamaria do ensaio.

— Quatro páginas não são nada.

— Ontem você reclamou de duas.

— Era outra disciplina.

Levantei uma sobrancelha.

Ele sorriu discretamente.

— Está bem. Talvez eu reclame depois.

Fechei o caderno.

Quando me levantei, olhei novamente para a mesa de Margareth.

Dois alunos já estavam diante dela fazendo perguntas.

Margareth escutava o primeiro com atenção absoluta.

Não olhava ao redor enquanto alguém falava.

Também não apressava a resposta.

Pensei em Harry.

Ele fazia algo semelhante.

— Bella.

William estava junto à porta.

— Está vindo?

— Sim.

Peguei meus livros.

Comecei a caminhar.

Foi então que ouvi:

— Senhorita Olive.

Parei.

Virei-me.

Margareth estava olhando para mim.

Os outros dois alunos já haviam saído.

William permaneceu à porta.

— Professora?

Ela apontou para minha carteira.

Meu lenço estava sobre ela.

Olhei.

— Ah.

Voltei rapidamente e o peguei.

— Obrigada.

— Tente não abandonar objetos pessoais em salas de aula.

A maneira como disse aquilo era tão séria que não consegui determinar se havia qualquer ironia.

— Tentarei.

Margareth assentiu.

Então seus olhos desceram até meu caderno aberto.

A pergunta do quadro estava escrita no alto da página.

Abaixo dela, eu copiara uma frase:

**Às vezes basta mostrar quem paga o preço para que uma regra continue existindo.**

Margareth viu.

Se teve alguma reação, não percebi.

Fechei o caderno.

— Bom dia, professora Harrison.

— Bom dia, senhorita Olive.

Saí.

William esperava no corredor.

Começamos a caminhar.

— O que ela queria?

— Esqueci meu lenço.

— Só isso?

Olhei para ele.

— O que mais seria?

William deu de ombros.

Continuamos.

Depois de alguns passos, porém, voltei os olhos para a porta da sala.

Margareth já estava sentada novamente.

O mesmo livro estava aberto diante dela.

Parecia exatamente como quando eu entrara.

Lendo.

Calma.

Centrada.

Como se nada naquela sala fosse capaz de tirá-la do lugar.

Voltei-me para a frente.

Naquela época eu ainda não estava apaixonada por Margareth Harrison.

Nem perto disso.

Não conhecia sua casa.

Não conhecia sua voz quando não estava diante de alunos.

Não conhecia seus medos, seus defeitos ou aquilo que podia feri-la.

Eu conhecia apenas sua postura.

Seus olhos.

E a maneira como falava sobre livros.

Mas foi naquela manhã que comecei a esperar pela aula seguinte.

E, olhando para trás, talvez essa tenha sido a primeira coisa verdadeiramente perigosa.

Não desejar alguém.

Ainda não.

Desejar voltar.

Capítulo 3

O que se observa em silêncio

Existem acontecimentos desta história que não presenciei.

Durante muito tempo hesitei em escrevê-los.

Parece desonesto narrar uma conversa ocorrida numa sala onde nunca estive, descrever um gesto que meus próprios olhos não viram ou atribuir silêncio a pessoas que já não estão aqui para me corrigir.

Mas Harry e Margareth me contaram algumas dessas histórias muitas vezes.

Separadamente.

Às vezes juntos.

E existem lembranças que ouvi tantas vezes que já não sei dizer se as recordo ou apenas as conheço profundamente.

Esta aconteceu poucos dias depois de minha primeira aula com Margareth.

Naquela noite, eu provavelmente estava em casa tentando decidir sobre qual personagem escreveria meu ensaio.

Enquanto isso, a poucos quilômetros dali, os Harrison falavam sobre desejo.

E, pela primeira vez, falaram sobre mim.

---

O escritório de Harry ocupava um dos cômodos menores da casa.

Não era exatamente uma biblioteca, embora livros tomassem duas paredes inteiras. Havia uma escrivaninha pesada próxima à janela, uma poltrona de couro que pertencera ao pai de Margareth e uma mesa menor onde ela costumava trabalhar quando preferia permanecer junto dele em vez de escrever em seu próprio gabinete.

Era assim com frequência.

Harry pesquisava.

Margareth escrevia.

Passavam horas no mesmo cômodo sem necessidade de conversar.

Talvez essa tenha sido uma das primeiras coisas que admirei no casamento deles quando finalmente o conheci de perto.

Eles não pareciam sentir obrigação de preencher o silêncio.

Naquela noite, Harry estava cercado por papéis.

Livros abertos.

Recortes.

Anotações.

Um volume de Freud permanecia perto de sua mão direita. Mais distante havia textos de Havelock Ellis, algumas referências médicas e uma pilha de documentos históricos que pareciam não possuir relação alguma entre si.

Margareth estava sentada na outra extremidade da mesa com um lápis na mão.

Havia uma página datilografada diante dela.

Leu até o fim.

Depois voltou algumas linhas.

— Não.

Harry não levantou a cabeça.

— Não o quê?

— Isto.

Ela bateu levemente com a ponta do lápis no papel.

Harry continuou escrevendo.

— É uma palavra ou um parágrafo inteiro?

— Infelizmente, um parágrafo.

Ele finalmente a olhou.

Margareth virou a página na direção dele.

— “O desejo masculino tende à procura, enquanto o feminino frequentemente se manifesta como resposta.”

Harry leu a própria frase.

— Está mal formulada?

— Está pior que isso.

Ele ergueu os olhos.

— É cômoda.

Harry recostou-se na cadeira.

— Explique.

Margareth cruzou uma perna sobre a outra.

— Você recolheu relatos de homens que puderam falar sobre desejo durante séculos e de mulheres educadas para esconder o próprio.

— Sim.

— E então observa que os homens parecem procurar mais.

Harry permaneceu calado.

Margareth continuou:

— Talvez estejam apenas autorizados a deixar mais provas.

Harry desviou os olhos para a página.

Havia momentos em que Margareth conseguia desmontar duas semanas de pesquisa dele com uma frase.

Ele nunca pareceu se incomodar.

Pelo contrário.

Pegou a caneta.

Riscou o parágrafo inteiro.

— Melhor?

— Consideravelmente.

— Você tem prazer demais quando faz isso.

Margareth não sorriu.

— Não transforme minha precisão numa perversão para acrescentar ao seu estudo.

Harry a observou por alguns segundos.

Um canto de sua boca quase se moveu, mas não chegou a ser um sorriso.

Então voltou aos papéis.

Aquela pesquisa ainda não possuía o formato que adquiriria anos depois.

Nem o título.

Muito menos a notoriedade.

Harry começara tentando compreender como diferentes períodos históricos descreviam aquilo que os seres humanos desejavam e, sobretudo, como tentavam controlá-lo.

Comida.

Prestígio.

Poder.

Reconhecimento.

Conquista.

Afeto.

Sexo.

Domínio.

Entrega.

Ele reunia elementos que outros historiadores normalmente deixariam para médicos, filósofos ou moralistas.

Margareth era uma das poucas pessoas que não considerava isso impróprio.

Achava interessante.

E, em alguns pontos, considerava Harry excessivamente cuidadoso.

Ela pegou outra folha.

— Aqui também.

Harry suspirou discretamente.

— Você ainda nem leu.

— Li enquanto você procurava aquela referência.

— E?

Margareth aproximou a folha.

— Você fala sobre o desejo feminino como se fosse uma região estrangeira.

Harry a encarou.

— Tecnicamente, para mim é.

— Então escreva como historiador, não como explorador.

Ele apoiou o cotovelo na mesa.

— O que você mudaria?

Margareth pensou.

— Eu começaria retirando a palavra “mistério”.

Harry olhou para a passagem.

— Por quê?

— Porque homens chamam mulheres de misteriosas com frequência quando simplesmente não as escutam.

Harry não respondeu imediatamente.

Fez uma marca na página.

— Isso vai ficar.

— Espero que a ideia, não minha frase.

— Ainda estou decidindo.

Margareth voltou a seus próprios papéis.

Entre eles existia uma espécie de liberdade que, mesmo hoje, considero rara.

Não era indiferença.

Era o contrário.

Harry levava Margareth a sério o suficiente para permitir que ela contrariasse seus pensamentos sem sentir que estava sendo diminuído.

Margareth confiava nele o suficiente para não suavizar aquilo que pensava.

Amavam-se sem transformar o amor numa obrigação de concordar.

Harry abriu outro livro.

— Ellis sugere que existe muito mais variedade na experiência feminina do que a moral vitoriana permitiu registrar.

— Nesse ponto ele não precisava de centenas de páginas.

Harry ergueu os olhos.

Margareth continuou lendo.

— Bastava conversar com mulheres.

Ele ficou alguns segundos observando-a.

Depois perguntou:

— E o que elas diriam?

Margareth pousou o lápis.

— Que desejar não é privilégio masculino.

— Isso eu já sei.

— Então tenha cuidado para não escrever como um homem que sabe e ainda assim descreve como outro que desconfia.

Harry inclinou ligeiramente a cabeça.

Era assim que ele a escutava quando uma ideia realmente o alcançava.

— Continue.

Margareth respirou fundo.

— Mulheres aprendem muito cedo a diferenciar aquilo que sentem daquilo que podem admitir sentir.

— Homens também.

— Naturalmente.

— Mas?

— Homens costumam ser punidos pelo que fazem com o desejo. Mulheres, muitas vezes, pela simples suspeita de possuí-lo.

Harry permaneceu em silêncio.

Depois anotou a frase.

Margareth viu.

— Harrison.

— O quê?

— Não copie tudo o que digo.

— Estou registrando uma contribuição acadêmica.

— Está roubando.

— Casamento permite certos privilégios.

Ela o olhou com firmeza.

Harry sustentou o olhar.

Nenhum dos dois sorriu.

Ainda assim, havia afeto ali.

Era uma intimidade que eu só aprenderia a reconhecer muito mais tarde.

Harry estendeu a mão por cima dos papéis.

Margareth olhou para ela.

Depois colocou a própria mão sobre a dele.

Ele passou o polegar lentamente sobre seus dedos.

Nenhuma declaração.

Nenhuma necessidade.

Apenas aquilo.

Alguns segundos depois, soltaram-se naturalmente e voltaram ao trabalho.

Foi Margareth quem interrompeu novamente o silêncio.

— Começou uma aluna interessante este semestre.

Harry estava procurando uma referência.

— Em Literatura?

— Evidentemente.

— Isso reduz as possibilidades.

Margareth ignorou o comentário.

— Inteligente.

Harry encontrou o papel que procurava.

— Isso deveria ser requisito.

— Deveria.

Ela virou uma página.

— Mas raramente é suficiente.

Harry a olhou.

Margareth continuou:

— Observadora. Escuta antes de responder. E tem uma tendência inconveniente de pensar enquanto os outros estão apenas anotando.

Harry permaneceu alguns segundos em silêncio.

— Bella Olive?

A mão de Margareth parou sobre o papel.

Então ela levantou os olhos.

Muito lentamente.

Harry percebeu.

— O quê?

— Nada.

Margareth apoiou o lápis sobre a mesa.

— Então reparou nela.

Não havia acusação na voz.

Nem provocação verdadeira.

Apenas constatação.

Harry voltou à referência.

— Ela está na minha turma.

— Existem mais de vinte estudantes na sua turma.

— Vinte e seis.

— Exatamente.

— Sei o nome de todos.

Margareth continuou olhando para ele.

Harry percebeu novamente.

— Margaret.

— Harry.

Ele fechou o livro.

— Fez uma pergunta incomum.

— Qual?

— Perguntou como podemos perceber quando estamos mentindo para nós mesmos sobre aquilo que sentimos.

Margareth ficou quieta.

— E o que respondeu?

— Que geralmente não percebemos.

— Isso deve tê-la tranquilizado imensamente.

Harry ignorou.

— Foi uma boa pergunta.

— Foi.

Ele franziu discretamente a testa.

— Ela perguntou o mesmo a você?

— Não.

Margareth recostou-se.

— Mas prestou atenção quando falei sobre narradores que não compreendem a própria história.

Harry voltou a pegar a caneta.

— Parece coerente.

— E é bonita.

A caneta de Harry parou.

Não por muito tempo.

Apenas o suficiente.

Margareth percebeu.

Ela percebia quase tudo nele.

— Sim — disse Harry.

Nenhuma defesa.

Nenhuma falsa distração.

— É.

Margareth o observou.

Harry tornou a escrever.

— Cabelos claros — continuou ele depois de alguns segundos. — Curtos.

Margareth não disse nada.

— Olhos atentos.

Ainda silêncio.

Harry percebeu o próprio nível de detalhe e levantou os olhos.

Margareth estava olhando para ele.

— O quê?

— Nada.

— Esse “nada” está ficando recorrente esta noite.

Margareth cruzou as mãos sobre a página.

— Só estou descobrindo que sua memória visual melhorou consideravelmente desde ontem.

Harry olhou para ela sem constrangimento.

— Ela é difícil de não notar.

Margareth permaneceu séria.

— Concordo.

E foi tudo.

Nenhum ciúme.

Nenhum questionamento.

Nenhuma tentativa de transformar uma observação numa confissão.

Essa parte sempre me impressionou quando eles me contaram.

Talvez porque eu viesse de uma educação na qual observar a beleza de outra pessoa já podia adquirir a aparência de uma pequena traição.

Para Harry e Margareth, beleza simplesmente existia.

Reconhecê-la não diminuía o que sentiam um pelo outro.

Margareth voltou às páginas.

— A aparência chama atenção primeiro.

Harry pegou outro documento.

— Mas não foi por isso que lembrei o nome dela.

— Eu sei.

Ele a observou.

— Como sabe?

Margareth passou a ponta do dedo por uma linha do texto.

— Porque também não foi por isso que lembrei.

Harry não respondeu.

Durante alguns minutos, houve apenas o som das páginas.

Então ele perguntou:

— O que ela fez?

— Na aula?

— Sim.

Margareth pensou.

— Quase nada.

— Isso parece pouco para uma aluna promissora.

— A maioria das pessoas revela mais quando acredita que não está fazendo nada.

Harry esperou.

— Ela observa.

— Você já disse.

— Não da maneira comum.

Margareth fechou uma das pastas.

— Quando faço uma pergunta, ela olha para mim antes de olhar para o caderno.

Harry inclinou-se na cadeira.

— E isso significa?

— Que primeiro tenta compreender a pessoa que pergunta.

— Em vez da pergunta.

— As duas coisas.

Margareth desviou os olhos para a janela.

A noite já tomara completamente o jardim.

— É uma característica útil para uma escritora.

Harry arqueou levemente uma sobrancelha.

— Ela escreve?

— Ainda não sei.

— Então está se antecipando.

— Talvez.

Ele retomou as anotações.

— Você se interessou por ela.

Margareth o olhou.

— Como aluna.

Harry assentiu.

— Naturalmente.

Margareth continuou observando-o mais um instante.

— E você?

Harry fechou a tampa da caneta.

— Como aluna.

Dessa vez, foi Margareth quem assentiu.

— Naturalmente.

Não havia necessidade de dizer mais.

Ainda não.

Harry juntou algumas páginas e entregou-as a ela.

— Leia isto.

Margareth recebeu.

— Quantas páginas?

— Onze.

— Harry.

— Oito são curtas.

Ela começou a ler.

Ele voltou aos próprios livros.

Depois de algum tempo, sem levantar os olhos, Margareth perguntou:

— Ela estava com Evans na minha aula.

Harry respondeu imediatamente:

— William Evans.

Margareth ergueu os olhos sobre as páginas.

Harry percebeu tarde demais.

— Ele também está na minha turma.

— Imagino.

— Interessado em política.

— Já percebi.

Margareth voltou ao texto.

— Beijou-a antes da aula.

Harry não demonstrou reação.

— São namorados?

— Presumo.

— Evans mencionou intenção de seguir para o Parlamento.

— Ele menciona isso com facilidade.

Margareth fez uma pequena marca na página.

— É ambicioso.

— Isso não é necessariamente defeito.

— Não.

Ela virou outra folha.

— Apenas costuma se tornar um quando alguém começa a decidir o futuro dos outros com a mesma facilidade com que decide o próprio.

Harry olhou para a esposa.

— Viu tudo isso em uma aula?

— Sou romancista.

— Isso não é resposta.

— Para mim é.

Harry voltou ao trabalho.

Foi assim que terminou a primeira conversa dos Harrison sobre mim.

Sem revelações.

Sem desejos confessados.

Sem qualquer compreensão de onde aquelas observações acabariam levando.

Margareth me considerava promissora.

Harry me considerava inteligente.

Os dois haviam percebido minha aparência.

E eu não sabia de nada.

Naquela noite, provavelmente pensei mais em Margareth do que deveria.

Em sua voz.

Na segurança com que permanecia diante da classe.

Na maneira como seus olhos haviam encontrado os meus antes de William chegar.

Harry, por outro lado, ainda ocupava um lugar muito diferente em meus pensamentos.

Eu o admirava.

Gostava de suas aulas.

Queria responder às perguntas que ele fazia.

Nada além disso.

Ainda seria assim por algum tempo.

Hoje sei que sentimentos importantes raramente chegam fazendo barulho.

Não batem à porta anunciando aquilo que pretendem se tornar.

Começam como coisas menores.

Uma pergunta lembrada.

Um nome reconhecido rápido demais.

Uma pessoa mencionada durante o jantar.

Uma beleza que alguém admite ter percebido.

E então seguimos vivendo, convencidos de que nada aconteceu.

Harry e Margareth voltaram ao trabalho naquela noite.

Ela corrigindo suas conclusões.

Ele reconstruindo argumentos.

Dois estudiosos tentando compreender a natureza do desejo humano.

Nenhum dos dois poderia saber que, naquele mesmo semestre, deixariam de observá-lo apenas nos livros.

Capítulo 4

Aquilo que desejamos

Durante muito tempo, acreditei que as grandes mudanças de uma vida pudessem ser reconhecidas no instante em que aconteciam.

Não podem.

Quase nunca.

Os acontecimentos verdadeiramente decisivos costumam apresentar-se com uma aparência banal: uma cadeira vazia ao nosso lado, uma pergunta feita no momento certo, uma pessoa que nos pede para permanecer alguns minutos depois de uma aula.

Só muitos anos mais tarde percebemos que, naquele ponto exato, nossa vida tomou uma direção diferente.

Na manhã seguinte à minha primeira aula com Margareth, voltei à sala de Harry Harrison.

William não estava comigo.

Tinha uma reunião com alguns estudantes ligados ao clube de debates políticos e prometera encontrar-me depois do almoço.

Escolhi novamente um lugar aproximadamente no meio da sala.

Não a mesma cadeira.

Lembro-me disso porque, naquela época, eu ainda não possuía hábitos suficientes em Westbridge para considerar qualquer assento meu.

Harry já estava lá.

Sentado atrás da mesa.

Não escrevia no quadro.

Havia um livro aberto diante dele, algumas folhas datilografadas e uma xícara de café que aparentemente já esfriara.

Ele lia.

Por alguns instantes, aquilo me fez lembrar Margareth.

Não porque fossem parecidos.

Não eram.

Margareth lia como se o restante do mundo tivesse recebido permissão para continuar existindo enquanto ela terminava uma página.

Harry parecia discutir silenciosamente com tudo aquilo que lia.

Às vezes sua testa se contraía.

Às vezes ele voltava duas linhas.

Uma vez pegou a caneta, escreveu alguma coisa à margem e riscou imediatamente depois.

Eu ainda estava observando quando ele levantou os olhos.

Não para mim.

Para o relógio.

Dez horas.

Fechou o livro.

A sala silenciou.

Harry permaneceu sentado.

— Ontem falamos sobre emoções.

Ele entrelaçou os dedos sobre a mesa.

— Hoje gostaria de falar sobre aquilo que fazemos com elas.

Algumas canetas tocaram o papel.

Harry olhou para a turma.

— O comportamento humano possui uma característica particularmente inconveniente para quem tenta estudá-lo.

Pausa.

— Pessoas raramente fazem alguma coisa por uma única razão.

Ele se levantou.

Caminhou até o quadro e escreveu:

NECESSIDADE

Abaixo:

DESEJO

Depois:

PRAZER

E, por último:

AMOR.

Permaneceu alguns segundos olhando para as quatro palavras.

— Parecem coisas distintas.

Virou-se.

— E são.

Pegou o giz novamente.

— Mas cometemos um erro quando imaginamos que permanecem separadas dentro de nós.

Escreveu uma linha ligando NECESSIDADE a DESEJO.

Outra entre **DESEJO** e PRAZER.

Por fim, uma linha muito mais lenta até AMOR.

— Comecemos pelo mais simples.

Apontou para a primeira palavra.

— Necessidade.

Harry caminhou diante das carteiras.

— Um homem com fome procura comida.

Ninguém escreveu aquilo.

Era óbvio demais.

Harry percebeu.

— Não desprezem o óbvio. É nele que costumamos esconder as coisas mais complicadas.

Voltou-se.

— Um homem com fome procura comida. Mas dois homens igualmente famintos podem escolher alimentos diferentes. Um deles poderá inclusive recusar aquilo que outro aceitaria imediatamente.

Apontou para DESEJO.

— A necessidade é relativamente simples. O desejo começa quando aquilo que buscamos deixa de ser apenas aquilo de que precisamos.

Um aluno na primeira fila levantou a mão.

— Desejar seria querer mais?

— Nem sempre.

— Então querer diferente?

Harry pensou.

— Melhor.

Escreveu abaixo da palavra:

O DESEJO SELECIONA.

— A fome diz: coma.

Olhou para a turma.

— O desejo diz: isto.

Algumas pessoas começaram a escrever.

Eu também.

— E o prazer? — perguntou uma aluna.

Harry olhou para a terceira palavra.

— O prazer é mais difícil.

— Por quê?

— Porque não existe apenas no objeto.

Ele caminhou até a janela.

— Duas pessoas podem ouvir a mesma música. Uma delas sentirá prazer. A outra, tédio. Duas pessoas podem receber o mesmo elogio. Uma se sentirá reconhecida. A outra, insultada.

Virou-se.

— Portanto, não basta perguntar o que aconteceu.

Apontou de leve para a própria cabeça.

— Precisamos perguntar quem recebeu aquilo que aconteceu.

Fez-se silêncio.

Harry continuou:

— O prazer não está apenas naquilo que tocamos, ouvimos, possuímos ou fazemos. Está também naquilo que aquilo significa para nós.

Aquilo me interessou.

Mais do que eu esperava.

Ele voltou ao quadro.

— Um soldado pode suportar uma dor terrível porque acredita que ela possui significado.

Escreveu outra palavra:

SIGNIFICADO

— Um atleta pode procurar voluntariamente o desconforto.

Outro exemplo:

— Um religioso pode encontrar paz na privação.

Olhou para nós.

— Um homem rico pode possuir tudo aquilo que julgava querer e ainda assim não experimentar prazer algum.

Passou alguns segundos em silêncio.

— E uma pessoa pode desejar algo que sabe que lhe fará mal.

Ninguém escreveu imediatamente.

Harry apoiou o giz.

— Aí começa um dos problemas mais interessantes do comportamento humano.

Um estudante perguntou:

— Por que alguém faria isso?

Harry o encarou.

— Se eu soubesse responder completamente, senhor Collins, provavelmente estaria no departamento errado.

Alguns alunos sorriram discretamente.

Harry não.

— Mas sabemos que seres humanos não são governados exclusivamente pela razão.

Apontou para DESEJO.

— Saber que algo é inadequado não elimina o desejo.

Para **PRAZER**:

— Saber que algo proporciona prazer não significa que o desejaremos novamente.

E então:

— E amar alguém não nos torna incapazes de desejar outras coisas.

Minha caneta parou.

Foi uma interrupção pequena.

Mas lembro-me dela.

Harry continuou antes que a frase pudesse parecer maior do que pretendia.

— Porque o amor também não é uma única emoção.

Virou-se para o quadro.

Ao lado de AMOR, escreveu:

AFEIÇÃO
APEGO
DESEJO
CUIDADO
MEMÓRIA
ESCOLHA

Algumas pessoas levantaram o rosto.

— Chamamos muitas coisas diferentes pela mesma palavra.

Harry apontou para a lista.

— Um homem pode amar o pai e desejar nunca se tornar parecido com ele.

Outra palavra.

— Pode amar uma mulher e ressentir-se dela.

Outra.

— Pode amar um país e discordar profundamente daqueles que o governam.

Voltando-se para a turma:

— Portanto, quando alguém diz “eu amo”, ainda sabemos muito pouco.

Uma jovem próxima à janela ergueu a mão.

— Professor, então o amor não é sentimento?

Harry cruzou os braços.

— Não disse isso.

— Mas o senhor colocou “escolha”.

— Porque sentir e agir são problemas diferentes.

Ela aguardou.

Harry continuou:

— Não escolhemos necessariamente a primeira reação que surge dentro de nós.

Apontou para o peito.

— Mas podemos escolher o que fazemos com ela.

A aluna franziu o cenho.

— Então podemos escolher amar alguém?

Harry demorou.

Aquela foi uma das pausas que faziam a sala inteira esperar.

— Podemos escolher permanecer.

Outro silêncio.

— Podemos escolher cuidar.

Outro.

— Podemos escolher ser leais àquilo que reconhecemos como importante.

Ele abaixou um pouco a voz.

— Mas acredito que qualquer pessoa que tenha tentado ordenar ao próprio coração que pare de sentir alguma coisa sabe que nossa autoridade sobre ele é bastante limitada.

Anotei essa frase.

Harry voltou para a mesa.

— É exatamente por isso que sociedades criam regras.

Alguém perguntou:

— Para controlar o comportamento?

— Entre outras coisas.

Ele apoiou as mãos na madeira.

— Uma sociedade não precisa proibir aquilo que ninguém deseja fazer.

A sala ficou mais atenta.

— As proibições são interessantes porque frequentemente nos revelam a existência do comportamento que pretendem eliminar.

Uma voz no fundo perguntou:

— Então toda regra existe por causa de um desejo?

— Não.

Harry respondeu imediatamente.

— Mas muitas regras dizem mais sobre os medos e desejos de uma sociedade do que ela gostaria de admitir.

Ele caminhou até o quadro novamente.

Sob DESEJO, escreveu:

CONTROLE

— Pensem no casamento.

Alguns estudantes se mexeram.

— Na propriedade.

Outra palavra.

— Na religião.

Outra.

— Na sexualidade.

Dessa vez houve um pequeno silêncio diferente.

Mais tenso.

Harry percebeu.

Naturalmente.

— Interessante.

Olhou para a turma.

— Três palavras não incomodaram ninguém.

Voltou os olhos ao quadro.

— A quarta alterou a sala.

