CAPÍTULO 1
O Deus que não responde
O homem sentado no último banco estava morto havia vinte e três minutos.
Kain ainda não sabia disso.
Sabia apenas que havia alguma coisa errada com ele.
A velha igreja permanecia fechada para o restante de Roma naquela noite. As duas portas de madeira haviam sido trancadas por dentro, as luzes do salão principal estavam apagadas e apenas nove velas ardiam diante do altar. Lá fora, a chuva de novembro riscava os vitrais e escorria pelas pedras antigas como se a cidade inteira estivesse sendo lavada de alguma coisa que não sairia com água.
Dentro, havia seis pessoas.
Padre Gabriele diante do altar.
Kain e Lara no primeiro banco.
E três desconhecidos espalhados pela igreja.
Nenhum deles parecia ter vindo para uma missa.
Kain percebeu isso antes mesmo de Gabriele entrar.
A mulher sentada do lado esquerdo usava um sobretudo escuro e segurava uma bolsa pequena contra o colo. Devia ter pouco mais de quarenta anos. Não tirara os olhos do crucifixo desde que chegara.
Do lado oposto estava um homem alto, talvez cinquenta anos, vestido de maneira simples, mãos largas apoiadas sobre os joelhos. Possuía uma cicatriz fina atravessando a sobrancelha direita.
O terceiro estava no fundo.
Era ele que incomodava Kain.
Terno cinza.
Cabeça baixa.
Mãos juntas.
Imóvel.
Imóvel demais.
Kain virou discretamente o rosto.
— Para de olhar — murmurou Lara.
Kain continuou olhando.
— Ele está estranho.
— Você olha para todo mundo como se estivesse estranho.
— Porque todo mundo é estranho.
Lara segurou o riso.
Tinha doze anos e fazia questão de usar aqueles dois anos de diferença como se fossem décadas de experiência. Os cabelos castanhos e curtos estavam presos atrás das orelhas, ainda um pouco úmidos da chuva. Sua pele negra clara parecia dourada sob a luz das velas.
Ela inclinou-se discretamente.
— Gabriele mandou você não encarar as pessoas.
— Ele também mandou você parar de conversar durante a missa.
— A missa nem começou.
— Então eu ainda posso olhar.
Lara bufou.
— Criança.
Kain virou imediatamente.
— Você tem doze anos.
— Exatamente.
— Isso ainda é criança.
— Para você, não.
Kain abriu a boca para responder.
As portas atrás do altar se abriram.
O silêncio veio antes de Padre Gabriele.
Era uma coisa curiosa sobre ele.
Gabriele nunca precisava pedir silêncio.
Quando entrava em algum lugar, as pessoas simplesmente diminuíam a voz.
Aos cinquenta e sete anos, não parecia velho, embora seus cabelos completamente brancos lhe acrescentassem alguns anos à distância. Eram cortados muito rente à cabeça. A barba, também branca, cobria-lhe o queixo e parte das faces, aparada sem qualquer preocupação estética especial.
Naquela noite não vestia as roupas elaboradas que Kain costumava ver em cerimônias maiores.
Apenas a batina preta.
Sem dourado.
Sem vermelho.
Sem ornamentação.
Gabriele caminhou lentamente até o altar.
Não carregava Bíblia.
Kain estranhou.
Havia um crucifixo de madeira atrás dele.
Cristo pregado nele.
Cabeça caída.
Braços abertos.
O mesmo homem que milhões chamavam de Salvador observava seis pessoas dentro de uma igreja vazia.
Gabriele olhou primeiro para os três desconhecidos.
Depois para Lara.
Por último, Kain.
Seus olhos demoraram nele um pouco mais.
— Boa noite.
Ninguém respondeu imediatamente.
Gabriele colocou ambas as mãos sobre o altar.
— Não vou pedir que se levantem.
A mulher do sobretudo pareceu confusa.
— Também não haverá cânticos. Não haverá comunhão. Não haverá leitura do Evangelho.
A confusão dela aumentou.
O homem da cicatriz apenas observava.
O homem no fundo não levantou a cabeça.
Kain olhou para Lara.
Ela deu de ombros.
Gabriele respirou fundo.
— Esta noite, eu não os trouxe aqui para falar de salvação.
O som da chuva ficou mais perceptível.
Gotas batiam contra os vitrais.
Uma após outra.
— Trouxe vocês para falar sobre Deus.
A mulher fez discretamente o sinal da cruz.
Gabriele viu.
— Não faça isso ainda.
A mão dela parou no meio do caminho.
Um desconforto atravessou o salão.
Kain endireitou-se no banco.
Nunca tinha ouvido Gabriele falar daquela maneira durante uma missa.
Talvez porque aquilo não fosse uma missa.
O padre afastou-se lentamente do altar.
— Desde crianças nos ensinam uma ideia muito confortável. Deus é bom. Deus observa. Deus protege. Deus escuta. Quando sofremos, existe um motivo. Quando perdemos alguém, existe um propósito. Quando uma criança morre, dizem que Deus precisava de outro anjo.
Gabriele fez uma pausa.
Seu rosto endureceu.
— Que frase nojenta.
A mulher arregalou os olhos.
Lara deixou de brincar com os dedos.
Kain apenas observou.
Gabriele caminhou até o crucifixo.
Olhou para ele.
— Transformamos Deus na explicação para tudo aquilo que somos covardes demais para admitir que não compreendemos.
Passou os dedos pela madeira.
— Perdemos alguém?
Virou-se para os presentes.
— “Era a vontade de Deus.”
Mais um passo.
— Sobrevivemos?
Outro.
— “Deus me protegeu.”
Sua voz tornou-se mais baixa.
— Então o que aconteceu com aquele que morreu ao nosso lado?
Ninguém respondeu.
— Deus não gostava dele?
A mulher abaixou os olhos.
— Rezamos pela cura enquanto pessoas apodrecem em camas de hospital. Rezamos para que nossos filhos voltem para casa enquanto os filhos de outros são encontrados dentro de sacos. Rezamos para vencer guerras enquanto o homem do outro lado da trincheira faz exatamente a mesma oração.
Gabriele parou no centro da nave.
— E todos acreditam que Deus escolherá o lado deles.
A chama das velas oscilou.
O homem da cicatriz passou a língua pelos lábios.
Gabriele continuou:
— Como aqueles que acreditam em Deus podem ter tanta certeza de que Ele é bom?
Dessa vez ninguém sequer se mexeu.
— Como podem ter certeza de que Ele trará salvação?
A mulher finalmente falou.
— Padre...
— Não.
Gabriele ergueu a mão.
Não havia agressividade no gesto.
Mesmo assim ela se calou.
— Hoje vocês vão ouvir. Amanhã podem me chamar de blasfemo.
Voltou os olhos para o crucifixo.
— Talvez tenham razão.
A chuva engrossou.
Um trovão distante percorreu a cidade.
Gabriele permaneceu alguns segundos olhando para Cristo.
Então falou:
— Deus brinca com sua criação.
As palavras pareceram maiores dentro da igreja.
Kain sentiu alguma coisa apertar seu estômago.
— Ele observa homens construírem casas sabendo que um terremoto pode derrubá-las. Observa mães gerarem filhos sabendo que algumas terão de enterrá-los. Observa crianças aprenderem seu nome enquanto outras morrem antes de conseguirem pronunciá-lo.
Gabriele apontou para os bancos.
— E nós ainda chamamos isso de plano.
Seu tom aumentou.
Não era um grito.
Era pior.
Era convicção.
— DEUS!
A palavra ecoou entre as colunas.
Kain deu um pequeno salto.
— Deus escuta milhões implorando pela própria saúde. Pela proteção dos filhos. Pelo perdão. Por mais um dia. Mais uma hora. Mais um miserável segundo ao lado de quem amam.
Gabriele fechou a mão.
— E não responde.
Silêncio.
— Talvez ria.
A mulher levantou-se.
— Chega.
Gabriele olhou para ela.
— Sente-se, Sofia.
Kain imediatamente prestou atenção.
Até aquele momento ninguém havia dito o nome dela.
A mulher também percebeu.
Seu rosto perdeu um pouco da cor.
— Eu não disse meu nome.
— Não.
Gabriele respondeu tranquilamente.
— Mas eu sei quem você é.
Ela permaneceu em pé.
— O senhor disse que poderia explicar o que aconteceu com meu marido.
— E vou explicar.
— Então explique.
— Sente-se.
Ela hesitou.
Depois sentou.
Gabriele observou os três desconhecidos.
— Todos vocês vieram aqui porque alguma coisa aconteceu em suas vidas e nenhuma oração conseguiu explicar.
Olhou para o homem da cicatriz.
— Matteo viu o irmão morto caminhar pelo corredor da própria casa.
O homem ficou rígido.
Gabriele olhou para Sofia.
— Você ouviu seu marido chamá-la pelo nome três dias depois de enterrá-lo.
Sofia começou a respirar mais rápido.
Então os olhos do padre foram até o fundo.
Para o homem de terno cinza.
Ele continuava imóvel.
— E você...
Gabriele parou.
Kain percebeu.
Foi uma pausa pequena.
Mas conhecia o padre bem o suficiente para saber que não estava prevista.
Gabriele encarou o homem.
— Você não deveria estar aqui.
Lara virou-se.
Kain já estava olhando.
O homem finalmente ergueu a cabeça.
E Kain sentiu o sangue esfriar.
Não havia nada obviamente errado com seu rosto.
Dois olhos.
Um nariz.
Uma boca.
Pele pálida.
Talvez quarenta anos.
Talvez cinquenta.
Parecia simplesmente cansado.
Ainda assim...
Kain viu outra coisa.
Atrás dele.
Não.
Não atrás.
Ao redor.
Uma espécie de contorno.
Como se outra coisa estivesse ocupando exatamente o mesmo espaço daquele corpo, mas fosse grande demais para caber dentro dele.
Kain piscou.
Continuava lá.
A forma acompanhava o homem.
Mas atrasada.
Quando ele moveu a cabeça, aquilo levou uma fração de segundo para fazer o mesmo.
Kain segurou o banco.
— Lara.
Ela percebeu o tom.
— O quê?
— Tem alguma coisa nele.
Lara olhou.
Sua expressão mudou.
Não de medo.
De concentração.
— Eu não vejo.
Kain engoliu em seco.
— Eu vejo.
Gabriele ouviu.
Seu olhar encontrou o de Kain.
Por um instante, não era mais o padre diante de uma congregação.
Era o homem que criara aquele menino durante dez anos.
E havia medo em seus olhos.
Kain nunca tinha visto aquilo.
Gabriele falou:
— Kain.
— O quê?
— Venha até mim.
O homem do fundo sorriu.
Kain congelou.
Não porque o sorriso fosse assustador.
Porque a coisa sobreposta ao corpo não sorriu junto.
Lara agarrou o braço dele.
— Gabriele...
— Os dois. Agora.
Kain levantou.
Lara também.
Sofia e Matteo olhavam sem entender.
O homem permaneceu sentado.
— Padre — disse ele.
Sua voz era normal.
Quase agradável.
— O senhor ainda assusta crianças com histórias?
Gabriele não respondeu.
O homem inclinou a cabeça.
A forma em torno dele demorou novamente para acompanhá-lo.
Kain sentiu vontade de vomitar.
Gabriele estendeu a mão para ele.
— Venha.
Kain deu um passo.
O homem falou novamente:
— Ele consegue me ver.
Kain parou.
Lara apertou seus dedos.
Gabriele ficou imóvel.
— Não fale com ele.
O homem soltou uma risada baixa.
— Então é verdade.
Gabriele deu um passo à frente.
— Quem mandou você?
— Ninguém manda em mim.
— Todos servem alguma coisa.
— Inclusive você.
Gabriele não respondeu.
O desconhecido olhou diretamente para Kain.
Os olhos pareciam humanos.
Mas havia alguma coisa atrás deles.
Uma profundidade impossível.
Como observar um corredor escuro através de dois pequenos buracos.
— Quantos anos?
Gabriele ficou entre ele e as crianças.
— Não interessa.
— Dez?
Kain sentiu Lara apertar ainda mais sua mão.
O homem respirou fundo.
— Já começou cedo.
— Saia.
O sorriso desapareceu.
— Esta casa não é sua.
Gabriele respondeu:
— Também não é de Deus.
Matteo levantou abruptamente.
— Que porra está acontecendo?
O padre não desviou o olhar.
— Sente-se.
— Eu não vou sentar!
— Então vá embora.
— O senhor me trouxe até aqui!
— E estou permitindo que vá.
Matteo olhou para a porta.
Depois para o homem no fundo.
Algo em seu instinto pareceu convencê-lo a permanecer.
Sentou lentamente.
Gabriele voltou a falar com o desconhecido:
— Você entrou em uma igreja sabendo exatamente quem encontraria.
O homem sorriu outra vez.
— Talvez tenha vindo rezar.
— Você não sabe rezar.
— E você sabe?
Aquilo atingiu Gabriele de maneira diferente.
Por alguns segundos ele não respondeu.
O homem continuou:
— Acabou de dizer que Deus não escuta.
Gabriele aproximou-se dele.
— Eu disse que Ele não responde.
Mais um passo.
— São coisas diferentes.
O sorriso do homem desapareceu.
Foi então que Lara falou:
— Padre...
Sua voz estava baixa.
Gabriele virou o rosto apenas o suficiente para escutá-la.
Lara olhava para o homem.
Não exatamente para ele.
Para alguma coisa próxima dele.
— Tem alguém falando.
Kain olhou para ela.
— Quem?
Lara não respondeu.
Seu rosto perdeu a cor.
— Lara?
Ela deu um passo para trás.
— Muitos.
Gabriele virou-se completamente.
— Não escute.
— Eles estão gritando.
— Lara.
Ela levou as mãos aos ouvidos.
— Tem muita gente.
— Olhe para mim.
— Eles estão dentro dele.
Gabriele atravessou rapidamente a distância e segurou o rosto da menina entre as mãos.
— Lara. Olhe para mim.
Ela tremia.
— Eles estão pedindo ajuda.
— Eles não podem ajudá-la e você não pode ajudá-los.
— Mas...
— Olhe para mim.
Lara encontrou seus olhos.
Gabriele falou devagar.
— Conte cinco coisas que consegue ver.
Ela respirou.
— Você.
— Outra.
— Kain.
— Outra.
— As velas.
— Outra.
— O altar.
— Mais uma.
Os olhos dela voltaram involuntariamente para o homem.
Gabriele virou seu rosto.
— Lara.
Ela engoliu em seco.
— A cruz.
— Muito bem.
A respiração começou a diminuir.
O homem do fundo observava tudo com curiosidade.
Kain percebeu que a coisa ao redor dele havia mudado.
Agora parecia maior.
Mais próxima.
Ele não conseguia descrever o formato.
Talvez braços.
Talvez pernas.
Talvez nada daquilo.
Seu cérebro insistia em transformar o que via em partes conhecidas.
Mas nenhuma delas encaixava.
Então Gabriele disse algo estranho.
— Sofia. Matteo. Saiam.
Sofia levantou.
— E ele?
— Agora.
Não precisaram ouvir duas vezes.
Os dois caminharam rapidamente até a saída lateral.
Matteo abriu a porta.
Sofia atravessou primeiro.
Antes de sair, entretanto, olhou novamente para Gabriele.
— Meu marido...
O padre respondeu:
— Amanhã.
Ela hesitou.
Depois desapareceu pela porta.
Matteo foi atrás.
A porta fechou.
Restaram quatro.
Gabriele.
Kain.
Lara.
E aquilo.
O homem olhou para o altar.
— Interessante.
Gabriele não falou.
— Você ainda mantém o crucifixo.
— É madeira.
— Você sabe que não funciona.
— Nunca disse que funcionava.
O desconhecido riu.
— Então por quê?
Gabriele olhou para Cristo.
— Porque homens precisam lembrar do que são capazes de fazer uns com os outros.
Dessa vez o homem não riu.
Kain não compreendeu completamente aquela frase.
Mas guardou.
Anos depois ainda se lembraria dela.
Gabriele aproximou-se lentamente das crianças.
Sem retirar os olhos do visitante, falou:
— Quero que vocês vão para meus aposentos.
Kain respondeu imediatamente:
— Não.
— Não foi uma pergunta.
— Eu quero ficar.
— Kain.
— Você disse que ia ensinar.
Gabriele finalmente olhou para ele.
— E uma das primeiras coisas que estou ensinando é quando ir embora.
Kain ficou em silêncio.
Gabriele apontou para a porta.
— Agora.
Lara puxou o braço dele.
— Vamos.
Kain ainda encarava o homem.
A coisa atrás dele agora parecia olhar de volta.
Então aconteceu.
O desconhecido abriu a boca.
Devagar.
Kain viu sua língua.
Não havia marca.
Mas alguma coisa embaixo dela se mexeu.
Independentemente.
Como um pequeno músculo tentando respirar.
Kain levou involuntariamente a própria língua contra o céu da boca.
Sentiu a marca.
O homem percebeu.
E sorriu.
— Então é você.
Gabriele avançou imediatamente.
— KAIN!
Lara puxou-o.
Os dois correram.
Atrás deles, o homem começou a rir.
A risada atravessou a igreja.
Não era grave.
Não era demoníaca.
Era humana.
E talvez por isso fosse ainda pior.
Kain e Lara entraram pelo corredor lateral.
Gabriele fechou a porta atrás deles.
Antes que ela se fechasse completamente, Kain conseguiu enxergar o padre retornando sozinho para o centro da nave.
O homem permanecia sentado.
Gabriele parou diante dele.
— Quem mostrou o caminho até aqui?
O desconhecido levantou.
A porta fechou.
Kain ainda conseguiu ouvir a resposta.
— Você ainda acha que estamos entrando?
Silêncio.
Então:
— Nós nunca fomos embora.
No corredor escuro, Lara e Kain permaneceram imóveis.
Nenhum dos dois falou por alguns segundos.
A chuva batia contra uma pequena janela acima deles.
Kain olhou para Lara.
— Quem estava gritando?
Ela demorou para responder.
— Mortos.
— Quantos?
Lara balançou a cabeça.
— Não sei.
— Eles estavam presos nele?
— Não sei.
— O que disseram?
Ela olhou para a porta.
— Quase nada que eu conseguisse entender.
Kain esperou.
Lara parecia não querer continuar.
— Lara.
Ela baixou a voz.
— Uma mulher conseguiu falar mais alto.
— E o que ela disse?
Lara demorou alguns segundos.
— Que aquele homem morreu há três dias.
Kain ficou completamente imóvel.
Do outro lado da porta, alguma coisa caiu.
Um banco talvez.
Depois silêncio.
Lara segurou sua mão.
— Kain...
Ele não respondeu.
— Tem mais uma coisa.
— O quê?
Ela olhou para ele.
Pela primeira vez naquela noite, Lara parecia verdadeiramente assustada.
— Ela disse que ele não morreu sozinho.
Kain sentiu frio.
— O que isso significa?
Lara balançou lentamente a cabeça.
— Eu não sei.
Outro barulho veio da igreja.
Dessa vez mais forte.
Depois a voz de Gabriele.
Baixa demais para entender.
E uma segunda voz.
Respondendo.
Kain aproximou-se da porta.
Lara o segurou.
— Ele mandou a gente ir.
— Você vai?
Ela hesitou.
Kain levantou uma sobrancelha.
Lara soltou o braço dele.
— Só vou deixar registrado que essa ideia idiota foi sua.
Os dois se aproximaram da porta.
Kain encostou o ouvido na madeira.
Por alguns segundos, nada.
Então ouviu Gabriele.
Sua voz estava diferente.
Fria.
— Diga aos outros que o menino não está pronto.
Uma pausa.
A resposta veio baixa.
— Não cabe mais a você decidir.
Gabriele:
— Enquanto eu estiver vivo, cabe.
O homem começou a rir.
E então disse:
— É justamente por isso que vim.
Kain afastou o rosto da porta.
Lara percebeu.
— O quê?
Ele não respondeu.
Dentro da igreja, todas as velas se apagaram.
Ao mesmo tempo.
E pela primeira vez naquela noite, Kain teve certeza de uma coisa.
Padre Gabriele não havia reunido aquelas pessoas para celebrar uma missa.
Ele as reunira porque estava esperando alguma coisa.
E aquela coisa finalmente havia chegado.
CAPÍTULO 2
O Acusador
Padre Gabriele não correu até as crianças quando percebeu que o homem no último banco não estava sozinho dentro da própria carne.
Também não tocou no crucifixo.
Não procurou água benta.
Não abriu uma Bíblia.
Apenas se virou para Kain e Lara e apontou para o primeiro banco.
— Sentem-se.
Kain obedeceu antes mesmo de pensar em perguntar por quê.
Lara fez o mesmo.
Os outros dois desconhecidos continuavam espalhados pela igreja, rígidos demais para parecerem devotos. A mulher de sobretudo mantinha as mãos fechadas no colo. O homem próximo à coluna evitava olhar para trás.
Somente o terceiro parecia confortável.
Sentado sozinho no último banco, pernas afastadas, braços repousados sobre os joelhos, ele observava Padre Gabriele com a tranquilidade de alguém que não entrara ali para rezar.
Kain já havia percebido aquilo que o incomodava.
O homem respirava.
Piscava.
Sua pele possuía cor.
Havia vida nele.
Ainda assim, outra presença parecia acompanhar cada movimento de seu corpo como uma sombra que tivesse aprendido tarde demais a imitar um homem.
Quando o desconhecido virava o rosto, aquilo atrás dele demorava um instante para fazer o mesmo.
Quando respirava, a coisa permanecia imóvel.
Quando sorria, ela não sorria.
Kain baixou os olhos.
A voz de Gabriele veio sem que ele precisasse olhar.
— Não tente compreendê-lo.
Kain ergueu a cabeça.
— Mas eu...
— Ver não lhe dá o direito de entender.
Gabriele continuava de pé diante do altar.
Não parecia preocupado com o visitante.
Parecia irritado.
Era uma diferença que Kain ainda não sabia reconhecer muito bem, mas que Lara percebeu imediatamente.
O padre não temia aquele homem.
Odiava alguma coisa nele.
O estranho bateu duas vezes a ponta do sapato contra o piso.
— Interessante.
Gabriele permaneceu imóvel.
— O quê?
— Você não lhe disse.
— Disse muitas coisas a ele.
— Não essa.
O padre sustentou o olhar.
— E não será você quem dirá.
O homem sorriu.
A pele ao redor dos lábios parecia ressecada. Havia pequenas fissuras no canto da boca, como se estivesse há dias sem beber água suficiente.
— Então estamos de acordo sobre ao menos uma coisa. Crianças não deveriam conhecer certas verdades cedo demais.
— Crianças não deveriam ser usadas por aquilo que não possui coragem de entrar sozinho em uma igreja.
O sorriso desapareceu.
A mulher de sobretudo fez um movimento involuntário.
Gabriele olhou para ela.
— Você e o senhor Ricci podem ir.
O homem próximo à coluna pareceu aliviado.
A mulher, não.
— Padre, o senhor disse que...
— Amanhã.
— Mas meu marido...
— Amanhã.
A firmeza encerrou a discussão.
Os dois se levantaram e caminharam rapidamente em direção à porta lateral. Nenhum deles olhou para o homem do último banco.
Quando a porta se fechou, restaram quatro pessoas.
E, aos olhos de Kain, algo mais.
O desconhecido acompanhou a saída dos dois.
— Você ainda protege ignorantes.
— Eu protejo pessoas de perguntas para as quais ainda não estão preparadas.
— Isso é o que todas as religiões dizem antes de esconder alguma coisa.
Gabriele não respondeu.
Desceu os dois degraus do altar e caminhou lentamente pelo corredor central.
Cada passo ecoou pela igreja vazia.
Parou a alguns metros do homem.
— Diga seu nome.
— Meu nome importa?
— O seu, sim.
— E o outro?
Gabriele fitou-o por alguns segundos.
— Esse eu já sei.
Pela primeira vez, a expressão do estranho se alterou de verdade.
Foi pouco.
Uma leve rigidez na mandíbula.
Mas Kain percebeu.
O homem apoiou as costas no banco.
— Então diga.
Gabriele aproximou-se mais.
— Você prefere chamá-lo de anjo ou de demônio?
O silêncio que veio depois pareceu deslocar o ar da igreja.
Lara olhou para Kain.
Ele não sabia responder à pergunta, embora ela não tivesse sido feita a ele.
O homem soltou uma risada curta.
— Ainda brincando com palavras.
— Não. Estou verificando até onde sua ignorância chega.
A frase atingiu o visitante.
Gabriele continuou:
— Se disser “demônio”, saberá que recebeu a versão mais recente da história. Se disser “anjo”, saberá que recebeu uma versão mais antiga. Se souber que ambos são nomes diferentes para uma mesma natureza...
Parou.
— Então talvez valha a pena conversar.
O homem o encarou.
— E se eu disser que não existe diferença?
— Então finalmente chegamos ao começo.
Kain franziu o cenho.
Desde pequeno ouvira palavras como anjo e demônio. Na igreja, eram colocadas em lados opostos.
Um servia a Deus.
O outro se rebelava.
Um protegia.
O outro destruía.
Gabriele estava dizendo aquilo como se fossem rótulos colocados posteriormente sobre a mesma coisa.
O visitante olhou para o crucifixo.
— Está ensinando heresia dentro da própria casa de Deus.
— Esta casa pertence à Igreja.
Gabriele olhou para cima.
— Não confunda propriedade com presença.
O homem sorriu novamente.
— É por isso que gostam de você.
— Eles não gostam.
— Não estou falando dos homens.
Gabriele não reagiu.
O sorriso desapareceu outra vez.
Kain percebeu algo que começaria a aprender sobre Padre Gabriele nos anos seguintes:
Ele nunca preenchia um silêncio por nervosismo.
Se não precisava falar, não falava.
E aquela ausência de palavras obrigava o outro a se revelar.
O estranho descruzou as pernas.
— Vamos falar de Deus, então.
Gabriele continuou de pé.
— Foi por isso que entrou aqui.
— Não. Entrei porque você estava aqui.
Uma pausa.
O visitante desviou os olhos para Kain.
— E porque ele também estava.
Gabriele deslocou-se apenas alguns centímetros.
Foi o suficiente para interromper a linha direta entre os dois.
— Fale comigo.
O homem riu.
— Sempre entre eles e nós.
— Sempre.
— Não pode fazer isso para sempre.
— Não preciso.
A chuva batia contra os vitrais.
O visitante olhou novamente para o altar.
— Você disse há pouco que Deus abandonou seus filhos.
— Disse.
— E continua padre.
— Continuo.
— Acredita nele?
— Sim.
— Acredita que é bom?
Gabriele demorou alguns segundos.
Não porque desconhecesse a resposta.
Parecia escolher exatamente qual parte dela o homem merecia ouvir.
— Não possuo evidência suficiente para chamar Deus de bom.
O estranho sorriu.
— Finalmente.
— Nem evidência suficiente para chamá-lo de mau.
O sorriso diminuiu.
— Conveniente.
— Honesto.
Gabriele apontou discretamente para o crucifixo.
— O problema de vocês é o mesmo dos homens. Precisam que tudo caiba dentro de duas colunas.
Bem.
Mal.
Anjo.
Demônio.
Salvação.
Condenação.
— Porque sem essas palavras — continuou — ficam obrigados a admitir que talvez nunca tenham entendido o mundo onde nasceram.
O homem inclinou-se para a frente.
— Você conhece o livro de Jó?
Gabriele não demonstrou surpresa.
— Melhor do que você espera.
— Então sabe que seu Deus entregou um homem justo ao sofrimento para provar um ponto.
Kain olhou para o padre.
A história de Jó lhe era conhecida apenas em partes.
Gabriele não desviou os olhos.
— Não.
— Não?
— Você está repetindo uma interpretação.
O homem abriu um pequeno sorriso.
— Ilumine-me.
Gabriele aproximou-se mais um passo.
— No texto, o adversário não invade a criação contra a vontade de Deus. Ele entra na assembleia.
O visitante permaneceu quieto.
— Questiona a fidelidade de Jó. Recebe permissão. Existem limites impostos. O homem perde filhos, riqueza e saúde dentro de uma disputa que nunca lhe é explicada.
Gabriele deixou a frase repousar.
— Isso não prova que Deus seja bom.
Olhou para Kain por um instante.
— Prova que os homens passaram séculos chamando de guerra entre Deus e o mal aquilo que, no próprio texto, parece muito mais próximo de uma negociação.
O visitante não sorriu dessa vez.
Gabriele voltou-se para ele.
— E esse detalhe incomoda muita gente.
— Porque destrói a ideia de um inimigo.
— Porque destrói a ideia confortável de um inimigo independente.
O homem esfregou o polegar contra o indicador.
A unha estava escura.
Kain percebeu uma linha de sangue por baixo dela.
— Então Satanás serve a Deus?
— “Satanás” é uma palavra que homens transformaram em nome.
Gabriele falou devagar.
— Adversário. Acusador. Opositor.
Parou diante do banco.
— Primeiro função.
Depois personagem.
Depois monstro.
Depois desculpa.
O visitante ergueu o rosto.
— Desculpa para quê?
— Para o homem não admitir o prazer que sente quando faz o mal sozinho.
Nenhum dos dois falou por alguns instantes.
Kain sentiu Lara mexer a mão discretamente ao lado da sua.
Ela não estava olhando para o homem.
Olhava para o espaço atrás dele.
Talvez não visse o que Kain via.
Mas escutava alguma coisa.
Sua expressão havia mudado.
Gabriele percebeu.
— Lara.
Ela levantou os olhos.
— Não escute.
— Eu não estou tentando.
— Eu sei.
O homem do fundo observou a menina com interesse.
— Ela ouve mortos.
Gabriele virou o rosto lentamente.
— E você deveria ter mais cuidado com aquilo que sabe.
— Os pais dela não tiveram.
Lara endureceu.
Kain imediatamente olhou para o homem.
Gabriele não.
— Fraco — disse o padre.
O desconhecido franziu a testa.
— O quê?
— Usar uma criança para provocar outra.
Gabriele finalmente se voltou para ele.
— Esperava mais.
O homem permaneceu calado.
Kain percebeu que Gabriele não o deixaria controlar a conversa.
Tudo que o visitante dizia era pesado.
Mas o padre parecia pesar mais.
— Vamos tentar outra passagem — disse o homem.
— Tente.
— Isaías.
Gabriele esperou.
— “Eu formo a luz e crio as trevas.”
A voz do desconhecido tornou-se mais grave.
— “Faço a paz e crio o mal.”
A igreja pareceu ainda mais silenciosa.
— Seu próprio livro coloca a origem do mal nas mãos de Deus.
Gabriele respondeu:
— Seu erro está em acreditar que uma tradução resolve um conceito.
O homem ficou imóvel.
— A palavra não precisa significar mal moral.
— Catástrofe.
— Calamidade.
— Ruína.
— Julgamento.
— Exatamente.
O visitante abriu os braços.
— E isso melhora Deus?
— Não estou tentando melhorá-lo.
A resposta veio imediatamente.
Kain percebeu a diferença.
Gabriele não defendia Deus.
Defendia precisão.
— É nisso que vocês sempre erram — continuou o padre. — Acham que todo sacerdote precisa transformar Deus em algo agradável.
Seu olhar tornou-se frio.
— Eu não preciso.
O homem pareceu satisfeito.
— Então você admite que Deus pode destruir inocentes.
— Admito que o mundo está cheio de inocentes destruídos.
— Não foi minha pergunta.
— Foi exatamente sua pergunta, apenas sem a arrogância de fingir que conheço quem autorizou cada morte.
O visitante recostou-se novamente.
— Você é mais cauteloso do que antigamente.
Gabriele ficou imóvel.
Kain percebeu.
Aquilo não era um comentário qualquer.
Os dois já sabiam alguma coisa um sobre o outro.
— E você está mais falante — respondeu Gabriele.
— Os anos fazem isso.
— Você não possui anos.
A criatura por trás do homem pareceu estremecer.
O visitante permaneceu vivo.
Era importante.
Seu peito subia.
Havia calor em sua pele.
O pulso estava ali.
Gabriele olhou para a mão dele.
— Quanto tempo desde o pacto?
O homem não respondeu.
— Três meses?
Nada.
— Menos.
O visitante sorriu.
— Como sabe?
Gabriele apontou para os dedos dele.
— Sangue sob as unhas.
Depois para os olhos.
— Pupilas ainda reagem corretamente à luz.
Depois para o pescoço.
— Você ainda engole quando fica nervoso.
O sorriso sumiu.
— E?
— E significa que você ainda está aqui.
Kain não entendeu.
Gabriele continuou:
— Não foi consumido.
— Ainda.
— Não.
O padre aproximou-se.
— Você fez um acordo.
O homem o encarou.
— Uma aliança.
— Um pacto.
— Palavras.
— Palavras importam quando alguém usa uma delas para fingir que não vendeu alguma coisa.
A mandíbula do visitante se contraiu.
Gabriele agora falava quase como um médico descrevendo uma doença.
— Impregnação recente.