Ninguém falou.

— Por quê?

Um rapaz respondeu:

— Porque é um assunto privado.

Harry virou-se para ele.

— E aquilo que é privado deixa de influenciar a História?

— Não.

— Então por que o historiador deveria fingir que não existe?

O rapaz não respondeu.

Harry não insistiu.

— Não estou sugerindo que detalhes íntimos devam ser tratados como espetáculo.

Sua voz ficou mais firme.

— Isso seria vulgaridade, não investigação.

Fez uma pausa.

— Mas uma disciplina que pretende compreender seres humanos não pode escolher estudar apenas as partes deles que considera apresentáveis.

Foi provavelmente nessa aula que comecei a compreender de onde, anos mais tarde, surgiria o livro que provocaria tanta indignação.

Harry já estava procurando aquela pergunta.

Ainda não possuía todas as fontes.

Ainda não tinha o título.

Mas o problema já vivia dentro dele.

**O que fazemos com aquilo que desejamos?**

Ele voltou à mesa.

— Quero propor um caso.

Pegou uma folha.

— Não é histórico. É apenas um exercício.

Apoiou-a novamente sem ler.

— Uma pessoa possui uma vida estável.

A sala estava quieta.

— Trabalho respeitável. Relações seguras. Conforto. Nenhuma necessidade material imediata.

Harry caminhou vagarosamente.

— Então encontra alguma coisa que desperta nela um desejo que não estava procurando.

Pausa.

— Pode ser uma profissão.

— Uma viagem.

— Uma ideia.

— Outra pessoa.

As canetas diminuíram.

— Ela sabe que seguir esse desejo poderá alterar a vida que construiu.

Harry olhou para a classe.

— Qual comportamento seria racional?

Ninguém respondeu.

Ele esperou.

Um aluno levantou a mão.

— Ignorá-lo.

— Por quê?

— Porque já tem estabilidade.

— Então estabilidade deve possuir prioridade sobre desejo?

— Na maioria dos casos, sim.

Harry assentiu.

— Uma posição defensável.

Outra aluna ergueu a mão.

— Depende do desejo.

— Explique.

— Se for apenas uma vontade passageira, abandonar uma vida inteira por isso seria irresponsável.

— Concordo que seria imprudente.

Ele continuou:

— Mas como saber, enquanto estamos vivendo, se é passageiro?

Ela ficou em silêncio.

Harry olhou em torno da sala.

Então seus olhos chegaram até mim.

Não desviaram imediatamente.

— Senhorita Olive.

Endireitei-me.

— Professor?

— A senhorita fez ontem uma pergunta sobre autoengano.

— Sim.

— Então me diga.

Ele apontou vagamente para o quadro.

— Como distinguir entre um desejo que ameaça uma vida e um desejo que revela que aquela vida já não era suficiente?

A sala pareceu diminuir.

Talvez porque eu não esperasse ser chamada.

Olhei para o quadro.

Depois para Harry.

— Não sei.

Ele não demonstrou decepção.

— Tente.

Respirei.

As pessoas ao meu redor esperavam.

William teria respondido mais rapidamente.

William sempre sabia como organizar uma resposta.

Eu precisava descobrir a minha enquanto falava.

Levantei-me.

Não porque Harry tivesse pedido.

Naquele tempo, havia algo em mim que considerava mais adequado responder de pé quando toda uma sala estava olhando.

— Talvez não seja possível distinguir imediatamente.

Harry permaneceu junto à mesa.

— Continue.

— Porque se a pessoa já soubesse exatamente o que o desejo significa, não existiria conflito.

Alguns estudantes começaram a escrever.

Aquilo me deixou ainda mais consciente da própria voz.

— Talvez o conflito exista justamente porque as duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo.

Harry franziu levemente a testa.

Não em desaprovação.

Em atenção.

— Quais duas coisas?

— Ela pode amar a vida que possui...

Parei.

— ...e ainda desejar alguma coisa que não existe dentro dela.

A sala ficou silenciosa.

Harry cruzou os braços.

— Isso não seria ingratidão?

A pergunta parecia propositalmente dura.

Pensei.

— Talvez.

— Só talvez?

— Depende.

— De quê?

Olhei para a palavra **AMOR** no quadro.

— De acreditarmos que amar aquilo que temos nos obriga a nunca perceber aquilo que nos falta.

Harry não se moveu.

Eu também não.

Continuei:

— Acho que as pessoas gostam de imaginar que desejos novos apagam os antigos.

— E a senhorita não acredita nisso?

— Não sei.

Parei.

— Mas não vejo por que precisariam apagar.

Harry sustentou meu olhar.

— Então uma pessoa poderia querer duas coisas contraditórias?

— As pessoas fazem isso o tempo inteiro.

Ele pareceu quase satisfeito.

— Dê-me um exemplo.

— Queremos liberdade e segurança.

Harry assentiu uma vez.

— Outro.

— Queremos ser conhecidos pelos outros e, ao mesmo tempo, esconder partes de nós mesmos.

Outra pausa.

— Outro.

Pensei em William.

Não sei por quê.

Talvez porque ele fosse a pessoa mais próxima de mim naquela época.

— Queremos que alguém nos ame como somos...

Minha voz diminuiu um pouco.

— ...mas também queremos ser aquilo que acreditamos que essa pessoa espera.

Ninguém escreveu dessa vez.

Harry continuou olhando para mim.

A resposta parecia ter conduzido a aula para um lugar que eu não planejara.

Ele perguntou:

— E onde entra o prazer?

Olhei para a palavra.

— Talvez no reconhecimento.

— Explique.

— Algumas coisas dão prazer porque satisfazem uma necessidade.

Pensei em sua explicação anterior.

— Mas outras talvez deem prazer porque nos fazem reconhecer alguma coisa em nós mesmos.

Harry permaneceu imóvel.

— Algo que já estava lá?

— Sim.

— Mesmo que não soubéssemos?

— Principalmente se não soubéssemos.

O silêncio depois daquela resposta foi diferente.

Harry não a interrompeu.

Então perguntou:

— E o amor?

Demorei mais.

— Acho que amor é mais difícil.

Alguns alunos olharam para Harry.

Ele não me salvou da pergunta.

— Por quê?

— Porque desejamos possuir aquilo que nos dá prazer.

Parei.

— Mas não sei se podemos amar verdadeiramente alguma coisa se a única maneira de mantê-la for possuí-la.

Não sei de onde tirei aquela frase.

Naquele tempo, certamente não vivia de acordo com ela.

Talvez algumas ideias apareçam em nós antes de termos coragem de reconhecê-las na própria vida.

Harry ficou alguns segundos em silêncio.

Então assentiu.

— Obrigado, senhorita Olive.

Sentei-me.

Meu coração batia mais depressa do que deveria para uma discussão acadêmica.

Harry virou-se para o quadro.

Pegou o giz.

Escreveu uma última frase:

**DESEJAR NÃO É POSSUIR.**

Depois se afastou.

— Guardem isso.

Não explicou.

A aula prosseguiu por mais vinte minutos.

Falamos sobre autocontrole, convenções sociais, repressão, escolha e a diferença entre explicar um comportamento e justificá-lo.

Harry insistiu nessa última distinção.

— Compreender não absolve.

Ele escreveu no quadro.

— Se compreendermos por que um homem cometeu uma crueldade, a crueldade não desaparece.

Virou-se para nós.

— A compreensão serve para enxergar melhor. Não para tornar tudo aceitável.

Achei importante.

Ainda acho.

Quando o relógio se aproximou das onze horas, Harry fechou o livro.

— Para a próxima aula, leiam o texto indicado sobre convenções matrimoniais no século XIX. Não estou interessado nas cerimônias. Quero que observem aquilo que a instituição regulava: propriedade, herança, reputação, sexualidade e posição social.

Começamos a guardar os materiais.

Eu fechava meu caderno quando ouvi:

— Senhorita Olive.

Parei.

Alguns estudantes olharam em minha direção.

Harry já recolhia os papéis.

— Poderia permanecer por um instante?

— Claro, professor.

Voltei a sentar.

Foi estranho observar a sala esvaziar.

As conversas desapareceram pelo corredor.

Cadeiras foram empurradas.

Passos.

Porta.

Silêncio.

Em menos de dois minutos, restávamos apenas nós dois.

Harry não fechou a porta.

Esse detalhe talvez pareça insignificante hoje.

Em 1938, não era.

Ele organizou alguns documentos enquanto eu esperava.

Não parecia procurar uma maneira de começar.

Parecia apenas terminar uma coisa antes de iniciar outra.

Por fim, olhou para mim.

— Sua resposta me impressionou.

— Obrigada.

— Não foi um elogio.

Aquilo me surpreendeu.

Harry continuou:

— Ou, pelo menos, não apenas.

Apoiei as mãos sobre o caderno.

— Não entendi.

Ele pegou algumas folhas da mesa.

— Estou trabalhando numa pesquisa há algum tempo.

Meu olhar caiu sobre os papéis.

— Sobre comportamento humano?

— Em parte.

Ele sentou-se.

— Mais especificamente sobre desejo e prazer.

Lembrei-me da aula.

— Psicologia?

— História.

A resposta veio imediatamente.

— Embora eu esteja roubando perguntas de psicólogos, médicos, filósofos, teólogos e escritores sempre que me parecem úteis.

— Isso é permitido?

Harry ergueu uma sobrancelha.

— Ainda não encontrei uma polícia acadêmica eficiente o suficiente para me impedir.

Não sorriu.

Eu também não.

Mas compreendi que aquilo era, para ele, quase humor.

Ele continuou:

— Estou tentando compreender como homens e mulheres descrevem prazer em diferentes contextos.

— Prazer sexual?

Harry não demonstrou qualquer desconforto.

— Também.

Talvez tenha sido a naturalidade da resposta que me fez prestar ainda mais atenção.

— Mas seria um erro reduzir o tema a isso.

Ele enumerou com os dedos.

— Poder. Reconhecimento. Alimento. Risco. Fé. Dor. Trabalho. Música. Afeto. Controle. Entrega. Sexualidade.

Pousou a mão.

— Coisas muito diferentes podem produzir experiências que chamamos pela mesma palavra.

— Prazer.

— Exatamente.

Ele me observou.

— E encontrei um problema.

— Qual?

— Quase tudo que possuo foi escrito por homens.

Olhei para as folhas.

Harry prosseguiu:

— Médicos homens descrevendo mulheres. Clergymen descrevendo mulheres. Juristas julgando mulheres. Maridos escrevendo sobre esposas.

Houve uma pequena pausa.

— É uma quantidade considerável de homens explicando aquilo que mulheres sentem.

Aquilo me lembrou Margareth imediatamente.

Eu ainda não sabia que ela dissera quase a mesma coisa a ele na noite anterior.

— E o senhor quer relatos de mulheres.

— Quero mais do que relatos.

Ele juntou os papéis.

— Quero alguém capaz de perceber quando estou formulando uma pergunta da maneira errada.

Olhei para ele.

— E acha que eu posso fazer isso?

— Não sei.

Harry foi sincero demais para me agradar gratuitamente.

— Por isso estou perguntando se gostaria de tentar.

Meu interesse cresceu.

— O que eu teria de fazer?

Ele abriu uma pasta.

Havia cópias de cartas, excertos de diários e fichas datilografadas.

— Ler.

Passei os olhos pelos documentos.

— Tudo isso?

— Isso é uma parte muito pequena.

— Naturalmente.

Ele prosseguiu:

— Classificar temas. Fazer observações. Identificar contradições. Principalmente, questionar minhas interpretações quando lhe parecerem excessivamente masculinas.

Olhei para Harry.

— Excessivamente masculinas?

— Foi a expressão de minha esposa.

Margareth.

Só ouvir a referência a ela despertou minha atenção de maneira que eu preferi não examinar.

— A professora Harrison participa da pesquisa?

— Frequentemente.

Harry pegou uma página marcada em lápis.

— Com bastante crueldade.

— Crueldade?

— Intelectual.

Ele me mostrou um parágrafo praticamente coberto por correções.

Reconheci uma caligrafia firme nas margens.

Não precisei perguntar de quem era.

Harry disse:

— Margareth tem pouca paciência com argumentos mal construídos.

— Percebi.

Ele levantou os olhos.

— Já teve aula com ela.

— Ontem.

— E?

A pergunta parecia simples.

Minha resposta não veio tão rapidamente.

— Ela é...

Procurei uma palavra.

Harry esperou.

— Impressionante.

Ele me observou por um instante.

Não houve surpresa.

— É.

A maneira como respondeu dizia mais do que a palavra.

Não era orgulho possessivo.

Era reconhecimento.

Como se Harry estivesse perfeitamente à vontade diante da grandeza da própria esposa.

Ele fechou a pasta.

— Então?

Voltei ao assunto.

— Sobre a pesquisa?

— Sim.

Olhei novamente para os documentos.

Eu deveria ter perguntado quanto tempo exigiria.

Se interferiria nas outras disciplinas.

Se receberia algum crédito acadêmico.

Talvez uma pessoa mais prudente perguntasse tudo isso primeiro.

Eu perguntei:

— A professora Harrison estará envolvida?

Harry me olhou.

Demorou apenas um segundo.

— Provavelmente.

Não sei se ele percebeu a rapidez com que respondi.

— Então gostaria.

Harry inclinou levemente a cabeça.

— Apenas por isso?

Senti alguma coisa parecida com constrangimento.

— Não.

Ele esperou.

— A pesquisa parece interessante.

— Melhor resposta.

Pegou uma folha limpa.

— Há algumas condições.

Começou a escrevê-las enquanto falava.

— Parte do material é privada. Nomes serão removidos quando necessário. Nada sai deste escritório sem autorização. Se alguma leitura a deixar desconfortável, não precisa continuar.

— Entendo.

— E não quero respostas que suponha que eu gostaria de ouvir.

— Isso parece improvável.

Harry ergueu os olhos.

Talvez aquela tenha sido a primeira vez que o surpreendi fora de uma aula.

— Por quê?

— Sua esposa corrige seus textos.

Houve silêncio.

— Imagino que o senhor já esteja acostumado a ouvir respostas de que não gosta.

Harry ficou alguns segundos me observando.

Então, muito discretamente, sorriu.

Foi pequeno.

Quase inexistente.

E desapareceu depressa.

— Quinta-feira.

— Perdão?

— Quatro horas. Meu escritório no departamento de História.

Ele me entregou a folha.

— Começaremos por correspondências do final do século passado.

Levantei-me.

— Estarei lá.

Recolhi meus livros.

Antes de chegar à porta, Harry falou novamente.

— Senhorita Olive.

Virei-me.

Ele tinha voltado aos papéis.

— Professor?

— Aquela resposta sobre amor.

Esperei.

Ele levantou os olhos.

— De onde veio?

Pensei.

— Não sei.

— Tente descobrir.

Franzi a testa.

— Faz parte da pesquisa?

Harry tornou a abrir o livro diante dele.

— Talvez.

Saí.

O corredor estava quase vazio.

Apertei os livros contra o peito e caminhei em direção às escadas.

Naquele instante, eu acreditava ter acabado de aceitar participar de uma pesquisa acadêmica.

Era verdade.

Só não era toda a verdade.

Aquela pesquisa colocaria Harry e eu diante das mesmas perguntas durante meses.

Levaria Margareth e eu para muito além daquela sala de Literatura.

E faria com que nós três examinássemos, primeiro nos livros e depois em nós mesmos, coisas para as quais nenhuma pesquisa nos prepararia.

Mas naquela manhã eu não pensava em Harry dessa maneira.

Ainda não.

Quando desci as escadas, era Margareth que me veio à cabeça.

A perspectiva de encontrá-la novamente.

De ouvi-la discutir aquelas páginas.

De vê-la inclinar-se sobre um texto e dizer, com aquela firmeza tranquila, que alguma ideia estava errada.

Foi por ela que senti curiosidade primeiro.

Harry apenas abrira a porta.

Eu ainda não sabia para onde ela levava.

Capítulo 5

O que se revela quando alguém observa

Na manhã seguinte, voltei à aula de Margareth Harrison com uma disposição diferente.

Não porque alguma coisa entre nós tivesse mudado.

Ainda não havia nada entre nós.

Mas Harry me convidara para participar de sua pesquisa, e a simples ideia de trabalhar em algo que também passaria pelas mãos de Margareth fizera com que eu pensasse nela mais vezes naquela noite do que teria admitido a William.

Talvez fosse apenas curiosidade.

Naquela época, eu ainda utilizava essa palavra com bastante liberdade.

Curiosidade explicava quase tudo aquilo que eu ainda não estava preparada para compreender.

Cheguei alguns minutos antes do horário.

Margareth já estava na sala.

Desta vez não lia.

Estava de pé junto ao quadro, organizando algumas anotações enquanto os alunos ocupavam seus lugares. Vestia um conjunto escuro, de corte simples, com uma blusa clara por baixo. Os cabelos estavam presos com a mesma precisão que parecia existir em tudo nela.

Sentei-me no meio da sala.

Abri o caderno.

E esperei.

Quando o relógio marcou onze horas, Margareth colocou as folhas sobre a mesa.

— Na última aula falamos sobre aquilo que um personagem não consegue admitir a respeito de si mesmo.

Algumas canetas começaram a correr.

A minha também.

— Hoje gostaria que avançássemos um pouco.

Ela escreveu no quadro:

O AUTOR E AQUILO QUE NÃO ESCREVE

Margareth virou-se.

— Há uma ideia bastante ingênua de que um escritor coloca tudo aquilo que deseja dizer dentro de um livro.

Caminhou lentamente diante da mesa.

— Não coloca.

Fez uma pausa.

— Nenhum escritor coloca.

Olhei para ela.

— Parte da literatura existe justamente no que foi deixado de fora.

Escrevi.

Margareth continuou:

— Uma personagem entra numa sala e não fala com determinado homem.

Outra anotação no quadro.

— Uma mulher recebe uma carta e a guarda sem abri-la.

Outra.

— Um marido percebe alguma coisa no comportamento da esposa e decide não perguntar.

Margareth deixou o giz sobre a borda.

— O leitor comum pergunta: “O que aconteceu?”

Olhou para nós.

— O leitor atento pergunta: “Por que o autor escolheu não me contar?”

Uma aluna levantou a mão.

— Mas isso não pode ser apenas falta de informação?

— Pode.

— Então como saber a diferença?

Margareth inclinou ligeiramente a cabeça.

— Não sabendo imediatamente.

A resposta fez alguns alunos interromperem a escrita.

— Literatura não deve entregar tudo ao leitor no instante em que ele deseja.

Ela passou os olhos pela turma.

— Se entregar, não haverá leitura. Haverá apenas informação.

Aquela frase me interessou.

Anotei-a inteira.

Margareth começou então a falar de Henry James, daquilo que uma consciência limitada podia ou não perceber, e depois de Virginia Woolf, cuja obra explorava os movimentos mais discretos do pensamento de maneiras que, segundo ela, exigiam que o leitor deixasse de procurar apenas acontecimentos.

— Uma vida não é formada somente pelas coisas que fazemos — explicou. — Também é formada pelas coisas que quase fizemos.

Silêncio.

— Pelas palavras que não dissemos.

Outra pausa.

— Pelas pessoas que observamos sem permitir que percebessem.

Minha caneta parou por uma fração de segundo.

Não levantei os olhos.

Continuei escrevendo.

Foi provavelmente por isso que só muito mais tarde me perguntei se Margareth me observava naquele momento.

Hoje não posso afirmar.

Seria fácil demais transformar cada frase dela num aviso do futuro.

E Margareth jamais precisou fazer isso.

Ela tinha literatura suficiente para nos inquietar sem qualquer intenção particular.

— É por esse motivo — continuou — que desejo que parem de confundir ação com significado.

Pegou um livro da mesa.

— Um beijo pode significar amor.

Virou uma página.

— Pode significar culpa.

Outra.

— Despedida.

Fechou o livro.

— Medo.

Olhou para nós.

— Ou absolutamente nada.

O rapaz que se sentava duas fileiras à minha frente levantou a mão.

— Então o significado depende do personagem?

— Do personagem, do momento, da relação e daquilo que o escritor construiu antes.

Margareth caminhou para o centro da sala.

— Um gesto isolado é apenas um gesto.

Ela tocou levemente a mesa com os dedos.

— O significado nasce daquilo que o antecede.

A aula prosseguiu dessa maneira.

Eu escrevi quase tudo.

Naquela época, eu possuía o hábito de tentar registrar as palavras de Margareth exatamente como eram ditas. Não fazia o mesmo com todos os professores.

Com ela, fazia.

Talvez porque suas frases parecessem já chegar organizadas.

Margareth não pensava em voz alta.

Ela pensava antes.

Quando falava, aquilo que chegava até nós já havia passado por algum lugar interior onde tudo era pesado, retirado ou mantido.

Perto do fim da aula, ela voltou ao quadro.

— Há outra coisa que quero que levem com vocês.

Escreveu:

OBSERVAR NÃO É O MESMO QUE JULGAR

Fiquei imóvel.

Aquela ideia já aparecera em nossa aula anterior.

Mas dessa vez ela a aprofundou.

— Um escritor medíocre observa uma pessoa até encontrar aquilo que confirma o que já pensava sobre ela.

Margareth colocou o giz sobre a mesa.

— Um escritor sério observa até descobrir alguma coisa que contrarie sua primeira impressão.

Passou os olhos pela sala.

— Se um personagem nunca surpreende seu autor, provavelmente o autor não o conheceu suficientemente.

Uma aluna perguntou:

— Isso também vale para pessoas reais?

Margareth permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— Pessoas reais são consideravelmente mais difíceis.

Alguns alunos sorriram.

Margareth não.

— Mas sim.

Ela cruzou as mãos diante do corpo.

— Talvez ainda mais.

Aquela resposta eu também anotei.

Quando a aula terminou, havia seis páginas preenchidas no meu caderno.

Margareth avisou sobre uma leitura para a semana seguinte, fechou suas anotações e permaneceu junto à mesa enquanto todos começavam a sair.

William não frequentava aquela disciplina naquele horário.

Eu estava sozinha.

Guardei o caderno.

Coloquei a caneta na bolsa.

Esperei duas alunas passarem pelo corredor entre as carteiras antes de me levantar.

Quando cheguei próxima à porta, ouvi:

— Senhorita Olive.

Parei.

Meu primeiro pensamento foi que havia esquecido novamente alguma coisa.

Olhei para a carteira.

Nada.

Virei-me.

Margareth estava de pé atrás da mesa.

— Poderia esperar um instante?

— Claro, professora.

Voltei alguns passos.

Os dois últimos estudantes saíram.

A porta permaneceu aberta.

Margareth esperou até que o som deles desaparecesse pelo corredor.

Depois pegou algumas folhas da mesa e as alinhou uma sobre a outra.

— Fiquei sabendo que ajudará Harry com a pesquisa dele.

Foi estranho ouvi-la dizer o nome do marido daquela forma.

Não “professor Harrison”.

Harry.

Naturalmente, era seu marido.

Ainda assim, aquilo colocou os dois dentro de uma intimidade da qual eu não fazia parte.

— Sim.

Ela levantou os olhos.

Alguma coisa em sua maneira de me observar fez com que eu acrescentasse depressa:

— Mas, se a senhora não concordar, naturalmente não farei.

Margareth permaneceu imóvel.

— Perdão?

Percebi que falara rápido demais.

— Eu apenas quis dizer que aceitei porque achei a pesquisa interessante. E porque gostaria de ajudar. Mas, se houver algum inconveniente...

Minha voz diminuiu.

— ...posso dizer ao professor Harrison que prefiro não participar.

Margareth continuou olhando para mim.

Não parecia ofendida.

Parecia tentando compreender alguma coisa.

— Senhorita Olive.

— Sim?

— Por que está com tanto receio?

A pergunta me pegou desprevenida.

— Não estou.

Margareth inclinou ligeiramente a cabeça.

Foi suficiente.

— Talvez um pouco.

— De mim?

Não respondi imediatamente.

Margareth esperou.

— Não exatamente.

— Essa resposta geralmente significa sim.

Baixei os olhos por um momento.

— Eu apenas não gostaria que a senhora pensasse que estou me intrometendo em alguma coisa.

— Na pesquisa de meu marido?

— Sim.

Margareth apoiou uma das mãos sobre a mesa.

— Harry não costuma convidar pessoas para trabalhar com ele sem uma razão.

Olhei para ela.

— Ele disse que minha resposta em aula o interessou.

— Imagino.

Margareth fez uma pequena pausa.

— Também me parece o tipo de coisa que faria Harry notar alguém.

Havia alguma coisa naquela frase que me deixou ainda mais consciente da própria postura.

— Então a senhora não se incomoda?

— Senhorita Olive, se eu me incomodasse, teria dito.

A resposta foi tão simples que me senti ligeiramente tola.

Margareth percebeu.

Sua voz se tornou menos rígida.

— Não precisa pedir autorização para aceitar uma oportunidade acadêmica que lhe foi oferecida por mérito.

A palavra mérito ficou comigo.

— Compreendo.

Ela me observou mais alguns segundos.

Então disse:

— Na verdade, gostaria de lhe fazer outro convite.

Levantei os olhos.

— A mim?

— Sim.

Margareth contornou a mesa.

— Pretendo passar parte da tarde de sábado no campo. Existe uma propriedade não muito distante de Westbridge onde costumamos caminhar quando o tempo permite.

Ela permaneceu a uma distância perfeitamente formal de mim.

— Gostaria que viesse tomar chá conosco.

Não respondi imediatamente.

Margareth percebeu a surpresa.

— Não precisa parecer tão alarmada.

— Não estou alarmada.

— Hoje está utilizando essa frase com frequência.

Senti o rosto aquecer.

— Apenas não esperava.

— Naturalmente.

Ela cruzou as mãos.

— O convite não foi feito por obrigação.

Esperei.

Margareth continuou:

— Você me despertou interesse acadêmico.

A frase foi dita sem hesitação.

Eu deveria ter ficado satisfeita apenas com aquilo.

Mas ela continuou.

— Há alunos que respondem bem porque aprenderam rapidamente o que o professor espera ouvir.

O olhar dela se tornou mais atento.

— Outros respondem bem porque possuem boa memória.

Mais uma pausa.

— Você faz algo diferente.

Não sabia o que dizer.

Margareth parecia não precisar de resposta.

— Durante minhas aulas, você frequentemente deixa de escrever antes dos outros.

Olhei para meu caderno, quase por reflexo.

— Achei que anotasse demais.

— Anota.

Ela prosseguiu:

— Mas para quando alguma coisa lhe interessa verdadeiramente.

Fiquei quieta.

Margareth havia percebido aquilo.

Eu mesma não tinha.

— Primeiro olha para quem está falando — continuou. — Depois volta para o papel.

Seus olhos permaneceram nos meus.

— Como se não estivesse interessada apenas na frase.

Senti meu coração mudar discretamente de ritmo.

— Não compreendo.

— Está tentando compreender de onde ela veio.

A resposta saiu baixa:

— Talvez.

— Não é muito comum.

Margareth afastou-se alguns passos e pegou um dos meus ensaios da pilha que estava sobre a mesa.

Reconheci meu nome no canto superior.

Ela o abriu.

— Seu texto também faz isso.

— Já leu?

— Sou sua professora.

Naturalmente havia lido.

Ainda assim, alguma parte de mim gostou de saber.

Margareth passou algumas páginas.

— A maioria escolheu responder à pergunta da maneira mais segura possível.

— E eu não?

— Você escolheu uma personagem que não sabe se está mentindo para os outros ou apenas protegendo a versão de si mesma que deseja preservar.

Ela fechou o ensaio.

— Isso é consideravelmente mais interessante.

— É bom?

Margareth me olhou.

— Ainda há problemas.

Minha satisfação desapareceu tão rapidamente que provavelmente ela percebeu.

— Mas são problemas de escrita.

Ela colocou o trabalho sobre a mesa.

— Não de pensamento.

Não sei por que aquilo significou tanto.

Talvez porque eu já soubesse que Margareth não distribuía elogios apenas para tornar alunos felizes.

— Obrigada.

— Não agradeça ainda. Há bastante coisa marcada nas margens.

Olhei para o trabalho.

— Imagino.

— Mas existe uma diferença entre ensinar alguém a escrever melhor e tentar ensiná-la a pensar.

Margareth voltou a me observar.

— A primeira coisa é possível.

Uma pausa.

— A segunda, raramente.

Engoli em seco.

— E acha que sei pensar?

— Acho que está aprendendo a não aceitar a primeira resposta que encontra.

Ela disse isso com tanta naturalidade que levou alguns segundos para que eu percebesse o elogio escondido ali.

— É exatamente por isso que gostaria de conversar com você fora da sala.

Margareth voltou ao convite.

— Sem quadro-negro. Sem vinte pessoas anotando cada frase.

Olhei para ela.

— Será um prazer.

— Pode levar o senhor Evans, se desejar.

A menção a William produziu em mim uma sensação estranha.

Não desagradável.

Apenas inesperada.

Talvez porque, por alguns segundos, eu tivesse esquecido que ele existia fora daquela sala.

— William?

— Seu namorado.

— Sim. Naturalmente.

Margareth continuou:

— Não quero colocá-la numa situação que possa ser interpretada de maneira inadequada.

Aquilo era muito 1938.

E muito Margareth.

Ela podia desafiar ideias em sala, mas compreendia perfeitamente o peso que certas aparências possuíam fora dela.

— Além disso — acrescentou —, ele parece interessado em História. Harry provavelmente terá prazer em interrogá-lo até que o rapaz se arrependa de ter escolhido política.

Não consegui evitar uma pequena mudança no rosto.

Margareth percebeu.

Se achou graça, não demonstrou.

— Gostaria muito de ir — respondi. — É uma gentileza que muito me honra.

A expressão pareceu agradá-la mais do que “fico lisonjeada” teria agradado.

— Ótimo.

Hesitei.

— Gostaria que eu levasse alguma coisa para o chá?

Margareth franziu levemente a testa.

— Não.

— Posso levar bolo ou...

— Senhorita Olive.

Parei.

— Estou convidando você.

A firmeza veio acompanhada de uma tranquilidade quase maternal, embora não houvesse nada de maternal na maneira como eu a via.

— Não precisa trazer nada.

— Certo.

— Apenas venha.

Aquela frase foi simples demais para permanecer comigo tanto tempo.

Mas permaneceu.

Apenas venha.

— A que horas?

— Duas.

— Da tarde?

Margareth levantou uma sobrancelha.

— Eu ficaria bastante surpresa se aparecesse às duas da manhã.

Senti-me ridícula.

— Naturalmente.

Ela não sorriu.

Mas seus olhos mudaram por um segundo.

Só um.

— Às duas está ótimo.

— Estarei lá.

Margareth pegou uma pequena folha e escreveu o endereço.

Sua letra era firme, ligeiramente inclinada, quase tão disciplinada quanto ela.

Estendeu-me o papel.

Quando peguei, nossos dedos não se tocaram.

Naquele tempo eu teria dito que isso não tinha importância.

Hoje talvez diga a mesma coisa.

Nem tudo precisa ser transformado em símbolo.

— Obrigada, professora Harrison.

— Margareth está bem fora da universidade.

Olhei para ela.

A frase foi tão inesperada que pensei ter ouvido errado.

— Perdão?

— No campo.

Ela guardou a caneta.

— Não haverá necessidade de “professora Harrison” durante toda a tarde.

Meu olhar permaneceu sobre ela.

— Entendo.

— Aqui, naturalmente, continuamos como antes.

— Claro.

A distinção era clara.

E necessária.

Ainda assim, sair daquela sala sabendo que, em dois dias, talvez pudesse chamá-la simplesmente de Margareth produziu em mim uma satisfação que não soube explicar.

— Até sábado, então.

— Até sábado, senhorita Olive.

Cheguei à porta.

Parei por um segundo.

— Bella.

Margareth ergueu os olhos.

Eu quase me arrependi imediatamente.

— Se fora da universidade a senhora será Margareth...

Minha coragem diminuiu pela metade.

— ...suponho que senhorita Olive também possa descansar por algumas horas.

Margareth me observou.

Longamente o suficiente para que eu me perguntasse se havia ultrapassado alguma fronteira.

Então respondeu:

— Bella, portanto.

Foi a primeira vez que ouvi meu nome na voz dela.

É absurdo o que a memória escolhe guardar.

Guerras terminam.

Governos caem.

Casas são vendidas.

Pessoas que juramos jamais esquecer começam a perder os contornos do rosto.

Mas uma mulher pronuncia nosso nome de determinada maneira quando temos vinte e três anos e, décadas depois, ainda conseguimos ouvi-la.

— Até sábado — respondi.

Saí.

Caminhei pelo corredor tentando manter a mesma expressão que tinha ao entrar.

Não consegui.

Havia um sorriso pequeno no canto da minha boca.

Discreto o bastante para que ninguém pudesse perguntar a razão.

Talvez nem eu soubesse.

Desci as escadas.

Atravessei o pátio.

E só quando alcancei os portões de Westbridge retirei novamente o papel da bolsa.

O endereço estava ali.

A letra de Margareth.

Sábado.

Duas da tarde.

Pensei que deveria contar a William.

Naturalmente contaria.

Ela o havia convidado também.

Mas, enquanto caminhava para casa naquela manhã, não pensei primeiro em William.

Pensei no campo.

No chá.

Na pesquisa de Harry.

E naquela mulher que, depois de apenas duas aulas, percebera algo em mim que eu mesma ainda não havia percebido:

eu não observava apenas palavras.

Observava quem as dizia.

Talvez Margareth tivesse entendido isso tão rapidamente porque fazia exatamente a mesma coisa.

E talvez tenha sido naquele dia que comecei a sentir algo muito específico quando pensava nela.

Ainda não era desejo.

Muito menos amor.

Era uma vontade simples e persistente.

Eu queria ser observada por ela novamente.

Capítulo 6

Aquilo que começa antes de receber um nome

Quando penso naquele sábado, lembro-me primeiro da cor azul.

Não do céu.

Do meu vestido.

Talvez porque eu tenha passado tempo demais escolhendo-o naquela manhã.

Na época, naturalmente, disse a mim mesma que a preocupação era simples: eu havia sido convidada para tomar chá com dois de meus professores fora de Westbridge. Margareth Harrison era uma escritora conhecida. Harry Harrison era um acadêmico respeitado. Seria inadequado aparecer vestida como se estivesse indo apenas passear com William.

Essa explicação me pareceu perfeitamente razoável.

E talvez parte dela fosse verdadeira.

Mas, muitos anos depois, aprendi que podemos construir justificativas muito convincentes quando ainda não desejamos admitir para quem queremos parecer bonitas.

Escolhi um vestido azul-escuro.

Não era extravagante. Tinha a cintura marcada, mangas discretas e comprimento adequado para uma tarde no campo. Minha mãe provavelmente o teria chamado de sóbrio. Eu gostava dele justamente porque não precisava chamar atenção para que uma mulher se sentisse bem dentro dele.

William chegou pouco antes de partirmos.

Olhou-me da cabeça aos pés.

— Está elegante.

— Isso é aprovação?

— É observação.

— Conviver com professores está afetando você.

Ele ajeitou a gravata.

— Harrison aprovaria a precisão.

— Margareth também.

William me olhou.

— Margareth?

Demorei um segundo para entender.

— Professora Harrison.

— Agora é Margareth?

— Ela mesma disse que fora da universidade não seria necessário tratá-la pelo título.

William levantou discretamente uma sobrancelha.

— Entendo.

— Não há nada para entender.

— Eu não disse que havia.

Peguei minhas luvas.

— Então não faça essa expressão.

— Que expressão?

— Exatamente essa.

William sorriu.

Não insisti.

Naquela época, pequenos incômodos entre nós ainda desapareciam com facilidade.

---

A propriedade ficava além das ruas mais movimentadas próximas a Westbridge, numa região de campos abertos interrompidos por pequenas fileiras de árvores, caminhos estreitos e cercas baixas de pedra.

Não era uma propriedade dos Harrison.

Descobri depois que pertencia a um antigo colega de Harry que raramente a utilizava fora do verão e permitia que eles caminhassem por ali quando desejassem distância da universidade.

Havia uma casa menor ao fundo, quase escondida por árvores, mas Harry e Margareth haviam escolhido uma parte aberta do campo, próxima a uma grande faia.

Vi os dois antes que eles nos vissem.

Ou, pelo menos, antes que eu percebesse que nos tinham visto.

Harry estava de pé próximo a uma cesta de vime.

Usava um terno marrom muito bem cortado, menos formal do que os ternos escuros com que aparecia nas aulas. Sem a mesa de professor diante dele e sem o quadro-negro às costas, parecia diferente.

Mais jovem, talvez.

Ou simplesmente mais humano.

Margareth estava alguns passos adiante.

Foi nela que meus olhos ficaram.

Vestia azul.

Não exatamente o mesmo tom que eu.

O dela era um pouco mais profundo, quase marinho, e o vestido possuía uma elegância que eu jamais conseguiria atribuir apenas ao tecido. Tinha mangas compridas e linhas simples, ajustadas ao corpo sem ostentação.

Na cabeça, um chapéu de aba moderada, impecavelmente colocado.

O vento movimentava discretamente parte de seus cabelos junto à nuca.

Eu parei de ouvir o que William dizia.

Não literalmente.

Apenas deixei de compreender.

Margareth virou-se em nossa direção.

E então nossos olhos se encontraram.

Dessa vez, eu não desviei imediatamente.

Continuamos caminhando.

Eu deveria ter olhado para Harry.

Ou para onde pisava.

Ou para William, que dizia alguma coisa ao meu lado.

Não fiz nenhuma dessas coisas.

Continuei olhando para Margareth.

Hoje posso admitir isso sem dificuldade.

Na época, não poderia.

Quanto mais nos aproximávamos, mais detalhes eu percebia.

A firmeza com que permanecia de pé.

As luvas claras em uma das mãos.

O pequeno broche preso próximo à gola.

A maneira como o chapéu deixava parte de seu rosto na sombra.

E os olhos.

Sempre os olhos.

Quando chegamos até eles, minha educação abandonou-me por alguns segundos.

— Está linda, senhora Margareth.

Assim.

Sem preparação.

Sem pensar.

William virou discretamente o rosto para mim.

Harry também.

Só depois que as palavras já estavam no ar percebi o que havia feito.

Margareth não demonstrou surpresa imediatamente.

Olhou para mim.

Depois para meu vestido.

E novamente para meu rosto.

— Igualmente, senhorita Olive.

Sua voz permaneceu perfeitamente controlada.

Mas havia algo diferente em seus olhos.

Uma espécie de atenção mais demorada.

Harry olhou de uma para a outra.

— Ora, quanta formalidade.

Margareth voltou os olhos para o marido.

— Estamos fora da universidade — continuou ele. — Se prosseguirem assim, acabaremos exigindo que alguém anuncie nossa chegada.

Senti meu rosto aquecer.

Margareth, naturalmente, permaneceu intacta.

Harry estendeu a mão para William.

— Evans.

— Professor Harrison.

Apertaram as mãos.

William endireitou ligeiramente a postura.

— Agradeço o convite.

— Minha esposa foi responsável por ele. Eu apenas fui informado de que receberíamos companhia.

Margareth olhou para Harry.

— E sobreviveu à notícia.

— Com dificuldade.

Não havia sorriso aberto entre eles.

Mas alguma coisa passava de um para o outro com facilidade.

Intimidade.

Conhecimento.

A certeza de que nenhum dos dois precisava demonstrar ao mundo aquilo que o outro já sabia.

Virei-me para Margareth.

— Senhora Margareth, este é William Evans, meu...

Ela me interrompeu antes que eu terminasse.

— Não é necessário, senhorita Olive.

Olhou para William.

— Afinal, ele está na mesma turma que você, não está?

Pisquei.

— É verdade.

Então baixei os olhos por um instante.

— Perdi-me por um momento.

A frase escapou antes que eu pudesse detê-la.

Quando levantei os olhos novamente, Margareth ainda estava me observando.

Não perguntou onde.

Talvez fosse melhor assim.

— Venham — disse ela. — Antes que Harry transforme isto numa recepção acadêmica.

---

Estendemos um grande lençol sobre a relva.

Harry insistiu em fazê-lo sozinho.

William tentou ajudar.

Os dois acabaram abrindo o tecido em direções opostas e, por alguns segundos, Margareth e eu apenas observamos.

Foi ela quem disse:

— Dois homens instruídos derrotados por um pedaço de linho.

Harry olhou para ela.

— Estamos analisando a estrutura.

— Naturalmente.

Eu abaixei o rosto para esconder um sorriso.

Margareth viu.

Não comentou.

Quando finalmente nos sentamos, ela abriu a cesta.

Havia pequenos sanduíches, pão, queijo, frutas, bolo simples e um serviço de chá cuidadosamente preparado em recipientes próprios para viagem.

Nada excessivo.

Tudo organizado.

Isso também era Margareth.

Harry sentou-se com uma das pernas dobradas.

William ficou próximo dele.

Margareth estava à minha frente, ligeiramente de lado.

Demorei algum tempo para perceber que havia escolhido uma posição da qual podia vê-la sem parecer que estava olhando diretamente para ela.

Naquela tarde, começamos falando de literatura.

Naturalmente.

Margareth perguntou qual obra eu escolhera para o ensaio seguinte.

— Ainda não decidi.

— Isso costuma significar que decidiu e não está satisfeita com a escolha.

Olhei para ela.

— Como sabe?

— Porque faço o mesmo antes de começar um romance.

Harry interrompeu:

— Durante semanas.

Margareth não se virou.

— Ninguém pediu sua contribuição.

— Estou oferecendo evidência histórica.

William olhou de um para o outro.

— A senhora sempre demora para escolher sobre o que escrever?

Margareth finalmente voltou-se para ele.

— Não.

— Então?

— Demoro para descobrir sobre o que realmente estou escrevendo.

William pareceu interessado.

— Não é a mesma coisa?

— Quase nunca.

Ela pegou a xícara.

— Um escritor pode começar acreditando que está escrevendo sobre um casamento e descobrir que está escrevendo sobre medo.

Tomou um pequeno gole.

— Ou acreditar que escreve sobre ambição quando, na verdade, escreve sobre vergonha.

Olhei para ela.

— Então o tema aparece depois?

— Às vezes.

— Isso não a incomoda?

Margareth colocou a xícara no pires.

— Muito.

Esperei.

— E mesmo assim continua?

— Especialmente por isso.

Harry olhou para mim.

— Margareth não confia em livros que obedecem demais ao autor.

— Nem em alunos que respondem depressa demais — acrescentei.

Ela me olhou.

— Está aprendendo.

Aquelas duas palavras provocaram em mim uma satisfação desproporcional.

William entrou na conversa:

— Talvez isso também aconteça com política.

Harry voltou-se imediatamente para ele.

— Em que sentido?

Eu conhecia William o suficiente para reconhecer o instante em que seu interesse fora capturado.

Ele ajeitou-se.

— Um homem pode entrar na política acreditando que deseja servir ao país e depois descobrir que desejava poder.

Harry ficou atento.

— Ou o contrário.

— Naturalmente.

— Por que “naturalmente”?

William pensou.

— Porque seria ingênuo considerar toda ambição política corrupta.

Harry assentiu.

— Concordo.

A conversa mudou de direção quase imediatamente.

William começou a falar sobre Parlamento, liderança, responsabilidade pública e sua intenção de, um dia, participar da vida política nacional.

Harry não o tratava como um jovem sonhador.

Isso agradava William.

Fazia perguntas reais.

Difíceis.

— Por que deseja entrar para a política?

William respondeu:

— Porque decisões importantes são tomadas por homens que possuem influência.

— Isso explica por que alguém deseja influência.

Harry pegou a xícara.

— Não por que deveria recebê-la.

William ficou em silêncio.

Eu olhei para Margareth.

Ela também observava os dois.

Harry continuou:

— História está cheia de homens convencidos de que suas intenções justificavam sua autoridade.

— Então o senhor acredita que ambição política é perigosa?

— Acredito que qualquer pessoa que deseje poder deveria perguntar frequentemente a si mesma por quê.

William não pareceu ofendido.

Pelo contrário.

Incluiu-se ainda mais na discussão.

— E se a resposta for fazer algo útil?

— Pergunte novamente.

— Quantas vezes?

— Até começar a desconfiar da própria resposta.

William sorriu discretamente.

— Isso tornaria impossível uma carreira política.

— Talvez tornasse algumas melhores.

A partir dali, perdi boa parte da conversa.

Não porque fosse desinteressante.

Harry falava com uma clareza impressionante sobre a maneira como homens utilizavam o passado para justificar aquilo que desejavam fazer no presente. William argumentava que um político precisava aprender História justamente para não repetir erros.

Harry respondeu:

— O problema é que todos gostam de aprender com a História quando ela concorda com eles.

William ficou pensativo.

— E quando não concorda?

— Chamam de exceção.

Margareth inclinou-se discretamente na minha direção.

— Pronto.

Olhei para ela.

— Perdão?

Ela observou os dois homens.

— Perdemos ambos.

— Para a política?

— Para si mesmos.

Tentei conter o sorriso.

Margareth aproximou a xícara dos lábios.

— Homens.

Parei.

Ela continuou:

— Não sabem conversar sobre outra coisa quando alguém menciona política.

Olhei para Harry e William.

Os dois estavam tão concentrados que provavelmente poderíamos ter nos levantado e ido embora.

— O professor Harrison fala muito sobre política em casa?

— Harry fala sobre História.

Margareth apoiou a xícara.

— O problema é que, segundo ele, tudo acaba sendo História cedo ou tarde.

Ouvi Harry dizer ao fundo:

— Não é suficiente conhecer o passado, Evans. É preciso resistir à tentação de usá-lo como testemunha de defesa das próprias opiniões.

William respondeu alguma coisa.

Margareth voltou-se completamente para mim.

— Deixe-os.

E, pela primeira vez naquela tarde, tive a sensação de que estávamos numa conversa separada.

Apenas nós duas.

O campo parecia maior ao redor.

O vento movimentava a relva.

Por alguns segundos, não ouvi Harry nem William.

Só ela.

Margareth pegou uma das frutas da cesta.

— Como conheceu o senhor Evans?

A pergunta era simples.

Ainda assim, olhei para William antes de responder.

— Na universidade.

— Aqui?

— Sim. No primeiro ano.

Margareth esperou.

Percebi que não desejava apenas a versão curta.

— Foi numa palestra.

— Sobre?

— Política.

Ela olhou discretamente para William.

— Naturalmente.

Dessa vez sorri.

— Ele fez uma pergunta ao palestrante que tomou quase mais tempo do que a resposta.

— Isso também me parece coerente.

— Achei-o pretensioso.

— E agora namora com ele.

— Sim.

Margareth levantou uma sobrancelha.

— A literatura teria dificuldades em tornar essa progressão convincente sem algumas páginas intermediárias.

— Existem.

— Conte.

Foi estranho.

Não era exatamente uma pergunta de professora.

Também não parecia curiosidade indiscreta.

Margareth apenas desejava saber.

E eu quis contar.

— Depois da palestra, ele veio falar comigo.

— Mesmo depois de você considerá-lo pretensioso?

— Eu não disse a ele.

— Ah.

— Apenas pensei.

— Isso costuma preservar muitas relações.

Continuei:

— Ele perguntou por que eu discordara da pergunta dele.

— E você havia discordado?

— Fiz uma expressão.

Margareth me olhou.

— Que expressão?

— Não sei.

— Imagino que fosse bastante clara.

— William também achou.

Contei que discutíramos por quase vinte minutos num corredor. Que ele me acompanhara até a biblioteca apenas para continuar defendendo o argumento. Que nos encontramos novamente dias depois. Depois outra vez.

— Ele começou a reservar lugar para mim nas palestras — disse.

— Romântico.

Não consegui decidir se Margareth estava sendo irônica.

— À maneira dele.

— E à sua?

A pergunta veio tão naturalmente que demorei para respondê-la.

— À minha?

— Sim.

— Não sei.

Margareth manteve os olhos em mim.

— Nunca pensou?

— Não dessa forma.

— Interessante.

— Por quê?

Ela desviou os olhos para o campo.

— Pessoas costumam saber com bastante precisão como desejam ser amadas.

— A senhora sabe?

Margareth voltou a olhar para mim.

Foi a primeira vez que tive consciência clara de ter feito uma pergunta pessoal demais.

— Perdão.

— Não precisa se desculpar.

Ela pensou.

— Acho que aprendi.

— Com Harry?

— Em parte.

Olhei para ele.

Continuava discutindo com William.

— Como vocês se conheceram?

Margareth acompanhou meu olhar.

E houve uma mudança quase imperceptível em sua expressão.

Não suavidade exatamente.

Algo mais íntimo.

— Por causa de um livro.

Aquilo me pareceu tão adequado que quase ri.

— Seu?

— Meu primeiro.

— Ele já havia sido publicado?

— Ainda não.

Agora eu estava completamente interessada.

Margareth colocou a xícara sobre o pires.

— Eu tinha vinte e seis anos.

Por alguns segundos, parecia olhar para outro lugar.

Não para o campo.

Para o passado.

— E estava escrevendo um romance que eu considerava extraordinário.

— Não era?

— Era péssimo.

Olhei para ela, surpresa.

Margareth manteve-se séria.

— Muito ruim.

— Não acredito.

— Não precisa acreditar. Eu estava lá.

Quase sorri.

Ela continuou:

— Mas continha uma ideia que ainda me interessava. Era sobre uma família que sobrevivia a uma guerra e depois passava anos fingindo que nada havia mudado.

— E Harry leu?

— Infelizmente.

— Como?

Margareth olhou novamente para ele.

— Uma colega minha conhecia alguém no departamento de História. Eu precisava verificar alguns detalhes sobre documentos militares e costumes do período.

— E enviaram o manuscrito para Harry?

— Apenas três capítulos.

Fez uma pausa.

— Ele devolveu nove páginas de observações.

— Nove?

— Frente e verso em algumas.

Não consegui imaginar Harry fazendo outra coisa.

— Ele corrigiu a História?

— Corrigiu tudo.

— Tudo?

Margareth virou o rosto para mim.

— Datas. Vestimentas. Um modelo de relógio. A maneira como um oficial provavelmente escreveria uma carta. E, na última página, informou que meu personagem principal era historicamente plausível e psicologicamente impossível.

Eu não consegui esconder o sorriso.

— Ele escreveu isso?

— Com essas palavras.

— A senhora ficou furiosa.

— Considerei-o insuportável.

— E respondeu?

— Onze páginas.

Olhei novamente para Harry.

— Onze?

— Não permitiria que ele vencesse por quantidade.

Dessa vez ri baixinho.

Margareth me observou.

Depois continuou:

— Expliquei por que estava errado sobre meu personagem.

— E estava?

Ela permaneceu alguns segundos em silêncio.

— Não inteiramente.

Aquilo me surpreendeu mais do que todo o resto.

Margareth Harrison admitindo que outra pessoa tivera razão.

— O que aconteceu depois?

— Ele respondeu.

— Quantas páginas?

— Quatro.

— Estava perdendo interesse.

— Pelo contrário.

Margareth cruzou as mãos sobre o colo.

— As correções históricas desapareceram.

— Sobre o que ele escreveu?

— Sobre o personagem.

— Então começou uma discussão literária.

— Não.

Ela olhou para Harry.

— Começou uma discussão sobre seres humanos.

Fiquei quieta.

— Harry queria saber por que eu fazia determinada mulher permanecer num casamento que claramente a destruía.

— E a senhora?

— Disse que mulheres permaneciam em situações ruins todos os dias.

— E ele?

Margareth respirou discretamente.

— Perguntou se eu estava descrevendo uma mulher ou utilizando mulheres reais para justificar uma decisão narrativa que eu mesma não compreendia.

Imaginei-a lendo aquilo aos vinte e seis anos.

— Deve tê-lo odiado.

— Durante aproximadamente uma semana.

— E depois?

— Percebi que ele tinha razão.

— Outra vez?

Margareth lançou-me um olhar.

— Não se acostume.

Baixei os olhos, ainda sorrindo.

Ela continuou:

— Reescrevi a personagem.

— E o livro melhorou.

— Consideravelmente.

— Foi publicado?

— Foi.

Eu sabia qual era.

Seu primeiro romance ainda era comentado.

— E ele sabia que tinha ajudado?

— Harry insistia que não.

— Mas ajudou.

— Muito.

— Quando se encontraram pessoalmente?

Margareth demorou um pouco.

— Depois que terminei o manuscrito.

O vento deslocou suavemente a aba de seu chapéu.

Ela segurou-a com dois dedos.

— Convidei-o para tomar café.

— Para agradecer?

— Para descobrir se ele era tão irritante pessoalmente quanto por correspondência.

— E era?

Margareth olhou para o marido.

Harry estava naquele momento escutando William com atenção, uma das mãos apoiada no joelho.

— Mais.

Não consegui impedir o sorriso.

— E mesmo assim...

— Mesmo assim.

Ela ficou alguns segundos em silêncio.

— Conversamos durante três horas.

— Sobre seu livro?

— Durante vinte minutos.

— E depois?

— História. Literatura. Religião. Moral. Casamento. A natureza da culpa.

— No primeiro encontro?

— Não era um encontro.