Kain ouviu a palavra pela primeira vez.
— A entidade permanece ligada a você, mas não ocupa o corpo por completo. Você continua tomando decisões. Continua lembrando. Continua acreditando que existe uma fronteira entre sua vontade e a dela.
O padre aproximou o rosto.
— É aí que todos vocês erram.
O homem não respondeu.
— A fronteira não desaparece de uma vez.
Gabriele tocou o próprio peito com dois dedos.
— Ela muda de lugar.
Kain sentiu um desconforto profundo sem compreender exatamente por quê.
O visitante desviou os olhos.
Foi mínimo.
Mas Gabriele viu.
— Ele prometeu conhecimento?
Silêncio.
— Vida?
Nada.
— Proteção?
O homem riu baixo.
— Você acha que sabe tudo.
— Não.
A voz do padre tornou-se ainda mais fria.
— Só conheço essa espécie de mentira há tempo demais.
Pela primeira vez desde que entrara na igreja, o homem pareceu incomodado.
Não pela teologia.
Por Gabriele.
A presença que Kain enxergava em volta dele pareceu se aproximar da pele, como se tivesse ouvido seu próprio nome sem que ninguém o pronunciasse.
Gabriele percebeu alguma coisa.
Seus olhos se estreitaram.
— Então é você.
O homem ficou imóvel.
Lara olhou para o padre.
— Quem?
Gabriele não respondeu.
O visitante falou antes:
— Diga.
— Não.
— Tem medo de ensinar o garoto?
Gabriele olhou para ele com genuíno desprezo.
— Tenho respeito suficiente pelo menino para não colocar nomes inúteis na cabeça dele.
O homem sorriu.
— Inúteis?
— Vocês trocam nomes com mais frequência do que homens trocam bandeiras.
Uma longa pausa.
— Mas eu reconheço hábitos.
O sorriso do visitante se desfez.
— Ainda se lembra?
Gabriele respondeu:
— De todos.
Não houve bravata.
Isso tornou a frase pior.
O homem deixou de recostar-se confortavelmente.
Agora estava ereto.
Kain viu a sombra ao redor dele diminuir.
Não desaparecer.
Recuar.
Como um animal que reconhecesse alguma coisa no cheiro do ambiente.
Padre Gabriele observou aquilo sem qualquer satisfação.
Apenas ódio.
— Você não deveria ter vindo.
— Eu não vim por você.
O olhar do homem deslizou novamente para Kain.
Gabriele imediatamente compreendeu.
— Então finalmente chegamos ao motivo.
O visitante sorriu.
— Talvez.
— Não.
Gabriele virou levemente o corpo, cobrindo Kain.
— Você entrou aqui para confirmar uma suspeita.
Silêncio.
— Não precisa fingir curiosidade teológica.
O homem inclinou a cabeça.
— E se eu disser que gosto da conversa?
— Eu diria que até parasitas precisam passar o tempo.
Lara levou a mão à boca para esconder a reação.
O visitante não gostou.
A coisa que o acompanhava também não.
Kain sentiu o ar pesado.
Não houve vento.
Mesmo assim, uma das velas próximas ao altar apagou.
Gabriele nem olhou.
— Barato.
O homem sorriu.
Outra vela se apagou.
Kain sentiu o coração acelerar.
Lara virou a cabeça.
— Padre...
— Não olhem para as velas.
O visitante continuou observando Kain.
— Ele tem medo.
— Ele tem dez anos.
— Você também teve.
Gabriele permaneceu imóvel.
O homem falou para Kain:
— Sabe por que você está aqui?
Gabriele respondeu:
— Não fale com ele.
— A mãe morreu.
Kain sentiu o corpo endurecer.
— E depois um padre apareceu.
Gabriele não se moveu.
— Um padre que sabia exatamente onde procurar.
Kain olhou para Gabriele.
O visitante percebeu.
— Pergunte a ele.
Gabriele continuou olhando para o homem.
— Kain.
O menino demorou.
— O quê?
— Você pode me perguntar qualquer coisa.
O visitante perdeu o sorriso por uma fração de segundo.
Kain engoliu.
— Você sabia que eu ia nascer?
— Não.
— Sabia da minha mãe?
— Não antes de chegar.
— Então por que foi me buscar?
Gabriele finalmente olhou para ele.
— Porque vi algo que não deveria estar em uma criança recém-nascida.
Kain sentiu a língua mover-se involuntariamente dentro da boca.
Gabriele viu.
O homem também.
E foi esse pequeno gesto que transformou toda a atmosfera.
O visitante inclinou-se para a frente.
— Abra a boca.
Gabriele virou-se imediatamente.
— Não.
A palavra soou mais forte do que qualquer grito.
Kain ficou imóvel.
O homem sorriu.
— Eu só pedi.
— E eu respondi.
— A boca não é sua.
— A criança está sob minha responsabilidade.
— Até quando?
Gabriele voltou os olhos para ele.
— Até você parar de respirar, se for necessário.
O visitante ficou em silêncio.
A ameaça não era dramática.
Não havia arma.
Não havia ritual.
Mesmo assim, ele a entendeu.
Kain percebeu.
A entidade ligada ao homem também.
Por alguns segundos, o estranho pareceu ouvir algo que nenhuma outra pessoa escutava.
Seu olhar desviou.
Um músculo tremeu sob a pele do pescoço.
Gabriele aproximou-se.
— Ele mandou você confirmar a marca?
O homem riu.
— Quem disse que existe marca?
— Você acabou de dizer.
Silêncio.
— Não com palavras.
Gabriele estava agora a poucos passos.
— Você entrou aqui com uma dúvida.
Olhou para Kain sem mover a cabeça.
— Vai sair com ela.
O homem tentou recuperar o controle.
— Talvez já tenha confirmado.
— Não.
— Ele viu o que carrego.
— Algumas crianças veem.
— Ele reagiu quando falei da boca.
— Você passou a última meia hora olhando para uma criança de dez anos como um açougueiro olhando um animal.
O rosto do homem endureceu.
— Ele reagiria mesmo sem marca.
A criatura ao redor dele tornou-se menos nítida.
Kain teve a sensação estranha de que Gabriele não estava tentando convencer o homem.
Estava confundindo aquilo que estava ligado a ele.
Plantando dúvida.
O visitante percebeu.
— Você está protegendo informação com informação.
— É uma habilidade útil.
O sino interno da igreja tocou uma vez.
Não era o sino grande da torre.
Era um mecanismo menor, antigo, ligado ao relógio.
O homem ergueu os olhos.
Gabriele também.
Kain percebeu que ambos sabiam o que aquilo significava.
— Quanto tempo? — perguntou o visitante.
— Sete minutos.
— Preparou o lugar antes de chegarmos.
— Claro.
— Então isso nunca foi uma missa.
Gabriele olhou para o altar.
— Não para você.
O homem soltou o ar pelo nariz.
— E as crianças?
— Precisavam aprender alguma coisa.
— Sobre mim?
— Sobre homens como você.
A resposta atingiu mais profundamente do que insulto.
O visitante olhou para Kain.
— Homens como eu.
— Vivos o bastante para acreditar que escolheram.
Gabriele aproximou-se.
— Mortos o bastante para não perceber que já começaram a ser escolhidos.
O homem se levantou.
Kain sentiu Lara encostar no braço dele.
O visitante tinha quase a mesma altura de Gabriele.
Parecia mais forte.
Mais jovem.
Nada disso importava.
O padre o observava como alguém observaria uma doença conhecida.
— Você chama isso de impregnação — disse o homem.
— É um nome útil.
— E o que chama de salvação?
Gabriele permaneceu calado.
— Vamos, padre. Última pergunta.
O sino marcava lentamente o tempo.
— Se eu me arrepender agora, seu Deus me perdoa?
Kain olhou para Gabriele.
Lara também.
A pergunta parecia simples.
Era o tipo de coisa que qualquer sacerdote deveria responder imediatamente.
Gabriele demorou.
— Não sei.
O homem sorriu.
— Finalmente.
— Posso dizer o que a Igreja ensina.
— Não perguntei à Igreja.
— Posso dizer o que os Evangelhos afirmam.
— Não perguntei aos Evangelhos.
Gabriele chegou mais perto.
— Você perguntou se Deus o perdoaria.
Silêncio.
— Eu nunca falei com Ele.
O sorriso do homem enfraqueceu.
— Então toda sua vida é construída sobre dúvida.
— Toda fé adulta deveria ser.
O visitante pareceu genuinamente interessado.
Gabriele continuou:
— Fé sem dúvida não é fé.
— É certeza?
— Não.
— O quê?
— Fanatismo.
A chuva caiu mais forte sobre o telhado.
— A dúvida impede o homem de acreditar que sua própria voz é a voz de Deus.
O visitante olhou para o crucifixo.
— Então talvez você ainda possa ser salvo.
Gabriele respondeu:
— Não estou particularmente interessado.
O homem riu.
— Padre sem desejo de céu.
— Homens cometeram atrocidades demais tentando comprar um lugar lá.
O sino tocou novamente.
Quatro minutos.
O estranho olhou para Kain.
— E você, garoto?
Gabriele fez um gesto pequeno.
Kain permaneceu quieto.
O visitante insistiu:
— Se Deus apareceu agora e disse que sua mãe morreu para que você pudesse viver, isso faria a morte dela valer a pena?
Kain sentiu o estômago afundar.
A pergunta entrou fundo demais.
Viu por um instante uma mulher que nunca conhecera.
Não tinha rosto.
Não possuía voz.
Era apenas a ideia de uma mãe.
Morta por causa dele.
Ou para ele.
Gabriele não interrompeu.
Dessa vez deixou.
Kain percebeu.
O padre queria que respondesse.
O menino engoliu em seco.
— Não.
O homem ergueu uma sobrancelha.
Kain olhou para ele.
— Se ela morreu, morreu.
Sua voz tremeu.
— Não muda porque alguém diz que tinha um motivo.
O visitante permaneceu imóvel.
— Então rejeitaria o plano de Deus?
Kain demorou.
— Eu rejeitaria chamar isso de presente.
Gabriele não demonstrou reação.
Mas Lara olhou para Kain de um jeito diferente.
O homem ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois sorriu.
— Ele aprende rápido.
— Aprende a pensar — respondeu Gabriele. — É diferente.
Três minutos.
O visitante tentou uma última vez.
— Mostre a língua, Kain.
O menino sentiu o próprio corpo reagir.
Era simples.
Só abrir a boca.
Nada mais.
Uma parte dele queria provar que não tinha medo.
Outra queria descobrir por que aquela ordem era tão importante.
Gabriele não tocou nele.
Não repetiu a proibição.
Apenas disse:
— Escolha sabendo que ele não quer ver sua língua.
Kain olhou para o padre.
— Então o quê?
— Quer descobrir se consegue fazer você obedecer.
O menino voltou os olhos para o estranho.
Aquilo mudou tudo.
Não era curiosidade.
Era domínio.
Kain manteve a boca fechada.
O sorriso do homem desapareceu.
Dois minutos.
— Inteligente.
Gabriele respondeu:
— Não.
Olhou para Kain.
— Apenas começou a entender você.
O estranho caminhou lentamente em direção ao corredor.
A presença que Kain enxergava parecia mais fraca agora, comprimida junto ao corpo humano.
— Você vai se arrepender de prepará-lo assim.
Gabriele não respondeu.
— Crianças que aprendem a duvidar acabam duvidando dos professores.
— Espero que sim.
O homem parou.
Aquilo pareceu surpreendê-lo mais do que qualquer resposta anterior.
— Quer que ele duvide de você?
— Principalmente de mim.
Gabriele ficou diante do altar.
— Se algum dia Kain aceitar algo apenas porque saiu da minha boca, então falhei com ele.
O visitante olhou para o garoto.
Um minuto.
A igreja parecia diferente.
Não mais escura.
Mais fechada.
Como se as paredes tivessem se aproximado.
O homem passou a língua pelos lábios.
Sangue surgiu em uma das fissuras.
— Não consegui confirmar.
Gabriele permaneceu calado.
— Isso deixa alguns deles irritados.
— Espero que bastante.
— Ainda guarda tanto ódio.
— Mais.
O visitante o estudou.
A presença por trás dele pareceu se contrair novamente.
— Eles ainda falam sobre você.
Gabriele não reagiu.
— Alguns dos antigos.
Nada.
— Os que restaram.
O rosto do padre permaneceu impenetrável.
— Diga a eles que ainda lembro.
O visitante sorriu.
— É exatamente disso que têm medo.
O sino iniciou a última sequência.
O homem caminhou até a porta principal.
Dessa vez Gabriele não o impediu.
Kain estranhou.
— Você vai deixar ele sair?
— Sim.
— Por quê?
Gabriele continuou observando o homem.
— Porque foi para isso que ele veio.
O visitante colocou a mão sobre a madeira da porta.
Seu corpo pareceu estremecer.
A coisa ligada a ele já quase não era visível para Kain.
Por um instante, porém, ela voltou a aparecer.
Não tinha chifres.
Não tinha asas.
Não parecia qualquer demônio representado nas pinturas da igreja.
Era quase humana.
Quase.
Braços longos demais.
Cabeça inclinada num ângulo que o pescoço de um homem não suportaria.
Algo no lugar do rosto que Kain não conseguiu compreender, porque seus olhos insistiam em desviar mesmo quando tentava olhar.
Ele sentiu náusea.
Gabriele percebeu.
— Kain.
O menino desviou os olhos.
O sino tocou pela última vez.
O homem abriu a porta.
A chuva podia ser ouvida do outro lado.
Antes de sair, voltou-se.
Não olhou para Lara.
Não olhou para o crucifixo.
Somente para Kain.
Depois para Gabriele.
— Estamos de olho nele, Gabriele.
O padre não respondeu.
O homem sorriu.
— Poucas crianças nascidas sob a asa de Set chegaram a respirar por tanto tempo.
Kain sentiu a garganta secar.
O visitante continuou:
— E ele está entre elas.
Gabriele deu um único passo.
A expressão do homem mudou.
O medo apareceu antes que conseguisse escondê-lo.
— Seu tempo acabou — disse o padre.
O visitante atravessou a porta.
Ela se fechou.
A igreja ficou em silêncio.
Por vários segundos ninguém falou.
Kain olhava para a porta.
Lara para Gabriele.
O padre permaneceu de costas.
— O que é a asa de Set? — perguntou Kain.
Gabriele levou algum tempo para responder.
— Uma expressão muito antiga.
— O que significa?
— Depende de quem a escreveu.
— E pra ele?
Gabriele finalmente se virou.
— É isso que pretendo descobrir.
Kain tocou os lábios.
— Ele sabia sobre mim?
— Sabia o suficiente para vir.
— Mas não conseguiu descobrir o que queria.
— Não.
— Por causa da marca?
Gabriele o encarou.
Kain percebeu imediatamente que havia ido longe demais.
O padre caminhou até ele.
Ajoelhou-se para ficar na mesma altura.
Seu rosto continuava sério.
— Escute com atenção.
Kain assentiu.
— A partir desta noite, ninguém vê a parte de baixo da sua língua.
— Nem médico?
— Ninguém sem que eu esteja presente.
— Lara?
Gabriele olhou para ela.
— Lara não precisa vê-la.
A menina concordou.
Kain permaneceu inquieto.
— Por quê?
O padre ficou em silêncio.
Kain quase reclamou.
Mas Gabriele falou:
— Porque algumas pessoas matariam para descobrir o que existe ali.
O menino perdeu a expressão.
Gabriele se levantou.
— E outras manteriam você vivo.
Aquilo foi pior.
Kain percebeu.
— Qual é melhor?
Gabriele olhou para o crucifixo.
Cristo permanecia imóvel sobre a madeira.
— Ainda não sei.
Kain sentiu frio.
Lara aproximou-se dele.
— Aquele homem era um demônio?
Gabriele voltou os olhos para a porta.
— Não.
Ela franziu a testa.
— Mas tinha alguma coisa nele.
— Sim.
— Então estava possuído?
O rosto de Gabriele endureceu.
— Nunca confunda as duas coisas.
A resposta veio mais grave.
— Ele ainda estava vivo.
Kain lembrou da sombra acompanhando o corpo.
— O que era?
— Impregnação.
Lara repetiu a palavra.
— Impregnação...
— Um pacto.
Gabriele caminhou lentamente entre os bancos.
— Uma pessoa permite que algo se aproxime demais. Em troca recebe aquilo que acredita desejar.
— E depois? — perguntou Kain.
O padre parou.
— Depois começa a descobrir que não sabe mais quais desejos eram seus antes do acordo.
Ninguém falou.
— Aquilo era um demônio? — insistiu Lara.
Gabriele olhou para ela.
— Um dia você vai precisar parar de usar essa palavra como se ela explicasse alguma coisa.
Ela ficou quieta.
— E anjo? — perguntou Kain.
O padre olhou para ele.
— Também.
A chuva diminuía.
Gabriele caminhou até o altar e apagou uma das poucas velas restantes.
— Homens deram nomes diferentes àquilo que lhes trouxe conforto e àquilo que lhes trouxe medo.
Apagou outra.
— Depois escreveram livros explicando a diferença.
Mais uma chama desapareceu.
— E acabaram acreditando nos livros.
A última vela permaneceu acesa.
Kain observou o crucifixo.
— Então a Bíblia está errada?
Gabriele pousou os olhos nele.
— Essa pergunta vai custar alguns anos da sua vida.
Kain franziu a testa.
— Por quê?
O padre apagou a última vela.
A igreja mergulhou na escuridão.
A voz de Gabriele veio dela.
— Porque antes de descobrir se um livro mente, você precisa descobrir a verdade que escondem.
CAPÍTULO 3
A Casa de Deus
A igreja permaneceu em silêncio depois que o homem foi embora.
Não havia mais ninguém nos bancos.
Nenhuma voz.
Nenhuma oração.
A chuva havia diminuído, mas ainda deslizava pelos vitrais em fios longos, fazendo as figuras dos santos parecerem chorar sob a pouca luz que restava.
Padre Gabriele continuava diante do altar.
Imóvel.
De olhos fechados.
As mãos não estavam juntas.
Não rezava.
Apenas permanecia ali.
Kain não sabia havia quanto tempo.
Talvez dez minutos.
Talvez meia hora.
Com Gabriele, o silêncio parecia alterar a passagem do tempo.
Lara estava parada ao lado dele, alguns passos atrás. Não dizia nada. Desde a saída daquele homem, evitara olhar para o último banco.
Kain, porém, olhava.
Esperava encontrar alguma coisa.
Uma sombra.
Um movimento.
Qualquer sinal da presença que havia enxergado junto ao corpo do visitante.
Não havia nada.
Ainda assim, a igreja não parecia vazia.
Kain aproximou-se alguns passos do altar.
— Padre?
Nenhuma reação.
Mais um passo.
— O senhor está bem?
Os olhos de Gabriele permaneceram fechados.
Quando respondeu, sua voz não parecia dirigida a Kain.
Parecia dirigida à própria igreja.
— Isaías 45:7.
Lara levantou o rosto.
Gabriele continuou:
— “Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal.”
Uma pausa.
— Deus não apenas permite que coisas ruins aconteçam.
Abriu lentamente as mãos.
— É soberano sobre elas.
Kain permaneceu quieto.
Gabriele respirou profundamente.
— Então quem é Ele de verdade?
Sua voz ganhou peso.
— O rei de tudo aquilo que chamamos de bom?
Silêncio.
— Ou aquilo que também governa a podridão da carne?
Kain não gostou daquela frase.
Não sabia explicar por quê.
Gabriele abriu os olhos.
Ainda não se virou.
— O homem progride. Aprende. Constrói. Multiplica-se. Ergue cidades. Dá nomes às estrelas. Convence-se de que dominou alguma coisa.
Seu olhar permaneceu sobre o altar.
— Então uma pedra cai.
Kain percebeu que Gabriele não falava literalmente.
— A inundação do Mar Negro.
Uma pequena pausa.
— Santorini.
Outra.
— As pragas.
A luz de uma vela tremulou.
— Atrahasis.
Lara conhecia aquele nome.
Gabriele o havia mencionado uma vez durante uma aula sobre textos anteriores à tradição hebraica.
— Jerusalém destruída.
Sua voz tornou-se mais baixa.
— Roma caída.
Virou ligeiramente a cabeça.
— E das ruínas de um império nasce uma Europa inteira convencida de que Deus estava ao seu lado.
Agora abriu completamente os olhos.
Alguma coisa havia mudado neles.
Não parecia raiva.
Era pior.
Era uma espécie de lucidez amarga.
— Homens sobrevivem a uma catástrofe e chamam isso de misericórdia.
Gabriele finalmente se virou para Kain e Lara.
— Os mortos não costumam receber o mesmo privilégio de interpretação.
A porta principal da igreja se abriu.
O som atravessou a nave.
Lento.
Pesado.
O ar frio entrou primeiro.
Depois uma voz.
— Blasfêmia.
Gabriele não se moveu.
— Na casa de Deus.
Kain olhou para trás.
Um homem estava parado sob o arco da entrada.
Vestia preto.
Sobre o peito, uma pequena cruz episcopal refletia a luz que vinha do corredor externo.
O rosto era comprido, envelhecido de maneira severa. Não havia fragilidade nele. Apenas rigidez.
Bispo Fotino.
Kain o conhecia de vista.
Poucas vezes havia falado com ele.
Fotino entrou e fechou a porta.
Seus passos atravessaram a nave vazia.
Gabriele observou-o aproximar-se.
Nenhum dos dois pareceu surpreso.
Fotino parou aproximadamente na metade do corredor.
— Blasfêmia — repetiu.
Gabriele inclinou discretamente a cabeça.
— Blasfêmia?
A palavra saiu quase tranquila.
Fotino manteve o rosto rígido.
Gabriele desceu do altar.
— Abra Isaías.
Continuou andando.
— Leia.
Fotino não respondeu.
— Leia para mim o mesmo versículo.
Silêncio.
Gabriele parou diante dele.
— Depois diga novamente que fui eu quem blasfemou.
Fotino apertou a mandíbula.
— Você sabe muito bem que traduções exigem contexto.
— Naturalmente.
— A palavra pode significar calamidade.
— Pode.
— Desgraça.
— Pode.
— Não mal moral.
Gabriele assentiu.
— Muito melhor.
Fotino franziu o cenho.
— Então sabe disso.
— Sempre soube.
Gabriele aproximou-se um pouco.
— Agora me explique por que calamidade torna a frase mais confortável.
Fotino permaneceu quieto.
— Se Deus não cria o mal, mas cria a catástrofe que mata milhares...
Gabriele ergueu ligeiramente uma sobrancelha.
— Você acredita que as mães enterradas sob os escombros apreciarão a distinção linguística?
— Cuidado, Gabriele.
— Com o quê?
— Com aquilo que coloca na cabeça dessas crianças.
Gabriele olhou rapidamente para Kain e Lara.
Depois voltou a encará-lo.
— Prefere que eu coloque respostas?
— Prefiro que não transforme dúvida em veneno.
— A dúvida nunca foi o veneno.
Sua voz ficou mais baixa.
— A certeza foi.
Fotino respirou pelo nariz.
Gabriele continuou:
— Homens queimaram outros homens porque tinham certeza.
— Não estamos falando da história da Igreja.
— Estamos sempre falando da história da Igreja quando alguém usa autoridade para encerrar uma pergunta.
Fotino permaneceu imóvel.
Kain conhecia aquele tom de Gabriele.
Não era discussão.
Era dissecação.
Fotino percebeu.
— Você ainda pensa como há vinte anos.
Gabriele não respondeu.
— Talvez seja esse o problema.
— Talvez.
— Você viu coisas demais.
Gabriele encarou-o.
— E você viu de menos.
A frase atingiu Fotino.
Kain percebeu imediatamente.
O bispo olhou por um instante para Lara.
Depois para Kain.
— Mandem as crianças embora.
— Não.
— Esta conversa não pertence a elas.
— Pertence mais a elas do que a nós.
— Gabriele.
— Elas ficam.
A resposta encerrou o assunto.
Fotino caminhou até um dos bancos.
Não se sentou.
Passou os dedos pela madeira.
— Fui informado de que houve uma reunião aqui.
Gabriele não reagiu.
— Três pessoas que não pertencem à paróquia.
Silêncio.
— Uma delas saiu em condições... incomuns.
— Saiu andando.
— Você sabe do que estou falando.
— Sei.
— Então diga.
Gabriele olhou para o banco onde o homem estivera sentado.
— Impregnação.
Fotino ficou quieto.
Kain observou seu rosto.
Não havia confusão.
Ele conhecia a palavra.
— Tem certeza?
— Sim.
— Qual espécie?
Gabriele olhou para ele.
— Essa pergunta deveria envergonhar alguém com seu cargo.
Fotino endureceu.
— Não comece.
— Você ainda tenta separá-los.
— Porque há diferença.
— Há comportamento diferente.
— Há propósito diferente.
— Há interpretação diferente.
Fotino balançou lentamente a cabeça.
— Então anjo e demônio são a mesma coisa agora?
Gabriele respondeu sem hesitação:
— Sempre foram palavras humanas.
A igreja ficou silenciosa.
Fotino olhou para o crucifixo.
— Você perdeu completamente o temor.
— Não.
Gabriele acompanhou seu olhar.
— Apenas parei de temer as coisas erradas.
Fotino voltou-se para ele.
— E o que considera errado?
Gabriele demorou.
— Um homem ajoelhado diante daquilo que não compreende.
Fotino soltou uma respiração curta.
— Isso se chama fé.
— Às vezes.
Gabriele olhou para o altar.
— Outras vezes se chama alimentação.
Kain sentiu Lara se mexer ao lado dele.
Fotino também percebeu.
— Não.
A voz dele mudou.
— Não fale disso diante deles.
Gabriele o encarou.
— Por quê?
— Ainda são crianças.
— Eles já foram encontrados.
O silêncio veio imediatamente.
Fotino parou de respirar por um instante.
Kain não compreendeu completamente.
Lara sim.
Pelo menos compreendeu o suficiente para ficar tensa.
— Encontrados por quem? — perguntou Fotino.
Gabriele não respondeu.
— Gabriele.
Nada.
— O homem?
— Não apenas ele.
Fotino baixou a voz.
— Você tem certeza?
— Ele veio testar.
— Você?
— Primeiro.
Gabriele olhou para Kain.
— Depois o garoto.
Fotino permaneceu calado por alguns segundos.
Então olhou diretamente para Kain.
Gabriele percebeu.
Seu corpo mudou de posição quase imperceptivelmente.
Fotino desviou os olhos.
— Ele viu alguma coisa?
— Não.
— Tentou?
— Sim.
— E conseguiu?
— Não.
O bispo fechou os olhos por um instante.
Pareceu aliviado.
Kain percebeu.
Isso o incomodou mais do que deveria.
— Por que ele queria me ver? — perguntou.
Fotino olhou para Gabriele.
Gabriele respondeu sem se virar.
— Porque algumas criaturas são curiosas.
Kain percebeu a mentira.
Não completa.
Mas suficiente.
Fotino também.
Não corrigiu.
Caminhou até o crucifixo.
Ficou diante dele.
— Você deveria levá-los para outro lugar.
— Não.
— Roma não é segura.
— Lugar nenhum é.
— Aqui estão expostos.
— Aqui estão perto de mim.
Fotino virou o rosto.
— Isso deveria me tranquilizar?
Gabriele sustentou o olhar.
— Deveria tranquilizá-los.
Outra frase que Kain não compreendeu.
Mas Fotino compreendeu.
Seu rosto mudou.
Havia alguma coisa antiga entre aqueles dois.
Não amizade.
Não exatamente.
Talvez respeito.
Talvez medo.
— Ainda acredita que eles o temem? — perguntou Fotino.
Gabriele não respondeu imediatamente.
— Não preciso acreditar.
Fotino apertou os dedos sobre o banco.
— Alguns nomes desapareceram, Gabriele.
— Eu sei.
— Algumas coisas que você conhecia já não existem.
— Eu sei.
— Outras mudaram.
— Também sei.
— Então pare de agir como se...
— Como se eu lembrasse?
Fotino se calou.
Gabriele aproximou-se.
— Eu lembro.
Sua voz quase não se elevou.
— De todos eles.
O bispo não respondeu.
— Dos que morreram.
Outro passo.
— Dos que ainda respiram por meio de homens estúpidos.
Mais um.
— Dos que desapareceram durante séculos.
Seus olhos ficaram mais frios.
— E principalmente dos que preferem não ser mencionados.
Fotino engoliu em seco.
Kain viu.
Foi rápido.
Mas viu.
Gabriele também.
— Você ainda sonha com aquele lugar? — perguntou Fotino.
A pergunta mudou o ambiente.
Lara levantou os olhos.
Gabriele ficou imóvel.
Por um instante muito curto, algo atravessou seu rosto.
Não medo.
Memória.
— Não fale sobre isso.
Fotino entendeu imediatamente que ultrapassara alguma fronteira.
— Eu só...
— Não.
A palavra encerrou tudo.
Ninguém falou durante alguns segundos.
Uma madeira estalou perto do teto.
Kain olhou para cima.
Nada.
Gabriele continuou encarando Fotino.
— Você veio aqui por causa da reunião?
— Em parte.
— Qual é a outra parte?
Fotino hesitou.
Aquilo bastou para tornar Gabriele mais atento.
— Diga.
O bispo passou lentamente a mão pelo rosto.
— Houve um caso em Tivoli.
Gabriele não reagiu.
— Três mortes.
— Como?
— Nenhuma ferida.
— Idades?
— Cinquenta e dois, trinta e nove e dezesseis.
— Relação?
— Família.
— Tempo entre as mortes?
— Menos de uma hora.
Gabriele pensou.
— Expressões?
Fotino demorou.
— O primeiro morreu gritando.
— Segundo?
— Rezando.
— Terceiro?
Fotino olhou para Kain.
— Rindo.
A igreja pareceu mais fria.
Gabriele percebeu algo.
— O garoto de dezesseis anos?
Fotino assentiu.
— Encontraram alguma coisa no quarto?
Silêncio.
— Fotino.
— Uma Bíblia.
— Isso não é incomum.
— Estava aberta.
Gabriele esperou.
— Em Juízes.
A expressão dele mudou.
Pouco.
O suficiente.
— Qual capítulo?
— Onze.
Gabriele baixou os olhos.
Lara não conhecia.
Kain também não.
Fotino continuou:
— A história de Jefté.
Gabriele permaneceu em silêncio.
— O voto — explicou Fotino. — A promessa feita antes da batalha.
Kain observou os dois.
— Ele oferece aquilo que sair primeiro de sua casa se retornar vitorioso.
Gabriele terminou por ele:
— E quem sai é a filha.
A frase caiu pesada.
Kain ficou quieto.
Fotino assentiu.
— O texto estava marcado.
— Com quê?
— Sangue.
Gabriele virou-se para ele.
— De quem?
— Ainda não sabemos.
— Então descubram.
Fotino permaneceu parado.
— Há mais.
Gabriele não gostou da hesitação.
— Fale.
— A filha mais nova da família sobreviveu.
— Quantos anos?
— Oito.
Gabriele fechou os olhos por um instante.
— E?
Fotino respondeu quase num sussurro:
— Ela disse que um homem ficou sentado na cozinha durante toda a noite.
Lara imediatamente olhou para Kain.
Gabriele permaneceu imóvel.
— Descrição.
— Não deu.
— Por quê?
Fotino demorou.
— Disse que não conseguia lembrar do rosto.
Gabriele ficou muito quieto.
— E o que ele fez?
— Nada.
— Falou?
— Uma vez.
O silêncio se tornou mais pesado.
— O quê?
Fotino olhou para o crucifixo.
— Perguntou qual deles acreditava mais em Deus.
Kain sentiu a pele dos braços arrepiar.
Gabriele não demonstrou reação.
Mas seus olhos haviam mudado novamente.
— E depois?
— A menina disse que os três começaram a discutir.
— Sobre quê?
— Ela não lembra.
— E depois morreram.
— Sim.
Gabriele olhou para Lara.
— Você vai com Kain para o quarto.
Ela abriu a boca.
O olhar dele bastou.
Lara não discutiu.
Pegou Kain pelo braço.
— Vamos.
Kain resistiu.
— Quero ficar.
— Não.
Gabriele nem sequer olhou para ele.
— Mas...
— Agora.
A voz não aumentou.
Mesmo assim, Kain obedeceu.
Ele e Lara caminharam em direção à porta lateral.
Antes de sair, Kain olhou para trás.
Fotino ainda estava diante do crucifixo.
Gabriele permanecia no centro da nave.
Os dois pareciam menores sob as colunas antigas.
Kain estava prestes a atravessar a porta quando ouviu Fotino:
— Você acha que é um deles?
Gabriele não respondeu imediatamente.
Kain parou.
Lara também.
— Não.
Fotino respirou aliviado.
Então Gabriele completou:
— Acho que seria melhor se fosse.
Fotino ficou imóvel.
— O que isso significa?
Gabriele ergueu os olhos para o teto da igreja.
— Demônios precisam de alguma coisa de nós.
Silêncio.
— Medo.