— Naturalmente.

Margareth olhou para mim.

A intensidade daquele olhar me fez perceber que talvez eu tivesse ido longe demais.

Mas ela não se ofendeu.

— Pelo menos não sabíamos que era.

A frase ficou entre nós.

— Quem percebeu primeiro? — perguntei.

Margareth pensou.

— Harry.

— Ele disse?

— Não.

— Como soube?

— Porque começou a inventar motivos cada vez piores para me encontrar.

Eu ri de novo, baixo.

— Que tipo de motivos?

— Um dia apareceu com um livro alegando que eu precisava lê-lo para compreender melhor uma frase que já havia retirado do manuscrito três meses antes.

— E a senhora falou isso para ele?

— Naturalmente.

— O que respondeu?

Margareth finalmente deixou surgir algo próximo de um sorriso.

Muito pequeno.

— Perguntou se eu queria jantar.

Olhei para Harry.

Por algum motivo, aquela história modificou a maneira como eu o via.

Não romanticamente.

Ainda não.

Mas tornou-o menos distante.

— E aceitou.

Margareth voltou a olhar para mim.

— Sim.

— Mesmo achando-o insuportável?

— Algumas pessoas ficam mais interessantes quando nos irritam pelas razões certas.

A frase me fez pensar.

Margareth continuou:

— Ele nunca tentou impressionar-me.

— Isso foi importante?

— Muito.

Ela olhou para as próprias mãos.

— Eu começava a ter algum reconhecimento como escritora. Alguns homens queriam discutir meus livros para demonstrar que os tinham compreendido melhor do que eu.

Havia algo de frio na maneira como disse aquilo.

— Harry não.

— O que ele fazia?

— Discordava.

— Isso parece pior.

— Era melhor.

Margareth ergueu os olhos.

— Ele não precisava diminuir aquilo que eu fazia para sentir-se inteligente ao meu lado.

Aquela frase permaneceu comigo.

Talvez porque dissesse tanto sobre Harry.

Talvez porque dissesse ainda mais sobre aquilo que Margareth valorizava.

— E quando souberam que estavam apaixonados?

Margareth ficou muito quieta.

Percebi imediatamente que a pergunta fora íntima demais.

— Desculpe.

— Já lhe disse para parar de se desculpar por fazer perguntas.

Esperei.

Ela olhou para o campo.

— Não houve um momento.

— Nenhum?

— Não que eu consiga escolher.

Pensou mais um pouco.

— Certo dia percebi que algo acontecia comigo e minha primeira vontade era contar a Harry.

Sua voz diminuiu.

— Depois percebi que algo acontecia com ele e eu queria saber antes mesmo que ele decidisse contar.

Olhei para ela.

— Foi assim?

— Para mim.

Margareth observou o marido.

— Talvez amor seja, em parte, isso.

— O quê?

Ela demorou.

— Tornar-se testemunha da vida de alguém.

Não escrevi aquela frase.

Não havia caderno.

Ainda assim, lembro-me dela melhor do que centenas que anotei em suas aulas.

— Não proprietário — acrescentou.

Olhei para ela.

Margareth continuava observando Harry.

— Testemunha.

Foi naquele momento que compreendi um pouco melhor os Harrison.

Não totalmente.

Eu ainda tinha vinte e três anos.

Ainda pensava que um casamento sólido deveria ser construído principalmente por permanência, dever e exclusividade.

Harry e Margareth pareciam compreender alguma coisa ligeiramente diferente.

Não menos comprometida.

Talvez mais.

Eles não tratavam o amor como uma cela confortável.

---

William e Harry encerraram a discussão algum tempo depois.

Ou melhor, Margareth encerrou por eles.

— Se continuarem, o chá esfriará e a Europa não estará em condição melhor por isso.

William olhou para a xícara.

Harry consultou o relógio.

— Já passou tanto tempo?

— Para vocês, aparentemente não.

William voltou-se para mim.

— Desculpe.

— Pelo quê?

— Praticamente a abandonei.

— Não estava sozinha.

A frase saiu antes que eu pensasse.

Olhei para Margareth.

Ela também olhou para mim.

— Não — respondeu William. — Suponho que não.

Harry pegou um pequeno pedaço de bolo.

— Sobre o que falavam?

Margareth respondeu:

— Sobre você.

Harry parou.

— Isso raramente termina bem.

— Bella quis saber como nos conhecemos.

O som do meu nome na voz dela voltou a me alcançar.

Harry olhou para mim.

— E ela contou a versão verdadeira?

Margareth respondeu:

— Contei a versão em que você era insuportável.

— Então omitiu a parte verdadeira.

William perguntou:

— Qual seria?

Harry tomou um gole de chá.

— Eu era muito insuportável.

Margareth olhou para ele.

E dessa vez os dois sorriram.

Não muito.

Não precisavam.

Observei aquela troca com uma sensação difícil de descrever.

Não era inveja.

Eu não queria aquilo que Margareth possuía.

Nem queria tomar o lugar de ninguém.

Naquela tarde, eu ainda sequer entendia por que me interessava tanto observar os dois juntos.

Talvez porque houvesse uma tranquilidade entre eles que eu nunca tinha visto tão de perto.

Eles se amavam sem vigiar.

Discordavam sem ameaçar.

Separavam-se numa conversa e voltavam um ao outro sem qualquer cerimônia.

Eu olhei para William.

Ele já estava retomando algum assunto com Harry.

Gostava dele.

Isso era verdade.

Mas pela primeira vez ocorreu-me uma pergunta que não considerei justa o suficiente para manter:

**será que um dia conversaríamos assim?**

Afastei-a.

Era cedo demais para perguntas daquela espécie.

---

Depois do chá, caminhamos.

Harry e William seguiram alguns passos à frente.

Margareth e eu ficamos atrás.

Não foi combinado.

Apenas aconteceu.

O campo se estendia diante de nós, dourado em algumas partes, verde em outras, com as árvores começando a perder folhas.

Margareth caminhava sem pressa.

Eu também.

Durante alguns minutos não dissemos nada.

Curiosamente, o silêncio ao lado dela não me incomodava.

— Gostou da tarde? — perguntou.

— Muito.

— Apesar da política?

— Principalmente depois que a senhora nos libertou dela.

Margareth lançou-me um olhar.

— “A senhora” novamente.

Lembrei-me.

— Margareth.

Foi difícil dizer.

Não pela palavra.

Por ela.

Margareth voltou os olhos para a frente.

— Melhor.

Caminhamos mais alguns passos.

Então ela disse:

— Seu vestido é bonito.

Olhei para ela, surpresa.

— Obrigada.

— Azul lhe favorece.

Não sei por que aquilo me atingiu mais do que deveria.

Talvez porque eu passara a manhã escolhendo exatamente aquele vestido.

Talvez porque o elogio viesse dela.

— Escolhi esta manhã.

— Percebi.

— Como poderia perceber?

Margareth olhou para mim.

— Você não parece uma mulher que veste algo sem decidir antes por que está vestindo.

Fiquei sem resposta.

Ela continuou caminhando.

Eu a acompanhei.

Depois de alguns segundos, disse:

— Seu vestido também é muito bonito.

Margareth não olhou para mim imediatamente.

— Você já havia dito.

— Eu sei.

— Então por que repetir?

Essa mulher tinha o hábito desagradável de examinar frases que outras pessoas deixariam passar.

— Porque continuo pensando.

Agora ela me olhou.

O arrependimento veio tarde demais.

— No vestido — acrescentei.

Margareth sustentou meu olhar.

Por um instante, algo pareceu mudar.

Não havia flerte evidente.

Não havia intenção declarada.

Apenas consciência.

Minha consciência dela.

Talvez a dela de mim.

Então Margareth voltou os olhos para o caminho.

— Tome cuidado, Bella.

Meu coração acelerou.

— Com o quê?

Ela apontou discretamente para o chão.

Uma raiz atravessava o caminho diante de mim.

Parei antes de tropeçar.

— Ah.

Margareth continuou andando.

Eu fiquei parada por um segundo.

Depois fui atrás dela.

Até hoje não sei se ela percebeu o que eu havia imaginado.

Conhecendo Margareth como vim a conhecer...

Provavelmente.

Mas não disse nada.

E talvez tenha sido isso que tornou aquela tarde importante.

Nada aconteceu.

Nenhuma mão procurou outra.

Nenhuma confissão foi feita.

Nenhuma fronteira foi atravessada.

Ainda assim, quando voltamos até o lugar onde havíamos deixado a cesta, eu já não olhava Margareth da mesma maneira que olhara quando cheguei.

Ainda não era amor.

Talvez sequer fosse desejo.

Mas havia começado algo mais perigoso que ambos.

Interesse.

Não o interesse acadêmico que ela usara como justificativa para me convidar.

Outro.

Mais silencioso.

Mais difícil de defender.

E quando nos despedimos naquela tarde, Margareth estendeu a mão para mim.

— Até segunda-feira, Bella.

Segurei-a.

Foi apenas um aperto de mão.

Breve.

Correto.

Perfeitamente adequado.

— Até segunda, Margareth.

Soltei primeiro.

William e eu começamos a caminhar.

Depois de alguns metros, olhei para trás.

Harry recolhia o lençol.

Margareth estava ao lado dele.

Não estava olhando para mim.

Senti uma pequena decepção.

Então ela virou a cabeça.

Nossos olhos se encontraram à distância.

Margareth não acenou.

Eu também não.

Ela apenas me viu.

E eu continuei andando.

Naquele sábado, foi suficiente.

Capítulo 7

Aquilo que escondemos

O fim de semana passou devagar.

Ou talvez eu o tenha feito passar devagar.

No domingo, tentei ler. Depois tentei escrever. Em seguida voltei a ler exatamente as mesmas páginas porque percebi que não havia compreendido uma única linha.

Minha atenção insistia em retornar ao sábado.

Ao campo.

À história de Harry e Margareth.

À maneira como ela dissera que amar alguém era tornar-se testemunha de sua vida, não proprietário dela.

E, principalmente, ao instante em que nossos olhos haviam se encontrado quando William e eu já estávamos indo embora.

Não aconteceu nada.

Eu precisava continuar lembrando disso a mim mesma.

Nada.

Mesmo assim, na segunda-feira acordei pensando em Westbridge antes mesmo de sair da cama.

---

Cheguei cedo.

O céu estava cinzento e uma fina umidade cobria as pedras do pátio. Estudantes atravessavam os corredores externos segurando livros contra o peito, enquanto alguns professores já desapareciam pelas portas dos edifícios.

Foi perto da ala de História que vi Harry.

Ele caminhava sozinho, carregando uma pasta de couro debaixo do braço e alguns papéis na mão. O sobretudo estava aberto e a gravata perfeitamente colocada, como sempre.

Eu seguia praticamente na mesma direção.

Por alguns segundos pensei apenas em continuar atrás dele.

Harry, porém, virou ligeiramente o rosto.

Viu-me.

— Senhorita Olive.

Diminuí o passo.

— Bom dia, professor.

Ele esperou que eu o alcançasse.

— Sobreviveu à tarde de sábado?

— Com alguma dificuldade.

Harry olhou para mim.

— Evans?

— Política.

Ele compreendeu.

— Ah.

Continuei andando ao lado dele.

— Acho que o senhor encontrou alguém capaz de discutir consigo durante horas.

— Senhor Evans possui convicções.

— Muitas.

— Isso pode ser uma qualidade.

— Também pode ser cansativo.

Harry lançou-me um olhar breve.

— Margareth diria o mesmo a meu respeito.

— Ela disse quase isso.

— Naturalmente.

Seguimos pelo corredor.

Durante alguns passos houve apenas o som dos nossos sapatos sobre a pedra.

Então Harry perguntou:

— Pensou na pesquisa?

— Bastante.

— Arrependeu-se?

— Ainda não.

— “Ainda” é uma palavra prudente.

— A professora Harrison ensinou que não devemos confiar demais em certezas rápidas.

Harry olhou para mim.

— Está citando minha esposa contra mim agora?

— Talvez.

— Então a pesquisa já começou mal para mim.

Dessa vez percebi claramente a mudança discreta em sua expressão.

Harry raramente sorria por completo.

Parecia considerar o sorriso uma concessão que precisava ser merecida.

Continuamos.

— Há uma parte da pesquisa que ainda não compreendo — falei.

— Qual?

— O senhor disse que possui muitos relatos escritos por homens.

— Sim.

— E quer compreender também o desejo feminino.

— Entre outras coisas.

Olhei para ele.

— Mas como encontra registros verdadeiros sobre isso?

Harry diminuiu ligeiramente o passo.

Não porque tivesse dificuldade em responder.

Porque a pergunta parecia merecer cuidado.

— Essa é precisamente uma das dificuldades.

— Porque as mulheres não escreviam?

— Escreviam.

— Então?

— Nem sempre podiam escrever tudo.

Chegamos a um corredor mais vazio.

Harry abriu uma porta lateral que nos conduzia ao pátio interno. Ainda faltavam alguns minutos para a aula.

— Há uma diferença — continuou ele — entre aquilo que uma pessoa sente e aquilo que considera seguro registrar.

Olhei para ele.

— Seguro?

— Reputação, senhorita Olive.

Ele desceu dois degraus.

Acompanhei-o.

— Uma palavra bastante poderosa nesta universidade. E fora dela.

Harry manteve os olhos à frente.

— Imagine uma mulher casada escrevendo num diário que deseja outro homem.

— Seria escandaloso.

— Se descoberto.

— Sim.

— Agora imagine que não deseja outro homem.

Ele me olhou.

— Deseja outra mulher.

Fiquei quieta.

Não por repulsa.

Por surpresa.

Harry percebeu.

— Viu?

— O quê?

— Um segundo de silêncio.

— Eu apenas não esperava que dissesse isso.

— Exatamente.

Continuamos caminhando.

— Esse segundo é parte da pesquisa.

Pensei no que ele quis dizer.

— Porque é um assunto que as pessoas evitam?

— Porque algumas coisas não precisam sequer ser proibidas em voz alta para que as pessoas aprendam a escondê-las.

Harry segurou melhor a pasta.

— Entre homens, as consequências podem chegar à lei.

Eu sabia disso.

Todo mundo sabia.

Mas quase ninguém discutia aquilo numa sala de aula.

Harry prosseguiu:

— Entre mulheres, a situação jurídica não é a mesma. Mas seria ingenuidade concluir que isso significa ausência de punição.

— A sociedade pune.

— Família. Trabalho. Casamento. Reputação. Herança. Isolamento.

Ele falou sem dramatizar.

Talvez por isso eu prestasse tanta atenção.

— E muitas vezes — continuou — a punição mais eficiente acontece antes mesmo de alguém descobrir qualquer coisa.

— Como?

Harry olhou para mim.

— A pessoa aprende a vigiar a si própria.

Aquilo me fez diminuir o passo.

Ele continuou:

— Não precisa haver polícia na porta quando alguém passou a vida inteira carregando o policial dentro da cabeça.

Fiquei em silêncio.

Harry parecia olhar não apenas para os comportamentos, mas para aquilo que acontecia antes deles.

Como em suas aulas.

— Então esses desejos aparecem nas cartas? — perguntei.

— Algumas vezes.

— Claramente?

— Quase nunca.

— Como aparecem?

— Linguagem indireta. Mudanças abruptas de assunto. Cartas destruídas. Trechos cortados por familiares antes de documentos serem doados. Nomes substituídos por iniciais.

Harry parou próximo a uma coluna.

— E, naturalmente, existem os relatos médicos e judiciais.

— Que provavelmente não são imparciais.

Ele me olhou.

— Exatamente.

— Porque já observam a pessoa como alguém que fez algo errado.

— Está aprendendo depressa.

Não deveria ter me agradado tanto ouvir aquilo.

Mas agradou.

— Também existem relações mais... incomuns? — perguntei.

Harry não pareceu compreender imediatamente.

— Defina incomum.

Senti-me subitamente constrangida.

— Mais de duas pessoas.

A expressão dele não mudou.

— Naturalmente.

Eu esperava alguma explicação.

Ele percebeu.

— A senhorita parece surpresa.

— Acho que nunca pensei nisso seriamente.

— A maioria não pensa.

Voltamos a andar.

— Há registros de homens que mantiveram vínculos com duas mulheres ao mesmo tempo.

— Amantes?

— Algumas vezes.

— E outras?

Harry demorou.

— Relações muito mais difíceis de reduzir a essa palavra.

Meu interesse aumentou.

— Como assim?

Ele pensou antes de responder.

— Há correspondências em que duas mulheres parecem conhecer perfeitamente a existência uma da outra.

— E aceitam?

— Em alguns casos, aparentemente.

— Por quê?

Harry levantou discretamente uma sobrancelha.

— Essa é exatamente a pergunta que um historiador deveria evitar formular cedo demais.

— Por quê?

— Porque “por quê?” pode esconder uma suposição.

— Qual?

— A de que precisamos explicar aquilo que não corresponde à nossa própria experiência, enquanto tratamos aquilo que nos é familiar como se não precisasse de explicação alguma.

Aquilo me silenciou.

Harry percebeu.

— Um homem e uma mulher casarem parece tão comum que raramente perguntamos por que escolheram um ao outro.

— Mas se houver três pessoas...

— Imediatamente queremos uma explicação.

Pensei.

— Existem registros de uma mulher com dois homens?

— Existem relatos.

— E de duas mulheres e um homem?

— Também.

Minha curiosidade já não era disfarçada.

— E eram felizes?

Harry voltou os olhos para mim.

— Essa pergunta é muito mais difícil.

— Porque não há registros?

— Porque felicidade deixa poucos documentos.

Fiquei olhando para ele.

Harry continuou:

— Tribunais registram conflitos. Médicos registram aquilo que consideram doenças. Igrejas registram pecados. Jornais registram escândalos.

Pausa.

— Pessoas tranquilamente felizes raramente deixam um arquivo explicando por que não causaram problemas.

Achei aquilo extraordinariamente simples.

E extraordinariamente verdadeiro.

— Então a História pode acabar dando a impressão de que tudo era pior do que realmente era?

— Ou melhor.

— Como pode ser melhor?

— Porque também há coisas que ninguém ousou registrar.

Harry olhou para a frente.

— Ausência de documento não significa ausência de vida.

Durante alguns passos não falei.

Depois perguntei:

— O senhor acha que havia muito mais acontecendo do que sabemos?

— Tenho certeza.

— Mesmo nesta época?

Ele me olhou.

— Principalmente nesta época.

Eu franzi a testa.

— Por quê?

— Porque todos parecem ter uma imagem a preservar.

Harry apontou discretamente para um grupo de alunos atravessando o pátio.

— O bom filho.

Depois para um professor que conversava com outro homem.

— O marido respeitável.

Para uma jovem acompanhada por duas colegas.

— A mulher decente.

Harry voltou-se para mim.

— O futuro político.

Pensei imediatamente em William.

Ele percebeu.

Não comentou.

— Quanto mais rígida a imagem — continuou —, maior pode ser a distância entre aquilo que alguém mostra e aquilo que vive.

— Isso significa que todas as pessoas escondem alguma coisa?

— Não.

— Mas muitas?

— Todas escondem alguma coisa.

Olhei para ele.

Harry corrigiu:

— Não necessariamente algo sexual.

— Mas alguma coisa.

— Medo. Vergonha. Ambição. Ressentimento. Desejo. Insegurança.

Ele colocou a mão livre no bolso.

— A sociedade seria impossível se todos dissessem tudo aquilo que pensam.

— Então esconder é necessário?

— Algumas vezes.

— E quando não é?

Harry respirou lentamente.

— Quando aquilo que escondemos começa a exigir que nossa vida inteira seja construída para protegê-lo.

A frase ficou comigo.

— O senhor acha que desejo reprimido sempre volta?

— Não gosto da palavra “sempre”.

— Quase sempre?

— Também não.

Olhei para ele.

— O senhor é muito difícil.

— História costuma punir homens que gostam demais de palavras absolutas.

— Então reformulo.

— Por favor.

— O desejo pode desaparecer apenas porque decidimos que não devemos senti-lo?

Harry me olhou por alguns segundos.

— Pode mudar.

— Não foi o que perguntei.

Aquilo saiu mais firme do que pretendia.

Harry percebeu.

Não se ofendeu.

— Não — respondeu.

Fiquei esperando.

— Não acredito que uma proibição seja suficiente para eliminar um desejo.

— Então o que acontece?

— Às vezes a pessoa renuncia.

— E isso funciona?

— Para algumas.

— E para outras?

Harry continuou andando.

— Tornam-se especialistas em viver duas vidas.

Essa resposta me perturbou.

Talvez porque eu conhecesse pessoas que pareciam viver vidas perfeitamente organizadas.

Talvez porque eu mesma acreditasse que a minha era uma delas.

— Homem com homem — falei mais baixo.

Harry assentiu.

— Mulher com mulher.

Outro.

— Mais de duas pessoas.

— Sim.

— E todos fingindo outra coisa.

Harry corrigiu:

— Alguns fingindo.

— E os outros?

— Alguns talvez não considerassem necessário explicar-se dentro da própria casa.

Aquilo me fez pensar no casamento dele.

Não porque eu suspeitasse de coisa alguma.

Não suspeitava.

Mas porque Harry falava de liberdade de uma maneira muito diferente daquela que eu ouvira de outros homens.

— A professora Harrison pensa como o senhor?

Ele olhou para mim.

— Em algumas coisas.

— Nesta?

— Pergunte a ela.

— Não vai responder?

— Seria uma contradição interessante eu explicar a opinião de uma mulher numa pesquisa que critica homens por explicarem a opinião de mulheres.

Parei.

Harry também.

Fiquei olhando para ele.

Dessa vez sorri.

— Isso foi deliberado.

— Muito.

Foi ali, naquele corredor frio de Westbridge, que comecei a enxergar Harry de maneira diferente.

Não como enxergava Margareth.

Ainda não.

Margareth já despertava em mim alguma coisa que eu evitava examinar diretamente.

Harry despertou outra.

Admiração.

Curiosidade.

Talvez fascínio intelectual.

Eu estava acostumada a homens que falavam do comportamento humano apenas para decidir se era certo ou errado.

Harry queria primeiro saber se era verdadeiro.

Isso me interessou profundamente.

Não significava que ele aceitasse tudo.

Muito pelo contrário.

Descobriria depois que Harry podia ser severo em seus julgamentos.

Mas recusava-se a julgar antes de compreender.

Naquela idade, isso me pareceu uma forma rara de coragem.

E havia outra coisa que eu ainda não sabia.

Eu era jovem.

Loira, cabelos curtos, rosto ainda marcado por uma espécie de inocência que eu não percebia possuir. Não costumava pensar muito na maneira como os outros me viam.

Hoje sei que deveria ter percebido mais.

Eu possuía um modo de olhar enquanto alguém falava que podia ser confundido com intensidade. Quando estava interessada, aproximava ligeiramente o rosto, esquecia o restante do ambiente e prestava atenção como se nada além daquela pessoa existisse.

Não era sedução.

Pelo menos não conscientemente.

Mas possuía efeito.

E Harry começou a percebê-lo.

Primeiro como professor.

Depois como homem.

Isso não aconteceu de uma vez.

Não houve um instante em que ele tenha olhado para mim e decidido desejar-me.

Seria simples demais.

Harry começou reparando em coisas pequenas.

A forma como eu prendia os livros contra o corpo.

O modo como meus olhos estreitavam quando discordava.

A pequena marca que surgia em minha testa quando tentava compreender alguma coisa difícil.

E, naquela manhã, segundo ele me confessaria muitos anos depois, reparou na minha boca quando parei de falar para escolher melhor uma palavra.

Ele se censurou imediatamente.

Era meu professor.

Eu era sua aluna.

E Harry compreendia fronteiras melhor do que muitos homens.

Mas compreender uma fronteira não impede que alguém perceba aquilo que existe do outro lado.

---

Quando chegamos à sala, os estudantes já estavam quase todos sentados.

William ocupava um lugar duas fileiras à frente.

Virou-se quando me viu.

— Onde estava?

— Encontrei o professor Harrison no corredor.

Harry entrou atrás de mim.

William olhou para ele e depois novamente para mim.

— Conversando sobre a pesquisa?

— Sim.

Sentei-me.

— Depois conto.

Harry colocou a pasta sobre a mesa.

Não foi imediatamente para o quadro.

Tirou o paletó, dobrou-o cuidadosamente e o deixou sobre a cadeira.

Depois fez algo incomum.

Sentou-se na borda da mesa.

Cruzou uma perna sobre a outra.

A postura era informal para os padrões dele, mas sua presença continuava a dominar a sala.

Esperou o silêncio.

— Hoje não pretendo dar uma aula convencional.

Algumas pessoas pareceram aliviadas.

Harry percebeu.

— Isso não significa que terão menos trabalho.

O alívio desapareceu.

Ele segurou algumas folhas.

— Quero que escrevam.

William preparou imediatamente a caneta.

Harry continuou:

— Um ensaio.

Algumas pessoas suspiraram.

— Entre oito e dez páginas.

Os suspiros aumentaram.

Harry não se incomodou.

— O tema será simples de formular.

Olhou para a sala.

— E bastante difícil de responder.

Virou-se parcialmente e escreveu no quadro:

O DESEJO HUMANO E SUAS CONSEQUÊNCIAS

Depois voltou a sentar-se sobre a mesa.

— Não quero um tratado moral.

Cruzei as mãos sobre o caderno.

— Tampouco quero uma defesa irrestrita do desejo.

Harry passou os olhos pela turma.

— Quero que investiguem a tensão entre aquilo que uma pessoa deseja, aquilo que pode fazer e aquilo que a sociedade lhe permite admitir.

Comecei a escrever.

— Podem escolher um caso histórico, uma instituição, um comportamento ou uma relação social.

Levantou um dedo.

— Mas há uma condição.

Todos esperaram.

— Não me digam apenas o que aconteceu.

Olhei para ele.

— Quero saber qual desejo estava por trás da ação.

Outra pausa.

— E qual foi o preço.

Harry levantou-se.

No quadro, abaixo do título, escreveu:

DESEJO → ESCOLHA → CONSEQUÊNCIA

— Nem todo desejo se transforma em ação.

Apontou para a primeira seta.

— Entre sentir e fazer existe escolha.

Depois para a segunda.

— E depois da escolha existe consequência.

Um aluno perguntou:

— Consequência moral?

Harry virou-se.

— Pode ser.

— Social?

— Naturalmente.

Outra aluna:

— Legal?

— Sim.

William levantou a mão.

— Política?

— Frequentemente.

Harry voltou ao centro.

— Mas existe uma consequência que vocês estão esquecendo.

Ninguém respondeu.

Ele tocou discretamente o próprio peito.

— Interna.

Silêncio.