Desespero.
Culpa.
Fraqueza.
— Isso os torna previsíveis.
Fotino não falou.
— Mas aquilo que não precisa de nada...
Gabriele olhou novamente para ele.
— Não negocia.
A expressão do bispo mudou.
— Você está falando deles.
— Estou.
Fotino baixou a voz.
— Anjos.
Gabriele ficou em silêncio.
A palavra pareceu inadequada dentro da igreja.
Pequena demais.
Bonita demais.
— Não use esse nome como se soubesse o que significa.
Fotino olhou para o crucifixo.
— Há quanto tempo você não encontra um?
Gabriele respondeu:
— Vinte e oito anos.
Kain sentiu Lara apertar seu braço.
Fotino demorou alguns segundos.
— E ainda lembra?
Gabriele encarou-o.
— Todos os dias.
A resposta fez Fotino perder a cor.
Kain percebeu.
E naquele instante entendeu que alguma coisa estava errada.
Não com o homem que havia saído da igreja.
Não com as mortes em Tivoli.
Com Gabriele.
Ou melhor:
Com aquilo que Gabriele conhecia.
Lara puxou Kain para o corredor.
A porta fechou atrás deles.
---
Fotino esperou até não ouvir mais os passos das crianças.
Depois falou:
— Você nunca contou a eles.
— Não.
— Nem sobre o que viu?
— Não.
— Nem sobre o que fizeram com você?
Gabriele virou lentamente o rosto.
Fotino se calou.
— Nunca fale disso diante deles novamente.
O bispo assentiu.
A chuva havia parado.
O silêncio externo era absoluto.
Fotino olhou para o altar.
— Se realmente for um deles...
Gabriele interrompeu:
— Não é.
— Como pode ter certeza?
— Porque a família ainda teve medo.
Fotino não entendeu.
Gabriele aproximou-se do crucifixo.
— Se tivesse sido um deles, não haveria medo.
Passou os dedos pela madeira.
— Não haveria tempo para isso.
Fotino ficou imóvel.
— Então o que haveria?
Gabriele olhou para Cristo pregado à cruz.
Por vários segundos não respondeu.
Quando falou, sua voz perdeu qualquer vestígio de emoção.
— Convicção.
Fotino franziu o cenho.
— Convicção de quê?
Gabriele virou-se.
— De que morrer era a única coisa correta a fazer.
Nenhum dos dois falou.
Lá fora, alguma coisa bateu contra uma janela.
Uma vez.
Depois outra.
Fotino olhou.
Gabriele não.
— Animal? — perguntou o bispo.
Gabriele continuou olhando para a porta pela qual Kain havia saído.
— Não.
O som veio novamente.
Mais forte.
Fotino aproximou-se da janela.
Gabriele finalmente falou:
— Não abra.
O bispo parou.
— Por quê?
Gabriele levantou os olhos.
— Porque não há nada do lado de fora.
Fotino permaneceu imóvel.
Outra batida.
Dessa vez do outro lado da igreja.
Depois uma terceira.
Mais distante.
Como se alguma coisa estivesse circulando o edifício.
Fotino olhou para Gabriele.
— O que é?
O padre demorou alguns segundos.
— Ainda não sei.
A primeira janela voltou a vibrar.
Gabriele aproximou-se do altar.
Seus olhos não procuravam uma arma.
Nem uma cruz.
Nem qualquer objeto sagrado.
Apenas observavam.
Esperavam.
E então todas as batidas cessaram.
Ao mesmo tempo.
O silêncio seguinte foi pior.
Fotino respirou lentamente.
— Foi embora?
Gabriele não respondeu.
Olhou para o crucifixo.
O corpo de Cristo pendia da madeira como sempre.
Cabeça baixa.
Braços abertos.
Mas a sombra projetada atrás dele não acompanhava a posição da cruz.
Fotino ainda não havia percebido.
Gabriele, sim.
Seus olhos permaneceram fixos na parede.
A sombra parecia ter os braços abaixados.
E estava olhando para ele.
Pela primeira vez naquela noite, Padre Gabriele perdeu completamente qualquer expressão.
Fotino percebeu.
— Gabriele?
O padre não respondeu.
A sombra atrás do crucifixo inclinou lentamente a cabeça.
Gabriele apertou a mandíbula.
Não havia medo em seus olhos.
Havia ódio.
Um ódio tão antigo que Fotino recuou sem entender.
Então Gabriele falou muito baixo:
— Você demorou.
A sombra desapareceu.
E a cruz permaneceu sozinha na parede.
CAPÍTULO 4
Aquele Que Observa
A sombra desapareceu.
Não se desfez.
Não recuou.
Simplesmente deixou de existir.
O crucifixo voltou a projetar sobre a parede a forma correta de um homem pregado à madeira.
Padre Gabriele permaneceu imóvel por alguns segundos.
Então olhou para Fotino.
E alguma coisa nele mudou.
Não foi medo.
Nem surpresa.
Foi como se toda a humanidade que ainda existia em sua expressão tivesse sido retirada de uma só vez.
Os olhos ficaram frios.
A postura se tornou rígida.
O padre que minutos antes discutia Escrituras desapareceu.
Restou alguém que Fotino conhecia.
Ou, pelo menos, aquilo dentro dele conhecia.
Gabriele inclinou discretamente a cabeça.
— Demorou bastante para aparecer... para alguém que esteve observando o tempo todo.
Fotino não respondeu imediatamente.
O bispo permaneceu diante do crucifixo, mas sua respiração começou a mudar.
Lenta.
Profunda.
Inadequada.
Os ombros relaxaram.
O pescoço inclinou alguns graus para a esquerda.
E então ele sorriu.
Não era o sorriso de Fotino.
Gabriele soube antes mesmo de ouvir sua voz.
— Duas impregnações não podem ocupar o mesmo espaço, padre.
A voz ainda era a do bispo.
Mas a maneira de utilizá-la não.
— Principalmente diante da sua presença.
Gabriele não se moveu.
Do corredor lateral, uma madeira rangeu.
Kain e Lara haviam retornado.
Tinham parado próximos à porta, tentando não serem percebidos.
Gabriele os viu.
Não demonstrou.
Fotino também.
O bispo fechou os olhos.
Inspirou pelo nariz.
Uma vez.
Depois outra.
Como um animal reconhecendo um cheiro.
Seu rosto se contraiu.
— E com essa alma execrável...
Inspirou novamente.
Um pequeno sorriso surgiu.
— Mal consigo suportar o cheiro.
Kain sentiu o corpo gelar.
Não compreendeu completamente o significado das palavras.
Mas compreendeu para quem eram dirigidas.
Gabriele.
O padre não pareceu ofendido.
— Duas impregnações no mesmo dia.
Olhou brevemente para o relógio da igreja.
— É um dia e tanto.
Fotino abriu os olhos.
A expressão continuava errada.
A pupila parecia grande demais sob a pouca luz.
— Não se anime.
Gabriele permaneceu em silêncio.
— Vim apenas entregar um recado.
— Infelizmente?
O sorriso da coisa dentro de Fotino aumentou.
— Infelizmente.
Gabriele observou o corpo do bispo com atenção.
Não buscava deformidades.
Buscava erros.
O modo como os dedos descansavam.
A frequência da respiração.
A pequena tensão na mandíbula.
Impregnação.
Mas diferente da anterior.
Muito mais antiga.
Muito mais bem acomodada.
Aquilo não estava lutando para dividir espaço com Fotino.
Já conhecia cada canto dele.
Talvez houvesse anos.
Talvez décadas.
Essa possibilidade incomodou Gabriele.
Não demonstrou.
Fotino virou lentamente o rosto.
Seus olhos encontraram Lara.
A menina parou de respirar.
A coisa sorriu.
E apontou para ela.
— A garota...
A expressão de Gabriele endureceu.
Dessa vez, completamente.
— O que tem ela?
Nenhuma pressa.
Nenhuma emoção aparente.
Mas Kain conhecia o suficiente do padre para perceber que aquilo era pior do que raiva.
Fotino não respondeu na língua deles.
Quando falou novamente, as palavras pareceram antigas demais para aquela igreja.
— Illa iam nostra est.
Gabriele não piscou.
Kain olhou para Lara.
Ela não conhecia a frase.
Mas alguma coisa nela reagiu.
Não à tradução.
Ao som.
Um arrepio percorreu seus braços.
Por um instante, muitas vozes surgiram ao redor dela.
Não dentro da igreja.
Dentro de sua cabeça.
Sussurros.
Alguns chorando.
Outros repetindo sílabas que não compreendia.
Lara levou a mão à têmpora.
Gabriele olhou de canto para ela.
Só uma vez.
Foi suficiente para verificar que ainda estava consciente.
Depois voltou os olhos para Fotino.
A frase continuava suspensa entre os dois.
Gabriele sabia exatamente o que significava.
Apenas encarou aquilo que utilizava o rosto de Fotino.
E disse uma única palavra.
— Pereas.
O sorriso desapareceu.
Instantaneamente.
Os olhos do bispo ficaram vazios por um segundo.
A cabeça caiu ligeiramente para frente.
Seu corpo oscilou.
Kain deu um passo na direção dele.
Gabriele ergueu a mão.
O garoto parou.
Fotino inspirou violentamente.
Como alguém voltando à superfície depois de permanecer tempo demais debaixo d'água.
Abriu os olhos.
Piscou.
Uma vez.
Duas.
Olhou em volta.
Sua expressão havia mudado.
Agora havia confusão.
Depois desconforto.
Depois reconhecimento.
Era Fotino novamente.
Ele levou a mão ao peito.
— Gabriele...
O padre não respondeu.
Fotino olhou para a própria mão.
Depois para Lara.
Demorou alguns segundos para compreender por que ela o encarava daquela forma.
— O que aconteceu?
Gabriele caminhou até ele.
— Há quanto tempo?
Fotino franziu a testa.
— O quê?
— Há quanto tempo você perde períodos do dia?
O bispo ficou imóvel.
Não respondeu.
Isso bastou.
Gabriele se aproximou mais.
— Fotino.
O homem respirou fundo.
— Algumas semanas.
A mentira foi ruim.
Gabriele percebeu.
— Outra vez.
Fotino baixou os olhos.
— Meses.
Silêncio.
Kain olhou para Lara.
Ela permanecia muito pálida.
— Quanto tempo exatamente?
Fotino apertou os lábios.
— Não sei.
Gabriele não acreditou.
Mas não insistiu.
Ainda.
Caminhou lentamente ao redor do bispo.
Fotino acompanhou seus movimentos.
— Algum lapso de memória?
— Alguns.
— Sonhos recorrentes?
— Sim.
— Vozes?
Fotino não respondeu.
Gabriele parou atrás dele.
— Então sim.
O bispo fechou os olhos.
— Achei que fosse cansaço.
— É sempre o que esperam que você pense.
Fotino abriu os olhos.
— Impregnação?
Gabriele voltou para diante dele.
— Sim.
A palavra pareceu envelhecer o bispo.
— Mas eu nunca fiz pacto algum.
Gabriele ficou quieto.
— Nunca.
— Tem certeza?
Fotino pareceu ofendido.
— Eu saberia.
— Não necessariamente.
— Um pacto exige consentimento.
— Algumas vezes.
Fotino ficou imóvel.
Gabriele continuou:
— Outras vezes, basta aceitar uma coisa sem compreender completamente o preço.
A igreja pareceu ainda maior ao redor deles.
Fotino olhou para o crucifixo.
— Eu nunca pedi nada.
— Todos pedem.
— Não assim.
— Não precisa ajoelhar diante de um círculo de velas para negociar.
Gabriele aproximou-se.
— Às vezes basta desejar desesperadamente que alguma coisa aconteça.
Fotino respirou mais fundo.
— Isso não é um pacto.
— Depende de quem estava ouvindo.
Nenhuma resposta.
Kain sentiu Lara segurar seu pulso.
A mão dela estava fria.
Muito fria.
Ele olhou.
— Lara?
Ela não respondeu.
Continuava observando Fotino.
Ou talvez alguma coisa ao redor dele.
— Estão falando — sussurrou.
Gabriele virou-se imediatamente.
— Quem?
A menina apertou os olhos.
— Muitos.
— Mortos?
Ela assentiu.
— Não escute todos.
Lara tentou respirar.
— Eles estão dizendo a mesma coisa.
Gabriele ficou atento.
— O quê?
Ela abriu os olhos.
— Para eu não dormir.
O silêncio tomou a igreja.
Fotino olhou para ela.
Gabriele não.
Seu olhar permaneceu fixo em algum ponto vazio entre os bancos.
— Quantos estão dizendo isso?
Lara tentou ouvir.
Seu rosto se contraiu.
— Não sei.
As vozes pareciam vir de todos os lados.
Homens.
Mulheres.
Crianças.
Algumas tão distantes que mal pareciam palavras.
Outras próximas o suficiente para fazê-la sentir uma respiração que não existia junto ao ouvido.
Não durma.*
Não feche os olhos.
Não deixe que chamem você.
Lara tapou os ouvidos.
Não ajudou.
Nunca ajudava.
Kain aproximou-se.
— Lara.
Ela olhou para ele.
— Eles estão assustados.
Isso chamou a atenção de Gabriele.
— Os mortos?
— Sim.
Uma pausa.
— Nunca ouvi tantos com medo ao mesmo tempo.
Gabriele ficou imóvel.
Fotino observou o rosto dele.
— O que significa?
O padre ignorou.
Caminhou até Lara.
Ajoelhou-se diante dela.
— Olhe para mim.
Ela obedeceu.
— O que exatamente disseram?
— Que eu não devo dormir.
— Mais alguma coisa?
Lara demorou.
— Alguns disseram que eu fui vista.
Gabriele não demonstrou reação.
Mas Kain percebeu seus dedos se fecharem.
— Por quem?
Lara tentou escutar novamente.
Gabriele segurou seu pulso.
— Não force.
Ela parou.
O padre a observou durante alguns segundos.
Depois se levantou.
— Vocês dois ficam juntos esta noite.
Kain não discutiu.
Isso era incomum.
Fotino aproximou-se.
— Gabriele...
— Você vai embora.
O bispo pareceu não acreditar.
— Depois do que aconteceu?
— Principalmente depois do que aconteceu.
— Preciso saber o que estava dentro de mim.
— Não.
— Você reconheceu.
Gabriele encarou-o.
Fotino percebeu a resposta antes de ouvi-la.
— Reconheci o comportamento.
— Não foi isso que perguntei.
— Foi o suficiente.
— Para você.
Gabriele aproximou-se.
— É a única pessoa nesta igreja que precisa ser suficiente agora.
Fotino ficou em silêncio.
A autoridade entre os dois havia mudado.
O bispo continuava sendo bispo.
Ali dentro, não importava.
Gabriele caminhou até a porta.
— Amanhã, antes do nascer do sol, não fale com ninguém.
— Por quê?
— Porque não sei quais pensamentos ainda são seus.
Fotino perdeu a cor.
Gabriele abriu a porta.
— Não reze.
O bispo franziu o cenho.
— O quê?
— Esta noite, não reze.
— Está me pedindo para...
— Não estou pedindo.
Fotino encarou-o.
— Por quê?
Gabriele respondeu sem emoção:
— Porque você ainda não sabe quem anda respondendo.
Fotino permaneceu parado por alguns segundos.
Então atravessou a porta.
Gabriele fechou-a.
Girou a chave.
Ficou de costas para Kain e Lara.
Nenhum dos dois falou.
Apenas a chuva distante, novamente começando sobre Roma.
Kain foi o primeiro.
— O que ele falou pra Lara?
Gabriele continuou diante da porta.
— Nada que você precise repetir.
— Eu ouvi.
— Então esqueça.
— Era latim?
— Não exatamente como você conhece.
Kain percebeu que não obteria mais.
Lara ainda estava inquieta.
— Ele disse que eu era deles.
Gabriele virou-se.
— Ele disse que você já era deles.
Lara engoliu.
Kain olhou para ele.
— Qual a diferença?
— Toda.
Gabriele caminhou até Lara.
— Alegar propriedade sobre alguma coisa é uma das formas mais antigas de fazê-la acreditar que já perdeu.
Olhou diretamente para ela.
— Você não perdeu.
Lara tentou manter o rosto firme.
— Então ele mentiu?
Gabriele demorou.
— Não baseie sua tranquilidade nisso.
A menina ficou quieta.
— Eles mentem?
— Sim.
— Sempre?
— Não.
Aquilo foi muito pior.
Gabriele percebeu.
— É por isso que são eficientes.
Nenhum deles perguntou mais.
O padre olhou para o último banco.
Aquele onde o primeiro impregnado se sentara.
Depois para o lugar onde Fotino estivera.
Duas presenças no mesmo dia.
Duas tentativas.
Uma interessada em Kain.
Outra em Lara.
Não era coincidência.
Ele sabia.
O pior não era terem sido encontrados.
O pior era que alguém havia esperado dez anos antes de procurá-los.
Isso significava planejamento.
Paciência.
E entidades que possuíam paciência geralmente não tinham pressa porque já sabiam como a história terminava.
Gabriele caminhou até o altar.
Retirou o crucifixo pequeno que ficava sobre a mesa.
Kain observou.
— Vai usar isso?
Gabriele olhou para o objeto.
— Não.
Colocou-o dentro de uma gaveta.
Fechou.
— Então por que guardou?
— Porque esta noite não quero símbolos perto de vocês.
Lara franziu a testa.
— Por quê?
Gabriele voltou-se.
— Porque símbolos chamam atenção.
A resposta silenciou os dois.
Ele caminhou até uma pequena porta atrás do altar e retirou uma chave do bolso.
— Venham.
Kain e Lara o seguiram.
A porta dava acesso a uma escada estreita de pedra que descia para uma parte antiga da igreja.
Kain nunca havia entrado ali.
— Onde vamos?
— Para baixo.
— O que tem lá?
Gabriele abriu a porta.
Escuridão.
Um cheiro de pedra úmida subiu pelos degraus.
— Algo que vocês precisam aprender antes de dormir.
Lara olhou para Kain.
Gabriele acendeu apenas uma pequena lanterna.
Nada de velas.
Nada de símbolos religiosos.
Começou a descer.
As crianças foram atrás.
A porta fechou sobre eles.
---
Muito longe dali, Fotino caminhava sozinho sob a chuva.
Não se lembrava dos últimos minutos dentro da igreja.
Não lembrava de ter apontado para Lara.
Não lembrava das palavras antigas.
Não lembrava do sorriso.
Apenas sentia uma dor crescente na garganta.
Parou sob uma marquise.
Levou a mão ao pescoço.
Engoliu.
Algo parecia preso ali.
Tossiu.
Uma vez.
Depois outra.
Na terceira, cuspiu alguma coisa na palma da mão.
Pequena.
Negra.
Ele aproximou da luz do poste.
Parecia uma pena.
Molhada.
Muito pequena.
Fotino ficou olhando.
Seu coração acelerou.
Então ouviu uma voz atrás dele.
— Não deveria ter deixado a igreja.
Virou-se.
Não havia ninguém.
A rua estava vazia.
Fotino olhou novamente para a mão.
A pena havia desaparecido.
Mas alguma coisa continuava respirando dentro dele.
CAPÍTULO
Nefarius
Ao chegarem ao subterrâneo, Kain e Lara pararam.
Nenhum dos dois conseguiu avançar.
O lugar era amplo, antigo e úmido. As paredes estavam cobertas por fotografias, anotações, símbolos e registros. Havia imagens de corpos, manchas de sangue, marcas sobre a carne e fotografias antigas demais para que Kain compreendesse de imediato o que estava vendo.
Entre elas, encontrou uma fotografia de sua mãe.
Ao lado, outra dele recém-nascido.
Sua boca estava aberta.
A marca sob sua língua havia sido fotografada.
Kain permaneceu olhando.
Gabriele estava atrás dos dois, de cabeça baixa, sem dizer uma palavra.
— Padre... o que é isso?
Gabriele respondeu:
— Não tenham medo. Aqui se encontra a verdade.
Lara permanecia completamente paralisada.
Kain olhou para trás.
Gabriele não estava mais ali.
— Padre?
Nada.
Kain virou rapidamente para Lara.
— Lara.
Ela não respondeu.
Ele segurou seus ombros e a sacudiu.
Nenhuma reação.
Então ouviu alguma coisa.
No fundo do subterrâneo.
Um ruído baixo.
Mastigação.
Kain parou.
O lugar estava escuro demais para que conseguisse distinguir o que havia entre as últimas colunas.
O som continuou.
Carne sendo rasgada entre dentes.
Kain tentou enxergar melhor.
Havia alguma coisa agachada no fundo.
— Padre?
O barulho parou.
A coisa ergueu a cabeça.
Depois começou a se levantar.
No mesmo instante, Lara caiu no chão.
Kain olhou para ela.
Quando voltou os olhos para o fundo, a criatura havia desaparecido.
Uma voz ecoou pelo subterrâneo.
— Aquele padre é um perigo para nós. Mesmo assim teve suas crianças roubadas tão facilmente por impregnações... seres tão fracos quanto uma formiga.
Kain olhou ao redor, procurando Gabriele.
Não encontrou ninguém.
A voz continuou:
— A marca, garoto. Você pertence a nós, Filho de Set.
Kain não entendeu.
Então veio o cheiro.
Forte.
Podre.
Tão intenso que seu estômago se contraiu.
Kain olhou para Lara.
A criatura estava sobre ela.
Sua boca estava presa ao braço esquerdo da menina.
Mastigava.
Kain arregalou os olhos.
A criatura virou lentamente o rosto.
Sangue escorria de sua boca.
E sorriu.
Kain não conseguiu se mover.
Seu corpo havia travado completamente.
A criatura voltou a mastigar o braço de Lara.
Kain tentou avançar.
Nada.
Tentou novamente.
Seu corpo não respondia.
A raiva começou a superar o medo.
Ele gritou.
Forçou as pernas.
Os músculos tremiam.
Até que um dos pés se moveu.
A criatura parou.
Olhou para ele.
O sorriso desapareceu.
Kain continuou.
Um passo.
Depois outro.
Devagar.
A pressão que prendia seu corpo começou a ceder.
Ele conseguiu chegar perto.
A criatura se levantou.
Kain precisou erguer o rosto para enxergá-la por completo.
Era muito alta.
Humanoide.
Magra.
Desproporcional.
Ela olhou para ele.
— Era de se esperar de um Filho de Set. Vocês não têm ideia do perigo que são. Por isso devoramos vocês.
A boca da criatura começou a abrir.
Mais.
A pele ao redor dos lábios se rompeu.
A abertura atravessou grande parte do rosto.
Ela avançou para devorar a cabeça de Kain.
Então parou.
Os olhos se moveram para cima.
— Demorou demais, padre.
Kain olhou na mesma direção.
Gabriele estava acima deles.
Parado.
Olhando diretamente para a criatura.
— Exi ab eo.
A criatura ficou rígida.
Gabriele continuou:
— Coerceat te Deus.
Ela paralisou completamente.
Kain sentiu o corpo ser liberado.
Caiu de joelhos, ofegante.
Tentou se levantar e foi até Lara.
O braço esquerdo sangrava muito.
Kain rasgou parte da própria roupa e amarrou o tecido ao redor do ferimento para conter o sangue.
Passos começaram a descer pela escada.
Kain olhou para trás.
A criatura continuava imóvel.
Depois voltou os olhos para a escada.
Gabriele apareceu.
Kain permaneceu desconfiado.
— Quem é você? Não chegue mais perto.
Gabriele olhou para ele.
Depois para Lara.
— Leve-a para cima, Kain.
Kain sustentou o olhar por alguns segundos.
Não respondeu.
Pegou Lara e começou a subir.
Assim que os dois desapareceram pela escada, Gabriele caminhou até a criatura.
Parou diante dela.
— Cesset Vinculum.
A criatura voltou a se mover.
Seus olhos encontraram os de Gabriele.
— Exsecratus.
Gabriele permaneceu olhando para ela.
— Faz tempo que não escuto esse nome.
A criatura não respondeu.
— Nunca imaginei que iria ver um pessoalmente.
Gabriele continuou:
— Vocês são piores que os lixos lá de baixo. Fico imaginando como as pessoas crentes reagiriam ao ver aquilo que veneram e acreditam como seus protetores de verdade... e o que fazem para se manter.
A criatura o encarou com nojo.
— Vai me mandar de volta, padre?
Gabriele a mediu.
— Pior. Acha que eu faria esse favor de te mandar de volta?
Silêncio.
— Nunca.
Gabriele continuou:
— Não sei quando verei um novamente. Vocês são ariscos demais. Com medo dos spiritus immundus. Só agem nas sombras, sem lei nenhuma.
A criatura permaneceu imóvel.
— Presente dado pelo seu senhor, não é? O verdadeiro livre-arbítrio está com vocês. Ele não os pune. Ele não se importa. Enquanto aqui todos morrem ou estão sujeitos ao karma.
A criatura finalmente respondeu:
— Você sabe demais, padre. Digno de um ser temido pelos demônios e odiado pelos filhos dele.
Ela cuspiu um pedaço do braço de Lara diante de Gabriele.
— Morra.
Gabriele fechou a expressão.
Puxou a manga da batina e mostrou o antebraço.
Havia um selo sobre sua pele.
Antigo.
A criatura olhou.
E começou a gritar.
O som atravessou todo o subterrâneo.
As paredes tremeram.
Pedras começaram a cair.
A estrutura inteira pareceu estremecer.
Kain ainda carregava Lara pela escada quando sentiu o primeiro impacto.
Quase caiu.
O teto começou a soltar pedaços.
Ele continuou subindo.
Arrastou Lara para fora do subterrâneo.
O som aumentava.
Kain mal conseguia permanecer de pé.
Seus olhos começavam a fechar.
Conseguiu sair da igreja arrastando Lara.
Então caiu.
O grito vindo do subterrâneo continuou.
Kain perdeu a consciência.
Lá embaixo, Gabriele permaneceu diante da criatura.
— Obsigno regnum meum!
O grito cessou.
A criatura olhou para ele.
— Sua alma é nossa, Gabriele.
O padre respondeu:
— Que alma?
A criatura permaneceu olhando para Gabriele.
Surpresa, E lhe respondeu.
— Nefarius.
E desapareceu.
O subterrâneo ficou em silêncio.
Gabriele abaixou a manga.
Seu chapéu estava no chão.
Ele o pegou.
Subiu as escadas.
Saiu da igreja.
Kain e Lara estavam desacordados do lado de fora.
Gabriele foi diretamente até Lara.
Ajoelhou-se.
Checou seu pulso.
Fraco.
Mas ainda presente.
Então começou a socorrê-la.
CAPÍTULO 6
A Marca
Alguns dias se passaram.
A igreja estava silenciosa.
Kain e Lara permaneciam deitados em duas camas colocadas no mesmo quarto, próximas o suficiente para que Gabriele pudesse observar os dois ao mesmo tempo.
Lara estava imóvel.
Seu braço esquerdo permanecia completamente envolvido por faixas grossas, já substituídas diversas vezes desde aquela noite. A respiração era lenta, mas regular.
Kain também dormia.
Padre Gabriele estava sentado em uma poltrona diante das camas.
Não lia.
Não rezava.
Não dormia.
Apenas os observava.
Fazia aquilo havia horas.
Quando Kain começou a despertar, não houve movimento brusco.
Primeiro os dedos.
Depois os olhos.
A luz fraca da manhã atravessava uma pequena janela no alto da parede.
Kain piscou algumas vezes.
Sua cabeça doía.
A garganta estava seca.
Por alguns segundos não se lembrou de nada.
Então virou o rosto.
Lara.
Estava deitada na cama ao lado.
Kain imediatamente olhou para o braço dela.
As lembranças voltaram.
O subterrâneo.
As fotografias.
A carne sendo mastigada.
Aquela boca.
O grito.
O rosto de Kain mudou.
Virou-se para frente.
Gabriele estava sentado na poltrona.
Observando-o.
Kain levantou-se devagar.
Não desviou os olhos do padre.
— O que aconteceu?
Gabriele permaneceu em silêncio.
— O que era aquilo?
O padre abaixou a cabeça.
Suspirou.
Depois se levantou.
— Troque-se e me siga.
Kain ficou sentado.
Olhou para Lara.
Depois novamente para ele.
— Dessa vez é você mesmo, padre?
Gabriele parou perto da porta.
Olhou de canto para o menino.
— Me siga. Preciso lhe contar algo.
Kain ainda hesitou.
A lembrança do subterrâneo não o deixava confiar completamente nem mesmo naquele rosto.
Mas levantou.
Vestiu-se.
Antes de sair, aproximou-se da cama de Lara.
Ela continuava dormindo.
Kain não disse nada.
Seguiu Gabriele.
Os corredores da igreja pareciam diferentes.
Nada havia mudado neles.
Mesmo assim, Kain não conseguia mais olhar para uma porta sem imaginar o que existia atrás dela.
Nem para um crucifixo sem recordar o que vira abaixo da igreja.
Passaram pelo altar.
Kain não olhou para a passagem subterrânea.
Gabriele também não.
Continuaram até a sala particular do padre.
Gabriele abriu a porta.
Kain entrou.
Era um cômodo simples.
Uma mesa.
Duas cadeiras.
Uma estante cheia de livros antigos.
Alguns documentos.
Uma janela estreita.
Nada naquela sala combinava com o que havia escondido abaixo da igreja.
Kain sentou-se.
Gabriele fechou a porta.
Sentou-se diante dele.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
O padre colocou as mãos sobre a mesa.
— A partir de hoje, muitas coisas poderão acontecer.
Kain permaneceu olhando para ele.
— Muitos já sabem da sua existência.
A voz de Gabriele era calma.
— Não posso lhe contar tudo.
Kain apertou os dedos contra as próprias pernas.
Gabriele continuou:
— Mas precisa compreender uma coisa agora.
Seus olhos permaneceram fixos no menino.
— Você carrega algo que vai mudar sua vida.
Uma pausa.
— E dificultá-la para sempre.
Kain tocou a própria boca.
Gabriele percebeu.
— A marca?
— Sim.
— O que ela é?
Gabriele não respondeu imediatamente.
Levantou-se.
Foi até a estante.
Retirou um livro muito antigo.
A capa não possuía título.
Colocou-o sobre a mesa.
Não abriu.
— Existem registros de crianças nascidas com marcas semelhantes à sua.
Kain olhou para o livro.
— Quantas?
— Poucas.
— O que aconteceu com elas?
Gabriele sustentou seu olhar.
— Quase nenhuma chegou à idade adulta.
Kain ficou quieto.
Não parecia entender completamente.
Talvez não quisesse.
— Por quê?
— Porque foram encontradas.
Silêncio.
Kain lembrou da criatura.
Filho de Set.
— Por aquelas coisas?
— Por muitas coisas.
Gabriele voltou a sentar.
— Homens também procuram.
— Por quê?
— Porque homens sempre acreditaram que poderiam controlar aquilo que não compreendem.
Kain olhou novamente para o livro.
— E você compreende?
— Parte.
A resposta foi imediata.
— E é exatamente por saber uma parte que não pretendo fingir que conheço o resto.
Kain permaneceu em silêncio.
Gabriele observou-o.
— Aquilo que encontrou no subterrâneo não estava lá por acidente.
Kain levantou os olhos.
— Você sabia?
— Não.
— Então por que me levou lá?
Gabriele não tentou evitar.
— Porque aquele lugar deveria estar protegido.
Kain ficou imóvel.
— Não estava.
— Não.
O padre não acrescentou desculpas.
Kain apertou a mandíbula.
— Lara quase morreu.
Gabriele respondeu:
— Eu sei.
Nada mais.
Kain desviou os olhos.
A imagem da criatura sobre Lara voltou.
O som.
Os dentes.
O sangue.
Ele fechou as mãos.
Gabriele percebeu.
— Raiva ajudou você naquela noite.
Kain olhou para ele.
— Não confunda isso com proteção.
O menino permaneceu quieto.
— Algumas dessas coisas se alimentam exatamente daquilo que você sentiu.
— Medo?
— Medo também.
Gabriele se recostou.
— Desespero. Culpa. Ódio. Fraqueza. Cansaço. Tudo aquilo que altera a mente humana pode se tornar alimento.
Kain franziu o cenho.
— Então aquilo estava me comendo?
— Não da maneira que imagina.
Gabriele olhou brevemente para a porta.
— Algumas criaturas comem carne.
— Outras preferem aquilo que vem antes dela.
Kain não entendeu.
Gabriele não explicou mais.
— E aquilo era um demônio?
O padre voltou os olhos para ele.
— Não.
Kain esperou.
— Então era o quê?
Gabriele permaneceu alguns segundos em silêncio.
— Algo que homens provavelmente chamariam de anjo.
Kain ficou imóvel.
A palavra pareceu errada.
— Anjo?
— Não imagine asas.
— Mas...
— Não imagine nada.
Gabriele interrompeu antes que Kain continuasse.
— Isso é importante.
O menino ficou quieto.
— Tudo aquilo que você aprendeu sobre eles foi escrito por pessoas que quase nunca os viram.
Gabriele passou os dedos pela capa do livro.