— O que acontece com uma pessoa quando passa anos negando aquilo que deseja?

Escreveu.

— O que acontece quando consegue aquilo que desejava e descobre que estava enganada?

Outra frase.

— O que acontece quando escolhe dever em vez de desejo?

Outra.

— E o que acontece quando escolhe desejo e perde aquilo que possuía?

Harry largou o giz.

— Não existem respostas universais.

Um estudante levantou a mão.

— Podemos escrever sobre amor?

Harry olhou para ele.

— Se conseguir definir o que quer dizer por amor.

— Relacionamentos.

— Isso não define amor.

O rapaz pensou.

Harry continuou:

— Pode escrever sobre casamento.

— Infidelidade?

— Pode.

— Homossexualidade?

Alguns alunos ficaram imóveis.

Harry não.

— Se possuir fontes suficientes e for capaz de separar investigação de julgamento.

Outra aluna perguntou:

— Podemos escrever sobre relações que não sejam casamento?

Harry olhou para ela.

— Seria estranho estudar desejo fingindo que tudo acontece dentro do casamento.

Algumas pessoas abaixaram os olhos.

Ele continuou:

— Mas quero rigor.

Sua voz ficou mais firme.

— Não escolham temas delicados simplesmente porque desejam provocar.

Olhou para cada fileira.

— Provocar é fácil.

Parou.

— Compreender exige trabalho.

Anotei essa frase.

Harry tornou a sentar-se na mesa.

— Quero fontes.

— Quero argumentos.

— Quero contradições.

— E, principalmente, não quero que transformem pessoas do passado em bonecos que pensam exatamente como vocês.

Aquilo era importante.

— Um homem de 1780 não é um estudante de Westbridge vestido com roupas antigas.

Alguns alunos sorriram discretamente.

— Uma mulher vitoriana não possuía necessariamente as mesmas palavras que vocês para descrever aquilo que sentia.

Ele olhou para mim por um instante.

Talvez porque nossa conversa ainda estivesse presente em sua cabeça.

— Às vezes o desejo existe antes da linguagem capaz de explicá-lo.

Minha caneta parou.

Harry continuou olhando para a turma.

— E talvez essa seja uma das questões mais interessantes do ensaio.

Escreveu no quadro:

PODEMOS SENTIR ALGO ANTES DE SABERMOS DAR-LHE UM NOME?

Fiquei olhando para a frase.

Não pensei em Harry.

Pensei em Margareth.

Naquela tarde no campo.

No vestido azul.

Na maneira como ela havia dito meu nome.

No fato de eu estar esperando pela próxima aula dela mais do que esperava qualquer outra coisa naquela semana.

Baixei os olhos para o caderno.

Harry percebeu.

Naquele momento, evidentemente, ele não poderia saber por quê.

Mas reparou.

E talvez esse tenha sido um dos primeiros instantes em que sua curiosidade por mim deixou de ser apenas intelectual.

A aula terminou com uma última orientação.

— Duas semanas.

Harry fechou a pasta.

— E não utilizem a palavra “natural” sem explicar o que querem dizer.

William levantou a cabeça.

Harry continuou:

— Quase sempre, quando alguém diz que determinado comportamento é natural, está apenas tentando emprestar à própria opinião a autoridade da natureza.

Aquilo causou alguns murmúrios.

— Dispensados.

As cadeiras começaram a se mover.

Fechei meu caderno.

William imediatamente virou-se para mim.

— Já sei sobre o que vou escrever.

— Naturalmente.

— Poder.

— Também naturalmente.

— E você?

Olhei novamente para o quadro.

**PODEMOS SENTIR ALGO ANTES DE SABERMOS DAR-LHE UM NOME?**

— Ainda não sei.

William recolheu os livros.

— Isso é raro.

— Talvez eu tenha aprendido a desconfiar das respostas rápidas.

Olhei para Harry.

Ele organizava seus documentos.

Por um instante, seus olhos encontraram os meus.

Nenhum de nós disse nada.

Depois ele voltou aos papéis.

Saí com William.

Naquele dia comecei a ver Harry Harrison com outros olhos.

Não eram ainda os olhos de uma mulher apaixonada.

Muito menos os de uma amante.

Eram os olhos de alguém que descobrira que, por trás do professor austero, existia um homem interessado justamente nas coisas que o resto do mundo se esforçava para esconder.

Eu queria ouvi-lo mais.

Queria entender como pensava.

Queria saber até onde aquelas perguntas poderiam levá-lo.

Não percebi que Harry começava a sentir curiosidade semelhante em relação a mim.

E essa foi talvez a ironia mais delicada daqueles primeiros meses.

Eu caminhava em direção a Margareth.

Harry começava, muito lentamente, a caminhar em direção a mim.

Nenhum de nós sabia ainda onde aquelas duas linhas acabariam se encontrando.

Capítulo 8
Antes de saber o nome

Há momentos em que uma ideia chega porque a procuramos.

E há outros em que ela nos encontra exatamente quando desistimos de procurá-la.

Naquela tarde, eu estava sentada do lado de fora de Westbridge, numa pequena praça de pedra cercada por árvores antigas, bancos escurecidos pelo tempo e caminhos que ligavam os edifícios principais da universidade.

Diante de mim havia uma árvore.

Não me lembro qual espécie.

Durante anos tentei recordar.

Nunca consegui.

Lembro-me das folhas.

Do vento movimentando os galhos.

Da sombra irregular sobre minhas páginas.

Mas não da árvore.

Talvez porque eu não estivesse realmente olhando para ela.

Meu caderno estava aberto sobre o colo.

No alto da página, eu havia escrito o tema proposto por Harry:

O desejo humano e suas consequências.

Abaixo, três palavras:

Desejo.
Escolha.
Consequência.

E nada mais.

Passei quase vinte minutos encarando aquilo.

Escrevia uma frase.

Riscava.

Começava outra.

Riscava também.

Tentei falar sobre casamento.

Pareceu óbvio.

Tentei escrever sobre convenções sociais.

Amplo demais.

Pensei em desejo sexual, mas tudo aquilo que me vinha à cabeça parecia escrito por alguém tentando demonstrar que era adulta o suficiente para falar sobre o assunto.

O resultado era péssimo.

Fechei os olhos.

Respirei fundo.

Abri novamente.

As mesmas três palavras continuavam diante de mim.

— Excelente — murmurei para mim mesma.

Ao meu redor, Westbridge continuava perfeitamente indiferente à minha incapacidade de escrever.

Estudantes atravessavam a praça em pequenos grupos.

Alguns falavam alto.

Outros carregavam livros debaixo do braço e caminhavam com pressa suficiente para denunciar atraso.

Duas jovens passaram conversando e sorrindo.

Um professor atravessou o pátio quase correndo, segurando o chapéu contra o vento.

Perto de uma das escadas, três rapazes discutiam alguma coisa com gestos largos.

Um casal parou por alguns segundos antes de seguir em direções diferentes.

Fiquei observando.

Era estranho perceber quantas vidas existiam ao mesmo tempo dentro de uma universidade.

Cada pessoa caminhava carregando alguma coisa que ninguém ao redor conhecia.

Uma preocupação.

Uma esperança.

Uma mentira.

Talvez um desejo.

Voltei para o papel.

Escrevi:

O ser humano é...

Parei.

Risquei.

— Terrível.

Fechei o caderno.

Olhei novamente ao redor.

Foi então que meus olhos subiram até uma das janelas do edifício de Literatura.

Não procurei por ninguém.

Pelo menos é assim que prefiro lembrar.

A janela ficava no segundo andar.

Aberta apenas o suficiente para permitir a entrada de ar.

E ali estava Margareth.

Sentada próxima à janela.

Lendo.

Eu a reconheci imediatamente.

Mesmo àquela distância.

Sua postura era inconfundível.

O corpo ligeiramente inclinado para o livro, uma das mãos sustentando-o enquanto a outra repousava próxima à página.

Não consigo dizer qual livro era.

Naquele momento, pouco importava.

Eu só via Margareth.

Fiquei alguns segundos olhando.

Talvez mais.

O tempo é particularmente pouco confiável quando estamos interessados em alguma coisa.

Ela parecia completamente alheia ao movimento do pátio.

Pessoas passavam abaixo.

Conversas aconteciam.

Portas abriam e fechavam.

Margareth continuava lendo.

A concentração dela me impressionava desde nossa primeira aula.

Não era apenas atenção.

Era uma espécie de isolamento voluntário.

Quando lia, parecia escolher permanecer inteiramente onde estava.

Pensei na frase que ela dissera durante o chá.

Tornar-se testemunha da vida de alguém. Não proprietário.

Depois pensei em Harry.

Em sua aula.

Na pergunta que havia escrito no quadro:

Podemos sentir algo antes de sabermos dar-lhe um nome?

Abri novamente o caderno.

Olhei para a página.

Depois para Margareth.

E alguma coisa finalmente se encaixou.

Não foi uma resposta.

Foi uma pergunta.

Escrevi:

E se a maior consequência do desejo acontecer antes da escolha?

Parei.

Li novamente.

Meu coração começou a bater um pouco mais rápido.

Continuei:

Antes de uma pessoa agir, antes de confessar, antes mesmo de compreender aquilo que deseja, o desejo já pode alterar sua maneira de observar o mundo.

Fiquei imóvel por alguns segundos.

Depois escrevi mais.

**Talvez a primeira consequência do desejo não seja aquilo que fazemos. Talvez seja aquilo que começamos a perceber.**

Ali estava.

A ideia.

Peguei outra folha.

Comecei novamente, dessa vez com cuidado.

O desejo antes da ação

Quando se fala sobre desejo, costuma-se analisá-lo pelas consequências visíveis de sua realização.

Um homem deseja poder e o conquista.

Uma mulher deseja abandonar determinada vida e parte.

Alguém deseja outra pessoa e atravessa uma fronteira moral, social ou conjugal.

Dessa maneira, o desejo costuma ser percebido apenas quando produz um acontecimento.

Mas talvez esse seja um erro.

Talvez o desejo comece a produzir consequências muito antes de se transformar em ação.

---

Parei.

Olhei para a janela.

Margareth ainda lia.

Continuei.

---

Uma pessoa que passa a desejar algo começa a enxergar de maneira diferente aquilo que já possuía.

Isso não significa necessariamente desprezo.

É possível amar aquilo que existe e, ainda assim, perceber algo que antes parecia invisível.

O desejo reorganiza a atenção.

Aquilo que antes passava despercebido começa a adquirir importância.

Uma voz.

Um gesto.

Uma possibilidade.

Uma ausência.

---

Minha caneta parou.

Olhei para as palavras.

Uma voz.
Um gesto.
Uma possibilidade.
Uma ausência.

Pensei em Margareth dizendo meu nome.

Fechei os olhos por um instante.

— Concentre-se, Bella.

Continuei.

---

Talvez seja por isso que sociedades preocupadas em controlar comportamentos frequentemente tentem controlar também pensamentos, encontros e proximidades.

Não basta impedir a ação.

É necessário impedir que uma possibilidade seja imaginada.

Porque uma vez imaginada, mesmo que nunca aconteça, a vida anterior já pode parecer diferente.

---

Dessa vez, quando parei, senti alguma coisa desconfortável.

Aquele trabalho começava a parecer menos acadêmico do que eu pretendia.

Não porque falasse de mim.

Não falava.

Pelo menos não conscientemente.

Mas havia algo pessoal demais na maneira como as frases chegavam.

Voltei a olhar para a universidade.

Um grupo de estudantes acabara de sair de um dos prédios.

Uma jovem correu atrás de outra para devolver-lhe alguma coisa.

Dois homens discutiam perto da entrada.

Tudo continuava normal.

Levantei os olhos para Margareth.

Ela havia mudado de posição.

Agora o livro estava apoiado sobre a mesa.

Ela escrevia alguma coisa numa folha.

Fiquei observando.

A ponta da caneta movia-se depressa.

Margareth parava.

Lia.

Riscava alguma coisa.

Voltava a escrever.

Pela primeira vez, pensei nela não apenas como professora.

Mas como escritora.

A mulher que publicara livros.

Que construía personagens.

Que passava horas procurando uma frase adequada.

Que talvez também ficasse presa diante de uma página em branco.

Essa ideia a aproximou de mim de uma maneira estranha.

Até então, Margareth parecera quase imune à hesitação.

Vê-la corrigindo a própria escrita, mesmo de longe, tornava-a humana.

E isso não diminuiu minha admiração.

Aumentou.

Voltei ao trabalho.

---

Existe ainda outro problema.

Se uma pessoa não possui palavras para descrever aquilo que sente, ela pode interpretar o próprio desejo de maneira incorreta.

Pode chamá-lo de curiosidade.

Admiração.

Inveja.

Amizade.

Pode acreditar que deseja ser como alguém quando, na verdade, deseja aproximar-se dessa pessoa.

Pode acreditar que está apenas interessada numa ideia quando aquilo que a interessa é quem a apresentou.

---

Minha caneta parou no meio da última frase.

Olhei para ela.

Depois para a janela.

Margareth continuava lá.

Meu estômago se contraiu discretamente.

Risquei a última linha.

Forte demais.

Escrevi novamente:

Pode confundir o objeto de uma ideia com a pessoa que lhe deu significado.

Também não gostei.

Risquei.

Passei a mão pela testa.

Talvez Harry tivesse escolhido aquele trabalho precisamente para nos irritar.

Voltei ao começo.

Reli tudo.

Não estava ruim.

Pela primeira vez, parecia meu.

Não uma resposta que imaginava que Harry gostaria de ler.

Não uma coleção de ideias repetidas de algum livro.

Havia uma pergunta verdadeira ali.

Isso bastava.

Continuei.

As horas passaram sem que eu percebesse.

O movimento da praça mudou.

Os grupos de estudantes diminuíram.

O vento ficou mais frio.

Alguns dos que haviam chegado para as aulas da tarde começaram a sair.

Minha mão doía um pouco.

Havia folhas espalhadas ao meu lado.

Eu preenchera muito mais do que pretendia.

Quando finalmente parei, já possuía um esboço quase completo.

Li a última parte:

---

A consequência mais profunda do desejo talvez não seja realizar aquilo que se deseja.

Talvez seja perder a capacidade de voltar a enxergar o mundo exatamente como antes.

Porque, depois que uma pessoa percebe uma possibilidade, mesmo que jamais a escolha, passa a saber que ela existiu.

E conhecimento também possui consequências.

---

Fiquei olhando para essa última frase.

Conhecimento também possui consequências.

Pensei em Harry.

Ele provavelmente gostaria dela.

Ou a destruiria em cinco minutos.

Com Harry, as duas possibilidades pareciam igualmente prováveis.

Fechei o caderno parcialmente.

Só então percebi quanto tempo havia passado.

Levantei os olhos para o céu.

A luz já era diferente.

Mais baixa.

— Meu Deus.

Olhei para o relógio.

Horas.

Eu estivera ali durante horas.

Comecei a reunir as folhas.

Foi então que, quase por hábito, olhei novamente para a janela.

Margareth ainda estava lá.

Mas não estava lendo.

Estava olhando para mim.

Fiquei imóvel.

Não havia como saber há quanto tempo.

Talvez segundos.

Talvez ela tivesse acabado de levantar os olhos.

Talvez estivesse me observando havia muito mais.

Nunca soube.

Só sei que nossos olhos se encontraram.

A distância entre nós era grande.

Uma janela no segundo andar.

Uma praça.

Algumas árvores.

Mesmo assim, senti como se tivesse sido surpreendida fazendo algo que não deveria.

Minha primeira reação foi absurda.

Olhei para meu caderno.

Como se Margareth pudesse ter lido dali.

Depois voltei os olhos para ela.

Continuava olhando.

Seu rosto estava tranquilo.

Nenhum sorriso.

Nenhum gesto.

Apenas atenção.

Meu rosto aqueceu.

E então fiz exatamente aquilo que já havia feito na primeira aula.

Desviei o olhar.

Naturalmente.

Rapidamente.

Covardemente.

Passei a recolher meus papéis com uma urgência completamente desnecessária.

Uma folha quase escapou com o vento.

Segurei-a.

Coloquei tudo dentro do caderno.

Levantei-me.

Ainda podia sentir a presença daquela janela acima de mim.

Não olhei novamente.

Comecei a caminhar.

Atravessando a praça, tentei convencer a mim mesma de que não havia motivo para constrangimento.

Margareth simplesmente olhara pela janela.

Eu estava na praça.

Pessoas olhavam pela janela todos os dias.

Não significava absolutamente nada.

Mesmo assim, caminhei mais rápido.

Quando cheguei próximo ao portão, quase ri de mim mesma.

Eu tinha vinte e três anos.

Era uma mulher adulta.

E estava fugindo de um olhar.

Hoje sei que Margareth percebeu mais do que imaginei naquele dia.

Não o conteúdo do trabalho.

Isso seria impossível.

Mas percebeu que eu a observava.

E, talvez mais importante, percebeu que eu havia sido perturbada ao descobrir que ela observava de volta.

Não me disse isso naquela semana.

Nem na seguinte.

Margareth nunca teve pressa para obrigar alguém a confessar aquilo que ainda não compreendia.

Essa era uma das diferenças entre ela e muitas pessoas que conheci.

Ela sabia esperar.

Naquela tarde, enquanto eu deixava Westbridge sem olhar para trás, carregava comigo um trabalho sobre a maneira como o desejo modifica nossa percepção antes mesmo de ser compreendido.

Eu não percebia a ironia.

Havia passado horas escrevendo sobre pessoas que chamavam desejo de curiosidade, admiração ou interesse porque ainda não possuíam coragem suficiente para utilizar outra palavra.

E, se alguém tivesse me perguntado por que eu passara tanto tempo olhando para Margareth naquela janela, eu teria respondido sem hesitar:

Admiração.

Talvez dissesse:

Curiosidade.

Ou:

Interesse acadêmico.

Eu teria acreditado em todas essas respostas.

E nenhuma delas seria exatamente mentira.

Esse era o problema.

As melhores mentiras que contamos a nós mesmos raramente são inteiramente falsas.

Elas apenas deixam de fora a parte para a qual ainda não estamos preparados.

Naquele dia, Margareth me deu uma ideia para um trabalho sem dizer uma única palavra.

E eu escrevi sobre desejo durante horas sem perceber que já começava a escrever sobre ela.

Capítulo 9
O que não deveria ser dito em voz alta

Naquela tarde, eu ainda tinha a sensação de que o trabalho de Harry estava me observando de volta.

Passei boa parte do dia carregando o caderno junto ao peito, voltando mentalmente às páginas que escrevera na praça e tentando decidir se minhas conclusões eram realmente acadêmicas ou apenas uma maneira excessivamente elaborada de escrever sobre coisas que eu não compreendia.

Talvez fossem as duas coisas.

Em Westbridge, os corredores ficavam particularmente silenciosos no fim da tarde. O movimento diminuía, algumas salas já estavam vazias e os passos ganhavam um eco diferente entre as paredes antigas.

Eu seguia em direção à ala de História quando ouvi meu nome.

— Bella.

Virei-me.

William vinha pelo corredor com dois livros debaixo do braço.

— Estava procurando você.

— Por quê?

— Pensei que já estivesse indo embora.

— Ainda não.

Ele se aproximou.

— Vai para onde?

Ajustei o caderno entre os braços.

— Falar com o professor Harrison.

William olhou na direção que eu seguia.

— Sobre a pesquisa?

— Sobre o trabalho.

— Algum problema?

— Uma dúvida.

— Posso ir com você?

A resposta saiu depressa demais.

— Não precisa.

William ficou me olhando.

Percebi.

— É uma pergunta bastante simples.

— Então por que não posso apenas acompanhá-la?

Parei.

Não havia acusação aberta.

Mas havia alguma coisa em sua voz que eu ainda não estava acostumada a ouvir.

— William.

— Só perguntei.

— Eu sei.

Ele esperou.

Olhei para ele.

— Está bem.

Seu rosto relaxou um pouco.

— Ótimo.

Voltamos a andar.

Naquele momento não interpretei aquilo como ciúme.

E talvez não fosse exatamente isso.

William gostava de saber onde as coisas estavam.

Gostava de compreender situações.

Gostava ainda mais quando aquilo que encontrava fazia sentido dentro da imagem que já possuía do mundo.

Naqueles meses, eu começava lentamente a tornar essa tarefa mais difícil.

***

A porta do gabinete de Harry estava entreaberta.

Bati duas vezes.

Nenhuma resposta.

Olhei para William.

Ele inclinou-se discretamente.

— Talvez não esteja.

Empurrei a porta apenas o suficiente para ver o interior.

Harry estava lá.

Sentado à escrivaninha.

Parecia não ter ouvido absolutamente nada.

Havia papéis espalhados diante dele e três livros abertos, um deles com diversas marcações. A gravata estava um pouco mais frouxa do que durante as aulas, mas o restante permanecia tão organizado quanto sempre.

Seu rosto, no entanto, estava completamente concentrado.

Uma das mãos cobria parcialmente a boca.

Na outra, segurava uma caneta que permanecia imóvel sobre uma folha havia tempo suficiente para que eu percebesse que não estava escrevendo.

Pensava.

William olhou por cima do meu ombro.

— Talvez devêssemos voltar depois.

Eu não respondi.

Fiquei observando Harry por alguns segundos.

Era diferente vê-lo daquela forma.

Sem turma.

Sem necessidade de explicar.

Sem olhos sobre ele.

Havia algo mais severo em seu rosto quando estava sozinho.

William percebeu que eu continuava parada.

— Bella.

— O quê?

— Ele parece ocupado.

— Parece.

Mesmo assim, entrei.

William veio atrás.

Aproximei-me alguns passos.

— Professor?

Harry levantou os olhos bruscamente.

Por um segundo, parecia ter esquecido onde estava.

Depois reconheceu-me.

— Senhorita Olive.

Seu olhar passou rapidamente para William.

— Senhor Evans.

— Professor.

Harry fechou o livro que tinha diante de si.

— Não os ouvi chegando.

— Percebemos.

A resposta escapou.

Harry olhou para mim.

— Espero que isso não seja uma crítica ao meu senso de vigilância.

— Ainda não.

William permaneceu perto da porta.

Eu me aproximei da mesa.

— Com licença. Posso fazer uma pergunta sobre o trabalho?

— Naturalmente.

Harry apontou para a cadeira diante da mesa.

— Sente-se.

Olhei para William.

Ele continuou de pé.

— Você também, Evans.

William puxou outra cadeira.

Sentei-me.

Abri o caderno.

Harry afastou parte dos próprios papéis.

— Qual é o problema?

— Não sei se é exatamente um problema.

— Normalmente são os mais interessantes.

Encontrei a página que procurava.

— O senhor pediu que analisássemos desejo, escolha e consequência.

— Sim.

— Mas comecei a achar que a sequência talvez esteja incompleta.

Harry ficou imediatamente mais atento.

— Como assim?

Passei os olhos pelo que escrevera.

— Talvez exista alguma coisa antes da escolha.

— Além do desejo?

— Não.

Parei.

— Dentro dele.

Harry cruzou as mãos.

— Continue.

William olhou para mim.

Eu quase podia sentir sua expectativa.

— Escrevi que a primeira consequência do desejo talvez aconteça antes da pessoa fazer qualquer coisa.

Harry não se moveu.

— Em que sentido?

— Quando ela começa a enxergar o mundo de forma diferente.

Ele inclinou ligeiramente a cabeça.

— Dê-me um exemplo.

Pensei.

— Uma mulher pode viver durante anos acreditando estar satisfeita.

William ajustou discretamente a postura ao meu lado.

Continuei:

— Tem uma vida respeitável. Família. Talvez casamento. Uma posição social.

Harry esperou.

— Então conhece alguém.

— Um homem?

Olhei para ele.

— Não necessariamente.

William virou o rosto para mim.

Harry permaneceu imóvel.

— Continue.

— Pode ser outra mulher.

Silêncio.

Não desconfortável para mim.

Talvez para William.

— Ou alguém que simplesmente represente alguma coisa que ela nunca pensou ser possível.

Harry apoiou os cotovelos na mesa.

— E qual seria a consequência?

— Ela começa a comparar.

— A pessoa nova com aquilo que já possui?

— Talvez.

Balancei a cabeça.

— Ou a própria vida com aquilo que poderia ter sido.

Harry não desviava os olhos.

Senti-me mais segura e continuei.

— Não precisa sequer acontecer nada.

— Então por que chamar de consequência?

— Porque ela já não consegue voltar a ser exatamente quem era antes de perceber aquela possibilidade.

Harry ficou em silêncio.

William mexeu-se na cadeira.

— Mas isso não torna qualquer curiosidade um desejo? — perguntou ele.

Olhei para William.

— Não.

— Parece tornar.

— Curiosidade passa.

— Nem sempre.

— Então talvez não fosse apenas curiosidade.

William franziu discretamente o cenho.

Harry interveio:

— Isso é justamente parte do problema.

William voltou-se para ele.

— Qual?

— A linguagem.

Harry pegou a caneta, mas não escreveu.

— Pessoas raramente começam dizendo a verdade exata sobre aquilo que sentem.

— Porque mentem?

— Algumas.

Ele olhou para mim.

— Outras simplesmente não sabem.

Assenti.

— Foi o que pensei.

Harry voltou-se novamente para William.

— Imagine alguém atraído por uma pessoa que socialmente não deveria desejar.

William cruzou os braços.

— Isso depende do que quer dizer por “não deveria”.

— Exatamente.

Harry pareceu satisfeito com a resposta.

— Pode ser uma mulher casada.

Pausa.

— Um homem casado.

Outra.

— Uma relação entre pessoas do mesmo sexo.

William ficou mais sério.

— Isso é um pouco diferente.

Harry observou-o.

— Diferente em quê?

— Nas consequências.

— Certamente.

— E na moralidade.

A sala ficou mais quieta.

Harry não respondeu imediatamente.

— Qual moralidade?

William ficou surpreso.

— Professor?

— A sua?

— A da sociedade.

— E as duas são iguais?

William demorou.

— Na maioria das vezes.

Harry inclinou a cabeça.

— Isso não foi o que perguntei.

William respirou.

— Não necessariamente.

— Melhor.

Olhei para Harry.

Ele voltou a mim.

— Senhorita Olive, prossiga.

Baixei os olhos para o caderno.

— Também comecei a pensar em relações que envolvam mais de duas pessoas.

William virou-se de novo.

Dessa vez de maneira mais visível.

— Bella.

Olhei para ele.

— É parte do tema.

— Eu sei.

Harry permaneceu em silêncio.

William continuou:

— Só não imaginava que estivesse escrevendo sobre isso.

— Ainda não sei se estou.

— Mas está pensando.

— Isso costuma acontecer antes de escrever.

Harry interveio:

— Evans.