— Homens descrevem aquilo que conseguem suportar.
— Quando não conseguem, transformam em símbolo.
Kain olhou para o crucifixo pequeno na parede da sala.
Gabriele percebeu.
— Não procure respostas ali.
Kain voltou os olhos.
— Então onde?
— Nos rastros.
Gabriele finalmente abriu o livro.
Havia páginas escritas em diferentes línguas.
Desenhos.
Símbolos.
Alguns trechos estavam riscados.
Outros haviam sido arrancados.
— Existem relatos antigos demais para serem considerados pela maioria das pessoas.
Virou uma página.
— Gênesis fala de seres que viram as filhas dos homens e as tomaram para si.
Outra página.
— Ezequiel descreve formas que séculos de pintura transformaram em beleza.
Mais uma.
— Jó descreve criaturas que nenhum homem consegue dominar.
Parou.
— E ainda assim todos preferem as versões que cabem em vitrais.
Kain olhou para o livro.
Gabriele fechou.
— A ignorância torna a fé confortável.
Kain permaneceu sério.
— E Set?
Gabriele ficou imóvel.
Era a primeira vez que o menino dizia aquele nome diretamente para ele.
— Aquela coisa me chamou de Filho de Set.
Gabriele não respondeu.
— O homem na igreja também falou disso.
Silêncio.
— O que é Set?
O padre olhou para Kain durante alguns segundos.
— Ainda não é hora.
Kain fechou a expressão.
— Você sempre fala isso.
— Porque você ainda tem dez anos.
— Mas eles sabem.
— Sim.
— E eu não.
— Sim.
Kain abaixou os olhos.
Gabriele continuou:
— Isso incomoda você.
— Muito.
— Ótimo.
Kain voltou a encará-lo.
— Por quê?
— Porque significa que ainda não aceita respostas apenas porque alguém é mais velho ou veste uma batina.
Gabriele colocou o livro de lado.
— Continue assim.
Kain não esperava aquilo.
O padre levantou-se.
Foi até uma pequena gaveta.
Retirou um espelho.
Colocou diante do menino.
— Abra a boca.
Kain ficou tenso.
Gabriele percebeu.
— Apenas eu estou aqui.
O menino hesitou.
Depois abriu.
— Levante a língua.
Kain obedeceu.
Gabriele aproximou uma pequena luz.
A marca estava ali.
Mais escura do que Kain lembrava.
O padre observou.
Nenhum comentário.
Desligou a luz.
Kain fechou a boca.
— Mudou?
— Sim.
Kain sentiu o estômago apertar.
— Como?
Gabriele guardou a luz.
— Está mais definida.
— Isso é ruim?
— Ainda não sei.
Era a resposta que Kain menos queria ouvir.
Gabriele voltou para a cadeira.
— A partir de hoje, ninguém vê essa marca.
— Eu sei.
— Não. Você ouviu antes.
O padre aproximou-se ligeiramente.
— Agora você sabe o motivo.
Kain ficou quieto.
— Algumas pessoas vão querer matar você.
— Outras não poderão permitir que você morra.
Kain sentiu um arrepio.
— Qual é pior?
Gabriele respondeu:
— As que precisam de você vivo.
Silêncio.
O menino abaixou os olhos.
— E Lara?
Gabriele ficou mais sério.
— Lara tem outro problema.
— Por causa do que aquela coisa falou?
— Sim.
— Ela também tem uma marca?
— Não.
Gabriele não explicou.
Kain percebeu.
— Ela vai acordar?
O padre permaneceu alguns segundos em silêncio.
— O corpo dela está reagindo.
Não prometeu mais nada.
Kain assentiu lentamente.
Gabriele se levantou.
— Você vai voltar para o quarto.
Kain também levantou.
Antes de chegar à porta, parou.
— Padre.
Gabriele esperou.
— Aquela criatura chamou você de Nefarius.
O silêncio mudou.
Gabriele não se moveu.
Kain continuou:
— O que significa?
O padre caminhou até a porta.
Abriu.
— Volte para Lara.
Kain entendeu que não teria resposta.
Passou por ele.
Gabriele fechou a porta.
Ficou sozinho.
Durante alguns segundos permaneceu parado.
Depois voltou até a mesa.
Abriu novamente o livro.
Virou diversas páginas.
Parou diante de um registro antigo.
No centro havia um símbolo.
O mesmo que Kain carregava sob a língua.
Abaixo dele existia apenas uma frase escrita à mão.
Gabriele leu.
Não disse em voz alta.
Fechou o livro.
E permaneceu olhando para a capa.
Do outro lado da igreja, Lara continuava dormindo.
Mas naquela manhã, pela primeira vez desde o ataque, os dedos de sua mão direita começaram a se mover.
CAPÍTULO 7
A Voz na Escuridão
O lugar cheirava a umidade, ferrugem e lixo apodrecido.
Não havia iluminação suficiente para saber onde terminavam as paredes. Apenas uma lâmpada distante piscava acima de um corredor estreito, revelando por alguns segundos o concreto sujo, canos expostos e água escura acumulada no chão.
Um homem surgiu do fundo.
Mancava.
A roupa estava rasgada e coberta de sujeira. O lado esquerdo do rosto estava inchado. Sangue seco descia da testa até o pescoço.
Ele avançava apoiando uma das mãos na parede.
A cada passo, soltava um grunhido.
Até parar.
Apoiou a testa contra o concreto.
Sua respiração falhava.
Então caiu de joelhos.
— Senhor...
Nada respondeu.
Ele fechou os olhos.
— Me ajuda.
Sua voz quase não saiu.
— Estou morrendo.
Respirou fundo, tentando conter o choro.
— Eles tiraram tudo de mim.
Silêncio.
— Minha mulher...
A voz quebrou.
— Meu filho.
Ele apertou as mãos.
— Tudo.
Por alguns segundos houve somente o gotejar da água.
Então uma voz surgiu no escuro.
— Venha, meu filho.
O homem ergueu a cabeça.
Não havia ninguém.
Olhou para trás.
Depois para os lados.
— Quem está aí?
A voz não respondeu à pergunta.
— Venha.
O homem tentou se levantar.
— Onde?
— Onde a dor não consegue segui-lo.
Ele ficou imóvel.
O corredor diante dele terminava numa escuridão completa.
— Deus?
A voz demorou um pouco.
— Foi por mim que chamou.
Os olhos do homem se encheram.
— Eu rezei.
— Eu ouvi.
Ele levou uma das mãos à boca.
— Então por que deixou aquilo acontecer?
Silêncio.
A resposta veio baixa.
— Porque você ainda acreditava possuir alguma coisa.
O homem franziu o cenho.
— Eu tinha uma família.
— Tinha.
— Eles eram tudo para mim.
— E por isso puderam ser tirados.
O homem ficou calado.
A voz prosseguiu:
— O homem chama de bênção tudo aquilo que teme perder.
A lâmpada piscou.
— Depois culpa Deus quando perde.
O homem levantou lentamente.
— Eu não estou culpando...
— Está.
Silêncio.
— Você me odeia desde o enterro.
Ele ficou imóvel.
A respiração parou por um instante.
— Como sabe disso?
— Porque me chamou de assassino enquanto estava sozinho.
O rosto do homem perdeu a cor.
Ele lembrava.
Na cozinha vazia.
Dias depois do funeral.
Havia quebrado um copo contra a parede e gritado para um Deus que não respondia.
Ninguém estava com ele.
— Quem é você?
— Aquele que respondeu.
A voz parecia mais próxima.
O homem tentou enxergar.
Nada.
— Se é Deus...
— Você ainda precisa de um nome?
— Preciso saber com quem estou falando.
— Foi isso que Jó pediu.
O homem permaneceu imóvel.
— E recebeu perguntas.
A voz ficou mais baixa.
— Onde estava ele quando os fundamentos da terra foram lançados?
O homem não respondeu.
— Onde estava você quando sua mulher morreu?
A mandíbula dele tremeu.
— Não fale dela.
— Onde estava quando seu filho chamou?
Ele fechou os olhos.
— Pare.
— Onde estava seu Deus?
— PARE!
O grito atravessou o corredor.
A voz se calou.
O homem respirou com dificuldade.
Depois ouviu:
— Aqui.
Abriu os olhos.
A escuridão diante dele parecia mais profunda.
— Eu estava aqui.
Ele balançou a cabeça.
— Não.
— Você pediu ajuda.
— Sim.
— Pediu justiça.
— Sim.
— Pediu que alguém pagasse.
O homem não respondeu.
— E agora teme a resposta.
Ele olhou novamente para o escuro.
— Eu quero minha família de volta.
— Não.
A palavra veio seca.
— Você quer deixar de sofrer.
O homem baixou a cabeça.
A voz continuou:
— Sua mulher não voltará.
— Seu filho não voltará.
— Seu passado não será corrigido.
Cada frase parecia retirar algo dele.
— Mas posso lhe dar outra coisa.
Ele respirou fundo.
— O quê?
— Uma razão.
Silêncio.
— Uma razão para continuar.
O homem olhou para a própria perna ferida.
— Eu não tenho mais nada.
— Então não possui mais nada a perder.
A lâmpada piscou novamente.
Dessa vez não voltou.
Escuridão completa.
O homem não recuou.
— Venha, meu filho.
Ele deu um passo.
— Venha, e lhe mostrarei o caminho.
Outro.
— Darei a luz que proclama.
— Que luz?
A resposta veio quase junto ao ouvido.
— Aquela que homens chamam de salvação quando ainda não compreenderam o preço.
Ele parou.
Por um momento, o instinto lhe pediu que fugisse.
Mas a voz conhecia sua dor.
Conhecia sua mulher.
Conhecia seu filho.
Conhecia aquilo que ele havia dito sozinho.
E nenhum homem suportava por muito tempo a ideia de que sua oração finalmente havia sido ouvida para depois virar as costas.
Continuou andando.
Um passo.
Outro.
A escuridão o engoliu.
Seu último som foi uma respiração profunda.
Depois nada.
Nem passos.
Nem grunhidos.
Nem voz.
O corredor voltou a ficar vazio.
Quatro dias depois, uma caminhonete branca estacionou diante de uma casa afastada da cidade.
O imóvel era grande.
Não luxuoso.
Apenas antigo o suficiente para ter sido vendido abaixo do valor que normalmente teria naquela região.
As paredes externas haviam recebido pintura recente.
O telhado fora reformado.
As janelas ainda possuíam alguns sinais de idade, mas estavam inteiras.
No quintal havia árvores secas misturadas a outras ainda verdes.
Um pequeno muro separava a propriedade da estrada.
O homem saiu primeiro.
Daniel.
Quarenta e dois anos.
Olhou para a casa por alguns segundos antes de sorrir.
Atrás dele, sua esposa saiu do veículo.
Marina.
Ela segurou a porta por um instante e observou o imóvel.
— Então é essa.
Daniel assentiu.
— É.
Duas crianças desceram logo depois.
Lucas, treze anos.
Sofia, nove.
Os dois correram para o portão.
A menina foi a primeira a atravessar.
— Qual é meu quarto?
— Ainda nem entramos — respondeu Marina.
— Então vou escolher primeiro.
Lucas passou por ela.
— Nem pensar.
Os dois correram até a varanda.
Daniel permaneceu próximo ao carro.
Marina se aproximou.
Não disseram nada por alguns segundos.
Havia paz naquele silêncio.
Uma paz recente.
Frágil.
Meses antes, tinham passado por um divórcio.
A traição de Daniel destruíra o casamento.
Vieram as discussões.
A separação.
As crianças divididas entre duas casas.
Advogados.
Acusações.
Depois silêncio.
E, contra aquilo que todos ao redor esperavam, Daniel e Marina começaram a conversar novamente.
Primeiro pelas crianças.
Depois por eles.
A reconciliação não apagou o que aconteceu.
Mas decidiram tentar.
A casa fazia parte dessa tentativa.
Um lugar novo.
Sem os cômodos onde tinham brigado.
Sem a cama onde Marina descobrira a traição.
Sem os vizinhos que conheciam cada detalhe.
Sem lembranças anteriores.
Daniel comprara a propriedade pouco depois de voltarem.
Era para ser o começo.
A palavra que ele mais repetira desde então.
Começo.
Marina olhou para a fachada.
— É maior do que nas fotos.
— O corretor disse que quase ninguém veio visitar.
— Por quê?
Daniel deu de ombros.
— É afastada.
Ela assentiu.
Não insistiu.
Os dois entraram.
O cheiro de tinta nova ainda dominava o interior.
A sala era ampla.
Piso antigo.
Escada de madeira.
Uma janela grande voltada para o quintal.
Marina passou os dedos pela parede.
— Ainda parece velha.
— Porque é velha.
— Quantos anos?
— Não sei. Uns cinquenta.
Na verdade, Daniel não sabia.
Não perguntara.
O preço havia sido bom demais para perder tempo com detalhes que considerava irrelevantes.
Lucas surgiu no topo da escada.
— Achei meu quarto!
Sofia apareceu atrás.
— Ele pegou o maior!
— Porque cheguei primeiro.
— Pai!
Daniel olhou para Marina.
Ela sorriu pela primeira vez desde que chegaram.
— Resolve.
Ele subiu.
Marina ficou sozinha na sala.
A casa permaneceu silenciosa por alguns segundos.
Ela caminhou até a cozinha.
Armários novos.
Bancada reformada.
Uma porta dava acesso a um pequeno corredor lateral.
No fim dele havia outra porta.
Marina tentou abrir.
Trancada.
— Daniel?
Nenhuma resposta.
Tentou novamente.
A maçaneta não cedeu.
Abaixou-se.
A fechadura parecia antiga.
Muito mais antiga que as outras da casa.
Passou o dedo sobre a madeira.
Alguma coisa havia sido pintada por cima.
Marcas.
Riscos.
Talvez palavras.
A tinta recente escondia quase tudo.
Marina aproximou o rosto.
Conseguiu distinguir apenas parte de uma linha.
Depois outra.
Pareciam cortes feitos diretamente na madeira.
Ou unhas.
Um ruído veio do outro lado.
Marina parou.
Esperou.
Nada.
Colocou a mão na porta.
— Tem alguém aí?
Silêncio.
Então ouviu passos vindo da escada.
Virou-se.
Daniel apareceu.
— O que foi?
Ela apontou para a porta.
— Isso dá pra onde?
Ele olhou.
— Porão, acho.
— Está trancado.
Daniel tentou a maçaneta.
— O antigo proprietário deve ter deixado assim.
— Você não recebeu a chave?
— Deve estar com as outras.
Ele voltou para a sala.
Marina permaneceu mais alguns segundos diante da porta.
Não ouviu mais nada.
Saiu.
Naquela noite, comeram pizza sentados no chão da sala porque os móveis ainda não haviam sido montados.
As crianças discutiram sobre os quartos.
Daniel e Marina riram.
Por algumas horas, a casa realmente pareceu aquilo que eles queriam que fosse.
Um novo começo.
Quando todos dormiram, o imóvel ficou silencioso.
Pouco depois das duas da manhã, alguma coisa se moveu no corredor inferior.
A porta trancada continuava fechada.
Atrás dela, porém, ouviu-se uma respiração.
Lenta.
Irregular.
Depois um pequeno arrastar.
Como uma perna ferida sendo puxada pelo chão.
O som chegou até a cozinha.
Parou.
Silêncio.
Então uma voz masculina surgiu do outro lado da porta.
Muito baixa.
— Senhor...
Ninguém acordou.
— Me ajuda.
A maçaneta começou a se mover lentamente.
Uma vez.
Depois outra.
Do lado de fora do quarto, Sofia abriu os olhos.
Ficou deitada.
Escutando.
A voz veio novamente.
Mais distante agora.
— Eles tiraram tudo de mim.
Sofia sentou-se na cama.
Não parecia assustada.
Apenas confusa.
Colocou os pés no chão.
Abriu a porta do quarto.
O corredor estava escuro.
Ela olhou para a escada.
A voz subiu do andar inferior.
— Minha mulher...
Sofia segurou o corrimão.
— Meu filho...
Ela começou a descer.
Um degrau.
Depois outro.
A casa permaneceu completamente silenciosa.
Quando chegou ao último degrau, viu a porta do corredor.
Ainda fechada.
Mas agora havia alguma coisa diferente nela.
A tinta branca estava molhada.
Uma linha escura escorria lentamente pela madeira.
Sofia se aproximou.
Tocou.
Olhou para o dedo.
Vermelho.
A voz do outro lado falou:
— Venha, minha filha.
Sofia não se moveu.
A maçaneta girou sozinha.
E parou.
CAPÍTULO 8
Filha
A maçaneta girou.
Sofia permaneceu imóvel diante da porta.
Ela observou o metal completar lentamente o movimento.
Então a porta se abriu.
Do outro lado não havia ninguém.
Apenas o corredor.
Escuro.
Tão escuro que Sofia não conseguia enxergar onde terminava.
Ela deu um passo para trás.
Foi então que um grito atravessou a escuridão.
Uma mulher.
Um único grito.
Alto.
Desesperado.
E interrompido de repente.
Sofia fechou a porta com força.
Correu para o quarto.
Jogou-se debaixo da cama e puxou a coberta sobre a cabeça.
Ficou encolhida.
Respirava rápido demais.
Tentava não fazer barulho.
A casa voltou ao silêncio.
Por alguns segundos, nada aconteceu.
Então bateram na porta.
Sofia abriu os olhos debaixo da coberta.
Outra batida.
Mais forte.
Depois outra.
As pancadas começaram a ficar rápidas.
Violentas.
A porta tremia.
Sofia apertou a coberta contra o rosto.
As batidas continuaram.
Uma atrás da outra.
Cada vez mais fortes.
Até que pararam.
Silêncio.
Sofia permaneceu escondida.
Não sabia quanto tempo havia passado.
Alguns segundos.
Talvez minutos.
Devagar, retirou a coberta do rosto.
Olhou para o quarto.
Nada.
A porta estava fechada.
Nenhum movimento.
Ela saiu debaixo da cama.
Ficou em pé.
Esperou.
Nada.
Caminhou lentamente até a porta.
Encostou o ouvido na madeira.
Silêncio.
Sofia olhou para trás.
O quarto continuava vazio.
Voltou a encostar o ouvido.
Dessa vez ouviu alguma coisa.
Um passo.
Do outro lado.
A madeira do corredor rangeu.
Outro passo.
Mais perto.
Sofia prendeu a respiração.
Então, junto à porta:
— Psiu.
Ela arregalou os olhos.
Virou-se.
O homem estava dentro do quarto.
Parado atrás dela.
As roupas estavam sujas.
O corpo coberto de sangue.
Uma das pernas permanecia torta, ferida, obrigando-o a apoiar o peso apenas de um lado.
Era o mesmo homem que havia desaparecido na escuridão dias antes.
Ele olhou para Sofia.
Sorriu.
— Filha...
Sofia não conseguiu se mover.
O homem deu um passo.
A perna ferida arrastou pelo chão.
— Eu senti sua falta.
Sofia gritou.
O som atravessou a casa inteira.
Daniel acordou no susto.
Sentou-se imediatamente.
Marina abriu os olhos ao lado dele.
Outro grito.
— Pai!
Daniel saiu da cama.
— Sofia!
Marina levantou logo atrás.
Os dois correram para o corredor.
Sofia gritou novamente.
Daniel chegou à porta do quarto e tentou abrir.
Trancada.
— Sofia!
Puxou a maçaneta.
Nada.
— SOFIA!
Do outro lado, a menina gritava.
— PAI! SOCORRO!
Marina chegou atrás dele.
— Sofia!
Então ouviram.
Uma risada.
Mas não era da menina.
Daniel parou.
A risada veio de dentro do quarto.
Baixa.
Arrastada.
Maliciosa.
Marina levou a mão à boca.
— Tem alguém lá dentro.
Daniel recuou.
Chutou a porta.
O trinco estalou.
Não abriu.
Sofia começou a gritar ainda mais.
— PAI!
Marina chorava atrás dele.
— Abre essa porta!
Daniel chutou novamente.
A madeira rachou perto da fechadura.
Outra pancada.
O trinco começou a se soltar.
Daniel jogou o corpo contra a porta.
Uma parte da madeira se rompeu.
Abriu-se um pequeno buraco.
Ele se abaixou.
Colocou um dos olhos próximo à abertura.
Por um segundo não conseguiu enxergar nada.
Então viu.
O homem ensanguentado estava do outro lado.
Muito perto.
Olhando diretamente para ele.
Sorrindo.
Daniel recuou violentamente.
— Meu Deus...
Marina olhou para ele.
— O quê?
Daniel não respondeu.
Atirou-se contra a porta novamente.
Chutou.
Uma vez.
Duas.
Na terceira, a fechadura se rompeu.
A porta abriu.
Daniel entrou.
O homem havia desaparecido.
Não havia ninguém no quarto.
A janela estava fechada.
O armário vazio.
Nenhum lugar para onde alguém pudesse ter fugido.
— Sofia!
Ele olhou para o chão.
A menina estava caída ao lado da cama.
Imóvel.
Marina correu.
Ajoelhou-se e segurou a filha.
— Sofia!
Nenhuma reação.
Marina colocou dois dedos no pescoço da menina.
Esperou.
— Ela está viva.
Daniel abaixou-se.
— Sofia!
— A respiração está muito fraca.
Daniel pegou a filha nos braços.
Não procurou o homem.
Não tentou compreender.
Correu.
Marina foi atrás.
Lucas apareceu no corredor, assustado.
— O que aconteceu?
— Pega suas coisas! — gritou Daniel.
Desceram as escadas.
Daniel atravessou a porta da frente com Sofia nos braços.
Colocou-a no banco traseiro do carro.
Marina entrou ao lado dela.
Lucas entrou logo depois.
Daniel assumiu o volante.
O carro saiu da propriedade em alta velocidade.
Em poucos segundos, as lanternas desapareceram pela estrada.
A casa ficou vazia novamente.
Silenciosa.
Do outro lado da rua, porém, havia alguém.
Um homem.
Parado sob uma árvore.
Usava um chapéu escuro.
Não havia feito qualquer tentativa de se aproximar.
Não chamara a família.
Não tentara impedir nada.
Apenas observava.
Permaneceu olhando para a casa mesmo depois que o carro desapareceu.
Então ergueu lentamente os olhos para uma das janelas do segundo andar.
Havia alguma coisa atrás do vidro.
O homem de chapéu não se moveu.
Continuou observando.
CAPÍTULO 9
Ele Veio Junto
Sofia chegou ao hospital sem acordar.
Os médicos trabalharam durante quase quarenta minutos antes de permitirem que Daniel e Marina entrassem no quarto.
Não havia traumatismo craniano.
Nenhuma hemorragia interna.
Nenhuma substância estranha no sangue.
Nenhum sinal de convulsão.
Pressão baixa.
Respiração fraca.
Exaustão extrema.
Nada que explicasse por que uma menina de nove anos permanecia inconsciente como se alguma parte dela simplesmente tivesse decidido não voltar.
Daniel repetiu três vezes que havia um homem dentro do quarto.
Na terceira, o médico apenas anotou alguma coisa.
— Eu vi ele.
O médico permaneceu olhando os exames.
— Entendo.
— Não. Você não entende. Eu vi aquele filho da puta olhando pra mim pelo buraco da porta.
Marina estava sentada ao lado da cama.
Não contradisse o marido.
Ela também ouvira a risada.
Lucas permanecia próximo à janela, abraçado aos próprios braços.
O médico levantou os olhos.
— A polícia vai conversar com vocês. Neste momento, o importante é que sua filha está estável.
Daniel olhou para Sofia.
— Isso é estável?
— Neste momento, sim.
O médico saiu.
A porta fechou.
Daniel ficou alguns segundos parado.
Depois olhou para Marina.
— Ele acha que estou mentindo.
— Eu ouvi.
— Você não viu.
— Eu ouvi.
— Não é a mesma coisa.
Marina ergueu os olhos.
— Eu ouvi um homem dentro do quarto da nossa filha.
Daniel não respondeu.
A frase bastou.
Lucas continuava junto à janela.
— Talvez alguém tenha entrado na casa antes da gente.
Daniel virou-se.
— E saiu por onde?
— Não sei.
— A janela estava fechada.
— Pai...
— A porta estava trancada por dentro.
Lucas abaixou a cabeça.
Daniel esfregou o rosto.
Ninguém falou mais.
O relógio na parede marcava três e dezessete.
Sofia respirava.
Era o único som constante no quarto.
Às quatro e quarenta e dois, Marina cochilou sentada.
Daniel havia saído para falar com um policial.
Lucas dormia em outra cadeira.
Sofia abriu os olhos.
Não se mexeu.
Ficou olhando para o teto.
Sem piscar.
Marina acordou alguns minutos depois.
Demorou para perceber.
Quando percebeu, levantou imediatamente.
— Sofia?
A menina continuou olhando para cima.
Marina aproximou-se.
— Filha?
Os olhos de Sofia se moveram.
Encontraram os dela.
— Mãe.
A voz estava fraca.
Marina segurou sua mão.
— Eu estou aqui.
Sofia não apertou de volta.
— Onde está o pai?
— Falando com a polícia.
A menina ficou alguns segundos em silêncio.
Então olhou para a porta.
— A gente saiu da casa?
— Sim.
Sofia respirou fundo.
— Todo mundo?
Marina franziu a testa.
— Sim.
A menina voltou a olhar para o teto.
— Não.
Marina permaneceu imóvel.
— O quê?
Sofia fechou os olhos por um instante.
— Ele não estava querendo entrar.
— Quem?
Sofia abriu os olhos.
— O homem.
Marina sentiu o estômago se contrair.
— O que ele queria?
A menina virou o rosto lentamente.
— Sair.
Marina não respondeu.
Sofia falou com dificuldade.
— Ele estava preso lá.
— Preso onde?
— Na casa.
Marina sentiu frio nas mãos.
— Ele falou isso?
Sofia negou.
— Eu vi.
— O quê?
A menina demorou.
— Ele não estava olhando pra mim.
— Como assim?
— Quando ele falou comigo...
Sofia engoliu em seco.
— Ele achou que eu era outra pessoa.
Marina tentou manter a voz firme.
— Quem?
Sofia olhou para ela.
— A filha dele.
O silêncio mudou.
Marina não sabia o que responder.
— Sofia, aquele homem conhecia você?
— Não.
— Então por que chamou você de filha?
— Porque não estava me vendo.
Marina soltou lentamente a mão dela.
Não percebeu que havia feito isso.
Sofia continuou olhando para a mãe.
— Ele estava chorando antes de sorrir.
Marina lembrou da risada.
— Eu não ouvi choro.
— Não era com a boca.
Marina ficou completamente imóvel.
Sofia voltou a olhar para a porta.
— Mãe.
— O quê?
— Ele veio com a gente.
Marina sentiu o coração acelerar.
Olhou imediatamente para a porta.
Nada.
Corredor iluminado.
Uma enfermeira passou.
— Onde?
Sofia permaneceu séria.
— Não ele.
Marina voltou os olhos para a filha.
— Então quem?
Sofia olhou para o canto esquerdo do quarto.
Não havia nada ali.
— Aquilo que estava falando com ele.
Marina não conseguiu responder.
Sofia continuou olhando.
— Ainda está aqui.
Daniel voltou pouco depois.
Marina não contou tudo.
Disse apenas que Sofia havia acordado e falado do homem.
Daniel aproximou-se da cama.
— Você lembra dele?
Sofia assentiu.
— Ele te machucou?
— Não.
— Tocou em você?
— Não.
— Então por que desmaiou?
Sofia não respondeu.
Daniel insistiu:
— Sofia.
A menina olhou para ele.
— Porque tinha outra coisa lá.
Daniel ficou imóvel.
— Que coisa?
— Eu não sei.
Ele olhou para Marina.
Ela desviou os olhos.
Daniel percebeu.
— Você sabia?
— Ela acabou de me contar.
— O quê?
Marina não respondeu imediatamente.
Sofia falou antes:
— Não estava dentro do homem.
Daniel virou para ela.
— Onde estava?
— Em volta.
A palavra deixou o quarto mais frio.
Daniel se aproximou.
— Como assim, em volta?
Sofia levou alguns segundos.
— Parecia que o quarto estava errado perto dele.
Daniel permaneceu olhando.
Não sabia se deveria perguntar mais.
Não queria.
O médico entrou.
A conversa terminou.
Pouco depois das seis, Daniel entrou no banheiro do corredor.
Lavou o rosto.
Ficou algum tempo olhando para si mesmo no espelho.
Estava destruído.
Olheiras profundas.
Barba por fazer.
A camisa ainda tinha poeira da porta que arrombara.
Abriu a torneira novamente.
Água fria.
Respirou.
Quando levantou os olhos, havia alguma coisa escrita no espelho.
O vidro estava parcialmente embaçado.
Duas palavras.
VOCÊ PROMETEU
Daniel não se mexeu.
Olhou para trás.
O banheiro estava vazio.
Voltou ao espelho.
Passou a mão sobre as letras.
Sumiram.
Ficou olhando a própria mão molhada.
Então a porta do banheiro abriu.
Um homem entrou.
Daniel se virou abruptamente.
Era apenas outro acompanhante.
O homem nem reparou nele.
Daniel saiu.
No corredor, parou alguns segundos.
Não contou a ninguém.
Lucas acordou com o celular vibrando.
Número desconhecido.
Olhou ao redor.
A mãe estava perto da cama de Sofia.
O pai havia saído.
Atendeu.
— Alô?
Silêncio.
Lucas esperou.
Então ouviu a voz do pai.
— Não acredite na sua mãe.
Lucas ficou imóvel.
— Pai?
— Ela vai destruir tudo de novo.
Lucas levantou os olhos.
Daniel apareceu no fim do corredor naquele exato momento.
Caminhava em direção ao quarto.
O telefone continuava encostado no ouvido de Lucas.
A voz falou novamente:
— Você sabe que ela nunca perdoou.
Daniel entrou no quarto.
Olhou para o filho.
— Quem é?
Lucas não respondeu.
No telefone:
— Ele vai abandonar vocês quando conseguir o que quer.
Lucas desligou.
Daniel franziu a testa.
— Quem era?
Lucas olhou para ele.
— Ninguém.
Daniel percebeu a mentira.
Mas não insistiu.
O celular vibrou outra vez.
Lucas olhou para a tela.
O mesmo número.
Não atendeu.
Às seis e vinte e nove, o telefone de Marina tocou.
Número desconhecido.
Ela saiu do quarto para não acordar Sofia.
Atendeu.
— Alô?
Uma voz feminina respondeu.
Era a voz dela.
Exatamente.
— Ele vai trair você de novo.
Marina parou.
— Quem é?
A própria voz continuou:
— Você sabe disso.
Marina desligou.
Ficou olhando para o celular.
Tocou de novo.
Ela recusou.
Tocou novamente.
Recusou.
Outra vez.
Na quarta, desligou o aparelho.
Ficou parada no corredor.
Uma enfermeira passou por ela.
— Está tudo bem?
Marina assentiu.
Mentiu.
Voltou para o quarto.
Quando entrou, Daniel estava sentado próximo à janela.
Olhou para ela.
— Quem era?
Marina guardou o celular.
— Ninguém.
Lucas levantou os olhos.
A palavra ficou entre os três.
Ninguém.
A mesma resposta.
Em menos de quinze minutos.
Daniel percebeu.
Lucas também.
Marina não.
Ainda.
Sofia dormiu novamente.
Dessa vez os sinais permaneceram normais.
O quarto ficou mais silencioso.
Daniel sentou-se perto da cama.
Marina ficou do outro lado.
Lucas no fundo.
Nenhum deles conversava.
O que meses antes teria sido apenas silêncio agora parecia suspeita.
Daniel olhou para o celular da esposa.
Marina percebeu.
— O quê?
— Nada.
— Você está olhando meu celular.
— Eu estava olhando você.
— Não parecia.
Daniel respirou fundo.
— Não começa.
Marina congelou.
A frase.
Não começa.
Quantas vezes tinham dito aquilo antes do divórcio?
Lucas abaixou os olhos.
Daniel percebeu tarde demais.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Eu não falei nada.
— Marina...
— Eu não falei nada.
Daniel ficou calado.
Ela olhou para a janela.
Sofia abriu os olhos.
Ninguém percebeu.
A menina observou os pais.
Depois olhou para o canto do quarto.
Alguma coisa parecia estar acontecendo ali.
Pelo menos para ela.
Seus olhos acompanhavam lentamente um ponto vazio.
Começou no canto.
Passou pela parede.
Foi até Daniel.
Depois Marina.
Depois Lucas.
Sofia ficou olhando.
Acompanhando.
Como se alguma coisa caminhasse entre eles.
— Mãe.
Marina se virou.
— Oi.
Sofia não tirou os olhos do canto.
— Por que aquilo sabe o que você pensa quando está sozinha?
Marina perdeu a cor.
Daniel olhou para ela.
— O quê?
Sofia permaneceu observando.
— Ele fala coisas antes de vocês pensarem.
Daniel se levantou.
— Quem?
Sofia apontou.
Nada havia ali.
— Aquilo.
Lucas se afastou da parede.
Sofia continuou:
— Não gosta quando vocês ficam felizes.
Ninguém respondeu.
— Fica maior quando vocês brigam.
Daniel olhou para Marina.
Ela olhou de volta.
Por alguns segundos, nenhum dos dois respirou direito.
Sofia fechou os olhos.
— Agora ficou menor.
Às sete e cinco, uma enfermeira pediu acesso às câmeras do corredor.
Daniel insistira que alguém poderia ter seguido a família até o hospital.
A segurança não encontrou ninguém correspondente à descrição.
Homem ferido.
Roupa ensanguentada.
Perna machucada.
Nenhum registro.
Daniel pediu que verificassem desde a chegada.
Assistiram.
A família entrou.
Sofia na maca.
Marina correndo ao lado.
Daniel atrás.
Lucas pouco depois.
Nada.
O funcionário acelerou o vídeo.
Enfermeiros.
Médicos.
Pacientes.
Funcionários da limpeza.
Daniel estava prestes a desistir quando percebeu.
— Volta.
O segurança voltou alguns segundos.
— Aí.
Uma enfermeira passava diante da porta do quarto de Sofia.
Ela diminuiu o passo.
Olhou para a porta.
Ficou dois segundos observando.
Depois seguiu.
— Mais.
Avançaram.
Um médico.
Mesma coisa.
Diminuiu.
Olhou.
Seguiu.
Outra enfermeira.
Um paciente usando soro.
Um homem carregando documentos.
Uma funcionária da limpeza.
Todos.
Sempre diante da mesma porta.
Todos diminuíam o passo.
Todos olhavam.
— Por quê? — perguntou Daniel.
O segurança não respondeu.
Continuaram.
Então Daniel percebeu outro detalhe.
— Para.
A imagem congelou.
Uma mulher estava diante do quarto.
Cabeça levemente inclinada.
O canto da boca levantado.
Daniel aproximou-se da tela.
— Dá zoom.
A imagem perdeu qualidade.
Ainda assim dava para ver.
Ela estava sorrindo.
Pouco.
Nada exagerado.
Um sorriso discreto.
Quase satisfeito.
Avançaram para a próxima pessoa.
Mesmo sorriso.
Outra.
Mesmo.
Outra.
Mesma expressão.
Daniel sentiu um enjoo lento.
— Eles se conhecem?
— Não.
— Pergunta pra eles.
O segurança olhou para ele.
— Senhor...
— Pergunta.
Chamaram a primeira enfermeira.
Ela viu a gravação.
Não lembrava de ter parado.
Chamaram um médico.
Também não.
A funcionária da limpeza começou a rir de nervoso.
— Eu nem sabia quem estava nesse quarto.
Daniel voltou a olhar para a tela.
O relógio digital indicava 04:51.
Depois 04:52.
04:53.
04:54.
Durante quase quatro minutos, todas as pessoas que passaram diante do quarto fizeram a mesma coisa.
Reduziram o passo.
Olharam para dentro.
Sorriram.
Às 04:55, parou.
Como se nada tivesse acontecido.
Daniel sentiu o corpo inteiro esfriar.
— Que horas Sofia acordou?
O segurança não sabia.
Daniel sabia.
Pouco antes das cinco.
Quando voltou ao quarto, Marina estava em pé junto à janela.
Lucas sentado.
Sofia acordada.
Daniel entrou.
A menina olhou para ele.
— Eles olharam pra mim, não foi?
Daniel parou.
— Quem te contou?
— Ninguém.
Ele fechou a porta.
— Sofia...
— Eles não estavam olhando pra mim.
Daniel sentiu o estômago apertar.
— Então pra quê?
Sofia apontou para o espaço atrás dele.
Daniel não se virou.
A menina disse:
— Pra ele.
Daniel permaneceu imóvel.
Marina começou a chorar.
Não alto.
Só lágrimas.
Lucas olhava para o chão.
Então alguém bateu na porta.
Três vezes.
Daniel virou-se rapidamente.
Silêncio.
Mais duas batidas.
Abriu.
O corredor estava vazio.
Olhou para os lados.
Ninguém.
Quando voltou, Sofia estava olhando para ele.
— Não abre quando ele bate.
Daniel fechou a porta.
— Quem?
Sofia não respondeu.
No térreo do hospital, um homem entrou pela porta principal.
Chapéu escuro.
Cabelos brancos muito curtos.
Barba branca.
Passo firme.
Padre Gabriele.
Não parou na recepção principal.
Não perguntou pela família.
Não procurou informações sobre a casa.
Caminhou diretamente até os elevadores.
Quando chegou ao andar de Sofia, as portas se abriram.
Gabriele saiu.
Parou.
O corredor estava movimentado.
Mas havia algo errado.
Uma enfermeira que passava diante do quarto diminuiu.
Olhou para a porta.
Continuou.
Um homem com uma bandeja fez o mesmo.
Depois uma mulher empurrando uma cadeira de rodas.
Gabriele observou.
Não parecia surpreso.
Nem assustado.
Apenas confirmou alguma coisa que já suspeitava.
Continuou andando.
Quanto mais se aproximava do quarto, mais pessoas desviavam os olhos para a porta.
Nenhuma percebia.
Gabriele parou diante dela.
Do outro lado, Sofia começou a tremer.
Daniel segurou a filha.
— O que foi?
A menina olhou para a porta.
— Mudou.
— O quê?
— Aquilo.
Marina se aproximou.
— Sofia...
— Ficou quieto.
Silêncio.
Alguém bateu.
Uma vez.
Daniel não se moveu.
Sofia olhou para ele.
— Esse pode abrir.
Daniel franziu a testa.
— Como você sabe?
A menina continuou olhando para a porta.
— Porque o outro está com medo.
Daniel abriu.
Gabriele estava do lado de fora.
O padre olhou primeiro para ele.
Depois para Marina.
Lucas.
Por último, Sofia.
Seus olhos permaneceram nela por alguns segundos.
Então olharam para o canto vazio do quarto.
O mesmo canto que Sofia observava desde que acordara.
Gabriele entrou.
Fechou a porta.
A temperatura pareceu baixar.
Sofia permaneceu olhando para o mesmo ponto.
O padre também.
Daniel abriu a boca.
Gabriele levantou a mão.
Silêncio.
Ele observou o canto por alguns segundos.
Depois a parede.
Depois o teto.
Então olhou para Sofia.
— Há quanto tempo ele fala com você?
A menina respondeu quase num sussurro:
— Desde a casa.
Gabriele permaneceu sério.
— Não responda mais.
Silêncio.
Marina tentou falar.
— Padre, o que está acontecendo?
Gabriele não olhou para ela.
Continuou encarando o canto.
— Já começou.
E alguma coisa, no quarto, deixou de respirar.
CAPÍTULO 10
O Que Não Foi Aceito
Padre Gabriele entrou no quarto.
A coisa que perseguia Sofia sentiu sua presença imediatamente.
Não precisava vê-lo.
Não precisava ouvi-lo.
Aquilo que existia no quarto simplesmente reagiu.
O ar ficou pesado.
As paredes pareceram se fechar.
Sofia, que até então olhava para o canto escuro do quarto, desviou os olhos para Gabriele.
O padre ficou parado.
Observou o ambiente.
Depois fechou os olhos.
— Adveni.
Nada aconteceu por um segundo.
Então o ar do quarto parou completamente.
Não havia mais corrente.
Não havia ruído do corredor.
Nem mesmo o som do aparelho próximo à cama parecia normal.
Marina levou a mão ao peito.
Daniel começou a respirar com dificuldade.
Lucas recuou até a parede.
O quarto tremeu.
Primeiro de leve.
Depois com mais força.
Os objetos sobre uma pequena mesa começaram a vibrar.
Daniel olhou para Gabriele.
— O que está acontecendo?
O padre não respondeu.
Manteve os olhos fechados.
— Adveni!
Dessa vez a resposta veio.
Um gemido.
Baixo.
Comprido.
Não vinha de Sofia.
Não vinha do corredor.
Parecia estar preso dentro das paredes.
Marina olhou ao redor.
O gemido aumentou.
As paredes tremeram.
A luz piscou.
Daniel tentou se aproximar da filha.
Gabriele levantou uma das mãos.
— Não.
O homem parou.
O padre abriu os olhos.
Olhou para o canto do quarto.
O mesmo canto que Sofia observava desde que acordara.
Estava completamente escuro.
Gabriele puxou uma cadeira.
Arrastou-a até aquele ponto.
Colocou-a de frente para a cama.
Os pais observavam sem entender.
O padre não explicou.
Apenas voltou até Sofia.
Ela o encarava.
Gabriele retirou do bolso interno da batina um pequeno frasco de vidro.
Dentro havia um líquido preto.
Espesso.
Sem qualquer reflexo.
Marina olhou para o frasco.
— O que é isso?
Gabriele ignorou.
Abriu.
O cheiro se espalhou pelo quarto.
Ferro.
Terra úmida.
Alguma coisa queimada.
Sofia começou a respirar mais rápido.
Gabriele aproximou o frasco.
— Egredere et revela te.
O rosto da menina mudou.
Não como uma expressão.
Como se os músculos tivessem esquecido por alguns segundos como imitar um rosto humano.
A boca se contraiu.
Os olhos ficaram abertos demais.
A mandíbula se deslocou levemente.
Marina soltou um som curto.
Depois parou.
Seu corpo ficou rígido.
Não conseguia desviar os olhos.
Sofia virou lentamente o rosto para a cadeira.
Daniel acompanhou o movimento.
E viu.
Havia alguém sentado.
Um homem.
Magro.
As roupas pareciam ter sido usadas por meses.
A pele estava em decomposição.
Partes do rosto haviam escurecido.
Um dos olhos permanecia opaco.
O outro parecia fundo demais dentro da cavidade.
A boca estava parcialmente aberta.
A carne ao redor dos lábios havia se retraído.
Daniel levou a mão à boca.
Virou-se.
Vomitou no chão.
Marina ficou paralisada.
Lucas recuou.
Sofia continuava olhando.
O homem sentado na cadeira virou lentamente a cabeça.
O pescoço produziu um ruído seco.
Gabriele permaneceu entre ele e a família.
— Não olhem para ele.
Daniel respirava com dificuldade.
A criatura continuava sentada.
Gabriele a observou.
Sem medo.
Sem surpresa.
Somente reconhecimento.
— Aquilo já não é mais aceito em lugar nenhum.
Marina finalmente conseguiu falar.
— Quem é ele?
Gabriele não respondeu.
A coisa sentada mexeu os dedos.
As unhas estavam quebradas.
Sob elas havia terra.
O rosto começou a se contrair.
Como se tentasse chorar.
Nada saiu.
Então falou.
— Eu pedi ajuda.
A voz era a mesma.
A mesma que chamara Sofia.
A mesma que estivera na casa.
Daniel levantou o rosto.
— Você...
Gabriele virou levemente a cabeça.
— Não fale com ele.
Daniel se calou.
O homem sentado continuou.
— Eu pedi.
O olho ainda inteiro encontrou Sofia.
— Eu perdi tudo.
Gabriele respondeu:
— E aceitou qualquer coisa que respondesse.
O homem fechou a boca.
Por alguns segundos.
— Ele disse que era luz.
Gabriele permaneceu imóvel.
— E você acreditou.
A criatura pareceu respirar.
O peito afundou.
Depois subiu.
Mas não havia vida ali.
— Eu estava sozinho.
— É assim que começam.
A voz do homem ficou mais baixa.
— Ele me chamou de filho.
Gabriele aproximou-se um passo.
— E você chamou isso de salvação.
O homem sentou-se mais ereto.
A carne podre do pescoço se esticou.
— Ele me mostrou coisas.
— Não.
Gabriele o interrompeu.
— Mostrou aquilo que você queria ver.
Silêncio.
O homem ficou olhando para ele.
O padre continuou:
— Você não foi escolhido.
— Foi usado.
A criatura começou a tremer.
Não de medo.
De raiva.
— Ele me prometeu que eu nunca ficaria sozinho de novo.
Gabriele olhou para Sofia.
Depois para ele.
— E por isso procura crianças.
O homem virou o rosto para Sofia.
Seu sorriso apareceu devagar.
Pequeno.
Quase humano.
— Ela me ouviu.
Marina deu um passo na direção da filha.
Gabriele levantou a mão novamente.
Ela parou.
— Ela não ouviu você.
O padre olhou para a criatura.
— Ouviu aquilo que está preso em você.
O sorriso desapareceu.
Daniel enxugou a boca com a manga.
— Preso?
Gabriele ignorou.
O homem começou a respirar mais forte.
O quarto voltou a tremer.
— Ele não está preso.
Gabriele o encarou.
— Então chame.
A criatura ficou imóvel.
— Chame aquele que lhe prometeu luz.
Nada.
— Chame.
Silêncio.
O olho do homem se moveu.
Primeiro para a porta.
Depois para o teto.
Depois para Sofia.
Nada apareceu.
Gabriele se aproximou.
— Chame.
A coisa na cadeira começou a perder a expressão.
— Ele vem quando quer.
— Não.
Gabriele parou diante dela.
— Ele vem quando você ainda serve para alguma coisa.
A criatura ficou completamente quieta.
Por alguns segundos, o único som foi a respiração irregular de Daniel.
Gabriele continuou:
— E agora você não serve.
O homem olhou para as próprias mãos.
A carne dos dedos parecia afundar.
— Não.
— Olhe para você.
A criatura não se moveu.
— Você acreditou que tinha feito um pacto.
Gabriele falou sem alterar o tom.
— Mas pacto exige valor dos dois lados.
O homem ergueu lentamente o rosto.
— Você não tinha nada que ele quisesse.
O quarto ficou ainda mais pesado.
— Então por que...
A voz falhou.
— Por que ele respondeu?
Gabriele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Porque estava com fome.
Marina fechou os olhos.
Sofia continuava olhando para a cadeira.
O homem pareceu não compreender.
Gabriele continuou:
— Dor.
— Culpa.
— Desespero.
— Ódio.
— Tudo aquilo que restou de você depois que perdeu sua família.
O padre observou o estado do corpo.
— Você não foi salvo.
— Foi consumido.
O homem começou a chorar.
Ou tentou.
Nenhuma lágrima saiu.
— Eu ainda estou aqui.
Gabriele respondeu:
— Isso é o que sobrou.
A criatura abriu a boca.
Um ruído saiu dela.
Não exatamente um grito.
Mais próximo de uma tentativa de respirar com pulmões que já não funcionavam.
Sofia se encolheu.
Marina finalmente conseguiu chegar até a cama.
Segurou a filha.
Gabriele não impediu.
O homem na cadeira olhou para Sofia.
— Filha...
Gabriele respondeu:
— Ela não é sua filha.
A criatura virou para ele.
— Cala a boca.
— Ela morreu.
O homem ficou imóvel.
— Cala a boca.
— Sua mulher morreu.
O quarto começou a tremer novamente.
— Cala a boca.
— Seu filho morreu.
O homem levantou-se da cadeira.
Daniel recuou.
Gabriele não.
— E aquilo que falou com você sabia disso.
A criatura começou a grunhir.
— Cala a boca!
Gabriele permaneceu diante dela.
— Foi por isso que escolheu você.
O homem avançou.
Parou a centímetros do padre.
Não conseguiu chegar mais perto.
Como se alguma coisa existisse entre os dois.
Gabriele olhou diretamente para seu rosto apodrecido.
— Porque um homem destruído aceita qualquer Deus que lhe prometa devolver sentido.
O grunhido cessou.
A criatura ficou olhando.
O padre abriu novamente o frasco preto.
O homem recuou.
Pela primeira vez.
Gabriele percebeu.
— Então conhece isso.
O rosto da criatura mudou.
Medo.
Não humano.
Mais antigo.
Gabriele inclinou o frasco.
Uma única gota caiu no chão.
A criatura soltou um grito.
A cadeira atrás dela arrastou sozinha.
As luzes se apagaram.
Marina apertou Sofia contra o corpo.
Lucas gritou.
Daniel ficou imóvel.
No escuro, a voz de Gabriele veio firme:
— Redi ad vinculum tuum.
O grito aumentou.
Depois parou.
As luzes voltaram.
A cadeira estava vazia.
Nenhuma criatura.
Nenhum homem.
Nada.
Sofia começou a respirar normalmente.
O rosto voltou ao normal.
O quarto parou de tremer.
Marina não soltou a filha.
Daniel ficou olhando para a cadeira.
Gabriele fechou o frasco.
Guardou.
— Ele foi embora?
O padre olhou para Daniel.
— Não.
A resposta destruiu qualquer alívio.
Gabriele virou-se para a porta.
— Apenas deixou este quarto.
Daniel ficou pálido.
— Então onde ele está?
Gabriele abriu a porta.
Parou.
Olhou para o corredor.
Vazio.
Depois respondeu:
— Procurando alguém mais fraco.
CAPÍTULO 11
O Pacto
A presença deixou o quarto.
O silêncio voltou aos poucos.
Sofia permanecia deitada na cama. Marina ainda a segurava. Daniel continuava olhando para a cadeira vazia no canto, como se esperasse que aquilo surgisse novamente a qualquer instante.
Padre Gabriele fechou o pequeno frasco de líquido preto.
Colocou-o sobre a mesa ao lado da cama.
Daniel olhou para o objeto.
— Para que isso?
Gabriele já caminhava em direção à porta.
— Apenas deixe próximo da sua família.
— Mas o que tem aqui dentro?
Gabriele abriu a porta.
Não respondeu.
Saiu.
Daniel ficou olhando para o frasco.
O líquido permanecia completamente imóvel.
Mesmo quando a mesa tremia levemente sob o peso dos equipamentos hospitalares.
Gabriele caminhou sozinho pelo corredor.
Passou por enfermeiros, acompanhantes e pacientes.
Ninguém o chamou.
Ninguém parecia perceber que alguma coisa havia acabado de acontecer poucos metros dali.
Ele continuou.
Então as luzes piscaram.
Uma vez.
Duas.
Na terceira, o corredor ficou escuro por alguns segundos.
Quando a iluminação voltou, Gabriele parou.
Olhou para a esquerda.
Outro corredor se estendia até uma ala mais antiga do hospital.
Poucas pessoas circulavam por ali.
No meio dele havia um banco.
Uma mulher estava sentada.
Sozinha.
As mãos repousavam sobre o colo.
A cabeça permanecia voltada para um quarto do outro lado do corredor.
Gabriele a reconheceu.
Não demonstrou surpresa.
Apenas mudou de direção.
Caminhou até ela.
Sentou-se ao seu lado.
A mulher não olhou para ele.
Continuou encarando a porta do quarto à frente.
Gabriele também olhou.
Atrás daquela porta, alguma coisa batia lentamente.
Três pancadas.
Silêncio.
Mais três.
Nenhuma enfermeira pareceu ouvir.
Gabriele permaneceu sentado.
— Ele veio para cá, então?
A mulher virou lentamente o rosto.
Os olhos eram fundos.
Escuros.
Humanos o bastante para incomodar.
— Eles estão com fome, padre.
Gabriele voltou a olhar para a porta.
— E você os atrapalha.
As batidas cessaram.
— Aqui não é o lugar deles.
A mulher permaneceu olhando para ele.
— E por isso continua me chamando para levá-los de volta?
Gabriele não hesitou.
— Temos um pacto.
A mulher sorriu.
Os lábios se afastaram demais.
O sorriso atravessou o rosto em uma forma que nenhuma musculatura humana deveria conseguir produzir.
A pele nos cantos da boca se dobrou.
Os dentes eram irregulares, escuros, comprimidos uns contra os outros.
O rosto continuava quase humano.
O sorriso não.
Qualquer pessoa que olhasse por tempo suficiente sentiria o estômago se contrair.
Gabriele apenas a encarou.
— Você continua feia.
O sorriso permaneceu.
Gabriele levantou.
Ajeitou a batina.
Olhou novamente para a porta do quarto.
— Ele é todo seu.
A mulher acompanhou Gabriele com os olhos.
Ele começou a se afastar.
— Padre.
Gabriele parou.
Não se virou imediatamente.
A mulher já não sorria.
— Seus dias estão chegando.
Silêncio.
Gabriele virou apenas o rosto.
Olhou para ela.
Não respondeu.
Continuou andando.
Atrás dele, a porta que a mulher observava começou lentamente a se abrir.
Gabriele não olhou para trás.
CAPÍTULO 12
A Noite em que Lara Sumiu
Lara dormia.
O quarto estava quase completamente escuro.
Uma pequena luminária permanecia acesa sobre uma mesa próxima à parede.
Seu braço esquerdo ainda estava envolvido por faixas.
Kain estava sentado ao lado da cama.
Não dormia.
Desde o subterrâneo, havia começado a prestar atenção demais nas coisas.
Nas sombras.
Nos ruídos.
Nos espaços vazios entre os móveis.
Principalmente em Lara.
Ela respirava normalmente.
Até parar.
Kain levantou os olhos.
Esperou.
Cinco segundos.
Dez.
— Lara?
Nada.
Ele se levantou.
Então ela inspirou violentamente.
O corpo inteiro se contraiu sobre a cama.
Os dedos da mão direita fecharam o lençol.
Os olhos permaneceram fechados.
Kain aproximou-se.
— Lara.
Ela não respondeu.
Lara estava de pé.
Não sabia onde.
O chão era frio.
As paredes não existiam.
Havia apenas uma extensão cinzenta que desaparecia numa escuridão sem horizonte.
Ela olhou para o próprio braço esquerdo.
Estava inteiro.
Sem ferimento.
Sem cicatriz.
Continuou andando.
Logo percebeu pessoas ao redor.
Mortos.
Centenas.
Talvez milhares.
Todos aqueles que durante anos haviam aparecido para ela.
Alguns reconhecia.
Outros não.
Homens.
Mulheres.
Crianças.
Idosos.
Nenhum olhava para Lara.
Todos estavam virados na mesma direção.
Ela seguiu o olhar deles.
Ao longe havia uma porta.
Nada além dela.
Lara tentou falar.
Nenhum som saiu.
Um dos mortos virou o rosto.
Depois outro.
Depois todos.
Lara parou.
Não tinham olhos.
As órbitas estavam vazias.
Mesmo assim, todos pareciam olhar diretamente para ela.
Uma mulher deu um passo.
Lara a reconheceu.
Era alguém que havia morrido anos antes.
A mulher abriu a boca.
A voz que saiu não era dela.
Era a de Lara.
— Você não deveria ouvir os mortos.
Outro cadáver abriu a boca.
A mesma voz.
— Eles também escutam você.
Outro.
— Toda vez que você chamou alguém...
Outro.
— alguma coisa respondeu antes.
Lara tentou recuar.
O espaço atrás dela havia desaparecido.
Os mortos começaram a se aproximar.
Não corriam.
Não ameaçavam.
Apenas caminhavam.
Todos falando com sua voz.
— Você nunca esteve falando sozinha.
— Nós nunca estivemos sozinhos.
— Ele ouviu desde o começo.
Lara tentou gritar.
Nada.
A multidão parou.
Todos viraram a cabeça ao mesmo tempo.
Para trás dela.
Lara sentiu alguma coisa muito perto.
Não quis olhar.
Uma voz surgiu junto ao seu ouvido.
Baixa.
— Finalmente.
Lara se virou.
Não havia rosto.
Apenas uma forma alta.
Muito fina.
Coberta por algo que parecia tecido molhado.
Onde deveria existir a cabeça, havia apenas uma superfície escura.
Sem olhos.
Sem boca.
Mesmo assim, Lara sabia que aquilo a observava.
Os mortos começaram a se ajoelhar.
Todos.
Ao mesmo tempo.
Lara permaneceu em pé.
A figura ergueu uma das mãos.
Os dedos eram longos.
Compridos demais.
Tocou o rosto dela.
Lara conseguiu finalmente produzir um som.
Um grito.
Na cama, Lara começou a gritar.
Kain segurou seus ombros.
— Lara!
O corpo dela se arqueou.
Os pés começaram a deslizar sobre o colchão.
Kain parou.
Não era Lara se movendo.
Alguma coisa a puxava.
O corpo avançou alguns centímetros em direção à cabeceira.
Depois mais.
Kain agarrou suas pernas.
— Lara!
Ela continuava dormindo.
As unhas riscavam o colchão.
O quarto ficou frio.
A luminária apagou.
Kain puxou Lara com toda a força.
Ela parou por um instante.
Então alguma coisa puxou de volta.
Muito mais forte.
Kain quase caiu sobre a cama.
— NÃO!
A porta do quarto se abriu sozinha.
Do outro lado não estava o corredor da igreja.
Havia apenas escuridão.
Kain congelou.
Aquilo não fazia sentido.
Ele conhecia aquele corredor.
Deveria existir uma parede.
Uma janela.
Luz.
Não havia nada.
Somente uma passagem negra.
Lara começou a deslizar novamente.
Kain segurou seu braço direito.
— ACORDA!
Os olhos dela se abriram.
Por um segundo.
Não olharam para Kain.
Olharam para alguma coisa atrás dele.
Lara começou a chorar.
— Não deixa ele me levar.
Kain virou.
Não viu nada.
Quando voltou para ela, uma marca escura apareceu ao redor do tornozelo de Lara.
Como dedos apertando sua pele.
Depois outra marca.
Mais acima.
Kain puxou.
— NÃO!
O quarto começou a mudar.
As paredes pareciam mais distantes.
Os cantos desapareceram.
A cama parecia isolada em algum lugar maior.
Kain sentiu uma presença.
Não como a criatura do subterrâneo.
Não como o impregnado da igreja.
Aquilo era diferente.
Não produzia medo imediatamente.
Produzia ausência.
Por alguns segundos, Kain esqueceu por que estava segurando Lara.
Esqueceu onde estava.
Esqueceu o próprio nome.
Soltou uma das mãos.
Lara gritou:
— KAIN!
Ele voltou.
Agarrou-a novamente.
Então enxergou.
No fundo da escuridão aberta pela porta havia uma silhueta.
Alta.
Imóvel.
A cabeça quase tocava o teto.
Os braços desciam muito abaixo do que deveriam.
A forma não parecia caminhar.
Mesmo assim, aproximava-se.
Kain tentou focar.
Sua marca começou a queimar sob a língua.
Uma dor aguda atravessou sua cabeça.
A visão falhou.
Piscou.
A silhueta estava mais perto.
Piscou novamente.
Mais perto.
Kain gritou.
A luz desapareceu dos olhos.
Não escureceu como um quarto sem iluminação.
Sua visão simplesmente deixou de existir.
Branco.
Depois nada.
— Lara!
Sentiu alguma coisa passar por ele.
Fria.
Sem tocar sua pele.
Lara gritou uma última vez.
Kain sentiu os dedos dela escaparem dos seus.
Tentou agarrá-la.
Pegou apenas o lençol.
— LARA!
Nada.
O quarto ficou silencioso.
Kain se arrastou pela cama, completamente cego.
Tocou o colchão.
Vazio.
— Lara!
Procurou no chão.
Nada.
Bateu no móvel.
Caiu.
Levantou novamente.
— LARA!
Sua visão começou a voltar em pequenos pontos.
Primeiro luz.
Depois formas.
Depois o quarto.
A porta estava aberta.
O corredor havia voltado ao normal.
Kain correu até lá.
Vazio.
Olhou para os dois lados.
Ninguém.
Voltou para o quarto.
A cama de Lara estava vazia.
As faixas que cobriam o braço esquerdo permaneciam sobre o colchão.
Ainda fechadas.
Como se o corpo simplesmente tivesse desaparecido de dentro delas.
Kain ficou parado.
Então percebeu algo no chão.
Uma pequena marca escura.
Comprida.
Parecia ter sido feita por um pé molhado.
Depois outra.
Seguiam até a porta.
Kain acompanhou.
As marcas terminaram no corredor.
No meio do nada.
Padre Gabriele chegou poucos minutos depois.
Encontrou Kain sentado no chão.
O menino não falou.
Apenas apontou para a cama vazia.
Gabriele observou.
As faixas.
As marcas.
A porta.
Depois Kain.
Não perguntou o que havia acontecido.
Já sabia o suficiente.
Lara Malachi desapareceu naquela noite.
Não houve testemunhas além de Kain.
Não havia janela aberta.
Nenhuma porta externa havia sido violada.
Nenhuma câmera registrou alguém saindo.
Não encontraram sangue.
Não encontraram corpo.
Não encontraram roupas.
Apenas as faixas sobre a cama.
E durante muito tempo, Kain tentou explicar aquilo de todas as formas possíveis.
Nenhuma funcionou.
A única imagem permaneceu.
A silhueta.
Alta.
Imóvel.
Levando Lara para algum lugar que seus olhos não conseguiram acompanhar.
DEZ ANOS DEPOIS
Kain se encontra andando em um beco
Tinha vinte anos.
Durante dez anos, ele nunca mais conseguiria dormir no escuro.
CAPÍTULO 13
Os Que Conhecem Seu Nome
Kain caminhava por um beco estreito, seguindo em direção a uma porta no final.
Um homem permanecia sentado ao lado da entrada, como se estivesse esperando por ele.
Quando Kain se aproximou, o guarda ergueu os olhos.
— Bem-vindo de volta, Kain.
Abriu a porta.
Kain apenas acenou e entrou.
Continuou pelo corredor até encontrar as escadas.
Desceu.
No final delas, havia um homem velho, de barba grande, sentado atrás de uma mesa.
À sua frente, vários quartos pequenos, separados por vidros grossos.
Dentro deles estavam homens e mulheres.
Ou o que havia restado deles.
Alguns gemiam.
Outros gritavam.
Alguns permaneciam imóveis, apenas encarando.
Um deles mordia os próprios dedos.
Outro arranhava a parede.
Quando Kain apareceu, todos pararam.
O silêncio tomou o lugar.
O velho olhou para eles.
Depois para Kain.
Riu.
— Ainda não sei se eles o temem ou querem te devorar, Kain.
Kain olhou para as criaturas.
Seu rosto permaneceu sério.
— Talvez as duas coisas. O medo é só a fome que aprendeu a esperar.
O velho parou de rir por um instante.
Kain puxou uma cadeira.
O velho voltou para sua mesa.
— O que te traz até aqui, Kain?
Kain suspirou.
— Preciso selar esta marca.
Ele mostrou a marca.
As criaturas imediatamente reagiram.
Todas ao mesmo tempo.
Começaram a bater as cabeças contra os vidros.
Uma.
Duas.
Três vezes.
Cada vez com mais força.
O velho se levantou assustado.
Depois riu.
— Eu nunca me acostumo quando fazem isso ao verem a marca.
Kain escondeu a marca.
As criaturas pararam.
Uma delas começou a falar.
— Kain...
A voz era baixa e rouca.
— Kain...
Mais uma vez.
— K.a.i.n...
A voz começou a mudar.
Pouco a pouco.
Até assumir outra voz.
Uma voz que Kain conhecia.
A voz de Gabriele.
Kain virou lentamente.
Uma mulher estava sentada dentro de uma das celas.
De costas.
O rosto voltado para a parede.
Kain levantou-se.
Foi até o vidro.
A mulher falou:
— Quanto tempo, Kain.
Silêncio.
— Você cresceu.
Kain permaneceu diante do vidro.
— Mostre seu rosto, criatura.
A voz aumentou.
Agora era completamente igual à de Gabriele.
— Sente minha falta, filho?
Kain ficou imóvel.
— Como está Lara?
Os olhos de Kain se arregalaram.
A mulher continuou:
— Ainda não a achou?
Silêncio.
— Dez anos se passaram.
Uma risada baixa escapou de sua garganta.
— Como imagina que ela está?
Kain virou-se para o velho.
— Abra a porta.
O velho arregalou os olhos.
— Está louco?
Kain continuou olhando para ele.
— Abra.
— Ela mataria nós dois em um piscar de olhos.
A mulher se levantou.
Continuou de costas.
A voz de Gabriele desapareceu lentamente.
Outra voz surgiu.
Mais profunda.
Mais antiga.
— Estamos nos divertindo com ela, Kain.
Kain ficou imóvel.
— Nunca experimentamos uma alma tão pura.
A voz riu.
— Hmm...
O rosto de Kain mudou.
O velho percebeu.
— Kain...
— Abra a porta.
Dessa vez sua voz era completamente diferente.
Fria.
Sem qualquer hesitação.
— Agora.
O velho recuou.
— Se você quer morrer, Kain, beleza. Mas eu não.
Jogou a chave no chão, aos pés dele, e correu para dentro da própria sala.
Trancou a porta.
Kain pegou a chave.
Abriu a cela.
Entrou.
As outras criaturas começaram novamente a bater as cabeças contra os vidros.
Dessa vez com uma força maior.
O som se espalhou pelo subterrâneo.
Kain caminhou até a mulher.
Quanto mais se aproximava, mais as criaturas se agitavam.
O vidro começou a receber impactos violentos.
Algumas começaram a sangrar.
Kain parou diante dela.
A mulher virou-se.
O rosto estava completamente desfigurado.
Não havia mais características suficientes para reconhecer quem ela havia sido.
Kain não demonstrou medo.