William olhou para ele.

— Não há nada de particularmente extraordinário em considerar um tema antes de decidir se merece entrar num trabalho.

— Não disse que havia.

— Seu tom disse.

William recostou-se.

Eu percebi que ficou incomodado.

Não porque Harry o houvesse atacado.

Harry sequer levantara a voz.

Mas porque, naquele momento, William compreendeu que eu estava pensando sobre coisas que talvez nunca tivesse discutido com ele.

E eu compreendi isso também.

Foi desconfortável.

Continuei mesmo assim.

— O que me interessa não é a quantidade de pessoas.

Harry assentiu.

— O quê, então?

— O fato de existir desejo sem que isso necessariamente signifique substituição.

Ele ficou muito quieto.

William também.

— Explique.

Olhei para o caderno.

Depois para Harry.

— Talvez desejemos novas coisas sem deixar de desejar as antigas.

Harry observava-me com intensidade.

— Isso vale para objetos.

— Sim.

— Lugares.

— Sim.

— Ambições.

— Também.

Ele fez uma pequena pausa.

— Pessoas?

Senti William ao meu lado.

Mas respondi.

— Não vejo por que seria impossível.

O silêncio seguinte foi longo.

Harry não parecia chocado.

Parecia fascinado.

Não por mim de forma evidente.

Pela ideia.

Ou foi isso que pensei.

— Então, para a senhorita — disse ele —, o desejo não funciona necessariamente por substituição.

— Não.

— Pode funcionar por acréscimo.

— Talvez.

— E o amor?

A pergunta veio mais baixa.

Olhei para ele.

— O amor é mais complicado.

— Isso já estabelecemos.

— Acho que o problema é que confundimos amor com exclusividade porque fomos ensinados a pensar assim.

William me olhou.

Senti seu desconforto tornar-se físico.

— Bella.

Virei-me para ele.

— O quê?

— Está dizendo que não acredita em fidelidade?

— Não.

— Parece estar dizendo.

— Não é a mesma coisa.

— Então o que é?

Pensei antes de responder.

— Fidelidade pode significar ser verdadeiro com alguém.

William soltou uma respiração curta.

— Isso parece uma definição bastante conveniente.

A frase me atingiu.

Harry percebeu.

— Evans.

— Professor, não estou tentando discutir.

— Está.

William ficou quieto.

Harry continuou:

— E não há problema nisso.

Sua voz permaneceu firme.

— Desde que discuta a ideia e não a pessoa que a apresentou.

William abaixou os olhos.

— Certo.

Harry voltou-se para mim.

— Continue.

Eu já não tinha tanta certeza se queria.

Mas alguma coisa em mim se recusou a recuar apenas porque William estava desconfortável.

— Acho que uma pessoa pode amar alguém e ainda sentir desejo por outra.

Harry apoiou a caneta.

— Sem que isso destrua o primeiro amor.

— Sim.

— E se destruir?

— Então talvez o problema não fosse o desejo.

Ele me olhou com mais atenção.

— O que seria?

Pensei.

— Talvez a mentira.

Harry ficou imóvel.

William não disse nada.

Continuei:

— Se uma pessoa sente alguma coisa e passa anos construindo uma vida inteira para fingir que não sente, talvez a consequência mais perigosa não venha do desejo.

Parei.

— Venha de tudo que ela precisa se tornar para escondê-lo.

Harry deixou a caneta sobre a mesa.

Agora já não fingia que aquela conversa era apenas uma dúvida simples de trabalho.

— Isso é muito bom.

William olhou para ele.

Eu também.

Harry não parecia perceber o peso do elogio.

— Não como conclusão.

Afastou-se ligeiramente.

— Como problema.

Assenti.

— Ainda não tenho conclusão.

— Não deveria.

— Por quê?

— Porque acabou de encontrar a parte mais importante do trabalho.

— Qual?

— A contradição.

Ele se levantou.

Caminhou até uma estante.

— Desejamos liberdade.

Retirou um livro.

— Mas também desejamos pertencer.

Outro.

— Queremos ser conhecidos.

Virou-se para nós.

— Mas tememos ser descobertos.

William ficou olhando para ele.

Harry voltou à mesa.

— Queremos viver de acordo com aquilo que sentimos.

Colocou o livro sobre a madeira.

— Mas também queremos permanecer aceitáveis aos olhos das pessoas cuja opinião valorizamos.

Olhei para ele.

Harry concluiu:

— É aí que o desejo se torna historicamente interessante.

— Quando entra em conflito com a sociedade?

— Quando entra em conflito com tudo.

A frase ficou na sala.

William perguntou:

— E o senhor acredita que todo desejo deveria ser vivido?

Harry virou-se imediatamente.

— Não.

A resposta foi firme.

— Nem todo desejo merece ser obedecido.

William pareceu relaxar um pouco.

Harry continuou:

— Alguns são destrutivos.

— Então existem limites.

— Evidentemente.

— Quem decide?

Harry pensou.

— Essa pergunta já iniciou guerras, fundou religiões e encheu tribunais durante séculos.

William ficou quieto.

Harry prosseguiu:

— Consentimento importa.

Olhou para mim.

— Consequência importa.

Depois para William.

— Poder importa.

— Responsabilidade importa.

Fez uma pausa.

— Mas vergonha social, por si só, nunca me pareceu um argumento particularmente inteligente.

William apertou os dedos contra o braço da cadeira.

— Então se algo for consentido entre adultos, é aceitável?

Harry respondeu com cuidado:

— Não disse isso.

— Mas parece.

— Estou dizendo que consentimento é necessário para uma relação moral entre adultos.

— Não suficiente.

— Exatamente.

William assentiu.

Talvez aquilo lhe parecesse um terreno mais firme.

Eu, porém, voltei à pergunta anterior.

— E quando o único dano é a reputação?

Harry me olhou.

— Então precisamos perguntar quem decidiu que aquela reputação deveria ser destruída.

Foi nesse momento que percebi que havia alguém na porta.

Não sei há quanto tempo.

Margareth.

Estava parada do lado de fora do gabinete.

Uma das mãos segurava dois livros junto ao corpo.

A outra repousava sobre a moldura da porta.

Não olhava para mim.

Olhava para William.

E havia naquele olhar uma compreensão silenciosa que me deixou imediatamente consciente de tudo.

Da minha posição diante de Harry.

Da conversa.

Do rosto de William.

Do clima dentro daquela sala.

Margareth percebeu antes de nós que já não estávamos discutindo apenas um trabalho.

— Uma pergunta particularmente desagradável para uma segunda-feira.

A voz dela entrou na sala antes que qualquer um de nós se movesse.

Virei-me.

E tudo em mim mudou.

Foi imediato demais.

Meu corpo endireitou-se.

Meu rosto provavelmente se abriu antes que eu pudesse controlá-lo.

Senti uma espécie de alegria súbita e inconveniente apenas por vê-la.

Hoje consigo identificar.

Na época, não.

Apenas sabia que Margareth havia chegado e que a sala parecia diferente por causa disso.

— Professora Margareth.

Ela levantou ligeiramente uma sobrancelha.

Eu me arrependi da formalidade no mesmo instante.

— Há quanto tempo está aí?

Margareth entrou.

— Tempo suficiente.

Meu rosto aqueceu.

Ela colocou os livros sobre uma mesa lateral.

Harry a observou.

— Isso é deliberadamente impreciso.

— Naturalmente.

Ela olhou para mim.

— Como anda a pesquisa?

— Bem.

Depois para meu caderno.

— E o trabalho, senhorita Olive?

Meu olhar foi involuntariamente até William.

Ele percebeu.

Margareth também.

— Está indo bem.

Fechei parcialmente o caderno.

— Vim tirar uma dúvida com o professor Harrison e...

Parei.

— Perdi-me um pouco nos meus pensamentos.

Margareth observou-me.

— Entendo.

Aproximou-se da mesa.

— Costumo fazer o mesmo quando estou escrevendo um livro.

A frase deveria ter me tranquilizado.

Fez o contrário.

Porque ela ficou mais perto.

E eu percebi novamente seu perfume discreto.

Aquela pequena descoberta me irritou.

Não com ela.

Comigo.

Eu não deveria estar prestando atenção nisso.

Margareth olhou para Harry.

— Sobre o que exatamente discutiam?

William respondeu antes de mim.

— Desejo.

Margareth voltou lentamente o rosto para ele.

— Imagino que Harry tenha transformado uma pergunta simples numa investigação sobre a natureza humana.

— Não fui eu — disse Harry.

Margareth olhou para mim.

— Senhorita Olive?

— Talvez tenha sido minha culpa.

— Culpa?

Sua expressão endureceu discretamente.

— Palavra ruim.

— Responsabilidade, então.

— Melhor.

Harry pegou meu caderno.

— Ela propôs uma ideia interessante.

Margareth aproximou-se mais.

— Qual?

Senti-me subitamente exposta.

Harry respondeu:

— Que o desejo pode começar a produzir consequências antes de qualquer ação.

Margareth olhou para mim.

Não para Harry.

— Já havia pensado nisso.

Meu coração bateu mais forte.

— Sim.

— Na praça?

Fiquei imóvel.

William olhou para mim.

Harry também.

— Como sabe?

Margareth manteve a expressão calma.

— Vi você escrevendo por bastante tempo.

A janela.

Lembrei-me.

— Então estava mesmo olhando.

A frase escapou.

Margareth sustentou meu olhar.

— Estava.

Nada mais.

Só isso.

Mas foi suficiente para que eu sentisse novamente aquele constrangimento quente, quase juvenil, que me fazia esquecer momentaneamente o que estava dizendo.

Harry olhou para mim.

Depois para Margareth.

E então novamente para mim.

Não havia ciúme.

Nem surpresa verdadeira.

Apenas atenção.

William, ao contrário, pareceu perceber algo que eu ainda me recusava a formular.

Ajeitou-se na cadeira.

— Bella, talvez devêssemos ir.

Olhei para ele.

— Agora?

— Você já tirou sua dúvida.

A forma como disse aquilo fez o ambiente perder um pouco da leveza.

Margareth voltou os olhos para William.

— Senhor Evans.

Ele a encarou.

— Professora.

— Sua namorada está desenvolvendo uma boa questão.

William ficou sério.

— Eu sei.

— Então não tenha tanta pressa em retirá-la de uma conversa apenas porque ela se tornou desconfortável.

O silêncio foi absoluto.

Senti meu estômago apertar.

— Margareth...

Ela não desviou os olhos dele.

William respondeu:

— Não estou tentando retirá-la de lugar algum.

— Ótimo.

A voz dela permaneceu calma.

— Então interpretei mal.

Era impossível saber se aquilo era uma retratação ou uma advertência.

Provavelmente as duas coisas.

William levantou-se.

— Eu só não imaginava que ela tivesse tanto interesse nesses assuntos.

Margareth respondeu:

— Talvez porque nunca tenha perguntado.

A frase foi limpa.

Sem crueldade.

Mas atingiu.

William ficou alguns segundos sem dizer nada.

Olhei para ele.

Havia mágoa em seu rosto.

Isso me incomodou.

Porque William não era um homem mau.

E eu não queria humilhá-lo.

— William.

Ele olhou para mim.

— Ela tem razão em parte.

Margareth voltou os olhos para mim.

— Eu mesma não sabia que pensava tanto sobre isso até começar o trabalho.

William respirou.

— Então talvez eu também tenha coisas para descobrir.

Aquilo me surpreendeu.

Harry o observou com aprovação discreta.

— Uma resposta melhor — disse.

William não respondeu.

Peguei meu caderno.

— Bom...

Levantei-me.

Olhei para Harry.

— Desculpe ocupar tanto do seu tempo, professor.

Harry também se levantou.

— Não ocupou.

Fechou o livro que estava sobre a mesa.

— A senhorita está sendo de muita ajuda para minha pesquisa.

Senti uma pequena satisfação.

— Mesmo fazendo perguntas demais?

— Principalmente por isso.

Margareth olhou para Harry.

Depois para mim.

— Isso explica por que ele está tão satisfeito ultimamente.

Harry franziu a testa.

— Estou?

— Para seus padrões.

William pegou os livros.

A tensão havia diminuído apenas um pouco.

Eu caminhei até a porta.

Quando passei por Margareth, parei.

— Até amanhã.

— Até amanhã, Bella.

William ouviu.

Eu soube que ouviu porque virou discretamente o rosto.

Harry também.

Foi a primeira vez que Margareth utilizou meu nome diante deles daquela maneira.

Sem “senhorita Olive”.

Fora do campo.

Dentro de Westbridge.

Foi pequeno.

Provavelmente insignificante para qualquer outra pessoa.

Para mim, não.

William e eu caminhamos pelo corredor em silêncio.

Ele não estava irritado.

Talvez fosse pior.

Parecia pensar.

Quando chegamos à escada, ele finalmente falou:

— Você nunca conversou comigo sobre essas coisas.

Olhei para ele.

— Não sabia que pensava nelas.

— Mas conversa com Harrison.

— Ele pediu um trabalho sobre isso.

William soltou uma respiração.

— Eu sei.

Descemos alguns degraus.

— Não estou acusando você de nada.

— Parece.

Ele parou.

Eu também.

— Bella, eu apenas...

Procurou as palavras.

— Achei que conhecesse melhor a maneira como você pensa.

Aquilo me atingiu de uma forma diferente.

Mais profunda.

— Talvez eu também achasse.

William olhou para mim.

— E agora?

Pensei em Margareth na janela.

Harry falando sobre aquilo que as pessoas escondiam.

Meu trabalho.

Minha reação quando Margareth entrou na sala.

— Agora estou aprendendo.

William ficou quieto.

Depois assentiu.

— Certo.

Continuamos.

Mas havia uma distância pequena entre nós que não existia antes.

Não era ruptura.

Não era sequer uma briga.

Era apenas uma pergunta.

E perguntas, aprendi depois, podem ser mais perigosas do que discussões.

Naquela noite, pensei em Harry.

Isso era novo.

Não da maneira como pensava em Margareth.

Ainda não.

Mas revi nossa conversa.

A maneira como ele havia me escutado.

O fato de não ter rido.

Não ter se escandalizado.

Não ter tentado conduzir minha resposta até uma conclusão que já possuía.

Harry parecia genuinamente interessado em descobrir onde meu pensamento terminaria.

E isso me fez querer falar mais com ele.

Queria saber o que pensaria sobre minhas próximas páginas.

Queria saber se conseguiria surpreendê-lo novamente.

Talvez tenha sido ali que minha admiração intelectual começou a adquirir uma dimensão mais pessoal.

Mas Margareth...

Margareth era outra coisa.

Sua entrada naquele gabinete havia sido suficiente para fazer meu corpo denunciá-la antes que minha cabeça pudesse interferir.

Eu me endireitei.

Sorri.

Esqueci por alguns segundos o desconforto de William.

Quis saber há quanto tempo ela estava ali.

Quis saber se me ouvira.

Quis saber se havia me observado.

E quando ela respondeu que sim...

senti prazer.

Simples assim.

A Bella que eu era ainda teria escolhido palavras mais prudentes.

Satisfação.

Vaidade.

Curiosidade.

Mas não vejo mais necessidade de protegê-la com palavras menores.

Foi prazer.

O prazer de descobrir que alguém em quem eu pensava também havia dirigido seus olhos para mim.

Ainda não havia acontecido nada entre nós.

Nenhuma promessa.

Nenhum toque.

Nenhuma confissão.

Mas uma coisa começava a tornar-se impossível de negar.

Eu já não reagia a Margareth como reagia a uma professora.

O problema era que eu ainda não sabia como deveria reagir a ela como mulher.

Aqui está o próximo capítulo, seguindo o estilo narrativo, o tom e o desenvolvimento dos personagens estabelecidos no texto original.

Capítulo 10

Aquilo que o mundo condena

O problema de descobrir algo novo sobre si mesmo é que o resto do mundo continua esperando que você seja exatamente a pessoa que era no dia anterior.

Naquela manhã de terça-feira, o desconforto entre William e eu, nascido em frente ao gabinete de Harry, ainda pairava no ar. Não havíamos brigado. Apenas nos despedimos com uma polidez excessiva, daquelas que casais usam quando não querem admitir que alguma coisa rachou.

Eu deveria estar pensando em como consertar isso.
Mas, enquanto caminhava pelos corredores da ala de História, minha mente estava ocupada com a pesquisa. E, se eu for inteiramente honesta, com o olhar de Margareth daquela janela e as perguntas que Harry havia plantado em mim.

Encontrei Harry não no gabinete, mas encostado a uma das grandes pilastras de pedra perto dos arquivos do departamento. Ele segurava uma pasta aberta, lendo um documento com aquela mesma concentração severa do dia anterior.

— Bom dia, professor — aproximei-me, parando a uma distância respeitosa.

Harry levantou os olhos. A pequena ruga de atenção em sua testa desapareceu lentamente.
— Senhorita Olive. Achei que estivesse fugindo da minha pesquisa depois do interrogatório de ontem.

— Eu não fujo de perguntas difíceis.
— Estou começando a perceber isso.

Ele fechou a pasta e apoiou-a no braço. A luz cinzenta da manhã entrava pelos vitrais altos do corredor, iluminando metade do seu rosto.
— Leu o material que lhe entreguei? — perguntou.

— Li. E foi justamente sobre ele que vim falar.

Harry indicou o corredor com um gesto mínimo, e começamos a caminhar devagar. O ambiente estava relativamente vazio, com apenas alguns passos ecoando ao longe.

— Havia um maço de cartas no final da pasta — comecei, baixando instintivamente o tom de voz. — Trocadas entre duas mulheres no século dezoito.

Harry não apressou o passo.
— As cartas de Lady Eleanor.

— Sim. O senhor havia mencionado que a linguagem indireta era comum, mas aquilo… — procurei as palavras certas. — Elas não falavam sobre amizade. Falavam sobre esconderijos. Sobre o medo de que um criado encontrasse a correspondência. Uma delas menciona que preferia a ruína financeira a casar-se com o homem que a família escolheu, desde que pudesse continuar "tendo o privilégio de sua devoção silenciosa".

Harry olhou para mim de soslaio.
— E o que a senhorita conclui disso?

— Que a devoção não era apenas espiritual.

A resposta saiu limpa. Sem gaguejar.
Para uma jovem em 1938, eu deveria ter corado. Deveria ter baixado os olhos ou usado eufemismos para proteger a minha própria decência. A sociedade da época tratava relações entre o mesmo sexo, especialmente entre mulheres, não apenas como um pecado abominável, mas como uma impossibilidade médica e moral, algo tão impróprio que a simples menção do assunto manchava os lábios de quem o pronunciava.

Mas eu não sentia repulsa.
Pensava no medo daquelas mulheres. Pensava no que era viver uma vida inteira sendo obrigada a chamar a pessoa que você ama de "querida amiga" diante dos outros.

— É fascinante e terrivelmente triste — continuei. — O mundo as obrigava a viver num palco. O amor entre duas mulheres não era menos real porque a lei ou a igreja não o reconheciam, mas elas precisavam fingir que não existia para conseguirem sobreviver juntas.

Harry parou.
Ele virou-se completamente para mim. Seus olhos me examinaram com uma intensidade que quase me fez recuar. Havia algo ali que ia além do reconhecimento acadêmico. Era um deslumbramento silencioso. Aos olhos dele, eu não era apenas uma mente brilhante; eu era uma raridade. Uma mulher que se recusava a vestir a armadura da moralidade cega.

Ele estava prestes a dizer algo quando passos rápidos soaram atrás de nós.

— Bella. Professor Harrison.

Nós dois nos viramos.
William caminhava em nossa direção. Seu rosto estava tenso, os ombros rígidos. Ele usava o terno escuro do clube de debates e carregava a postura de quem já se via nos corredores do Parlamento.

— Evans — cumprimentou Harry, a voz perfeitamente nivelada.

— Bom dia, William — eu disse, sentindo a mudança imediata na atmosfera.

William parou ao meu lado, mas seus olhos foram para a pasta nas mãos de Harry e depois para mim.
— Interrompo alguma orientação?

— A senhorita Olive estava apenas me dando suas impressões sobre algumas correspondências históricas — respondeu Harry, com a tranquilidade de quem não deve nada a ninguém.

William assentiu, parecendo querer encerrar o assunto. Mas a necessidade de marcar presença falou mais alto.
— Correspondências políticas?

Eu poderia ter mentido. Poderia ter dito que sim. Teria sido o mais seguro.
Mas olhei para Harry, que me observava em silêncio, deixando a escolha nas minhas mãos.

— Não — respondi. — Cartas entre duas mulheres que, ao que tudo indica, mantinham um relacionamento romântico.

O silêncio que se seguiu foi espesso.
A cor sumiu do rosto de William por uma fração de segundo, sendo rapidamente substituída por uma vermelhidão de puro constrangimento. Ele olhou para os lados no corredor, verificando instintivamente se alguém havia ouvido. O pudor nele era quase físico.

— Bella — ele sussurrou, a voz tensa, carregada de reprovação. — Esse não é o tipo de assunto para se discutir num corredor. Ou em lugar nenhum.

— É um documento histórico, William.

— É uma indecência — ele retrucou, voltando-se para Harry. — Com todo o respeito, professor, não entendo como Westbridge permite que esse tipo de... desvio seja tratado como pesquisa acadêmica. Isso beira a imoralidade. Pessoas foram presas e arruinadas por muito menos.

Harry não se ofendeu. A postura dele não se alterou um milímetro.
— A História não se faz apenas de assuntos seguros, Evans. E a moralidade de uma época diz mais sobre os medos de uma sociedade do que sobre a verdade de seus indivíduos.

— A verdade é que existem leis e costumes, professor. E a decência exige que certas coisas permaneçam na escuridão, onde pertencem. Discutir isso abertamente... — ele olhou para mim, indignado. — Esperar que uma jovem como Bella leia essas aberrações é, no mínimo, inadequado.

Senti uma raiva quente subir pela minha garganta.
Não por ele me chamar de jovem. Mas por ele tentar me proteger de algo que eu não temia.

— Eu escolhi ler, William — eu o interrompi, a voz baixa, mas firme. — Ninguém me obrigou. E não encontrei aberração alguma naquelas páginas. Encontrei duas pessoas com medo de perder a única coisa que lhes dava prazer e conforto num mundo que as sufocava.

William me encarou como se eu fosse uma estranha. E talvez, naquele momento, eu realmente fosse. A Bella que concordava com ele em tudo, que tentava caber no molde da futura esposa de um político irrepreensível, não estava mais ali.

— Você não sabe o que está dizendo — ele murmurou, tentando manter o controle. — Se alguém a ouvir defendendo esse tipo de comportamento, sua reputação estará arruinada. A nossa reputação.

A nossa reputação.
A frase bateu no ar frio do corredor de pedra.

Harry, que até então acompanhava a troca em silêncio, olhou para mim.
Eu esperava que ele me salvasse. Que dissesse algo para encerrar a discussão com sua autoridade professoral. Mas ele não disse uma palavra. Ele estava apenas observando o que eu faria.

Ele queria ver se eu recuaria.
Se eu cederia ao peso da convenção e da vergonha que William representava.

Eu respirei fundo. Endireitei os ombros e olhei diretamente para William.
— Se a minha reputação depender de fingir que as pessoas não amam quem elas amam, William, então talvez eu não me importe tanto com ela quanto você.

William fechou os olhos por um segundo. A decepção e o choque estavam cravados em suas feições.
— Tenho uma reunião agora — ele disse, seco. — Conversamos depois. Quando você estiver disposta a agir com sensatez.

Ele virou as costas e se afastou a passos rápidos pelo corredor.

Fiquei parada, ouvindo o som dos sapatos dele desaparecer. Meus batimentos estavam acelerados. Minhas mãos, ligeiramente trêmulas. Eu nunca havia enfrentado William daquela maneira. Nunca havia desafiado as regras tão abertamente.

Só quando o silêncio retornou completamente é que olhei para Harry.
Ele não estava me julgando.
Pelo contrário.

A expressão dele havia mudado. Havia uma admiração profunda, quase perigosa, na forma como me olhava. O fascínio não era mais apenas pela minha inteligência. Era pela minha coragem. Ele estava diante de uma mulher que, no auge do conservadorismo britânico, preferia a verdade ao conforto social.

— Senhorita Olive — a voz dele soou mais grave do que o normal no corredor vazio.

— Sim, professor.

Ele deu um passo quase imperceptível na minha direção. O olhar não desviava do meu.
— Eu avisei que o conhecimento possuía consequências.

— O senhor avisou.

— Ainda quer continuar na pesquisa?

Pensei no olhar de Margareth pela janela. Pensei nas cartas daquelas mulheres. E olhei para o homem diante de mim, que me via exatamente como eu estava descobrindo ser.

— Mais do que nunca, professor.

O canto da boca de Harry se ergueu, formando aquele raro e pequeno sorriso que apenas ele sabia dar.
— Quinta-feira, então. Traga suas anotações. Temos muito o que conversar.

Ele virou-se e continuou seu caminho pelo corredor, deixando-me sozinha com o peso da minha própria liberdade recém-descoberta.

Capítulo 11

Onde a teoria termina

O pretexto, naturalmente, era a pesquisa. Mas a verdade é que a História rapidamente se tornou o disfarce perfeito para aquilo que começava a acontecer entre nós.

Nas semanas que se seguiram, os nossos encontros multiplicaram-se. Já não nos víamos apenas nos horários das aulas ou em convites esporádicos para o chá. Passámos a reunir-nos com uma frequência que, para qualquer observador externo, atestaria apenas o zelo de uma aluna dedicada e a generosidade de dois professores brilhantes. Mas dentro daquelas quatro paredes, a barreira académica desfazia-se, substituída por um ecossistema próprio, alimentado por debates afiados e por silêncios que diziam ainda mais.

Margareth reparava em tudo. Sendo a romancista que era, nada escapava à sua atenção. Ela notava a forma como os meus olhos se ancoravam nos dela sempre que falava, demorando-se muito além do tempo ditado pela cortesia. Mas, mais do que isso, Margareth percebeu a mudança em Harry.

Ele estava fascinado. Não com a atracção vulgar de um homem mais velho por uma mulher mais nova, mas com o deslumbramento de um académico que encontra uma mente que não se encolhe diante do abismo. Eu não possuía preconceitos, não me assustava com os tabus da época, e Harry alimentava-se dessa minha audácia. E Harry, que passara a vida a dissecar o comportamento humano, não tardou a notar que a própria Margareth, sempre tão dona de si, vacilava de forma imperceptível quando eu entrava na sala.

Os sentimentos não se comportam como a literatura. Margareth podia escrever capítulos inteiros sobre a natureza humana, mas, ali, ela deparava-se com o imprevisível. Houve uma tarde em que levantei os olhos e a apanhei a observar-me. Não era o olhar de uma professora. Era um olhar crivado de dúvida, como se eu fosse um manuscrito perigoso que ela não sabia se devia ou não continuar a ler.