— Onde está Lara?
A criatura começou a rir.
— Quem é Lara?
Kain puxou a faca.
O movimento foi rápido.
A lâmina atravessou o pescoço da criatura.
Ela caiu.
Kain continuou.
Golpe após golpe.
O sangue atingiu o chão.
As criaturas enlouqueceram.
Começaram a se lançar contra os vidros.
O som dos impactos aumentou.
Rachaduras começaram a surgir.
Kain continuou golpeando até que o pescoço da criatura não sustentasse mais a cabeça.
Quando finalmente parou, ficou de pé.
Respirou.
Olhou para trás.
As criaturas continuavam se debatendo contra os vidros.
Gritavam.
Batiam.
Rasgavam a própria pele.
Kain ergueu os olhos.
— Silêncio.
Todas pararam no mesmo instante.
O subterrâneo ficou completamente mudo.
Dentro da sala, o velho observava tudo pelas câmeras.
Seu rosto havia perdido a cor.
— Que porra é essa?
Kain saiu da cela.
Estava coberto de sangue.
Caminhou até a porta da sala do velho.
— Pode sair.
O velho abriu lentamente.
Ainda assustado.
Kain olhou diretamente para ele.
— Pode ou não selar a marca, velho?
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CAPÍTULO 14
A Fome
3 dias antes, a Igreja de São Judas estava quase vazia.
O relógio marcava oito e quarenta da noite de uma terça-feira sem importância. Nas fileiras de bancos de madeira gasta, apenas oito ou nove fiéis se espalhavam, cabeças baixas, joelhos doloridos, buscando algum conforto no fim de mais um dia miserável.
O Padre Matias levantou-se lentamente de sua cadeira. A batina preta arrastava no chão enquanto ele caminhava até o altar. Ajeitou o microfone com um ruído áspero de estática. Seu rosto estava endurecido, os olhos cravados no fundo da igreja, como se estivesse farto de pregar para o vazio.
Apoiou as mãos trémulas nas bordas do púlpito e começou, a voz ecoando pelas colunas de pedra:
— Segunda Epístola aos Tessalonicenses. Capítulo dois. Versículos três e quatro...
O silêncio engoliu as suas palavras por um momento.
— Ninguém, de modo algum, vos engane. Porque isto não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia e seja revelado o homem do pecado... o filho da perdição.
As pesadas portas de madeira maciça da entrada principal rangeram.
Um gemido arrastado, longo e agudo, vazou pelo vão que se abria. Alguns dos fiéis, mulheres de meia-idade e dois homens mais velhos, viraram a cabeça.
Matias não parou. Ele ergueu um pouco o tom de voz.
— O qual se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus ou é objeto de culto! A ponto de assentar-se no santuário de Deus...
A porta escancarou-se de vez.
Uma garotinha entrou. Ela não devia ter mais de oito anos, mas havia algo profundamente errado com o seu tamanho, com a forma como os seus ossos se moviam. A pele era de um tom cinza adoentado, quase translúcida, como carne que estivesse submersa em água gelada durante dias. O vestido branco estava ensopado num vermelho escuro e espesso, que pingava no piso antigo a cada passo que dava.
Ela mancava. Arrastava a perna direita num ângulo quebrado, o som do osso a raspar contra o chão marcando o ritmo da sua caminhada bizarra pelo corredor central.
— ...apresentando-se como se fosse o próprio Deus — concluiu o padre, a voz agora a falhar, os olhos cravados na criança que avançava.
A menina soltou um grunhido gutural. Um som molhado. Depois, ergueu o rosto. Os olhos estavam baços, leitosos.
— Bela passagem, padre — disse ela. A voz soou distorcida, como se duas pessoas falassem ao mesmo tempo dentro daquela garganta pequena.
O arrastar da perna dela soou mais alto. *Schrrk. Schrrk.*
Os fiéis já se tinham levantado dos bancos, murmurando entre si, confusos e apavorados.
— Meu Deus, a menina está ferida! — gritou Dona Helena, uma das senhoras da primeira fila.
O padre estava petrificado no altar, os lábios a tremerem sem produzir som algum.
Helena correu em direção à criança.
— Querida, onde estão os teus pais? O que te aconteceu, meu anjo? — perguntou, baixando-se para a tentar tocar.
A menina parou.
Olhou para a mulher com o rosto inexpressivo. E então, abriu a boca num ângulo impossível.
Não foi um ataque humano. A criança atirou-se com a força de um cão raivoso. Os dentes rasgaram o pescoço de Helena antes que ela pudesse sequer gritar. Um som de carne a ser dilacerada encheu a igreja. A menina puxou a cabeça para trás, rasgando as veias, a pele e a traqueia. O sangue jorrou como uma mangueira rompida, sujando o rosto pálido da criança e os bancos de madeira.
Helena caiu para trás, afogando-se no próprio sangue, os olhos revirados.
A garotinha cuspiu o pedaço de carne e músculo no chão.
O caos explodiu.
Os fiéis começaram a berrar.
Matias, em choque, recuou do altar. Tropeçou no próprio manto e caiu de costas, arrastando-se pelo chão polido, tentando afastar-se desesperadamente.
— Fujam! — gritou um dos homens. — Para as portas!
As oito pessoas correram em pânico em direção à saída principal e às laterais.
Mas, com um estrondo ensurdecedor, as portas pesadas de madeira bateram com tanta força que o som ecoou como um tiro de canhão. A igreja estremeceu. As fechaduras trancaram-se sozinhas.
Homens e mulheres esmurravam a madeira, chorando, uivando, partindo as unhas contra o carvalho antigo.
— Abram esta merda! Porra, ajudem-nos! — berrava um homem, esmurrando a porta até sangrar.
Não adiantava nada.
A menina ignorou os gritos. O sangue de Helena escorria-lhe pelo queixo. Ela olhou para Matias, que tentava enfiar-se atrás da mesa do altar, a tremer dos pés à cabeça, o crucifixo a balançar violentamente no peito.
— O fim está próximo, padre — disse ela. O sorriso que abriu era grotesco. — As tuas rezas, as tuas passagens... a tua porra de súplica. As tuas crenças fedem de longe. E não vão adiantar um caralho agora.
Matias começou a balbuciar o Pai Nosso, chorando, incapaz de tirar os olhos dela.
— Aquele filho da puta que nos atormentava... aquele que fedia ainda mais do que tu, desapareceu — continuou a menina, arrastando-se mais um passo. — E agora... caralho, estamos com tanta fome.
Ela virou o rosto para as pessoas encurraladas lá atrás, que paralisaram, emudecidas pelo terror primitivo.
A menina levantou um braço pálido.
— Saiam, irmãos.
O ar dentro da igreja tornou-se insuportavelmente frio.
Das sombras sob os confessionários, dos cantos escuros perto do batistério e detrás das colunas, eles começaram a rastejar.
Não eram pessoas. Já não o eram.
Uma horda de criaturas desfiguradas, fedendo a abatedouro, começaram a mancar em direção à luz. A carne pendia-lhes dos ossos. Alguns não tinham lábios. Outros arrastavam tripas escuras. Os olhos vazios cravavam-se nas pessoas ainda vivas. Eram impregnações que já tinham apodrecido os seus hospedeiros, transformando-os em cascas vorazes.
Os gritos recomeçaram, agora mais estridentes, puros sons de desespero animal.
Matias viu a horda. A sanidade que lhe restava quebrou-se. Ele levantou-se num salto, virando costas ao rebanho, pronto para correr em direção à sacristia.
Mas não deu mais que um passo.
Bateu de frente contra algo sólido. Um cheiro a enxofre e putrefação invadiu-lhe as narinas.
Matias olhou lentamente para cima.
Uma criatura enorme, com os braços desproporcionalmente longos e o rosto reduzido a uma bocarra de dentes enegrecidos, erguia-se atrás do altar.
O padre soltou um último guincho.
A criatura abriu a boca e fechou as mandíbulas sobre a cabeça de Matias com a força de um esmagador de ossos. Crrrac.
O corpo do padre ficou rígido por um segundo antes de a criatura lhe arrancar a cabeça num puxão violento. A espinha dorsal partiu-se. O corpo decapitado despencou sobre os degraus do altar, uma fonte de sangue a jorrar sobre a toalha branca.
Ao verem o líder decapitado, o frenesim tomou conta das criaturas na nave da igreja.
Elas correram em direção às pessoas presas nas portas.
O massacre começou. Eram apenas gritos, ossos a quebrar e o som ensurdecedor da carne a ser devorada dentro da casa de Deus.
CAPÍTULO 15
O Silêncio das Moscas
O cheiro chegou a Kain três quarteirões antes de ele ver a torre da Igreja de São Judas.
Não era apenas o cheiro de morte. O sangue humano, quando exposto em grande quantidade, ganha um odor doce, denso e acobreado. Mas havia outra coisa misturada àquilo. Um fedor antigo de enxofre e esgoto que grudava no fundo da garganta, fazendo o estômago revirar instintivamente.
Kain desligou o motor da moto e deixou o silêncio da madrugada tomar conta da rua deserta. A chuva fina caía como agulhas geladas, mas não era suficiente para lavar o ar.
Caminhou até as pesadas portas de carvalho. Estavam fechadas. Não trancadas com chave, mas presas por dentro, como se uma força colossal as mantivesse unidas. Kain encostou a mão na madeira. A superfície estava gelada, mas a marca sob a sua língua formigou, enviando uma fisgada aguda até a base do crânio.
Havia muita coisa lá dentro. Ou, pelo menos, havia estado.
Kain puxou a faca do coldre na cintura, a mesma lâmina grossa que usara no subterrâneo. Inseriu a ponta na fresta entre as portas e forçou a fechadura envelhecida. A madeira estalou, cedendo com um gemido longo.
A porta abriu apenas o suficiente para ele passar de lado.
A escuridão no interior era quase absoluta, cortada apenas pelos feixes pálidos de luz da rua que atravessavam os vitrais sujos. Kain deu o primeiro passo.
O som do seu coturno contra o piso de pedra soou errado.
Pegajoso.
Ele acendeu uma pequena lanterna tática. O facho de luz branca varreu o chão.
O piso não era mais cinza. Era um lago espesso e coagulado de vermelho escuro. O sangue não havia apenas escorrido; fora espalhado, arrastado e pisoteado. Kain levantou o facho de luz devagar, iluminando as fileiras de bancos.
— Que porra é essa... — murmurou, a voz áspera, contida.
A igreja havia sido transformada num abatedouro. Pedaços de roupas, bolsas rasgadas e sapatos estavam misturados a fragmentos de carne e osso. O braço de uma mulher pendia do encosto de um banco, os dedos rígidos apontando para o chão. Mais à frente, um torso humano fora aberto ao meio, as costelas expostas como asas quebradas.
O silêncio ali dentro era ensurdecedor. Não havia grunhidos. Não havia passos. Havia apenas o zumbido baixo, persistente e nauseante de centenas de moscas que já começavam a banquetear-se nas poças coaguladas.
Kain avançou pelo corredor central. A faca firme na mão direita, a lanterna na esquerda. O ar era tão pesado que respirar exigia esforço.
Ele iluminou o altar.
O corpo decapitado do Padre Matias continuava jogado sobre os degraus. O sangue havia ensopado a toalha branca e escorrido até o tapete, secando numa mancha negra. A cabeça não estava em lugar nenhum.
Kain não sentiu pena. Sentiu raiva. Uma raiva fria e calculada que o mantinha vivo havia dez anos. O descuido daquelas criaturas, a carnificina desenfreada... eles estavam a ficar ousados, famintos demais para se esconderem nas sombras.
De repente, o zumbido das moscas pareceu diminuir.
Kain parou. A respiração congelou nos pulmões.
No fundo da igreja, próximo aos confessionários mergulhados em breu, um som rompeu o silêncio.
Schrrk. Schrrk.
Carne sendo arrastada. Tecido roçando no piso molhado.
Kain não moveu a lanterna imediatamente. Deixou a luz apontada para o chão, usando apenas a visão periférica. A escuridão nos cantos da igreja brincava com os olhos, criando sombras onde não havia nada, mas o som era real.
Schrrk.
Veio do lado esquerdo. Perto da pia batismal.
Ele girou o pulso e o facho de luz cortou as sombras.
Agachada no chão, de costas para ele, estava uma figura pequena. O vestido branco estava tão saturado de sangue que parecia feito de couro molhado. A perna direita estava esticada num ângulo grotesco, deslocada ou quebrada.
Ela estava comendo. O som de mastigação era úmido e ritmado.
Kain não recuou. O polegar apertou o cabo da faca.
— Já comeram a porra da congregação inteira. Não sobrou nada pra você aí no chão — disse Kain. Sua voz cortou a igreja como vidro partido.
A mastigação parou.
A garotinha não se levantou. Lentamente, a cabeça dela começou a virar. Mas os ombros não acompanharam o movimento. O pescoço estalou, uma, duas vezes, rodando num ângulo impossível até que o rosto pálido e manchado de vísceras ficasse virado para trás.
Os olhos leitosos encararam a luz da lanterna sem piscar. A boca rasgou-se num sorriso que expôs dentes sujos de pedaços de carne.
— O portador da marca — a voz dela ecoou, dupla, arranhando a garganta. — Cheiramos você desde que pisou na rua. A sua carne tresanda àquele padre maldito.
Kain deu um passo em direção a ela. O som pegajoso da sola do coturno pareceu alto demais.
— Aonde foram as outras? — exigiu ele. — Não fizeram essa carnificina sozinhos pra irem embora dormir.
A menina começou a rir. O corpo pequeno balançava, mas o rosto continuava fixo nele. O riso era oco, sem alegria, puro escárnio.
— Nós não dormimos, Filho de Set. Nós procuramos. E quando encontramos, nós festejamos.
Ela piscou, e quando abriu os olhos, algo neles mudou. O leitoso da possessão recuou por uma fração de segundo, dando lugar a uma íris humana, apavorada. A voz que saiu de seguida não era demoníaca nem gutural. Era limpa. Clara. Familiar.
— Kain...
O estômago de Kain afundou. Era a voz de Lara.
— Está escuro aqui, Kain. Dói tanto... Por que você soltou a minha mão?
A faca tremeu milímetros na mão de Kain. O terror daquela noite, a escuridão do quarto, a forma monstruosa levando Lara pelo corredor negro. A memória atingiu-o como um soco no peito. O peito dele subiu e desceu rápido.
A garota sorriu, deliciando-se com a hesitação dele. A voz dupla voltou, sádica.
— Saboreamos cada grito dela, garoto. O desespero dela alimenta legiões.
A marca sob a língua de Kain queimou como brasa viva. A fisgada de dor na cabeça foi instantânea, mas, em vez de o paralisar, reacendeu o ódio. A hesitação desapareceu, engolida por uma fúria gélida. Ele já tinha visto aquele truque na cela de vidro. Já não era um menino no escuro.
— Vocês são todos iguais — disse Kain. A voz saiu num rosnado baixo. — Repetem as mesmas merdas pra ver se eu fraquejo.
Kain avançou rápido. Passos firmes. Letais.
A expressão da menina mudou. A diversão sádica deu lugar a um instinto de defesa. Ela tentou recuar, arrastando a perna quebrada e rosnando, abrindo a boca num rasgo colossal que ia de orelha a orelha, pronta para saltar.
— Você vai engolir essa voz pra sempre — sussurrou Kain, erguendo a lâmina.
A menina tentou agarrá-lo com as mãos ensanguentadas, mas Kain esquivou-se por baixo do braço longo, girou o corpo e enfiou a faca profundamente na lateral das costelas da coisa, rasgando o músculo para cima em direção ao pulmão.
A menina soltou um grito ensurdecedor que fez o reboco do teto cair.
Kain torceu a lâmina lá dentro, puxou-a de volta e chutou a articulação do joelho da menina. O osso estalou para trás. A menina desabou no chão, debatendo-se.
Kain pisou no peito dela, prensando-a contra o chão. A faca erguida, pingando.
— Vou perguntar só mais uma vez — disse Kain, a respiração calma, ignorando o choro idêntico ao de Lara que a menina continuava a reproduzir para o tentar desestabilizar. — Onde está o resto da tua laia? Para quem o Nefarius trabalha?
A menina parou de chorar. A boca vertical abriu-se num sorriso torto e desdentado.
A voz mudou. Voltou a ser o murmúrio gutural do prédio.
— Debaixo da igreja. Onde o rebanho foi abatido esta noite.
Kain franziu a testa. Igreja?
— Qual delas?
A menina começou a rir. O som era grotesco, gorgolejante.
— A cruz já caiu, menino. O homem do pecado já se sentou. O sangue dos porcos lavou o altar de São Judas.
São Judas.
Kain cravou a faca na garganta da menina, calando-a de vez. O corpo debateu-se por mais dois segundos e amoleceu.
Ele arrancou a lâmina. O corredor lá fora subitamente mudou. O ar pareceu descomprimir. O peso do ambiente desapareceu.
Kain foi até à porta e iluminou a parede do corredor. A placa torta agora mostrava "301". O atalho tinha sido quebrado com a morte da âncora.
Ele limpou a faca, guardou-a e virou costas para o cadáver. Tinha que sair dali.
As coisas já não estavam apenas a esconder-se nos subterrâneos. Estavam a abater igrejas inteiras. E se o que a criatura dissera era verdade, o massacre já tinha começado.
CAPÍTULO 16
A Isca
O som da lâmina de Kain rasgando a traqueia da garota foi abafado por um guincho que não pertencia àquelas cordas vocais.
O corpo miúdo debateu-se. A perna quebrada debateu contra o chão, espalhando sangue coagulado. O cheiro de enxofre intensificou-se quando uma fumaça espessa e negra começou a esvair-se da boca escancarada da menina. A entidade estava a evaporar-se, queimada pela intenção assassina e pela proximidade da marca de Kain.
Mas antes que a fumaça se dissipasse por completo, a voz dupla, agora um sussurro rasgado e seco, ecoou na mente de Kain:
— Nós não viemos por eles... Nós viemos por ti, Sacrifício.
Kain recuou, ofegante. O corpo da criança tombou no chão, agora apenas uma casca oca. O silêncio voltou a pesar dentro da igreja.
Ele olhou em volta. A respiração estava descompassada. A palavra "Sacrifício" ecoava-lhe na cabeça.
Então, o som começou.
Crack. Ploc. Schrrk.
Veio do altar.
Kain virou o feixe da lanterna. O corpo decapitado do Padre Matias tremia. Os braços esticaram-se em ângulos antinaturais. O tronco ergueu-se, o sangue fresco a jorrar do coto do pescoço, manchando a batina.
À direita, perto dos confessionários, a mulher cujo pescoço fora dilacerado pela criança também se ergueu. A cabeça pendia para trás, presa apenas por tendões e um pedaço de coluna vertebral, mas os braços balançavam em direção a Kain.
Um a um, os fiéis abatidos minutos antes levantaram-se.
Kain apertou o cabo da faca. Não tinha sido um banquete. Aquilo era uma armadilha. A entidade na menina não fora a única; era apenas a porta de entrada. Um chamariz. E agora o lugar estava infestado.
O decapitado foi o primeiro a avançar. Moveu-se com uma rapidez desajeitada, caindo e arrastando-se pelos degraus do altar. Kain não hesitou. Desviou-se do bote cego e, com um golpe limpo, cravou a faca nas costas da criatura, cortando-lhe a medula. O corpo desabou.
Mas não havia tempo para respirar. Três outras criaturas, com rostos semi-devorados, cercaram-no.
— Venham, seus filhos da puta — rugiu Kain, chutando o joelho do mais próximo. O osso estalou e o homem caiu. Kain esmagou-lhe a nuca com o calcanhar do coturno.
Ele recuava passo a passo em direção à saída, movendo a lanterna como um estroboscópio no breu. As sombras dançavam. A cada corpo que derrubava, outro avançava. Eram pesados. Frios. Mortos.
O cheiro que exalavam não era apenas de sangue, mas algo mais podre. E pior: eles pareciam atraídos por Kain como mariposas por um holofote.
Uma mulher mais velha atirou-se sobre as costas dele. As unhas rasgaram-lhe o casaco de cabedal. Kain girou sobre si mesmo, atirando-a contra um pilar de pedra. Ela não parou. Rastejou, as mandíbulas a baterem freneticamente, tentando morder a carne da perna dele. Kain cravou a bota no peito dela e puxou a lâmina num arco letal.
O fôlego de Kain falhava. Eram muitos. A igreja inteira fedia ao enxofre deles. Ele não ia conseguir continuar a desmembrá-los se a energia acabasse.
Recuando até à pia batismal, viu algo. Um brilho negro na parede de fundo, que a luz trémula da lanterna acabara de roçar.
Ele esquivou-se das garras de mais uma abominação e apontou a luz.
Desenhado em sangue na pedra branca acima das portas principais, estava um selo enorme. Um triângulo invertido com runas que ele nunca tinha visto... exceto numa das páginas que Gabriele lhe mostrara brevemente anos atrás.
Um símbolo que atraía a fome celestial.
Um dos mortos prendeu as mãos nas pernas de Kain. Ele chutou, libertando-se. Tinha de sair dali.
As portas estavam fechadas com o selo de sangue. Kain não perdeu tempo a tentar maçanetas. Agachou-se, apanhou o candelabro de ferro fundido tombado no chão, ignorando a mulher decapitada que lhe agarrava o tornozelo, e usou-o como aríete.
Bateu na junção das portas uma, duas, três vezes. A madeira maciça rangeu. As criaturas estavam em cima dele, dedos frios e ensanguentados a puxarem a sua roupa. Kain berrou, reunindo todas as forças, e desferiu um último golpe com o candelabro contra o trinco esfrangalhado.
A porta cedeu, escancarando-se para a noite gelada.
Kain atirou-se para fora, rolando pelos degraus de pedra à chuva. Os mortos pararam na soleira. O selo impedia-os de sair, confinando a possessão ao espaço consagrado que haviam profanado. Eles amontoaram-se no portal, rosnando, os membros contorcidos na escuridão.
Kain levantou-se, cuspindo sangue. A chuva misturava-se ao suor e à sujidade na cara dele. Olhou para a igreja mergulhada em gritos abafados.
— Sacrifício... — murmurou.
Limpou o rosto e dirigiu-se à moto, montando-a num salto. O motor rugiu, rompendo o silêncio do bairro fantasma.
Ele não voltou para casa. Sabia exatamente onde precisava de ir.
O Cheiro do Abatedouro
A chuva grossa lavava o sangue do casaco de Kain, mas não conseguia arrancar o cheiro.
Ele acelerou a moto pelas ruas vazias de Roma. O vento cortava-lhe o rosto. As imagens da igreja não saíam da sua cabeça. Os corpos a levantarem-se. A garota de perna quebrada sorrindo antes de ter o pescoço rasgado. Eles não estavam apenas com fome. Estavam à espera dele.
Kain apertou o guiador até os nós dos dedos ficarem brancos.
Precisava de respostas. E a única pessoa que lhas daria estava desaparecida há semanas. Padre Gabriele esfumara-se, deixando para trás apenas poeira, livros codificados e o silêncio de um subterrâneo vazio.
Mas havia outro. Alguém que conhecia Gabriele há tempo suficiente para ter medo dele. Alguém que estivera na igreja naquela noite, dez anos antes, quando o primeiro homem possuído apareceu.
O Bispo Fotino.
Kain travou a moto bruscamente diante da residência episcopal. O edifício era antigo, cercado por um muro alto de pedra e grades de ferro. Kain não tocou à campainha. Saltou o muro com agilidade, caindo sem fazer barulho no pátio interno.
A porta dos fundos estava trancada. Kain puxou a faca, a mesma que ainda carregava vestígios da chacina, e forçou a fechadura. A madeira velha estalou.
Ele entrou. A casa estava mergulhada num breu absoluto. Não havia guardas, não havia assistentes. Apenas o silêncio pesado de alguém que se tentava esconder.
Kain avançou pelo corredor. O assoalho rangeu sob os seus coturnos.
— Eu sei que estás aí, Fotino — a voz de Kain rasgou a escuridão, baixa e carregada de ódio.
Um barulho abafado veio da biblioteca, no final do corredor.
Kain caminhou até lá. Empurrou a porta dupla de carvalho.
O bispo estava encolhido atrás de uma enorme secretária de madeira, agarrado a um terço de prata. Fotino envelhecera duas décadas naqueles dez anos. O rosto comprido estava encovado, a pele cinzenta, os olhos arregalados num pânico irracional.
Mas ele não estava a olhar para a faca de Kain. Estava a prender a respiração, com a mão a cobrir o nariz e a boca.
— Não te aproximes... — a voz de Fotino saiu esganiçada, estrangulada pelos próprios dedos. — Por amor de Deus, fica longe!
Kain deu um passo para dentro.
Fotino recuou, tropeçando na própria batina, até as costas baterem contra a estante de livros. Ele começou a engasgar-se, os olhos a lacrimejarem.
— Que cheiro é esse? — Fotino tossiu violentamente, caindo de joelhos. — Tu cheiras a carniça. Cheiras a... a abismo. Tira isso daqui!
Kain parou. O cheiro? Ele estava sujo de sangue, sim, mas a reação do bispo era exagerada. Parecia que estava a sufocar num mar de ácido. Então Kain lembrou-se: Fotino carregava algo dentro dele. Uma impregnação antiga. E aquela coisa dentro do bispo estava em agonia.
Kain não recuou. Em vez disso, aproximou-se ainda mais. Agachou-se, agarrando Fotino pelo colarinho da batina e puxando-o para cima.
— Eles armaram-me uma armadilha hoje, Fotino. Uma igreja inteira massacrada só para me chamar a atenção. — Kain encostou a ponta da lâmina suja na bochecha do bispo. — E disseram que eu fedia de longe. Gabriele desapareceu. Por isso, vais ser tu a abrir a porra da boca. O que é este cheiro?
Fotino tremia incontrolavelmente. A coisa dentro dele debatia-se, aterrorizada e enojada.
— Tu não sabes... — O bispo soltou uma risada histérica, cuspindo saliva no rosto de Kain. — O desgraçado do Gabriele nunca te contou. Dez anos, e ele continuou a usar-te como isca sem te dizer o que és!
Kain apertou o colarinho, levantando o velho alguns centímetros do chão.
— O que eu sou?
— Tu és um farol podre, Kain! — Fotino gritou, a voz falhando, misturando-se com a ressonância da entidade que o habitava. — A marca debaixo da tua língua... não é uma maldição aleatória. É a Marca do Sacrifício.
O aperto de Kain afrouxou um milímetro. A faca parou.
Fotino respirou fundo, os olhos arregalados, fixos no rosto de Kain.
— O Cheiro do Abatedouro
A chuva grossa lavava o sangue do casaco de Kain, mas não conseguia arrancar o cheiro.
Ele acelerou a moto pelas ruas vazias de Roma. O vento cortava-lhe o rosto. As imagens da igreja não saíam da sua cabeça. Os corpos a levantarem-se. A garota de perna quebrada sorrindo antes de ter o pescoço rasgado. Eles não estavam apenas com fome. Estavam à espera dele.
Kain apertou o guiador até os nós dos dedos ficarem brancos.
Precisava de respostas. E a única pessoa que lhas daria estava desaparecida há semanas. Padre Gabriele esfumara-se, deixando para trás apenas poeira, livros codificados e o silêncio de um subterrâneo vazio.
Mas havia outro. Alguém que conhecia Gabriele há tempo suficiente para ter medo dele. Alguém que estivera na igreja naquela noite, dez anos antes, quando o primeiro homem possuído apareceu.
O Bispo Fotino.
Kain travou a moto bruscamente diante da residência episcopal. O edifício era antigo, cercado por um muro alto de pedra e grades de ferro. Kain não tocou à campainha. Saltou o muro com agilidade, caindo sem fazer barulho no pátio interno.
A porta dos fundos estava trancada. Kain puxou a faca, a mesma que ainda carregava vestígios da chacina, e forçou a fechadura. A madeira velha estalou.
Ele entrou. A casa estava mergulhada num breu absoluto. Não havia guardas, não havia assistentes. Apenas o silêncio pesado de alguém que se tentava esconder.
Kain avançou pelo corredor. O assoalho rangeu sob os seus coturnos.
— Eu sei que estás aí, Fotino — a voz de Kain rasgou a escuridão, baixa e carregada de ódio.
Um barulho abafado veio da biblioteca, no final do corredor.
Kain caminhou até lá. Empurrou a porta dupla de carvalho.
O bispo estava encolhido atrás de uma enorme secretária de madeira, agarrado a um terço de prata. Fotino envelhecera duas décadas naqueles dez anos. O rosto comprido estava encovado, a pele cinzenta, os olhos arregalados num pânico irracional.
Mas ele não estava a olhar para a faca de Kain. Estava a prender a respiração, com a mão a cobrir o nariz e a boca.
— Não te aproximes... — a voz de Fotino saiu esganiçada, estrangulada pelos próprios dedos. — Por amor de Deus, fica longe!
Kain deu um passo para dentro.
Fotino recuou, tropeçando na própria batina, até as costas baterem contra a estante de livros. Ele começou a engasgar-se, os olhos a lacrimejarem.
— Que cheiro é esse? — Fotino tossiu violentamente, caindo de joelhos. — Tu cheiras a carniça. Cheiras a... a abismo. Tira isso daqui!
Kain parou. O cheiro? Ele estava sujo de sangue, sim, mas a reação do bispo era exagerada. Parecia que estava a sufocar num mar de ácido. Então Kain lembrou-se: Fotino carregava algo dentro dele. Uma impregnação antiga. E aquela coisa dentro do bispo estava em agonia.
Kain não recuou. Em vez disso, aproximou-se ainda mais. Agachou-se, agarrando Fotino pelo colarinho da batina e puxando-o para cima.
— Eles armaram-me uma armadilha hoje, Fotino. Uma igreja inteira massacrada só para me chamar a atenção. — Kain encostou a ponta da lâmina suja na bochecha do bispo. — E disseram que eu fedia de longe. Gabriele desapareceu. Por isso, vais ser tu a abrir a porra da boca. O que é este cheiro?
Fotino tremia incontrolavelmente. A coisa dentro dele debatia-se, aterrorizada e enojada.
— Tu não sabes... — O bispo soltou uma risada histérica, cuspindo saliva no rosto de Kain. — O desgraçado do Gabriele nunca te contou. Dez anos, e ele continuou a usar-te como isca sem te dizer o que és!
Kain apertou o colarinho, levantando o velho alguns centímetros do chão.
— O que eu sou?
— Tu és um farol podre, Kain! — Fotino gritou, a voz falhando, misturando-se com a ressonância da entidade que o habitava. — A marca debaixo da tua língua... não é uma maldição aleatória. É a Marca do Sacrifício.
O aperto de Kain afrouxou um milímetro. A faca parou.
Fotino respirou fundo, os olhos arregalados, fixos no rosto de Kain.
— Tu exalas um odor espiritual repugnante, Kain. Pior do que a morte. Pior do que o inferno. Mas é um cheiro que eles não conseguem ignorar. Para os demónios, tu és um banquete prometido. És o prato principal num mundo de migalhas. Eles sentem nojo, mas não conseguem resistir à fome de te devorar, porque a tua alma já lhes foi oferecida antes mesmo de respirares pela primeira vez.
Kain sentiu o chão desaparecer debaixo dos pés.
— Oferecida por quem?
— Eu não sei! — Fotino choramingou, agarrando o pulso de Kain. — Mas os demónios são o menor dos teus problemas, garoto. Os demónios têm fome... mas os Anjos... os Anjos têm ordens.
Kain franziu o sobrolho. A palavra soava sempre errada, grotesca.
— E o que os teus malditos anjos querem comigo?
Fotino riu novamente. Um som doloroso e seco.
— Os demónios querem comer-te. Os anjos querem erradicar-te. Os anjos são absolutos, Kain. Não negociam. Não brincam. Não fazem acordos. Para eles, a Marca do Sacrifício é uma ofensa à criação. Tu cheiras a um pecado tão denso que a simples tua existência insulta o firmamento. Se um demónio te encontrar, ele vai tentar rasgar a tua carne. Se um Anjo te encontrar... ele vai apagar cada memória, cada célula, cada rasto de que alguma vez exististe, e vai destruir cidades inteiras só para ter a certeza de que tu foste junto. Eles são infinitamente piores.
O bispo desabou no chão quando Kain finalmente o largou.
Kain recuou um passo. O peito subia e descia devagar.
A Marca do Sacrifício. Um farol. Um cheiro repugnante que chamava a morte de cima e de baixo.
— Gabriele sabia. — A voz de Kain saiu num sussurro perigoso.
— Claro que sabia! — Fotino rastejou para longe, agarrando-se à perna da secretária. — Por que achas que ele nunca deixou que fechasses a boca perto deles? Por que achas que ele te escondeu no escuro durante anos? Ele sabia o que tu atrais! Ele manteve-te vivo não por pena, mas porque tu atrais as abominações que ele sempre quis caçar. Tu foste o cão de caça amarrado à árvore, Kain! A isca sangrenta!
A mente de Kain girou.