O ponto de ruptura não aconteceu num jardim, mas no ambiente mais sufocante de Westbridge: a secção reservada da biblioteca.

Era final de tarde. A chuva batia contra os vitrais altos e nós os três estávamos sozinhos na sala de leitura privada, cercados pelo cheiro a papel envelhecido e cera de abelha. Apenas o som da chuva e a respiração pesada do relógio de pêndulo preenchiam o espaço.

Harry tinha trazido um documento singular. Tratava-se de um conjunto de diários codificados do início do século XIX, relatando a vida de três mulheres que viviam sob o mesmo tecto. Para a sociedade da época, eram apenas senhoras solteiras, "colegas de pesquisa" dedicadas ao estudo da botânica. Para quem soubesse ler nas entrelinhas, contudo, era o registo de um relacionamento a três. Uma vida partilhada, física e emocionalmente, construída nas sombras de uma casa de campo.

Margareth terminou de ler a última página em voz alta. O silêncio que se abateu sobre nós era quase táctil.

— É impressionante — murmurei, apoiando os cotovelos na mesa de carvalho. — Passaram décadas a partilhar a mesma casa. A tomar o pequeno-almoço juntas, a receber visitas da alta sociedade, enquanto o mundo inteiro acreditava que partilhavam apenas o interesse por flores.

Harry encostou-se na cadeira, os olhos cravados em mim, mas a voz dirigida ao grupo.
— A maior obra de ficção que o ser humano é capaz de criar não são os romances, Margareth. É a vida de fachada. Elas perceberam que a sociedade só ataca aquilo que consegue nomear. Se não lhe dessem um nome, poderiam viver aquilo que quisessem.

Margareth passou os dedos pela borda do papel antigo, pensativa.
— Mas a que preço? — questionou ela, a voz baixa, carregada de uma textura que eu nunca lhe ouvira antes. — Esconder a própria natureza não é apenas omitir factos aos outros. É forçar o próprio corpo a mentir todos os dias. O nível de controlo exigido para nunca se tocarem em público, para nunca cederem a um olhar quando havia alguém na sala...

— Talvez o perigo tornasse a intimidade ainda mais profunda — atrevi--me a dizer.

Margareth ergueu lentamente os olhos da mesa e prendeu-os nos meus.
— Acredita mesmo nisso, Bella? Que o esconderijo melhora o que está escondido?

— Acredito que, quando o mundo inteiro vos proíbe de existir, a única verdade que resta é o que fazem quando a porta se fecha.

Harry observava-nos. Ele não olhava para o documento; olhava para o espaço denso que se tinha acabado de criar entre mim e a sua mulher. O ar na biblioteca parecia ter ficado subitamente rarefeito. Alguma coisa estalara. O documento na mesa já não era um objecto de estudo; era um espelho.

Eu olhei para Margareth. Ela sustentou o meu olhar, os lábios ligeiramente entreabertos, a respiração mais curta. O controlo impecável dela estava a ruir, e ela sabia-o. Margareth olhou para Harry. Um pedido de permissão? Um aviso?

Harry, no entanto, não recuou nem interferiu. Ele olhou de Margareth para mim, com a mesma intensidade sombria e aquiescente.

O meu corpo tomou a decisão antes que a minha mente pudesse sequer pensar nas consequências.

Levantei-me da cadeira. O som da madeira a raspar no chão pareceu ensurdecedor, mas nenhum deles se moveu. Contornei o canto da mesa até parar ao lado de Margareth. Ela não desviou o rosto. Inclinei-me, o meu coração a bater com uma fúria que eu nunca conhecera, e beijei-a.

Não houve hesitação. Os meus lábios tocaram os dela com uma urgência que há semanas se acumulava. Margareth soltou uma respiração trémula, surpresa, mas não recuou. Pelo contrário. A mão dela, sempre tão firme e distante, subiu até à minha cintura, correspondendo ao beijo com uma suavidade faminta. Tinha o sabor de chá escuro e de perigo absoluto.

Harry viu tudo.

Ele levantou-se lentamente, a cadeira a ranger no silêncio da sala.

Interrompi o beijo com Margareth, a respiração de ambas entrecortada. Os olhos escuros dela estavam fixos em mim, brilhantes, desarmados. Virei o rosto para Harry. Ele estava ali, a centímetros de distância, a presença imponente a cobrir-nos como uma sombra.

Dei um passo na direcção dele. Não precisei de dizer nada. Ergui o rosto e beijei-o.
O beijo de Harry foi diferente. Foi profundo, dominador e possessivo, como se ele estivesse à espera daquele exacto momento desde o dia em que ousei questioná-lo no anfiteatro. As mãos dele seguraram o meu rosto com firmeza, enquanto Margareth também se levantava, aproximando-se de nós.

Ali, rodeados por séculos de história empoeirada, começámos a escrever a nossa própria. A mão de Margareth tocou no meu braço, os lábios de Harry desceram para o meu pescoço, e por alguns minutos gloriosos e imprudentes, o mundo exterior deixou de existir. Apenas a respiração pesada, a pele quente e a revelação avassaladora de quem nós podíamos ser juntos. Era o caos disfarçado de pesquisa. Era tudo o que eu sempre quisera antes de saber o nome que lhe dar.

Três batidas secas ecoaram na pesada porta de carvalho da biblioteca.

Congelámos.

O som foi como um tiro na escuridão. O choque percorreu o meu corpo como electricidade. Margareth afastou-se num milissegundo, a respiração ainda acelerada, mas o rosto a assumir a máscara da compostura tão rápido que parecia magia. Harry endireitou o casaco com um movimento automático, ajeitando a gola e limpando a garganta.

Eu fiquei parada, o corpo a vibrar, os lábios formigueiros. A decepção esmagou-me o peito. Aquele momento, a maior revelação da minha vida, havia sido interrompido brutalmente.

— Um momento — a voz de Harry soou surpreendentemente calma e autoritária, embora houvesse uma aspereza residual que o denunciava.

Ajeitei o vestido à pressa e recuei para a minha cadeira, sentindo-me tonta. Margareth voltou a sentar-se, puxando o documento dos diários para o centro da mesa, com os olhos fixos nas palavras que já não estava a ler.

Harry caminhou até à porta e girou a pesada maçaneta de latão, abrindo-a.

A luz do corredor invadiu a penumbra da nossa sala.

E lá, parado no limiar da porta, com o chapéu na mão e uma expressão de impaciência mal contida, estava William Evans.

Capítulo 12
Aquilo que a porta esconde

A pesada porta de carvalho rangeu ao ser aberta por Harry, bloqueando a visão de quem estava no corredor.

O interior da biblioteca auxiliar era vasto e mergulhado em sombras densas criadas pela tempestade lá fora. Margareth e eu tínhamos recuado para o extremo da longa mesa de leitura, praticamente engolidas pela penumbra e pelas fileiras ininterruptas de estantes. Para quem estivesse de pé no limiar da porta, o gabinete parecia abrigar apenas o professor Harrison.

— Professor Harrison. Peço desculpa pela intrusão a esta hora — a voz de William soou firme, carregada com aquela retidão inabalável que sempre me irritara e me atraíra em proporções iguais. Mas, naquele momento, só me causava náusea.

Harry não se moveu para o deixar entrar. A sua postura preenchia o vão da porta.
— Senhor Evans. Em que posso ser útil?

Da minha posição, eu não conseguia ver o rosto de William, mas conhecia-lhe a cadência. Sabia que ele devia estar com as costas retas, o queixo ligeiramente erguido, assumindo o papel do protetor moral que ninguém lhe havia pedido para interpretar.

— Serei breve, professor — começou William, o tom formal disfarçando mal a sua indignação. — Vim falar-lhe sobre a sua investigação. Tenho pensado muito no nosso último debate e na natureza dos documentos que o senhor analisa. E, francamente, considero que esta pesquisa é não só inapropriada para os padrões desta universidade, como representa uma péssima influência para quem está à sua volta. Particularmente para Bella.

Senti o sangue ferver-me nas veias. A minha respiração, que ainda há segundos estava ofegante de desejo, tornou-se irregular de raiva.

William continuou, alheio ao facto de que cada sílaba sua ecoava na sala onde eu o escutava:
— A Bella é uma mulher extraordinária. Tem uma mente brilhante, uma pureza de carácter que admiro profundamente. Ela não deveria ser manchada por tamanha indecência e vulgaridade. A exposição a esses assuntos... a esses desvios da natureza humana... só servirá para desvirtuar o seu caminho.

O meu corpo agiu por instinto. Apoiei as mãos na mesa e levantei-me, pronta para sair das sombras e enfrentar William ali mesmo. Pronta para lhe dizer que a verdadeira vulgaridade era tentar ditar o que eu devia ou não ler.

Mas um movimento capturou a minha atenção.
Margareth, que continuava sentada, perfeitamente imóvel na sua cadeira, virou o rosto para mim. Os seus olhos, ainda brilhantes do que acabara de acontecer entre nós, estavam agora afiados e calculistas. Ela ergueu uma das mãos.
Foi um gesto lento, mínimo, mas dotado de uma autoridade absoluta.

Fica.

O comando não precisou de som. Eu parei. Os meus nós dos dedos ficaram brancos de tanta força com que apertei a madeira da mesa, mas obedeci-lhe. Continuei de pé, em silêncio, o coração a bater descompassado contra as costelas.

Lá na frente, William terminava o seu discurso.
— Portanto, professor, peço-lhe com muito respeito: retire a Bella da sua pesquisa. Mantenha distância dela. A sua presença e as suas ideias podem influenciá-la para o pior, e eu não permitirei que o futuro dela seja comprometido.

O silêncio que se abateu sobre a porta foi demorado. Harry não o interrompeu de imediato. Ele deixou que as palavras de William pairassem no ar, deixando que o peso do próprio conservadorismo do rapaz o asfixiasse por alguns segundos.

Quando Harry finalmente falou, a sua voz era baixa, controlada, mas possuía um gume que eu nunca lhe ouvira antes. Era letal.

— Compreendo perfeitamente as suas preocupações, senhor Evans — começou Harry, as palavras medidas com uma precisão cirúrgica. — Deve ser genuinamente aterrorizante para si perceber que o mundo é muito mais vasto do que o estreito corredor das suas ambições políticas.

William tentou falar, mas Harry elevou a voz apenas o suficiente para o cortar.

— Mas deixe-me esclarecer um ponto crucial. Em momento algum eu forcei a Bella a participar nesta investigação. O convite foi-lhe oferecido, e ela, como a académica brilhante e corajosa que é, concordou de livre e espontânea vontade. Sabe porquê? Porque ela entende que aquilo que faz parte da natureza humana não pode, nem deve, ser trancado num armário por conveniência moral. O que estudamos aqui não é vulgaridade. É o futuro. É a verdade sobre como as pessoas vivem, sofrem e amam, independentemente de a sociedade aprovar ou não.

A tensão irradiava de Harry. Do meu canto escuro, quase conseguia ver a incredulidade no rosto invisível de William.

— E vou dar-lhe um conselho, já que exige tanto o meu respeito — continuou Harry, as palavras a caírem como pedras pesadas. — O senhor deveria procurar conhecer melhor a sua namorada antes de invadir portas alheias para tentar tomar decisões por ela. A Bella tem total conhecimento de quem é e daquilo que deseja fazer com a sua vida. Ela não precisa da sua proteção, nem da sua permissão, para pensar. Tentar enjaular o intelecto dela com esse falso moralismo não a vai salvar, senhor Evans. Só fará com que, mais cedo ou mais tarde, ela despreze o carcereiro.

O silêncio seguinte foi tão denso que quase o pude tocar. A humilhação e a raiva no corredor eram palpáveis.

A voz de William, quando surgiu, tremia, carregada de um orgulho ferido que não admitia derrota.
— O senhor está avisado, professor.

Os passos dele soaram no chão de pedra, rápidos, duros, afastando-se pelo corredor até desaparecerem por completo.

Harry ficou parado na porta por mais um segundo. Depois, lentamente, empurrou a pesada folha de carvalho e fechou-a. O som do trinco a encaixar soou como um ponto final. A fechadura rodou.

Ele virou-se para dentro da sala. A tempestade continuava a bater nos vidros. Harry olhou para mim e, depois, para Margareth. A tensão e o perigo do momento exterior deram lugar a um suspiro profundo. O canto da sua boca ergueu-se num sorriso carregado de ironia sombria.

— Futuro político, não é? — comentou Harry, caminhando de volta para a mesa. — O rapaz tem um belo futuro, senhorita Bella.

A piada era elegante, mas caiu num terreno árido. O desconforto engoliu-me. O clima vibrante e inebriante de minutos atrás, quando a minha boca estava sobre a de Margareth e depois sobre a dele, tinha sido aniquilado. O peso do mundo real — de 1938, das convenções sociais, dos julgamentos, daquilo que nos arruinaria se fosse descoberto — invadira a sala com as palavras de William.

Eu estava parada, os braços cruzados sobre o estômago, sentindo de repente o frio da sala. A revelação épica do que eu era capaz de fazer e de sentir transformara-se, no espaço de uma conversa, num segredo sujo que precisava de ser defendido.

Margareth percebeu.

Ela sempre percebia tudo.

A sua postura relaxada de instantes antes desapareceu. A escritora, a amante hesitante que correspondera ao meu beijo, recolheu-se imediatamente para trás das muralhas da mulher intocável.

Levantou-se, alisando a saia num movimento perfeitamente mecânico e polido. A sua voz regressou ao tom impecável que usava nos anfiteatros.

— Vamos encerrar por hoje — disse Margareth, não olhando para mim, mas para os papéis espalhados na mesa. Começou a arrumá-los com eficiência fria. — Bella, obrigada pela sua ajuda. Amanhã vemo-nos novamente.

Ela caminhou até à porta, os saltos a soarem metodicamente na madeira do chão. Destrancou-a.

Fiquei petrificada. O abismo emocional entre o beijo que partilháramos e aquela despedida gélida era brutal.

Aproximei-me da porta, segurando os meus próprios livros contra o peito, como se fossem um escudo. Quando cheguei perto de Margareth, parei. Não olhei para Harry. Olhei apenas para ela.

O meu olhar não era uma pergunta. Era uma exigência silenciosa. Eu queria que ela me visse, que reconhecesse o que tinha acabado de acontecer. Que confirmasse que eu não tinha imaginado o calor dos seus lábios, nem a respiração presa contra o meu rosto.

Mas Margareth Harrison, que dissecava as emoções de todos com precisão cirúrgica, recusou-se a enfrentar as suas. Ela virou o rosto, desviando o olhar para o corredor cinzento lá fora, o perfil duro e fechado.

— Até amanhã, professora — disse eu, a voz baixa, rasgada pelo gosto amargo daquela fuga.

Ela não respondeu. Apenas assentiu, um movimento rígido de cabeça.

Atravessei a porta e mergulhei no corredor frio, deixando para trás a sala, o cheiro a papel antigo, os lábios de Harry e a mulher que, com apenas um beijo e um desvio de olhar, acabou de transformar a minha vida num caminho sem regresso.

Capítulo 13
A ilusão do controlo

Como já disse antes, há partes desta história que eu não presenciei. Tive de as escutar muito tempo depois, montando o passado através das memórias daqueles que as viveram. A conversa que ocorreu no escritório da casa dos Harrison, poucos dias após o incidente na biblioteca, é uma delas.

Mas, antes de chegar a esse fim de tarde, preciso falar sobre os dias que o antecederam.

O beijo na biblioteca não transformou imediatamente o nosso mundo. Pelo contrário. Ele fez recuar para um inverno rigoroso e repentino.

No decorrer dos dias seguintes, Margareth passou a evitar-me com uma precisão quase arquitetônica. Quando nos cruzávamos nos corredores, o olhar dela não se demorava. Nas aulas, eu voltei a ser estritamente a "senhorita Olive". A intimidade perigosa que se começou a tecer entre nós foram cortada pela raiz, substituída pela mais impenetrável barreira entre professora e aluna.

Eu senti-me terrivelmente desconfortável. Havia uma rejeição silenciosa naquilo, um castigo por termos ousado cruzar uma linha que, na cabeça de Margareth, deveria ter permanecido intocada.

E Harry observava tudo.

Nas nossas reuniões de pesquisa, ele via o meu silêncio. Via a forma como os meus ombros caíam quando o nome de Margareth surgia numa conversa casual e eu fingia não me importar. Mas ele não disse nada. Nenhuma palavra sobre a biblioteca, nenhuma cobrança, nenhum conselho. Eu também me mantive em silêncio. Tinha medo de que, se pronunciasse a palavra errada, acabasse por estragar a única ponte que ainda me ligava a eles. Eu não queria perder Harry também.

Mas o silêncio é uma represa frágil quando a água continua a subir.

Foi numa quinta-feira sombria que a represa de Margareth começou a ceder.

Ela estava no seu escritório em casa, sentada na poltrona perto da janela. O ambiente cheirava a lenha queimada e a chá frio. No colo, repousava um livro aberto. Margareth estava na mesma página há quase vinte minutos. Os olhos dela estavam fixos no papel, mas a sua mente encontrava-se a quilómetros de distância, presa num labirinto que ela própria construíra e do qual agora não conseguia sair.

A porta do escritório estava entreaberta. Harry entrou sem fazer alarde. Ele conhecia a mulher que tinha ao seu lado melhor do que qualquer outra pessoa no mundo. Reconhecia a tensão na linha dos ombros dela, a respiração contida, a forma como a mão segurava a borda do livro com força excessiva.

Ele não foi para a sua mesa. Caminhou até ela e sentou-se na cadeira próxima, o olhar atento, desprovido de qualquer julgamento.

Margareth não virou o rosto. Continuou a fingir que lia.

Harry deixou que o silêncio se instalasse por alguns segundos, apenas o suficiente para que a presença dele se tornasse impossível de ignorar.

— No que está a pensar? — perguntou ele, a voz baixa, tranquila.

Margareth não pestanejou.
— Numa passagem do texto. É uma estrutura fraca.

Harry inclinou levemente a cabeça. Como um exímio investigador do comportamento humano — e, acima de tudo, um profundo conhecedor do desejo e das suas camuflagens —, ele não precisou de muito para ver através daquela mentira. Ele sabia o que a perturbava. Sabia quem a perturbava.

— Sente falta dela, Margareth?

A pergunta não teve preâmbulos. Caiu no centro da sala como uma pedra atirada a um lago plácido.

Margareth parou. Lentamente, ela virou o rosto para ele. A expressão dela estava fechada, os traços endurecidos por uma seriedade defensiva, quase hostil. Os olhos escuros reluziam com a surpresa de ter sido lida de forma tão transparente.

Harry não recuou. Sustentou o olhar dela com uma firmeza compassiva.
— Acertei, então.

A respiração de Margareth falhou por uma fracção de segundo. Ela fechou o livro com um estrondo abafado, pousando-o sobre a mesa ao lado com mais força do que o necessário.

— Não seja tolo, Harry.

Ela tentou levantar-se, tentou escapar para trás da sua armadura de racionalidade, mas Harry foi mais rápido. Ele esticou a mão e tocou levemente no pulso dela. Um toque que não a prendia, mas que a ancorava.

— Senta-te. Por favor.

Margareth hesitou, mas a exaustão daquela semana acabou por vencê-la. Deixou-se cair novamente na poltrona, o rosto voltado para a lareira, recusando-se a olhá-lo.

— Nós passamos a vida a estudar o mundo, Margareth — começou Harry, a voz a assumir aquele tom filosófico que a havia apaixonado anos antes. — Tu escreves sobre o que se passa na alma das pessoas. Eu pesquiso os escombros que o desejo deixa na História. Mas o grande erro do intelecto é acreditar que a compreensão de um sentimento nos torna imunes a ele.

Ela fechou os olhos por um breve instante.
— Harry...

— Escuta-me — interrompeu ele, suavemente. — Jamais devemos negar aquilo que nos atormenta. A sociedade ensina-nos a esconder, a soterrar, a trancar a porta e deitar a chave fora. Mas o desejo não morre no escuro. Ele apenas se transforma num fantasma que assombra a casa. Ou nós lidamos com ele, ou morreremos amargurados e arrependidos por todas as vidas que não tivemos a coragem de viver.

Margareth continuava a olhar para o fogo, mas as palavras dele estavam a atravessar a couraça.

— A vida não foi feita para ser um exercício de restrição, minha querida — continuou Harry, aprofundando o pensamento. — Se continuarmos a negar o que sentimos, a vida deixará de ter cor e brilho. Tornar-se-á um rascunho pálido daquilo que poderia ter sido. Nós somos seres cercados de energia, Margareth. Uma força que nos puxa, que nos atrai de maneiras que a razão não consegue explicar. E essa energia aprofunda-se, enraíza-se, exigindo mais de nós precisamente quando acreditamos estar no controlo.

Ele soltou o pulso dela e apoiou as mãos nos próprios joelhos, inclinando-se para a frente.
— O controle é a ilusão mais perigosa que a humanidade já inventou. Nos apaixonamos pela ordem porque temos pavor do que somos capazes de sentir. Mas é nessa perda de controlo que reside a verdadeira vitalidade. Se não cedermos a isso, se não reconhecermos que não conseguimos mais viver sem essa energia... estaremos apenas a respirar, mas não a viver.

O escritório ficou mergulhado num silêncio espesso. As chamas da lareira crepitavam.
As palavras de Harry não eram apenas teoria. Eram uma confissão mútua. Ele estava a dizer a ela que sentia o mesmo. Que a presença de Bella lhes tinha devolvido uma cor que a rotina académica quase apagara.

Margareth finalmente virou o rosto para ele. A frieza desapareceu, substituída por uma vulnerabilidade que poucos no mundo teriam o privilégio de testemunhar. Os olhos dela estavam húmidos, embora nenhuma lágrima ousasse cair.

— Aquilo foi um erro, Harry — Como é que podemos deixar isso acontecer? Eu sou a professora dela. você o professor dela. Nós somos... nós temos uma vida estruturada. O que fizemos na biblioteca... foi uma loucura.

Harry não piscou. A expressão dele não continha um miligrama de arrependimento.

Ele observou a mulher que amava, a mulher com quem construiu tudo, e, com uma tranquilidade absoluta, respondeu:

— Erro?

Ele sorriu, aquele mesmo sorriso sombrio e fascinado que teve quando debateu com William no corredor.

— Não vi aquilo como um erro, Margareth. Vi aquilo como a coisa mais verdadeira que fizemos nos últimos dez anos.

Capítulo 14
A natureza inevitável

A calma absoluta de Harry foi o suficiente para quebrar a última linha de defesa de Margareth. Ela ergueu-se da poltrona num movimento brusco, a seda da sua saia a roçar o estofado com um som ríspido. A irritação, rara e cortante, transfigurou o seu rosto.

— Como consegue pensar assim? — disparou ela, a voz a vibrar com uma indignação que era, no fundo, apenas medo disfarçado. — Como consegue olhar para uma aluna nossa, para a quebra de todas as regras morais e académicas, e não ver nisso um erro monumental?

Harry não se moveu. Permaneceu sentado, as mãos repousadas com tranquilidade sobre os joelhos. Ele olhou para ela não como um adversário num debate, mas como o homem que conhecia todos os seus labirintos.

— Você já sabe a resposta, Margareth — disse ele, a voz macia, mas implacável. — Olhe para o seu próprio comportamento nos últimos dias. O seu silêncio. A forma como tem evitado os corredores, a forma como finge ler esse livro há meia hora. Eu já lhe disse: é impossível esconder o que sentimos. Podemos enganar o mundo inteiro, mas a nossa pele não nos obedece.

Margareth cruzou os braços sobre o peito, virando o rosto para a janela. A chuva lá fora começava a engrossar.

Harry levantou-se lentamente e deu um passo na direção dela.
— O desejo, Margareth. E a sua natureza implacável — as palavras dele carregavam um peso magnético, ecoando pela sala como uma verdade inquestionável. — Nós passamos anos a dissecar o desejo nas páginas da História, mas esquecemo-nos de que ele não é um objeto de estudo. É uma força elementar. É avassalador, caótico, e não pede permissão para entrar. Destrói as estruturas que construímos com tanto cuidado porque a sua única função é lembrar-nos de que estamos vivos.

Margareth fechou os olhos por um segundo, a respiração presa na garganta.

— A Bella despertou algo em nós — continuou Harry, a voz agora num tom mais íntimo, quase um sussurro. — E começou com você. Ela apaixonou-se por você lentamente, dia após dia, naquelas aulas. Você sabe muito bem disso. Sabe o quanto ela a observava, o quanto a admirava com aquela intensidade nua. E, depois disso, você passou a observá-la de volta. Esta pesquisa? Foi apenas um gatilho. Foi o espaço de que ela precisava para encontrar a coragem absurda de se levantar e beijá-la daquela forma.

A respiração de Margareth falhou. Ela abriu os lábios para protestar, mas Harry não lhe deu espaço.

— E eu sei que você gostou. Eu vi o seu rosto, Margareth. Eu conheço-a. Somos um só, esqueceu-se? Passámos por coisas demais para fingirmos surpresa agora.

Ele parou atrás dela, perto o suficiente para que ela sentisse o calor do seu corpo.

— O amor não é uma jaula que nos obriga a diminuir para caber nas expectativas da sociedade — filosofou Harry, as suas palavras desenhando a arquitetura daquilo em que ambos sempre acreditaram. — O amor é a mais pura fonte de energia. É uma força expansiva que nos dá vitalidade para viver, para suportar a mediocridade do mundo e para superar qualquer convenção. Quando o negamos, apodrecemos por dentro. E nós...

Harry fez uma pequena pausa, deixando que a enormidade da sua próxima frase se assentasse.

— Nós os dois apaixonámo-nos por ela. E ela por nós.

Margareth ficou em silêncio. Os ombros dela desceram uma fracção de centímetro, a resistência a evaporar-se lentamente. Ela continuou a olhar seriamente para a janela, onde as gotas de chuva escorriam pelo vidro como lágrimas silenciosas de uma cidade que nunca entenderia o que se passava ali dentro.

— Não podemos simplesmente ignorar — disse Harry, tocando levemente no ombro dela. — Já ultrapassámos a linha. E não há caminho de volta para quem já viu a luz do outro lado.

Margareth permaneceu a olhar para o cinzento lá fora. Quando finalmente falou, a sua voz tinha perdido a fúria. Estava apenas cansada, embora ainda cautelosa.