As peças começavam a encaixar com uma brutalidade revoltante. As fotografias no subterrâneo. O livro sem título. As entidades sempre focadas nele. O rapto de Lara.
Lara.
Se ele era o farol que atraía os predadores... Lara tinha sido levada por estilhaços. Ela pagou o preço por estar perto da isca que Gabriele preparou.
— Aquele filho da puta... — Kain rosnou. Uma fúria fria, muito mais letal que qualquer emoção que já sentira, gelou-lhe o sangue. — Onde ele está, Fotino?
O bispo balançou a cabeça freneticamente.
— Eu não sei. Ele desapareceu antes que as hierarquias percebessem o que ele estava a planear. Gabriele é perigoso, Kain. O que quer que ele estivesse a esconder... a verdadeira identidade de Set... a tua utilidade... ele está a preparar algo que vai engolir este mundo inteiro.
Kain olhou para a própria faca. O sangue seco na lâmina parecia agora insignificante perto do que teria de fazer.
O homem que o criou, o padre que lhe ensinou a lutar, não passava de um manipulador sádico que o usara como carne num anzol divino. Gabriele tinha-lhe roubado a infância. Tinha-lhe roubado a Lara.
Kain guardou a faca no coldre. Olhou para o bispo a tremer no chão.
— Fica aí, velho. Reza para os teus anjos. Porque se eu encontrar o Gabriele antes deles... não vai sobrar nada para erradicar.
Kain virou costas e caminhou para a saída. A igreja estava perdida. O seu mentor era um monstro. E o cheiro do sacrifício impregnava a sua própria pele. A caçada tinha mudado de direção.O Cheiro do Abatedouro
A chuva grossa lavava o sangue do casaco de Kain, mas não conseguia arrancar o cheiro.
Ele acelerou a moto pelas ruas vazias de Roma. O vento cortava-lhe o rosto. As imagens da igreja não saíam da sua cabeça. Os corpos a levantarem-se. A garota de perna quebrada sorrindo antes de ter o pescoço rasgado. Eles não estavam apenas com fome. Estavam à espera dele.
Kain apertou o guiador até os nós dos dedos ficarem brancos.
Precisava de respostas. E a única pessoa que lhas daria estava desaparecida há semanas. Padre Gabriele esfumara-se, deixando para trás apenas poeira, livros codificados e o silêncio de um subterrâneo vazio.
Mas havia outro. Alguém que conhecia Gabriele há tempo suficiente para ter medo dele. Alguém que estivera na igreja naquela noite, dez anos antes, quando o primeiro homem possuído apareceu.
O Bispo Fotino.
Kain travou a moto bruscamente diante da residência episcopal. O edifício era antigo, cercado por um muro alto de pedra e grades de ferro. Kain não tocou à campainha. Saltou o muro com agilidade, caindo sem fazer barulho no pátio interno.
A porta dos fundos estava trancada. Kain puxou a faca, a mesma que ainda carregava vestígios da chacina, e forçou a fechadura. A madeira velha estalou.
Ele entrou. A casa estava mergulhada num breu absoluto. Não havia guardas, não havia assistentes. Apenas o silêncio pesado de alguém que se tentava esconder.
Kain avançou pelo corredor. O assoalho rangeu sob os seus coturnos.
— Eu sei que estás aí, Fotino — a voz de Kain rasgou a escuridão, baixa e carregada de ódio.
Um barulho abafado veio da biblioteca, no final do corredor.
Kain caminhou até lá. Empurrou a porta dupla de carvalho.
O bispo estava encolhido atrás de uma enorme secretária de madeira, agarrado a um terço de prata. Fotino envelhecera duas décadas naqueles dez anos. O rosto comprido estava encovado, a pele cinzenta, os olhos arregalados num pânico irracional.
Mas ele não estava a olhar para a faca de Kain. Estava a prender a respiração, com a mão a cobrir o nariz e a boca.
— Não te aproximes... — a voz de Fotino saiu esganiçada, estrangulada pelos próprios dedos. — Por amor de Deus, fica longe!
Kain deu um passo para dentro.
Fotino recuou, tropeçando na própria batina, até as costas baterem contra a estante de livros. Ele começou a engasgar-se, os olhos a lacrimejarem.
— Que cheiro é esse? — Fotino tossiu violentamente, caindo de joelhos. — Tu cheiras a carniça. Cheiras a... a abismo. Tira isso daqui!
Kain parou. O cheiro? Ele estava sujo de sangue, sim, mas a reação do bispo era exagerada. Parecia que estava a sufocar num mar de ácido. Então Kain lembrou-se: Fotino carregava algo dentro dele. Uma impregnação antiga. E aquela coisa dentro do bispo estava em agonia.
Kain não recuou. Em vez disso, aproximou-se ainda mais. Agachou-se, agarrando Fotino pelo colarinho da batina e puxando-o para cima.
— Eles armaram-me uma armadilha hoje, Fotino. Uma igreja inteira massacrada só para me chamar a atenção. — Kain encostou a ponta da lâmina suja na bochecha do bispo. — E disseram que eu fedia de longe. Gabriele desapareceu. Por isso, vais ser tu a abrir a porra da boca. O que é este cheiro?
Fotino tremia incontrolavelmente. A coisa dentro dele debatia-se, aterrorizada e enojada.
— Tu não sabes... — O bispo soltou uma risada histérica, cuspindo saliva no rosto de Kain. — O desgraçado do Gabriele nunca te contou. Dez anos, e ele continuou a usar-te como isca sem te dizer o que és!
Kain apertou o colarinho, levantando o velho alguns centímetros do chão.
— O que eu sou?
— Tu és um farol podre, Kain! — Fotino gritou, a voz falhando, misturando-se com a ressonância da entidade que o habitava. — A marca debaixo da tua língua... não é uma maldição aleatória. É a Marca do Sacrifício.
O aperto de Kain afrouxou um milímetro. A faca parou.
Fotino respirou fundo, os olhos arregalados, fixos no rosto de Kain.
— Tu exalas um odor espiritual repugnante, Kain. Pior do que a morte. Pior do que o inferno. Mas é um cheiro que eles não conseguem ignorar. Para os demónios, tu és um banquete prometido. És o prato principal num mundo de migalhas. Eles sentem nojo, mas não conseguem resistir à fome de te devorar, porque a tua alma já lhes foi oferecida antes mesmo de respirares pela primeira vez.
Kain sentiu o chão desaparecer debaixo dos pés.
— Oferecida por quem?
— Eu não sei! — Fotino choramingou, agarrando o pulso de Kain. — Mas os demónios são o menor dos teus problemas, garoto. Os demónios têm fome... mas os Anjos... os Anjos têm ordens.
Kain franziu o sobrolho. A palavra soava sempre errada, grotesca.
— E o que os teus malditos anjos querem comigo?
Fotino riu novamente. Um som doloroso e seco.
— Os demónios querem comer-te. Os anjos querem erradicar-te. Os anjos são absolutos, Kain. Não negociam. Não brincam. Não fazem acordos. Para eles, a Marca do Sacrifício é uma ofensa à criação. Tu cheiras a um pecado tão denso que a simples tua existência insulta o firmamento. Se um demónio te encontrar, ele vai tentar rasgar a tua carne. Se um Anjo te encontrar... ele vai apagar cada memória, cada célula, cada rasto de que alguma vez exististe, e vai destruir cidades inteiras só para ter a certeza de que tu foste junto. Eles são infinitamente piores.
O bispo desabou no chão quando Kain finalmente o largou.
Kain recuou um passo. O peito subia e descia devagar.
A Marca do Sacrifício. Um farol. Um cheiro repugnante que chamava a morte de cima e de baixo.
— Gabriele sabia. — A voz de Kain saiu num sussurro perigoso.
— Claro que sabia! — Fotino rastejou para longe, agarrando-se à perna da secretária. — Por que achas que ele nunca deixou que fechasses a boca perto deles? Por que achas que ele te escondeu no escuro durante anos? Ele sabia o que tu atrais! Ele manteve-te vivo não por pena, mas porque tu atrais as abominações que ele sempre quis caçar. Tu foste o cão de caça amarrado à árvore, Kain! A isca sangrenta!
A mente de Kain girou.
As peças começavam a encaixar com uma brutalidade revoltante. As fotografias no subterrâneo. O livro sem título. As entidades sempre focadas nele. O rapto de Lara.
Lara.
Se ele era o farol que atraía os predadores... Lara tinha sido levada por estilhaços. Ela pagou o preço por estar perto da isca que Gabriele preparou.
— Aquele filho da puta... — Kain rosnou. Uma fúria fria, muito mais letal que qualquer emoção que já sentira, gelou-lhe o sangue. — Onde ele está, Fotino?
O bispo balançou a cabeça freneticamente.
— Eu não sei. Ele desapareceu antes que as hierarquias percebessem o que ele estava a planear. Gabriele é perigoso, Kain. O que quer que ele estivesse a esconder... a verdadeira identidade de Set... a tua utilidade... ele está a preparar algo que vai engolir este mundo inteiro.
Kain olhou para a própria faca. O sangue seco na lâmina parecia agora insignificante perto do que teria de fazer.
O homem que o criou, o padre que lhe ensinou a lutar, não passava de um manipulador sádico que o usara como carne num anzol divino. Gabriele tinha-lhe roubado a infância. Tinha-lhe roubado a Lara.
Kain guardou a faca no coldre. Olhou para o bispo a tremer no chão.
— Fica aí, velho. Reza para os teus anjos. Porque se eu encontrar o Gabriele antes deles... não vai sobrar nada para erradicar.
Kain virou costas e caminhou para a saída. A igreja estava perdida. O seu mentor era um monstro. E o cheiro do sacrifício impregnava a sua própria pele. A caçada tinha mudado de direção. exalas um odor espiritual repugnante, Kain. Pior do que a morte. Pior do que o inferno. Mas é um cheiro que eles não conseguem ignorar. Para os demónios, tu és um banquete prometido. És o prato principal num mundo de migalhas. Eles sentem nojo, mas não conseguem resistir à fome de te devorar, porque a tua alma já lhes foi oferecida antes mesmo de respirares pela primeira vez.
Kain sentiu o chão desaparecer debaixo dos pés.
— Oferecida por quem?
— Eu não sei! — Fotino choramingou, agarrando o pulso de Kain. — Mas os demónios são o menor dos teus problemas, garoto. Os demónios têm fome... mas os Anjos... os Anjos têm ordens.
Kain franziu o sobrolho. A palavra soava sempre errada, grotesca.
— E o que os teus malditos anjos querem comigo?
Fotino riu novamente. Um som doloroso e seco.
— Os demónios querem comer-te. Os anjos querem erradicar-te. Os anjos são absolutos, Kain. Não negociam. Não brincam. Não fazem acordos. Para eles, a Marca do Sacrifício é uma ofensa à criação. Tu cheiras a um pecado tão denso que a simples tua existência insulta o firmamento. Se um demónio te encontrar, ele vai tentar rasgar a tua carne. Se um Anjo te encontrar... ele vai apagar cada memória, cada célula, cada rasto de que alguma vez exististe, e vai destruir cidades inteiras só para ter a certeza de que tu foste junto. Eles são infinitamente piores.
O bispo desabou no chão quando Kain finalmente o largou.
Kain recuou um passo. O peito subia e descia devagar.
A Marca do Sacrifício. Um farol. Um cheiro repugnante que chamava a morte de cima e de baixo.
— Gabriele sabia. — A voz de Kain saiu num sussurro perigoso.
— Claro que sabia! — Fotino rastejou para longe, agarrando-se à perna da secretária. — Por que achas que ele nunca deixou que fechasses a boca perto deles? Por que achas que ele te escondeu no escuro durante anos? Ele sabia o que tu atrais! Ele manteve-te vivo não por pena, mas porque tu atrais as abominações que ele sempre quis caçar. Tu foste o cão de caça amarrado à árvore, Kain! A isca sangrenta!
A mente de Kain girou.
As peças começavam a encaixar com uma brutalidade revoltante. As fotografias no subterrâneo. O livro sem título. As entidades sempre focadas nele. O rapto de Lara.
Lara.
Se ele era o farol que atraía os predadores... Lara tinha sido levada por estilhaços. Ela pagou o preço por estar perto da isca que Gabriele preparou.
— Aquele filho da puta... — Kain rosnou. Uma fúria fria, muito mais letal que qualquer emoção que já sentira, gelou-lhe o sangue. — Onde ele está, Fotino?
O bispo balançou a cabeça freneticamente.
— Eu não sei. Ele desapareceu antes que as hierarquias percebessem o que ele estava a planear. Gabriele é perigoso, Kain. O que quer que ele estivesse a esconder... a verdadeira identidade de Set... a tua utilidade... ele está a preparar algo que vai engolir este mundo inteiro.
Kain olhou para a própria faca. O sangue seco na lâmina parecia agora insignificante perto do que teria de fazer.
O homem que o criou, o padre que lhe ensinou a lutar, não passava de um manipulador sádico que o usara como carne num anzol divino. Gabriele tinha-lhe roubado a infância. Tinha-lhe roubado a Lara.
Kain guardou a faca no coldre. Olhou para o bispo a tremer no chão.
— Fica aí, velho. Reza para os teus anjos. Porque se eu encontrar o Gabriele antes deles... não vai sobrar nada para erradicar.
Kain virou costas e caminhou para a saída. A igreja estava perdida. O seu mentor era um monstro. E o cheiro do sacrifício impregnava a sua própria pele. A caçada tinha mudado de direção.O Cheiro do Abatedouro
A chuva grossa lavava o sangue do casaco de Kain, mas não conseguia arrancar o cheiro.
Ele acelerou a moto pelas ruas vazias de Roma. O vento cortava-lhe o rosto. As imagens da igreja não saíam da sua cabeça. Os corpos a levantarem-se. A garota de perna quebrada sorrindo antes de ter o pescoço rasgado. Eles não estavam apenas com fome. Estavam à espera dele.
Kain apertou o guiador até os nós dos dedos ficarem brancos.
Precisava de respostas. E a única pessoa que lhas daria estava desaparecida há semanas. Padre Gabriele esfumara-se, deixando para trás apenas poeira, livros codificados e o silêncio de um subterrâneo vazio.
Mas havia outro. Alguém que conhecia Gabriele há tempo suficiente para ter medo dele. Alguém que estivera na igreja naquela noite, dez anos antes, quando o primeiro homem possuído apareceu.
O Bispo Fotino.
Kain travou a moto bruscamente diante da residência episcopal. O edifício era antigo, cercado por um muro alto de pedra e grades de ferro. Kain não tocou à campainha. Saltou o muro com agilidade, caindo sem fazer barulho no pátio interno.
A porta dos fundos estava trancada. Kain puxou a faca, a mesma que ainda carregava vestígios da chacina, e forçou a fechadura. A madeira velha estalou.
Ele entrou. A casa estava mergulhada num breu absoluto. Não havia guardas, não havia assistentes. Apenas o silêncio pesado de alguém que se tentava esconder.
Kain avançou pelo corredor. O assoalho rangeu sob os seus coturnos.
— Eu sei que estás aí, Fotino — a voz de Kain rasgou a escuridão, baixa e carregada de ódio.
Um barulho abafado veio da biblioteca, no final do corredor.
Kain caminhou até lá. Empurrou a porta dupla de carvalho.
O bispo estava encolhido atrás de uma enorme secretária de madeira, agarrado a um terço de prata. Fotino envelhecera duas décadas naqueles dez anos. O rosto comprido estava encovado, a pele cinzenta, os olhos arregalados num pânico irracional.
Mas ele não estava a olhar para a faca de Kain. Estava a prender a respiração, com a mão a cobrir o nariz e a boca.
— Não se aproxime... — a voz de Fotino saiu esganiçada, estrangulada pelos próprios dedos. — Por amor de Deus, fica longe!
Kain deu um passo para dentro.
Fotino recuou, tropeçando na própria batina, até as costas baterem contra a estante de livros. Ele começou a engasgar-se, os olhos a lacrimejarem.
— Que cheiro é esse? — Fotino tossiu violentamente, caindo de joelhos. — Tu cheiras a carniça. Cheiras a... a abismo. Tira isso daqui!
Kain parou. O cheiro? Ele estava sujo de sangue, sim, mas a reação do bispo era exagerada. Parecia que estava a sufocar num mar de ácido. Então Kain lembrou-se: Fotino carregava algo dentro dele. Uma impregnação antiga. E aquela coisa dentro do bispo estava em agonia.
Kain não recuou. Em vez disso, aproximou-se ainda mais. Agachou-se, agarrando Fotino pelo colarinho da batina e puxando-o para cima.
— Eles armaram-me uma armadilha hoje, Fotino. Uma igreja inteira massacrada só para me chamar a atenção. — Kain encostou a ponta da lâmina suja na bochecha do bispo. — E disseram que eu fedia de longe. Gabriele desapareceu. Por isso, vais ser tu a abrir a porra da boca. O que é este cheiro?
Fotino tremia incontrolavelmente. A coisa dentro dele debatia-se, aterrorizada e enojada.
— Você não sabe... — O bispo soltou uma risada histérica, cuspindo saliva no rosto de Kain. — O desgraçado do Gabriele nunca te contou. Dez anos, e ele continuou a usar-te como isca sem te dizer o que és!
Kain apertou o colarinho, levantando o velho alguns centímetros do chão.
— O que eu sou?
— Você é um farol podre, Kain! — Fotino gritou, a voz falhando, misturando-se com a ressonância da entidade que o habitava. — A marca debaixo da tua língua... não é uma maldição aleatória. É a Marca do Sacrifício.
O aperto de Kain afrouxou um milímetro. A faca parou.
Fotino respirou fundo, os olhos arregalados, fixos no rosto de Kain.
— Você exalas um odor espiritual repugnante, Kain. Pior do que a morte. Pior do que o inferno. Mas é um cheiro que eles não conseguem ignorar. Para os demónios, tu és um banquete prometido. És o prato principal num mundo de migalhas. Eles sentem nojo, mas não conseguem resistir à fome de te devorar, porque a tua alma já lhes foi oferecida antes mesmo de respirares pela primeira vez.
Kain sentiu o chão desaparecer debaixo dos pés.
— Oferecida por quem?
— Eu não sei! — Fotino choramingou, agarrando o pulso de Kain. — Mas os demónios são o menor dos teus problemas, garoto. Os demónios têm fome... mas os Anjos... os Anjos têm ordens.
Kain franziu o sobrolho. A palavra soava sempre errada, grotesca.
— E o que os teus malditos anjos querem comigo?
Fotino riu novamente. Um som doloroso e seco.
— Os demónios querem comer-te. Os anjos querem erradicar-te. Os anjos são absolutos, Kain. Não negociam. Não brincam. Não fazem acordos. Para eles, a Marca do Sacrifício é uma ofensa à criação. Tu cheiras a um pecado tão denso que a simples tua existência insulta o firmamento. Se um demónio te encontrar, ele vai tentar rasgar a tua carne. Se um Anjo te encontrar... ele vai apagar cada memória, cada célula, cada rasto de que alguma vez exististe, e vai destruir cidades inteiras só para ter a certeza de que tu foste junto. Eles são infinitamente piores.
O bispo desabou no chão quando Kain finalmente o largou.
Kain recuou um passo. O peito subia e descia devagar.
A Marca do Sacrifício. Um farol. Um cheiro repugnante que chamava a morte de cima e de baixo.
— Gabriele sabia. — A voz de Kain saiu num sussurro perigoso.
— Claro que sabia! — Fotino rastejou para longe, agarrando-se à perna da secretária. — Por que achas que ele nunca deixou que fechasses a boca perto deles? Por que achas que ele te escondeu no escuro durante anos? Ele sabia o que tu atrais! Ele manteve-te vivo não por pena, mas porque tu atrais as abominações que ele sempre quis caçar. Tu foste o cão de caça amarrado à árvore, Kain! A isca sangrenta!
A mente de Kain girou.
As peças começavam a encaixar com uma brutalidade revoltante. As fotografias no subterrâneo. O livro sem título. As entidades sempre focadas nele. O rapto de Lara.
Lara.
Se ele era o farol que atraía os predadores... Lara tinha sido levada por estilhaços. Ela pagou o preço por estar perto da isca que Gabriele preparou.
— Aquele filho da puta... — Kain rosnou. Uma fúria fria, muito mais letal que qualquer emoção que já sentira, gelou-lhe o sangue. — Onde ele está, Fotino?
O bispo balançou a cabeça freneticamente.
— Eu não sei. Ele desapareceu antes que as hierarquias percebessem o que ele estava a planear. Gabriele é perigoso, Kain. O que quer que ele estivesse a esconder... a verdadeira identidade de Set... a tua utilidade... ele está a preparar algo que vai engolir este mundo inteiro.
Kain olhou para a própria faca. O sangue seco na lâmina parecia agora insignificante perto do que teria de fazer.
O homem que o criou, o padre que lhe ensinou a lutar, não passava de um manipulador sádico que o usara como carne num anzol divino. Gabriele tinha-lhe roubado a infância. Tinha-lhe roubado a Lara.
Kain guardou a faca no coldre. Olhou para o bispo a tremer no chão.
— Fica aí, velho. Reza para os teus anjos. Porque se eu encontrar o Gabriele antes deles... não vai sobrar nada para erradicar.
Kain virou costas e caminhou para a saída. A igreja estava perdida. O seu mentor era um monstro. E o cheiro do sacrifício impregnava a sua própria pele. A caçada tinha mudado de direção.O Cheiro do Abatedouro
A chuva grossa lavava o sangue do casaco de Kain, mas não conseguia arrancar o cheiro.
Ele acelerou a moto pelas ruas vazias de Roma. O vento cortava-lhe o rosto. As imagens da igreja não saíam da sua cabeça. Os corpos a levantarem-se. A garota de perna quebrada sorrindo antes de ter o pescoço rasgado. Eles não estavam apenas com fome. Estavam à espera dele.
Kain apertou o guiador até os nós dos dedos ficarem brancos.
Precisava de respostas. E a única pessoa que lhas daria estava desaparecida há semanas. Padre Gabriele esfumara-se, deixando para trás apenas poeira, livros codificados e o silêncio de um subterrâneo vazio.
Mas havia outro. Alguém que conhecia Gabriele há tempo suficiente para ter medo dele. Alguém que estivera na igreja naquela noite, dez anos antes, quando o primeiro homem possuído apareceu.
O Bispo Fotino.
Kain travou a moto bruscamente diante da residência episcopal. O edifício era antigo, cercado por um muro alto de pedra e grades de ferro. Kain não tocou à campainha. Saltou o muro com agilidade, caindo sem fazer barulho no pátio interno.
A porta dos fundos estava trancada. Kain puxou a faca, a mesma que ainda carregava vestígios da chacina, e forçou a fechadura. A madeira velha estalou.
Ele entrou. A casa estava mergulhada num breu absoluto. Não havia guardas, não havia assistentes. Apenas o silêncio pesado de alguém que se tentava esconder.
Kain avançou pelo corredor. O assoalho rangeu sob os seus coturnos.
— Eu sei que estás aí, Fotino — a voz de Kain rasgou a escuridão, baixa e carregada de ódio.
Um barulho abafado veio da biblioteca, no final do corredor.
Kain caminhou até lá. Empurrou a porta dupla de carvalho.
O bispo estava encolhido atrás de uma enorme secretária de madeira, agarrado a um terço de prata. Fotino envelhecera duas décadas naqueles dez anos. O rosto comprido estava encovado, a pele cinzenta, os olhos arregalados num pânico irracional.
Mas ele não estava a olhar para a faca de Kain. Estava a prender a respiração, com a mão a cobrir o nariz e a boca.
— Não te aproximes... — a voz de Fotino saiu esganiçada, estrangulada pelos próprios dedos. — Por amor de Deus, fica longe!
Kain deu um passo para dentro.
Fotino recuou, tropeçando na própria batina, até as costas baterem contra a estante de livros. Ele começou a engasgar-se, os olhos a lacrimejarem.
— Que cheiro é esse? — Fotino tossiu violentamente, caindo de joelhos. — Tu cheiras a carniça. Cheiras a... a abismo. Tira isso daqui!
Kain parou. O cheiro? Ele estava sujo de sangue, sim, mas a reação do bispo era exagerada. Parecia que estava a sufocar num mar de ácido. Então Kain lembrou-se: Fotino carregava algo dentro dele. Uma impregnação antiga. E aquela coisa dentro do bispo estava em agonia.
Kain não recuou. Em vez disso, aproximou-se ainda mais. Agachou-se, agarrando Fotino pelo colarinho da batina e puxando-o para cima.
— Eles armaram-me uma armadilha hoje, Fotino. Uma igreja inteira massacrada só para me chamar a atenção. — Kain encostou a ponta da lâmina suja na bochecha do bispo. — E disseram que eu fedia de longe. Gabriele desapareceu. Por isso, vais ser tu a abrir a porra da boca. O que é este cheiro?
Fotino tremia incontrolavelmente. A coisa dentro dele debatia-se, aterrorizada e enojada.
— Tu não sabes... — O bispo soltou uma risada histérica, cuspindo saliva no rosto de Kain. — O desgraçado do Gabriele nunca te contou. Dez anos, e ele continuou a usar-te como isca sem te dizer o que és!
Kain apertou o colarinho, levantando o velho alguns centímetros do chão.
— O que eu sou?
— Tu és um farol podre, Kain! — Fotino gritou, a voz falhando, misturando-se com a ressonância da entidade que o habitava. — A marca debaixo da tua língua... não é uma maldição aleatória. É a Marca do Sacrifício.
O aperto de Kain afrouxou um milímetro. A faca parou.
Fotino respirou fundo, os olhos arregalados, fixos no rosto de Kain.
— Tu exalas um odor espiritual repugnante, Kain. Pior do que a morte. Pior do que o inferno. Mas é um cheiro que eles não conseguem ignorar. Para os demónios, tu és um banquete prometido. És o prato principal num mundo de migalhas. Eles sentem nojo, mas não conseguem resistir à fome de te devorar, porque a tua alma já lhes foi oferecida antes mesmo de respirares pela primeira vez.
Kain sentiu o chão desaparecer debaixo dos pés.
— Oferecida por quem?
— Eu não sei! — Fotino choramingou, agarrando o pulso de Kain. — Mas os demónios são o menor dos teus problemas, garoto. Os demónios têm fome... mas os Anjos... os Anjos têm ordens.
Kain franziu o sobrolho. A palavra soava sempre errada, grotesca.
— E o que os teus malditos anjos querem comigo?
Fotino riu novamente. Um som doloroso e seco.
— Os demónios querem comer-te. Os anjos querem erradicar-te. Os anjos são absolutos, Kain. Não negociam. Não brincam. Não fazem acordos. Para eles, a Marca do Sacrifício é uma ofensa à criação. Tu cheiras a um pecado tão denso que a simples tua existência insulta o firmamento. Se um demónio te encontrar, ele vai tentar rasgar a tua carne. Se um Anjo te encontrar... ele vai apagar cada memória, cada célula, cada rasto de que alguma vez exististe, e vai destruir cidades inteiras só para ter a certeza de que tu foste junto. Eles são infinitamente piores.
O bispo desabou no chão quando Kain finalmente o largou.
Kain recuou um passo. O peito subia e descia devagar.
A Marca do Sacrifício. Um farol. Um cheiro repugnante que chamava a morte de cima e de baixo.
— Gabriele sabia. — A voz de Kain saiu num sussurro perigoso.
— Claro que sabia! — Fotino rastejou para longe, agarrando-se à perna da secretária. — Por que achas que ele nunca deixou que fechasses a boca perto deles? Por que achas que ele te escondeu no escuro durante anos? Ele sabia o que tu atrais! Ele manteve-te vivo não por pena, mas porque tu atrais as abominações que ele sempre quis caçar. Tu foste o cão de caça amarrado à árvore, Kain! A isca sangrenta!
A mente de Kain girou.
As peças começavam a encaixar com uma brutalidade revoltante. As fotografias no subterrâneo. O livro sem título. As entidades sempre focadas nele. O rapto de Lara.
Lara.
Se ele era o farol que atraía os predadores... Lara tinha sido levada por estilhaços. Ela pagou o preço por estar perto da isca que Gabriele preparou.
— Aquele filho da puta... — Kain rosnou. Uma fúria fria, muito mais letal que qualquer emoção que já sentira, gelou-lhe o sangue. — Onde ele está, Fotino?
O bispo balançou a cabeça freneticamente.
— Eu não sei. Ele desapareceu antes que as hierarquias percebessem o que ele estava a planear. Gabriele é perigoso, Kain. O que quer que ele estivesse a esconder... a verdadeira identidade de Set... a tua utilidade... ele está a preparar algo que vai engolir este mundo inteiro.
Kain olhou para a própria faca. O sangue seco na lâmina parecia agora insignificante perto do que teria de fazer.
O homem que o criou, o padre que lhe ensinou a lutar, não passava de um manipulador sádico que o usara como carne num anzol divino. Gabriele tinha-lhe roubado a infância. Tinha-lhe roubado a Lara.
Kain guardou a faca no coldre. Olhou para o bispo a tremer no chão.
— Fica aí, velho. Reza para os teus anjos. Porque se eu encontrar o Gabriele antes deles... não vai sobrar nada para erradicar.
Kain virou costas e caminhou para a saída. A igreja estava perdida. O seu mentor era um monstro. E o cheiro do sacrifício impregnava a sua própria pele. A caçada tinha mudado de direção.
CAPÍTULO 17
O Silêncio e a Casca
Três noites.
Setenta e duas horas desde que Kain o arrastara pelo colarinho, deixando no seu escritório aquele cheiro nauseabundo de danação. Desde aquele encontro, o Bispo Fotino não pregou olho.
Ele estava trancado no quarto dos seus aposentos privados. As portas duplas trancadas com chave, as janelas seladas, as cortinas de veludo pesado bloqueando qualquer réstia de luz ou ar da noite de Roma. O ambiente cheirava a febre, a cobre e a carne que começava a passar do ponto.
Fotino andava de um lado para o outro aos tropeções. Ou, pelo menos, o que restava dele arrastava-se.
A sua aparência estava a sofrer uma mutação grotesca. O tom rosado e pálido de um homem idoso dera lugar a um cinzento doentio, quase translúcido em certas áreas onde as veias pulsavam negras e espessas. Noutras partes do corpo, a pele engrossava de forma antinatural, formando placas rígidas e ásperas, como se um couro ressequido estivesse a crescer sobre a epiderme.
O suor escorria em bica. Não era um suor normal, aguado; era viscoso, escuro, pingando no chão de madeira com um som pegajoso e lento. Ploc. Ploc.
— Não... recua... In nomine Patris... recua, escória... — balbuciava ele, agarrando a própria cabeça.
Quem quer que o visse ali, encolhido nos cantos escuros do quarto, assumiria imediatamente que o velho bispo tinha enlouquecido, a falar sozinho para o vazio. Mas Fotino não estava sozinho.
A coisa que ele carregava dentro de si, a impregnação que o Padre Gabriele o ajudara a manter adormecida à base de rituais e restrições rigorosas, tinha despertado. O encontro com Kain e a força da "Marca do Sacrifício" tinham sido o catalisador brutal. A proximidade daquele farol quebrou as amarras mentais de Fotino. Agora, sem Gabriele para intervir, o bispo estava a ser engolido vivo de dentro para fora.
Um espasmo violento atirou-o contra o criado-mudo. O candeeiro caiu e partiu-se.
Os ossos do bispo estalaram com um ruído de gravetos secos a quebrar. Ele caiu de joelhos aos pés da cama, exatamente por baixo do grande crucifixo de madeira e prata pregado na parede.
O corpo inteiro tremia. A respiração era um chiado agoniante que arranhava os pulmões.
Fotino parou de se debater. Apoiou as mãos trémulas nos lençóis amarrotados e ergueu o rosto desfigurado. O suor pastoso escorria-lhe pela testa, ardendo nos olhos injetados de sangue, pingando do queixo trémulo para o tapete persa.
Ele olhou fixamente para a figura do Cristo crucificado. Os olhos encheram-se de lágrimas, as últimas gotas de humanidade que lhe restavam.
— Pai? — a voz de Fotino saiu num sussurro fraco, engasgada na própria saliva grossa. — Por que me abandonaste?
O silêncio do quarto foi pesado, cortado apenas pelo gotejar do seu próprio suor sujo.
— Servi o Senhor a minha vida inteira... — continuou ele, a voz subindo de tom, rasgando as cordas vocais num misto de desespero e súplica infantil. — Dediquei a minha vida ao Senhor! E quando mais preciso... o Senhor abandona-me e não responde às minhas preces.
Ele soluçou. Um som patético no meio da escuridão sufocante.
Então, um estalo húmido, alto e terrível, ecoou do interior do seu próprio pescoço.
A cabeça de Fotino foi puxada para trás num ângulo quase impossível. Não foi um movimento voluntário. Os músculos da nuca repuxaram-se com tanta violência que a pele cinzenta estalou, revelando carne negra por baixo. Ele tentou gritar, mas a sua língua inchou subitamente, bloqueando-lhe a garganta.