— Mas e o namorado daquela garota? — perguntou ela, virando ligeiramente a cabeça. — O William odeia a sua pesquisa, Harry. Ele odeia a forma como você a faz pensar. E odiará ainda mais, com todas as forças do seu puritanismo, se sequer suspeitar do que se passa entre nós os três. Ele pode destruí-la.

Harry retirou a mão do ombro de Margareth e caminhou até à sua própria secretária. A serenidade havia regressado à sua postura, agora acompanhada por um sorriso fino e carregado de desdém.

— Não me preocupo minimamente com o garoto — respondeu Harry, o tom refletindo uma indiferença gélida. — Desejo-lhe toda a sorte do mundo na sua carreira política. Ele vai precisar, se acha que pode governar a natureza humana à base da força e da repressão.

O silêncio voltou a tomar conta do escritório, mas, desta vez, já não era um silêncio de negação.

Margareth olhou para o marido e, num suspiro silencioso, rendeu-se à verdade inegável daquelas palavras. Ela compreendeu a profundidade do que acontecera na biblioteca e, no âmago do seu ser, aceitou a tempestade que Bella Olive representava. A romancista imaculada admitiu, para si mesma, que desejava a sua aluna com uma intensidade que a assustava.

Contudo, a aceitação interna não desmoronou o seu orgulho.

Nos dias que se seguiram a essa conversa, apesar daquela clareza recém-descoberta, Margareth não recuou um único milímetro na sua frieza externa. A sua postura continuou intocável, a máscara de professora perfeitamente cimentada no rosto. O orgulho impedia-a de ser a primeira a ceder. Ela continuou sem dirigir a palavra a Bella fora do estritamente necessário para o âmbito académico, mantendo a distância, observando-a de longe, à espera que o tabuleiro se movesse por si só.

Capítulo 15
A anatomia do desejo e a quebra das correntes

A manhã estava fria, com aquele vento cortante de outono que varria as folhas secas pelos caminhos de pedra de Westbridge. Eu caminhava pela praça central da universidade de braço dado com William. Nos últimos dias, ele redobrara as suas atenções. Estava mais carinhoso, mais presente, cercando-me com um afeto protetor que, em vez de me confortar, se depositava sobre os meus ombros como uma âncora pesada. O peso na consciência esmagava-me. Como podia eu corresponder aos sorrisos dele quando a minha boca ainda guardava a memória do gosto de chá escuro de Margareth e da posse avassaladora de Harry?

Foi então que a vi.

Margareth estava sentada nos primeiros degraus da imponente escadaria da biblioteca principal. Tinha um caderno de anotações no colo, a caneta de tinta permanente movendo-se com a sua elegância habitual sobre o papel. O vento agitava levemente os seus cabelos perfeitamente alinhados.

Ao sentir a nossa aproximação, ela parou de escrever. Ergueu o rosto.

Os nossos olhos encontraram-se. O tempo à nossa volta pareceu abrandar. Ali, no meio da praça movimentada, a frieza que ela mantivera nos últimos dias deu lugar a um olhar insustentável, carregado de tudo aquilo que ela se recusava a dizer em voz alta. O meu coração disparou contra as costelas. William falava-me de algo trivial, apertando o meu braço contra o dele, alheio ao campo de força que acabara de se erguer entre mim e a mulher na escadaria.

O confronto visual durou apenas alguns segundos, mas pareceu uma eternidade. Fui eu quem vacilou. Esmagada pela culpa, pela presença de William e pelo pavor do que eu própria sentia, desviei o olhar. Fixei os olhos no chão e continuei a andar, deixando-me ser guiada para longe.

Margareth não voltou a olhar para o caderno. Manteve-se imóvel na pedra fria, os olhos cravados nas minhas costas, acompanhando cada passo meu até que eu desaparecesse completamente na curva do edifício.

Naquela mesma tarde, a atmosfera no anfiteatro de História era densa.

Faltavam quinze minutos para a aula começar e Harry já lá estava, organizando os seus apontamentos sobre a velha mesa de carvalho. Quando eu e William entrámos e nos sentámos nas primeiras filas, os olhos de Harry cruzaram-se com os meus por uma fracção de segundo. Não havia repreensão, apenas uma leitura penetrante do meu estado de espírito.

Quando o relógio soou, Harry não se escondeu atrás de datas ou tratados políticos. Ele caminhou até ao centro do estrado. A sua aula daquele dia seria diferente. Sem amarras. Sem censura.

— Hoje — começou Harry, a voz a projetar-se no anfiteatro silencioso —, não vamos falar sobre as guerras travadas com espadas e canhões, mas sobre os campos de batalha que existem nas camas e nas mentes humanas. Vamos falar sobre a natureza animalesca do desejo, sobre dominação e submissão, e sobre a hipocrisia de uma sociedade que finge que esses instintos não existem.

A sala ficou absolutamente imóvel. William, ao meu lado, enrijeceu a postura imediatamente.

— Ensinam-vos que o amor e o desejo devem caber num molde perfeito, civilizado e assexuado — continuou Harry, caminhando lentamente de um lado para o outro. — Mentem-vos. O ser humano não é uma criatura passiva. No âmago da nossa natureza, homens e mulheres anseiam, visceralmente, por controlar e ser controlados. A ideia de que o prazer reside apenas na ternura é uma fraude vitoriana. Há um prazer inegável, cru e profundo na rendição absoluta e na posse do outro.

As palavras dele não tinham filtros. Harry estava a expor as entranhas do comportamento humano perante dezenas de alunos conservadores. Eu prendi a respiração. A minha mente viajou inevitavelmente para o beijo na biblioteca, para a forma como eu tomara a iniciativa com Margareth e para a forma como Harry tomara o controlo a seguir.

— Existem emoções que nos prendem, e existem emoções que nos libertam — a voz de Harry assumiu um tom profundamente filosófico e afiado, os seus olhos varrendo a sala, mas parecendo falar diretamente para a minha alma. — O amor não precisa de ser exclusivo para ser verdadeiro. O desejo pode e deve ir além das convenções estéreis e dos papéis que vos mandam interpretar. A sociedade tem pavor daquilo que foge ao singular, mas a verdade é que o coração e o corpo humano são expansivos.

William mexia-se na cadeira, a fúria a tornar as suas feições rígidas. A mão dele apertou o meu joelho por baixo da mesa, num gesto possessivo que, até há pouco tempo, eu teria aceite. Agora, sentia-o como uma algema.

— Precisamos de separar a verdade da violência — prosseguiu Harry, parando bem no centro do estrado. — A submissão consentida é o maior ato de confiança que um ser humano pode entregar ao outro. É o abandono do ego em nome do êxtase e do desejo mútuo. Isso é libertador. O que é doentio não é a dominação na intimidade, mas sim a submissão imposta pelo moralismo das ruas. A coerção silenciosa que vos obriga a ser quem não são. Nem todo o desejo precisa de ser realizado, é certo. Mas todo e qualquer sentimento merece ser compreendido e honrado antes de ser julgado.

As palavras dele atingiram-me como um raio. Submissão consentida. Submissão imposta e coerção. Eu olhei para a mão de William no meu joelho. Ele não me estava a amar; ele estava a policiar-me. A prender-me. Harry estava a desmascarar, ali mesmo, diante de todos, a prisão em que eu estava a colocar a minha própria vida.

William não suportou mais. O som da sua cadeira a ser empurrada para trás ecoou violentamente pelo anfiteatro. Vários alunos viraram-se para trás, assustados.

Ele levantou-se, o rosto pálido de raiva e nojo.
— Isto é uma pouca-vergonha, professor — cuspiu William, a voz a tremer de fúria cega. — Não vou permitir que a minha noiva seja envenenada por este discurso obsceno e amoral.

Ele virou-se para mim e agarrou-me pelo braço, não com carinho, mas com a força bruta da coerção de que Harry acabara de falar.
— Vamos embora, Bella. Agora.

A sala inteira observava. O aperto de William magoava-me. Durante semanas eu tinha recuado. Tinha fugido de Margareth na praça. Tinha me escondido atrás da segurança que ele me oferecia. Mas as palavras de Harry tinham-me devolvido a clareza. Eu já não conseguia ignorar quem eu era.

Olhei para William, para os olhos cheios de indignação e autoritarismo dele, e depois olhei para o estrado. Harry estava lá em cima, as mãos nos bolsos do colete, observando a cena com uma calma predatória, esperando pela minha escolha.

Com um movimento seco, puxei o meu braço, soltando-me das garras de William.

— Não — a minha voz não tremeu. Ressoou clara no silêncio mortal do anfiteatro. — Eu fico.

William pareceu ter levado um soco. A descrença contorceu o seu rosto.
— Bella... O que estás a fazer? Estás a escolher ouvir esta... esta aberração, em vez de vires comigo?

— Eu estou a escolher pensar por mim mesma, William — respondi, fria. — E tu estás a interromper a aula.

O choque desfez a postura orgulhosa do futuro político. A humilhação de ser desafiado publicamente pela mulher que acreditava dominar destruiu o que restava do seu temperamento. Com um grunhido de raiva impotente, ele virou costas e marchou furiosamente para fora do anfiteatro. A pesada porta de madeira bateu com um estrondo violento atrás dele.

O silêncio na sala era absoluto.

Respirei fundo e endireitei as costas, mantendo-me no meu lugar.

Lá na frente, Harry não sorriu, mas uma sombra de triunfo e profundo respeito atravessou o seu olhar. Ele olhou para mim, reconhecendo a corrente que acabou de ser quebrada, ajeitou a gola do casaco e virou-se de volta para a turma.

— Como eu dizia — retomou Harry, a voz serena e implacável a dominar o espaço novamente —, a coerção raramente sobrevive quando a verdadeira natureza desperta.

Capítulo 16
Atrás do veludo escarlate

O relógio soou, marcando o fim da aula, mas o silêncio que se seguiu foi quase palpável. Harry foi o primeiro a sair. Recolhi as minhas notas com uma lentidão calculada. Tudo aconteceu logo após a aula. Fui a última a sair do anfiteatro. O meu coração ainda batia descompassado contra as costelas quando corri pelos corredores em direção ao gabinete de Harry.

Caminhei pelos corredores de Westbridge com o sangue ainda a pulsar pela adrenalina do discurso. Atravessei os pátios de pedra até chegar no gabinete de Harry. Bati na porta e Harry a abriu, e ao abrir a porta, encontrei Margareth exatamente onde eu sabia que ela estaria. Estava sentada em sua poltrona, a caneta a raspar furiosamente contra o papel, o pescoço tenso, a postura de quem tenta afogar os próprios demónios no trabalho.

Harry fechou a porta atrás de mim e caminhei até uma cadeira. Sentei-me, cruzei as pernas e encarei-a por longos segundos antes de Harry quebrar o silêncio.

foi quando a voz de Harry cortou o ar da sala, fria e cirúrgica:

— Submissão, desejo, controlo e aceitação. O que me diz sobre eles, Margareth?

A caneta dela parou. Margareth ergueu o rosto, a máscara da intelectual perfeitamente colocada.
— Digo que o desejo oprimido apodrece o espírito, Harry — respondeu ela, a voz a tremer com uma raiva contida. — Mas o controlo existe para evitar que queimemos a nossa própria casa apenas para nos aquecermos. A sociedade destrói aquilo que não cabe no singular.

Eu não podia mais recuar. Entrei na sala e fechei a porta.
— Eu não consigo — a minha própria voz soou como um apelo desesperado. Olhei diretamente para Margareth. — Tentei ficar longe. Mas eu sinto a falta de vocês. Sinto a sua falta, Margareth.

Ela levantou-se num solavanco, a cadeira a raspar no chão.
— Perdoe-me, Bella, mas não temos como continuar com isso! — a voz dela era gélida, cortante.

— Mas, Margareth — interveio Harry, a serenidade dele a contrastar com o desespero dela —, ela está aqui a confessar-se. Ela escolheu-nos.

— Não te rendas aos caprichos do teu pênis, Harry! Acorda! — sibilou Margareth, a compostura a estilhaçar-se. — Isto acabará com a nossa reputação! E se o Evans espalhar o que viu? A Bella não poderá sequer casar-se. Como lidaremos com isso?

— Eu e o Harry... quer dizer, eu e o William, já acabámos — interrompi, a firmeza a tomar conta de mim. — Ele não me governa mais.

— Controlo e aceitação, querida — murmurou Harry, recostando-se na cadeira com um sorriso implacável. — Tu desejas esta rapariga, Margareth.

— Eu não a desejo! E isto acaba aqui! — gritou ela.

Sem olhar para trás, Margareth marchou para a porta e bateu-a com violência. Fiquei paralisada por um segundo, até que o olhar de Harry me empurrou. Corri atrás dela.

Alcancei-a no grande salão do auditório. Estava vazio, mergulhado na penumbra das grandes janelas. Agarrei o seu braço com força, obrigando-a a virar-se.

— O que pensa que está a fazer? Já não lhe disse que acabou? — exigiu ela, ofegante, tentando soltar-se.

Não recuei. Olhei para o fundo dos seus olhos escuros e aterrorizados.
— Eu te amo, Margareth.

Uma corrente de eletricidade percorreu o corpo dela. Senti o tremor nos seus braços. As muralhas da romancista desmoronaram. Ela engoliu em seco, recuando um passo, a voz a falhar numa gaguez desesperada.

— Você é... muito ingénua, garota. Eu... eu não gosto de você.

O silêncio estalou no salão. A mentira era tão frágil que se desfez antes mesmo de tocar o chão. Foi então que percebi Harry a aproximar-se lentamente das sombras, parando a poucos metros de nós. A sua presença silenciosa foi o gatilho. A aula dele ecoou na minha mente: tomar o controlo do próprio desejo.

Puxei Margareth para mim e beijei-a.

Desta vez, ela não lutou. O corpo dela cedeu inteiramente contra o meu, e o beijo foi uma explosão de frustração e fome reprimida. Ela abriu os lábios, deixando que a minha língua explorasse a sua, as suas mãos agarrando os meus cabelos com possessividade. Parámos ofegantes, os nossos rostos colados, e olhámos para Harry. Estendemos as mãos para ele, num convite silencioso e definitivo.

Ele aceitou.

Guiou-nos para trás do palco, onde uma imensa cortina de veludo escarlate caía do teto ao chão, criando um casulo escuro e isolado. Assim que o veludo se fechou, a civilidade de 1938 ficou do lado de fora.

O desespero tomou conta das nossas mãos. Despimos as camadas de roupas grossas, botões e espartilhos com uma urgência animal, atirando os tecidos para o chão poeirento.

Nus e mergulhados na penumbra, caímos de joelhos diante dele. Harry mantinha-se de pé, a personificação da dominação sobre a qual filosofara. A submissão que entregámos ali foi o acto mais libertador da minha vida. Margareth, sempre tão contida, abraçou as coxas dele, os seus lábios polidos e cultos envolvendo a intimidade latejante do marido com uma devoção que me deixou sem ar. Não hesitei. Inclinei-me ao lado dela, e as nossas bocas encontraram-se sobre ele. Saboreámo-lo juntas, as nossas línguas a tocarem-se enquanto o chupávamos, partilhando o calor e o pulsar da masculinidade dele. Harry rosnou, as mãos a agarrarem com força os nossos cabelos, guiando o ritmo da nossa fome.

Quando ele não pôde suportar mais, puxou-nos para cima. Deitei-me sobre os casacos amontoados no chão, e Margareth não se afastou. Pelo contrário. O rosto dela desceu pelo meu ventre, e, com um gemido abafado, ela abriu as minhas pernas. A língua de Margareth encontrou o meu centro húmido e latejante, sugando-me e adorando-me com uma voracidade que me fez gritar. Ao mesmo tempo, Harry posicionou-se sobre mim e entrou com força, preenchendo-me por completo. A estocada funda dele, combinada com o êxtase que a boca de Margareth me provocava, lançou-me num delírio absoluto. Eu arranhava os ombros de Harry, cavalgando o impacto de cada investida dele, enquanto os lábios da mulher que eu amava me devoravam por baixo.

E então, trocámos. O nosso amor não conhecia hierarquias fixas.

Margareth deitou-se, os cabelos espalhados como uma coroa selvagem. Harry tomou-a, metendo nela com uma brutalidade possessiva que roubou da grande escritora gemidos altos, primitivos e desavergonhados. Eu não fiquei a assistir. Debrucei-me sobre o corpo suado de Margareth. Enquanto ele a penetrava profundamente, chocando os quadris contra os dela, eu beijava os seus seios, sugando os mamilos intumescidos até ela arquear as costas de prazer. Subi para o rosto dela, capturando os seus lábios. Beijámo-nos intensamente, as nossas salivas misturadas, abafando os gritos de prazer dela enquanto Harry a levava ao limite.

Éramos um único organismo a pulsar na escuridão. O cheiro de suor, de veludo e de sexo cru embriagava os nossos sentidos. O limite entre quem dominava e quem se submetia desaparecera. Quando o clímax nos atingiu, foi avassalador. Harry derramou-se dentro de Margareth com um rugido abafado, enquanto eu me desfazia em tremores nos braços dela, os nossos lábios unidos num último e longo suspiro.

Deitados no chão duro, os corpos húmidos e entrelaçados sob o peso do nosso segredo, soubemos que não havia regresso. O veludo escarlate acabara de testemunhar o nascimento do nosso império oculto.

Capítulo 17
A rendição da rainha e a fúria do instinto

A teoria tornou-se carne. Nas semanas que se seguiram àquela tarde atrás da cortina de veludo, as aulas de Harry deixaram de ser meros discursos académicos para se transformarem num espelho perfeito da nossa realidade oculta. E a ironia mais bela de todas era que nem eu, nem Margareth, tínhamos percebido imediatamente que a tese de Harry sobre desejo, controlo e submissão estava a cumprir-se nas nossas próprias camas. Ele provara que estava certo.

Uma nova ordem estabeleceu entre nós. O fim de cada aula era o prelúdio de uma urgência magnética que nos puxava para o gabinete dele, para a biblioteca vazia ou, cada vez com mais frequência, para a grandiosa casa dos Harrison. Eu passei a passar noites lá. A desculpa social de "assistente de pesquisa" era a fachada perfeita para a vida dupla que começávamos a construir.

Mas, de longe, havia olhos que não engoliam a fachada.

William Evans foi banido do meu mundo, mas o seu ressentimento prendia-o aos pátios de Westbridge. Sempre que eu saía do anfiteatro a caminhar ladeada por Harry e Margareth, sentia o peso do olhar de William cravado nas minhas costas. Ele via a minha transformação. Via a forma como as minhas roupas pareciam mais soltas, o meu andar mais confiante, e, acima de tudo, a frequência com que eu desaparecia na direção da casa dos meus professores. O orgulho ferido dele fervia. Ele já não tinha o direito de se intrometer, mas o político puritano que habitava nele observava a nossa proximidade com uma suspeita doentia.

Nós, porém, estávamos demasiado inebriados para nos importarmos.

A dinâmica entre mim e Margareth mudara de forma drástica e avassaladora. Fora das paredes da universidade, a postura rígida e intocável da grande romancista desmoronava-se. A mulher que passara a vida a ditar as regras do intelecto e do comportamento descobriu, nos meus braços, o alívio indescritível da submissão. E eu, a aluna que outrora a reverenciava com cautela, descobri uma faceta dominadora que pulsava nas minhas veias, faminta e obscura.

O vínculo emocional entre nós aprofundou-se de uma maneira que nenhuma palavra impressa conseguiria descrever. Margareth precisava de mim. A mulher orgulhosa e contida não o admitia em voz alta, mas o corpo dela traía-a. Ao fim de cada tarde, os olhos dela procuravam-me desesperadamente no corredor. Quando ficávamos sozinhas na cozinha da casa dela, Margareth encostava a testa no meu ombro, fechava os olhos e suspirava, deixando cair o peso do mundo. Eu acariciava os cabelos dela, sentindo-me a guardiã da sua vulnerabilidade. Eu amava-a com uma ferocidade protetora.

E no centro deste furacão de emoções estava Harry. O observador nato. O homem que nos abria as portas do prazer, servindo de âncora para a nossa tempestade.

Foi numa sexta-feira à noite, no imenso quarto do casal Harrison, iluminado apenas pelas chamas altas da lareira, que a nossa nova hierarquia se manifestou na sua forma mais crua e excitante.

O vento uivava contra as janelas de vidro grosso, mas lá dentro o calor era denso, carregado pelo cheiro de lenha, suor e desejo. Harry estava sentado na beira da cama, as costas encostadas aos travesseiros, o tronco nu e os músculos tensos, observando-nos com aquele fascínio predatório.

Eu estava de pé, vestindo apenas a minha camisa branca entreaberta, olhando para Margareth. Ela usava uma camisola de seda negra que lhe caía pelos ombros, os olhos escuros fixos nos meus, a respiração já ofegante pela antecipação.

Caminhei até ela com passos lentos. Não havia hesitação em mim. Ergui a mão e entrelacei os dedos nos cabelos perfeitamente escovados de Margareth, puxando-lhe a cabeça para trás com uma firmeza que a fez soltar um gemido baixo e arrastado. O olhar dela cruzou o meu, turvo de luxúria e rendição absoluta.

— Tira isso — sussurrei, a minha voz rouca, autoritária.

Margareth não questionou. Obedeceu com uma submissão que me enlouquecia. Deixou a seda escorregar pelo corpo até ao chão, revelando a pele alva e os seios fartos, os mamilos já duros e arrepiados.

Puxei-a pelo braço e atirei-a de costas sobre o colchão macio. Ela caiu com um suspiro pesado, os cabelos espalhados sobre os lençóis brancos. Subi para a cama, engatinhando sobre ela como uma predadora sobre a sua presa. Prendi os pulsos de Margareth acima da sua cabeça com uma só mão. Ela arqueou as costas instantaneamente, oferecendo-se.

Desci o meu rosto, roçando os lábios no pescoço dela, sentindo o pulsar acelerado da sua veia, e depois capturei a sua boca num beijo violento e molhado. A língua de Margareth lutou contra a minha por um segundo antes de se render, deixando que eu explorasse cada canto, enquanto a minha mão livre descia pelo seu ventre, apertando-lhe os seios, provocando gritos abafados contra a minha boca.

Harry não era um mero espectador. Ele era o centro para o qual nós gravitávamos.

Enquanto eu mantinha Margareth presa sob o meu corpo, Harry moveu-se. Ele ajoelhou-se atrás dela, separando as coxas trémulas da esposa. Senti a cama afundar com o peso dele. O olhar de Harry cruzou com o meu — uma cumplicidade silenciosa e incendiária.

Ele não usou preliminares. Harry alinhou-se e meteu em Margareth com uma estocada profunda e possessiva, colocando tão fundo nela de uma só vez.

Margareth gritou. O som rasgou a penumbra do quarto, um grito agudo de dor misturada com um êxtase insuportável. Eu silenciei o grito dela com a minha boca, beijando-a ferozmente, engolindo os seus gemidos enquanto Harry a penetrava por trás com uma força brutal, rítmica e animalesca.

O impacto dos corpos ecoava pelo quarto. O peito de Margareth subia e descia freneticamente. Eu soltei os braços dela, e as mãos desesperadas de Margareth agarraram a minha cintura, cravando as unhas na minha pele, procurando uma âncora.

— Bella... por favor... — implorou Margareth, a voz embargada, o rosto contorcido de prazer a cada investida violenta de Harry.

— Eu estou aqui — respondi, o tom dominador, e desci os meus beijos pelo colo dela. Deslizei pelo seu corpo húmido. Afastei-me ligeiramente e, enquanto Harry continuava a foder a própria esposa com uma fome inesgotável, eu mergulhei o meu rosto entre as pernas abertas de Margareth.

A humidade e o gosto do sexo dela embriagaram-me. Envolvi o seu clitóris inchado com os lábios, sugando-a com força, a minha língua trabalhando num ritmo frenético, sincronizado com o impacto da bacia de Harry a bater contra a bunda dela.

Margareth perdeu completamente o controle. A intelectual brilhante dissolveu-se. Ela atirava a cabeça de um lado para o outro no travesseiro, soluçando o meu nome e o de Harry, implorando por mais. Ela era nossa. Completamente dominada, consumida pelo fogo que ela mesma tentara apagar durante anos.

Mas a noite estava longe de terminar.

Harry puxou Margareth para cima, sentando-se e colocando-a no seu colo, de frente para ele, para que ela o cavalgasse. A respiração de ambos estava pesada, o suor brilhando na pele à luz do fogo. Coloquei-me de joelhos atrás de Margareth. Passei os meus braços à volta do corpo dela, segurando os seus seios com firmeza, os meus dedos apertando e puxando os mamilos enquanto ela gemia e rebolava sobre o Harry.

Beijei a nuca suada de Margareth e olhei para Harry por cima do ombro dela. Ele sorriu, aquele sorriso diabólico de quem via o seu maior ensaio filosófico ganhar vida.

— Vem cá, Bella — murmurou Harry, a voz rouca, estendendo a mão para mim.

Puxei Margareth para trás e tomei o lugar dela. Coloquei-me por cima de Harry, encaixando-me perfeitamente nele, deixando que ele me preenchesse até ao limite. Soltei um gemido longo, jogando a cabeça para trás. Harry agarrou os meus quadris com força, ditando um ritmo alucinante e profundo.

Margareth, agora livre, não ficou submissa por muito tempo. O amor que ela sentia por mim exigia toque. Ela ajoelhou-se à nossa frente e, com os olhos transbordando de devoção e luxúria, debruçou-se sobre mim. Enquanto eu saltava sobre Harry, sentindo o atrito avassalador que me incendiava por dentro, Margareth capturou os meus lábios num beijo desesperado. As mãos dela desceram pelo meu peito, pelo meu ventre, até alcançarem o meu centro onde os nossos corpos se uniam. Os dedos hábeis de Margareth juntaram-se ao ritmo de Harry, estimulando-me sem piedade, levando-me à beira da loucura.

A combinação da posse brutal de Harry por baixo, e a veneração delicada, mas desesperada de Margareth por cima, destruiu todas as minhas barreiras.

— Harry... Margareth! — gritei, a minha visão a turvar-se.

O clímax arrastou-nos aos três como uma maré violenta. O meu corpo sofreu espasmos incontroláveis, contraindo-se em volta dele, enquanto Margareth continuava a beijar-me, engolindo os meus suspiros, e Harry soltava um rugido, despejando a sua essência quente e pulsante bem no fundo de mim.

Caí exausta sobre o peito de Harry, com Margareth a aninhar-se ao meu lado, os braços dela a envolverem a minha cintura protetoramente. O som das nossas três respirações dessincronizadas era a única coisa que se ouvia no quarto. O controlo. A submissão. A aceitação. Tudo aquilo que condenava a sociedade lá fora, aqui dentro, mantinha-nos vivos, unidos por um laço que nem Deus, nem o tempo, conseguiriam quebrar.