Uma dor excruciante espalhou-se pelo peito. Algo estava a empurrar as suas costelas.
— Ele não te abandonou, Fotino — a voz não ressoou no quarto. Ressoou dentro do crânio dele, fria, sibilante, vibrando nos ossos dos ouvidos.
Os olhos do bispo esbugalharam-se. Ele levou as mãos ao próprio pescoço, arranhando a pele grossa com as unhas, tentando puxar ar.
— Ele apenas nunca esteve a ouvir — disse a entidade.
Uma risada gutural irrompeu dos próprios lábios do bispo, sem que ele o quisesse. Um som que fez o seu estômago revirar e o forçou a vomitar um líquido negro e betuminoso no chão.
— As tuas preces, o teu medo, os teus pecados escondidos... sempre foram o nosso vinho, velho hipócrita. Tu foste apenas um útero quente durante todos estes anos. — A voz da entidade rasgou os cantos da boca de Fotino num sorriso literal de orelha a orelha. — *E agora... a casca apodreceu.*
O corpo do bispo foi erguido do chão por uma força invisível, os pés a balançarem a palmos do tapete. A pele das suas costas começou a rasgar-se no meio, não com um corte limpo, mas com o som de tecido podre a ser esgarçado.
A última coisa que a alma de Fotino registou, antes de ser completamente apagada pelo abismo, foi a sombra de duas asas gigantescas e disformes a projetarem-se na parede, cobrindo o crucifixo e engolindo a luz para sempre.
A morte não faz barulho quando já é aguardada. Foram precisos dias para que o silêncio denso e o cheiro de carne arruinada, que vazava por debaixo das portas trancadas dos aposentos de Fotino, forçassem os clérigos a arrombá-las. O que encontraram no tapete persa não era apenas o corpo de um bispo que sucumbira à idade. Era uma casca disforme, estilhaçada de dentro para fora, com o rosto congelado num grito que o abismo engoliu.
O relatório interno do clero mentiu com a frieza habitual: ataque cardíaco fulminante. A verdadeira natureza da morte foi rapidamente abafada, trancada junto com os restos do velho bispo. A notícia rastejou pelas ruas de Roma como uma víbora nas sarjetas, subindo as colinas de pedra até cruzar os altos muros do Vaticano pela boca de um padre mensageiro.
Para a grande maioria da Santa Sé, a queda de Fotino foi apenas uma formalidade burocrática. Mas para um homem, foi o soar da primeira trombeta do inferno.
CAPÍTULO 18
A Profanação do Sagrado
O cheiro espesso de incenso a queimar nos pesados turíbulos de ouro costumava trazer paz ao Padre Mathew. Naquela manhã, no entanto, apenas lhe revirava o estômago.
Caminhando pelos longos corredores de mármore em direção à sacristia principal, Mathew observava o comportamento dos seus pares. Bispos, arcebispos e cardeais conversavam em sussurros tranquilos. Alguns até sorriam de forma contida enquanto ajustavam as suas vestes litúrgicas. Não havia luto. Não havia sequer surpresa perante a morte súbita de um dos maiores membros da Igreja. Era como se todos eles já estivessem à espera. Como se o fim de Fotino fosse apenas uma etapa cumprida num cronograma macabro.
Esse cinismo gélido fez Mathew recuar para as sombras de uma das colunas. Ele era o único com o pé atrás. O único que tremia e demonstrava preocupação. Afinal, Fotino não era um homem qualquer ali dentro; era o guardião de pesquisas sombrias e segredos que podiam fragmentar a fé humana. E, mais importante, Mathew era o único remanescente que participara dessas pesquisas e compreendia a verdadeira extensão do abismo.
Mathew apertou contra o peito o pequeno caderno encadernado em couro que resgatara. As páginas estavam repletas de anotações confidenciais do bispo sobre hierarquias, possessões seculares e o mais aterrorizante de tudo: um rapaz chamado Kain e a sua marca.
Com a queda do seu superior, Mathew era agora o único que sabia da existência do rapaz e da ameaça letal que aquela marca representava, tornando-se o único responsável por aquele peso. Ele precisava traçar um caminho até Kain, de alguma forma avisá-lo, pois tinha a certeza de que a morte de Fotino não fora um mero castigo divino. A caçada tinha chegado ao círculo interno.
Os sinos da Basílica começaram a dobrar. O som profundo e ressoante anunciava o início da grande missa, que o próprio Papa iria realizar.
Mathew engoliu a seco, guardou as anotações no fundo do bolso da batina e juntou-se à procissão. A magnitude do evento exigia perfeição e devoção, mas, após o anúncio do início da missa, o clima da igreja não parecia de luto nem de santidade. Enquanto todos se direcionavam para os seus lugares, o ar sob as grandes abóbadas parecia carregado de uma estática invisível que fez os pelos dos braços de Mathew eriçarem-se.
Enquanto a procissão avançava pela nave central, foi então que a atmosfera cedeu.
Não foi algo repentino, mas uma queda gradual e opressiva. E depois, o cheiro.
Não era o odor metálico de sangue. Era um fedor espiritual, pesado e repugnante, uma anomalia nauseabunda odiada por seres que não pertencem a lugar nenhum.
Mathew parou no meio do passo, o coração a bater descompassado. Ele reconheceu a descrição daquele odor pelas anotações de Fotino.
No meio da multidão, misturado com os padres, bispos, diáconos e restantes membros do clero, uma presença que estivera desaparecida por um bom tempo surgiu naquele exato momento. Apenas alguns notaram a anomalia imediata. O homem vestia roupas pesadas que destoavam das sedas sagradas, mas a sua postura predatória irradiava a marca que carregava.
Era Kain.
Mathew paralisou ao ver aquele homem ali. Mas o verdadeiro terror não foi reconhecer Kain. O verdadeiro terror foi o que Mathew reparou a seguir.
Ao olhar ao redor, Mathew viu vários bispos e padres de alto escalão a parar os seus cânticos. Eles viravam as cabeças lentamente, olhando todos para o mesmo lugar, para o mesmo homem. Seus olhos não transmitiam indignação humana, mas uma fome letal e disfarçada, ativada por aquele cheiro.
Naquele exato momento, Mathew percebeu com um pânico paralisante que tudo estava prestes a virar de cabeça para baixo. Os portões do inferno e do céu tinham sido abertos na mesma sala. Aquele local estava a segundos de deixar de ser sagrado.
CAPÍTULO 19
O Cordeiro Entre os Lobos
Os cânticos morreram nas gargantas. Não houve um maestro a baixar a batuta, nem um sinal visível. O coro secular, que ecoava sob os frescos de Miguel Ângelo, simplesmente engasgou e calou-se.
O silêncio que se abateu sobre a Basílica foi absoluto, pesado e asfixiante.
Kain tornou-se o epicentro daquela catedral. O cheiro da sua marca não era apenas um odor podre para as entidades que ali se escondiam sob as batinas; era um tormento físico. Uma frequência espiritual tão odiada e repugnante que as criaturas cerravam os dentes e contorciam as mãos enluvadas, punidas pela mera existência de Kain naquele espaço. A respiração dele era como ácido derramado sobre os seus sentidos.
Mas, apesar dos olhares vazios e predatórios que o cercavam, ninguém ousou mover um músculo. Havia regras superiores. E havia outra coisa a segurar a fome deles.
Kain percebeu isso quando desviou os olhos da massa de padres paralisados. No lado oposto da nave, entre as fileiras de cardeais que agora pareciam estátuas de cera, alguém estava quebrar o protocolo.
Um homem estava sentado.
Enquanto todos os outros clérigos permaneciam de pé, tensos e virados para Kain, aquele homem mantinha-se na penumbra de um pilar maciço. Vestia um manto negro com o capuz puxado para a frente. Não olhava para o altar. Não olhava para os fiéis.
A grande porta da sacristia abriu-se com um estrondo de dobradiças pesadas. O ar no interior da igreja pareceu subitamente gelado.
O Papa tinha chegado.
O pontífice avançou lentamente, cercado por incenso e vestes brancas imaculadas. Imediatamente, a sala inteira reagiu. Como um campo de trigo varrido por um vento invisível, centenas de bispos, padres, diáconos e guardas viraram-se em uníssono e atiraram-se de joelhos no chão de mármore, as cabeças curvadas em submissão absoluta à santidade daquele momento.
Todos. Exceto dois homens.
Kain permaneceu erguido no meio do corredor, as mãos soltas perto dos coldres escondidos sob o casaco. E, do outro lado, o homem encapuzado continuou confortavelmente sentado no banco de carvalho.
Lentamente, o homem virou o rosto na direção de Kain. Das profundezas do capuz, não se viam olhos, mas Kain não precisava de os ver. O arrepio que lhe subiu pela espinha foi instantâneo. Ele sentiu aquela presença. Fria, manipuladora e terrivelmente familiar. Um calafrio de reconhecimento cruzou o sangue de Kain.
O Papa subiu ao altar principal. Ajustou os paramentos e abriu os braços velhos.
— Levantai-vos. Oremos — a voz do sumo pontífice ressoou pelos altifalantes, grave e arrastada.
O mar de batinas vermelhas e pretas ergueu-se de novo. As cabeças permaneceram baixas, os olhos fixos no chão. Uma rezadora silenciosa de predadores à espera da ordem para abater.
O Papa começou o sermão.
— A fé de todos vós anda abalada... — A voz ecoou pelas paredes milenares. — Vejo o vosso rebanho a afastar-se de Deus, a procurar refúgio num mundo de luzes vazias e falsas promessas.
O pontífice recuou um passo, e um dos padres superiores, um homem alto, de ombros largos e rosto encovado, assumiu o púlpito no seu lugar. O padre agarrou o microfone com as duas mãos pálidas. Quando falou, a sua voz não tinha o tom de conforto de um pastor, mas sim o sibilar de uma lâmina afiada.
— Afastam-se de Deus... porque acreditam que Ele os protegerá incondicionalmente — disse o padre, os lábios esticando-se num sorriso que expunha demasiados dentes. — Mas o Criador é sábio. E a criação tem um propósito. Pergunto-vos, irmãos: para que serve um rebanho gordo e dócil? Vocês choram pelos vossos pecados, mas não percebem a verdade maravilhosa. O pastor não guia as ovelhas por amor à sua lã. Ele guia-as para as engordar. Porque quando o inverno do mundo chegar... e os senhores dos céus descerem com fome... a vossa carne fraca não precisará de fé. Precisará apenas de ser devorada, para que o sagrado se alimente. Vocês não são filhos... são o banquete.
Um murmúrio abafado, que soava mais a um rosnado coletivo, percorreu as fileiras dos bispos infectados.
Kain tinha ouvido que chegasse.
Ele estava encostado à beira de um banco maciço de madeira. Num movimento rápido e violento, Kain atirou a bota pesada contra o genuflexório (o apoio de madeira para ajoelhar).
CRAAAACK!
O estoiro da madeira nobre a lascar ecoou pela basílica inteira, explodindo como um tiro de canhão no meio do sermão profano.
O silêncio regressou, ainda mais denso e cortante. O padre no púlpito calou-se. O Papa recuou.
E então, num único movimento sincronizado e aterrorizador, as cabeças de centenas de clérigos, guardas e bispos giraram lentamente. Os olhos deixaram o chão e cravaram-se nele.
Kain deu um passo para o meio do corredor central, puxou o casaco para trás, revelando as lâminas presas à cintura, e retribuiu o olhar daquele exército de abominações.
— A vossa porra de banquete... — a voz de Kain rasgou o silêncio do Vaticano, fria e assassina — acabou de chegar.
CAPÍTULO 20
O Cordeiro e o Abatedouro
As lâminas de Kain brilharam sob a luz fria dos vitrais. O sangue nele ferveu, à espera do primeiro bote. Ele queria que eles avançassem. Queria estripar a primeira batina que se movesse na sua direção.
Mas ninguém se moveu.
Centenas de criaturas, disfarçadas sob o ouro e a seda do Vaticano, mantiveram-se absolutamente paralisadas, com os olhos negros cravados nele. A fome no salão era quase palpável, uma vibração que fazia as paredes tremerem, mas a disciplina daquelas abominações superou o instinto. Kain franziu o cenho, os músculos tensos. Havia algo errado. O Papa continuava estático no altar, a olhar para baixo da nave.
Foi então que o homem de capuz, ainda sentado na penumbra do pilar, se levantou lentamente. O som do tecido roçando no banco de carvalho soou como um trovão no silêncio da igreja.
Todos os rostos não humanos viraram-se para o encapuzado.
O Papa ergueu as mãos enrugadas.
— Meus filhos... Deus está convosco — a voz do pontífice ressoou, mas havia uma distorção nela, um eco metálico que feria os ouvidos. — E como está escrito em Jeremias: *"Eu os embriagarei, para que se alegrem, e durmam um sono perpétuo, e não despertem."* Preparem-se, rebanho sagrado, pois a carne foi entregue. O sacrifício começará.
Kain piscou. A fúria abriu espaço para uma confusão gélida.
— Sacrifício? — murmurou ele.
De trás do altar-mor, dois bispos corpulentos emergiram da penumbra. Eles não andavam, deslizavam, carregando um corpo humano coberto por um lençol de linho encardido. Os bispos deitaram a figura sobre o mármore frio do altar, exatamente de frente para o Papa.
— Eis aqui o corpo de Cristo — entoou o Papa, abrindo os braços num arremedo grotesco da Eucaristia. A voz dele agora pingava sadismo puro. — E deste corpo... tomaremos o nosso vinho eterno. Hoje, começa o renascimento do Senhor!
O Papa agarrou a ponta do lençol e puxou-o de uma vez.
O coração de Kain parou no peito.
Lá estava ela. O rosto pálido, envelhecido por dez anos de tormento, os cabelos escuros espalhados sobre a pedra. Lara. Estava inconsciente, respirando de forma superficial.
A realidade ao redor de Kain estilhaçou-se. O controle, a frieza, a técnica de combate, tudo evaporou. O menino que a perdeu na escuridão do corredor há dez anos tomou o controlo.
— LARA! — o grito de Kain rasgou-lhe as cordas vocais.
Ele atirou-se em frente, rasgando a distância entre a nave e o altar numa corrida cega e animalesca.
— Acalma-te, meu filho, pois aqui está a salvação de todos nós! — sorriu o Papa.
Antes que Kain alcançasse o primeiro degrau, duas massas vermelhas colidiram contra ele. Dois bispos interceptaram-no com uma velocidade que a física não permitia. Kain sentiu como se tivesse batido num muro de cimento armado. Eles agarraram-lhe os ombros, os dedos furando o cabedal do casaco e afundando na sua carne com uma força esmagadora.
Kain rosnou, atirando a cabeça para trás para quebrar o nariz de um deles, mas um terceiro padre surgiu do nada e bateu com as duas mãos espalmadas nas costas de Kain.
A força atirou Kain de cara contra o chão de mármore. O impacto partiu-lhe o lábio e ensanguentou a pedra.
— Acalmem-se, meus filhos — disse o Papa, erguendo a mão. — Tragam-no para cá. Quero-o na primeira fila.
Kain foi arrastado pelos pés até à base da escadaria do altar, contorcendo-se de dor sob o peso dos três homens que o prensavam contra o chão. Ele não conseguia mover um milímetro. A força deles era geológica.
O Papa virou-se para Lara. De dentro das vestes brancas, ele sacou uma adaga. Era uma lâmina de osso antigo e escurecido, tão fina e porosa que parecia que se iria desfazer em pó ao menor toque.
Escondido nas sombras, o Padre Mathew via tudo a desenrolar-se. O terror esmagava-lhe os pulmões. As palavras da sua última conversa com Fotino ecoavam na sua mente, nítidas como se o bispo estivesse ali ao seu lado.
*"Não confies em ninguém, Mathew. Nem tudo o que o papado mostra é real. Todos mentem. Tudo isto já está tomado há séculos. Cristo abandonou-nos há muito tempo, mas deixou um presente... prendendo o verdadeiro mal no abismo. Mas os seus filhos seguem soltos. O pior de tudo não foram os demónios, Mathew. Foram os anjos, que se rebelaram e abandonaram o seu Senhor porque lhes foi dado o livre arbítrio. Foi aí que tudo acabou. Encontra o Kain... e protege-o."*
Mathew olhou para Kain esmagado no chão, depois para a lâmina na mão do pontífice. O padre respirou fundo. Ignorou o instinto de preservação que lhe pedia para fugir e, agarrando num pesado castiçal de latão, começou a avançar sorrateiramente em direção ao altar.
— LARA! — Kain debatia-se num desespero visceral, a voz rasgando a garganta, os olhos injetados em sangue de tanto tentar forçar os braços presos.
O Papa olhou para baixo, visivelmente incomodado com o barulho. Fez um pequeno gesto com a cabeça.
Sem hesitar, um dos padres que segurava Kain prendeu-lhe o maxilar contra o mármore. Levantou o polegar enluvado e afundou-o brutalmente no olho direito de Kain.
Kain emitiu um urro indescritível. O som molhado de tecidos a romper e do globo ocular a ser esmagado na órbita ressoou na escadaria. Sangue espesso e líquido vítreo escorreram pelo rosto dele, manchando as juntas do mármore. O padre pressionou o joelho contra o crânio de Kain com ainda mais força, cravando-o no chão. Kain gemia, a dor obliterando-lhe os sentidos, mas o corpo recusava-se a parar de lutar. O seu braço esquerdo debatia-se desesperadamente.
No altar, o Papa agarrou a gola da camisa de Lara e rasgou-a de uma vez.
Lá estava. Gravada na pele pálida do seu peito, exatamente sobre o coração, estava a marca. Sangrava pus escuro e fedia. Um cheiro tão agudo e repugnante que vários padres e bispos ao redor das escadas recuaram, caindo de joelhos, contorcendo-se e agarrando o estômago, agoniados com a mera visão daquilo.
Ao ver a marca em Lara, Kain rugiu, a visão turva pelo sangue do olho perdido. Ele forçou as pernas, tentando levantar-se com uma força que rasgou os seus próprios músculos.
Os dois bispos olharam-se. Um deles plantou a bota nas costelas de Kain, enquanto o outro agarrou no seu braço esquerdo a debater-se. Com um puxão violento e seco, o som de carne a rasgar, tendões a rebentar e osso a estalar ecoou pela igreja.
Eles arrancaram o braço de Kain pela raiz.
Uma fonte de sangue arterial jorrou pelo ombro mutilado. Mas Kain não parou. Mutilado, deitado numa poça do seu próprio sangue, ele continuou a tentar arrastar-se com as pernas na direção das escadas, rosnando através dos dentes partidos.
O Papa olhou para aquilo e começou a sorrir. Um sorriso largo demais.
Mathew saltou os últimos degraus e ergueu o castiçal atrás do Papa, pronto para esmagar-lhe o crânio. Mas, antes que a arma descesse, um dos bispos virou as costas da mão num movimento casual. As costas da mão da criatura atingiram o rosto de Mathew com o peso de uma bigorna. Mathew voou pelo ar, apagando antes de o corpo embater ruidosamente contra o mármore.
O Papa nem sequer se dignou a olhar para trás. Ele ergueu a fina adaga de osso, pronto para rasgar o peito de Lara.
— Ego sum Alpha et Omega; finis tuus initium meum est.
O sussurro foi baixíssimo. Mas engoliu todo o som da Basílica de São Pedro.
No mesmo instante, o Papa parou. A adaga congelou a centímetros da pele de Lara. Todos os padres, bispos e criaturas no salão paralisaram como estátuas de granito. O ar tornou-se tão denso e pesado que a gravidade pareceu multiplicar-se. Respirar era como inalar chumbo.
O encapuzado caminhava lentamente pelo corredor central.
O Papa baixou a mão com a adaga. Uma risada feia, arrastada e angustiante escapou dos lábios do pontífice.
— A tua presença parecia-me familiar... *Nefando* — sibilou o Papa.
Kain olhou para cima com o seu único olho, ofegante, a poça de sangue a aumentar sob si. O encapuzado aproximou-se do altar, parando no final da escadaria, a poucos metros do Papa e de Lara.
— Foi um erro ter vindo até aqui sozinho... padre — concluiu o Papa.
Dois degraus abaixo, Mathew acordou num sobressalto, sugando o ar com força. Sentia o gosto a sangue e osso partido na boca. Olhou em volta. Estava tudo num silêncio tumular. As criaturas estavam estáticas. Ele pestanejou, a mente atordoada. Teria acabado?
O homem ergueu as mãos e atirou o capuz para trás.
Os cabelos brancos e curtos, os óculos antiquados, o rosto insondável.
Kain viu-o e a fúria sobrepôs-se à agonia. Mutilado e sem olho, ele cuspiu sangue e gritou do fundo da alma:
— GABRIELE!!!
O Papa soltou uma gargalhada ensurdecedora. Uma risada que vibrou nos vitrais e fez as orelhas de Mathew sangrarem. Mathew percebeu com horror puro: aquilo não era o Papa. Nem de longe. O bispo ferido tentou rastejar em direção a Kain, mas percebeu que ninguém o impedia. Todos estavam parados. Focados unicamente na figura de Gabriele.
— O homem santificado... — a coisa no corpo do Papa continuou, ajeitando as vestes. — Ou melhor, Deo et Diabolo Reiectus.
Gabriele suspirou suavemente, sem tirar os olhos do falso pontífice.
— Hum... sinto falta desses nomes.
— Não podias entrar aqui, Gabriele — o falso Papa apontou a adaga fina. — Sabes o preço por profanar as minhas portas. Tu deste-nos os Filhos de Set.
Ao ouvir aquilo, Kain tentou levantar-se, impulsionando-se com os joelhos no sangue. Gabriele olhou-o de soslaio, a voz fria como gelo:
— Poupa o teu esforço, garoto.
O padre voltou a olhar para o altar.
— Eu dei-os a vocês. Mas preciso do garoto.
O Papa riu novamente, balançando a cabeça.
— Nunca. A tua alma já não tem valor nenhum no mercado de cima ou no de baixo, Gabriele. E o Senhor está à nossa espera. O sacrifício dela abrirá a porta.
Gabriele endireitou as costas. Os seus olhos brilharam com uma escuridão que parecia mais antiga do que as próprias paredes do Vaticano.
— Esqueceste-te de quem eu sou... Samael!
O nome rasgou o ar como um chicote elétrico. O rosto do Papa distorceu-se num esgar de ódio irracional.
— COMO OUSAS CITAR O MEU NOME?! — rugiu Samael. O chão da basílica tremeu. Os bancos de madeira lá atrás estalaram.
Gabriele sorriu. Um sorriso cruel.
— Malditos anjos. Acham mesmo que são especiais? Vocês devem-me. Devem-me por eu vos ter deixado vivos. Devem-me por vos ter deixado brincar às divindades e fazerem o que quiseram com este mundo durante tanto tempo.
A fúria divina engoliu as feições do Papa.
— CALADO! — Samael apontou a mão velha para Gabriele. — Segurem-no!
Ninguém se mexeu. A força da presença de Gabriele mantinha-os pregados ao chão.
Samael ergueu os punhos e urrou o comando numa língua anterior ao latim:
— TENET!
A magia de contenção partiu-se. Dezenas de padres e bispos atiraram-se escada abaixo, como uma avalanche de garras e dentes, correndo na direção de Gabriele.
Gabriele não olhou para a horda. Avançou rápido para Kain e agarrou-o pela gola do casaco, levantando o corpo mutilado do rapaz apenas com uma mão.
— Sai de perto de mim, seu merda mentiroso! — gritou Kain, debatendo-se, o sangue esguichando do coto do ombro a cada movimento brusco.
— Acalma-te, garoto — disse Gabriele, a voz vazia de emoção. — Abre a boca.
— O quê?! — Kain arregalou o único olho.
Gabriele não esperou. Movendo-se numa velocidade ofuscante, o padre forçou os dedos por entre os dentes de Kain. Kain mordeu-o com força, rosnando, mas Gabriele ignorou a dor. Ele alcançou a base da língua de Kain, onde a verdadeira origem da marca estava selada na carne, e puxou brutalmente.
Kain não conseguiu gritar. O som de tecido muscular a romper-se afogou-se numa torrente de sangue que lhe encheu a garganta. Gabriele arrancou-lhe a língua inteira de uma só vez, ensopando a mão de vermelho.
No altar, os olhos de Samael esbugalharam-se em choque e fúria. A âncora tinha sido removida.
— NÃO!!! — gritou o Anjo da Morte.
Num ato de pura retaliação e ódio, Samael inverteu a adaga de osso e cravou-a até ao cabo no peito de Lara.
O corpo da mulher arqueou violentamente sobre o mármore.
Kain grunhiu, engasgado no próprio sangue mutilado. O seu olho arregalou-se, vendo Lara cair inerte enquanto o som macabro da lâmina a perfurar osso enchia o salão.
Todos em volta pararam. O choque da ação interrompeu o avanço da horda.
Gabriele não hesitou. Segurando Kain — que agora era uma massa inerte e convulsiva de carne e sangue —, o padre envolveu-os nas sombras do pilar mais próximo e, num piscar de olhos, evaporou no ar, fugindo do Vaticano.
Mathew ficou para trás, esquecido no chão da escadaria. Paralisado de pavor, ele olhava para a cena que restara. Samael estava em pé no altar, a lâmina sangrenta ainda presa no coração de Lara, encarando fixamente as sombras vazias por onde Gabriele e Kain tinham escapado, a raiva a ferver nos olhos roubados do Papa.
O ÚNICO CAMINHO
O silêncio que se abateu sobre o altar do Vaticano era mais denso do que a morte.
Samael e a sua horda tinham partido, evaporando-se nas sombras assim que a âncora de sangue fora arrancada e o prémio principal lhes escapara por entre os dedos. O que restou na Basílica foi um cemitério profanado de vestes sagradas e mármore estilhaçado.
No meio daquele abatedouro vazio, Mathew arrastou-se pelo chão. O rosto do padre estava desfigurado pelo golpe, o olho esquerdo inchado e fechado pelo sangue pisado. Ele tossiu, cuspindo pedaços de dentes. Ignorou a dor excruciante nas costelas e rastejou até aos degraus do altar.
Lara estava lá. O lençol branco agora tingido de escuro, o peito aberto pela adaga de osso. Ela não respirava. Mathew olhou para o rosto pálido da mulher que pagara o preço de uma guerra que não era dela. O padre tremeu, mas a lucidez tomou conta dele. Com um esforço sobre-humano, ele puxou o corpo inerte de Lara, envolvendo-a nos lençóis manchados, e carregou-a para longe daquele lugar maldito. Não a deixaria ser devorada quando os corvos voltassem.
A quilómetros dali, rasgando as estradas de terra nos arredores de Roma, um velho sedã negro cortava a escuridão.
Ao volante, o Padre Gabriele conduzia com a frieza de uma estátua. As mãos sujas de sangue apertavam o volante. No banco de trás, o cheiro metálico da morte inundava o veículo.
Kain estava a esvair-se. Sem o braço esquerdo, sem o olho direito, e com a boca a transbordar de um vermelho espesso e borbulhante onde antes existia a sua língua. O rapaz debatia-se em espasmos de agonia. A febre da infecção e o choque da mutilação atiravam-no para um delírio febril.
Através do sangue que lhe engasgava a garganta, Kain tentava gritar. Os sons que saíam eram grunhidos úmidos, sílabas desfeitas num engasgo patético e dilacerante. Mas Gabriele sabia o que ele tentava dizer. A cadência do gemido era sempre a mesma. Ele chamava por Lara.
Gabriele olhou pelo espelho retrovisor. O rapaz que ele criara estava reduzido a carne mutilada.
Durante milénios, as escrituras ocultas ditaram a regra absoluta: nenhum *Filho de Set*, a oferenda viva, pode fugir ao sacrifício. A marca exige o sangue, e o firmamento cobra a dívida. Mas, enquanto ouvia Kain a sufocar na própria dor e a recusar-se a apagar, Gabriele sorriu de canto. As escrituras estavam erradas. Havia uma falha na profecia. Havia um caminho. E apenas um homem na história da humanidade fora capaz de sobreviver para provar o contrário. O seu nome era Kain. E ele ainda respirava.
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Sete meses depois.
O calor dentro da pequena igreja de madeira era sufocante. A cidade, escondida no interior poeirento, era um reduto de fanatismo isolado do mundo. Centenas de fiéis suavam nos bancos apinhados, os olhos vidrados na figura no altar.
O Pastor Ezequiel caminhava de um lado para o outro, o microfone colado aos lábios, a voz a trovejar, cuspindo perdigotos de ódio mascarado de fé.
— Não há outro Deus! — berrava ele, apontando o dedo trémulo para o teto. — Não se deixem enganar pelos falsos cordeiros lá fora! Aqueles que acendem velas aos mortos, aqueles que rezam para santos de gesso, para espíritos imundos das matas, aqueles que dividem a glória do Senhor com ídolos forjados pelo Diabo... todos eles arderão! O inferno foi criado para os devorar! A pele deles derreterá nos lagos de enxofre, e o grito de agonia dessa escumalha idólatra será a música que tocará no nosso paraíso! Apenas nós somos a verdade! O resto é lenha para a fornalha eterna!
A congregação gritou "Amém" num êxtase doentio, os rostos contorcidos de fervor.
De repente, o som áspero das portas duplas da entrada a abrirem-se rasgou o fanatismo.
O vento parou. O calor doentio da igreja pareceu congelar num instante.
Clap. Clap. Clap.
Palmas lentas, compassadas, ecoaram pelo corredor central.
Uma mulher caminhava calmamente em direção ao altar. O som dos seus saltos contra a madeira rangia num ritmo hipnótico. Ela usava um vestido escuro, e o seu rosto era de uma beleza pálida e apática. Mas havia algo profundamente errado com ela. Uma sombra que parecia engolir a luz das lâmpadas fluorescentes à medida que avançava.
O silêncio caiu sobre os fiéis. O pastor parou no meio do altar, o microfone a tremer na mão.
— Interessante, pastor — disse a mulher. A voz dela não precisava de microfone. Ecoou diretamente no crânio de cada pessoa ali dentro. — Por que é que a sua fé se sobressai das outras religiões?
Ezequiel estufou o peito, agarrando-se à arrogância da sua autoridade.
— Porque o Senhor é a verdade e a vida! Ele é o único caminho, mulher! E tu não pertences a esta casa!
A mulher parou no sopé do altar. E riu.
Não foi uma risada humana. O som saiu entrecortado, falhando como um disco arranhado, sobrepondo-se em três tons diferentes — uma criança a chorar, um homem a rosnar e uma mulher a suspirar. O som gerou um arrepio primitivo na espinha de todos os presentes. Algumas mulheres na primeira fila começaram a chorar sem saber porquê.
O pastor engoliu a seco, o suor frio a escorrer pela testa.
— Quem és tu? — exigiu ele, a voz a fraquejar.
A mulher inclinou a cabeça, os olhos negros fixos nele.
— Sou filha d'Ele. Como todos vocês são.
O pastor apontou o dedo, tentando recuperar o rebanho.
— Então senta-te, irmã! Absorve a verdade do teu único Deus e arrepende-te dos teus pecados, antes que o fogo te consuma!
A mulher sorriu. A pele do rosto dela pareceu esticar-se demasiado sobre os ossos.
— Pecados, pastor? — Ela deu mais um passo. — Como o seu? O pecado de praticar pedofilia? Ou o pecado da sua digníssima esposa, sentada ali na primeira fila, que abre as pernas para metade dos maridos das irmãs desta mesma igreja logo após os cultos de domingo?
Um murmúrio de choque absoluto explodiu na igreja. As cabeças giraram freneticamente. A esposa do pastor empalideceu, paralisada no banco.
Ezequiel entrou num pânico cego. O rosto avermelhou-se de fúria.
— Como ousas?! — berrou ele, a voz esganiçada. — Como ousas entrar na casa do Senhor e falar tais mentiras sobre o meu casamento sagrado?! Demónio! Blasfémia!
— Sagrado? — A mulher soltou um estalo com a língua. Tsc. Tsc. Tsc. — Mentir na casa de Deus? Que feio, pastor.
Num movimento rápido, que os olhos humanos não conseguiram processar, a mulher atirou a mão para as sombras ao lado dos primeiros bancos e puxou alguém. Uma força impossível atirou uma pequena menina para a frente dela.
A criança devia ter uns sete anos. Tremia dos pés à cabeça, agarrando um pequeno urso de pelúcia encardido.
O pastor estacou. Os olhos dele arregalaram-se, reconhecendo a garota instantaneamente. O sangue fugiu-lhe do rosto.
— Diga, menininha — sussurrou a mulher, acariciando os cabelos da criança com uma doçura macabra. — O que este homem santo fez com você?
O silêncio na igreja era ensurdecedor. A criança olhou para os sapatos do pastor e, com a voz embargada e inocente, começou a falar.
— Ele... ele entrou na minha casa quando os meus pais saíram para trabalhar. Ele mandou-me despir. Ficou a tocar-me... e pediu para tomar banho comigo.
As palavras bateram como tijolos no peito da congregação. A mulher sorriu largamente.
— Sério? E o que mais, querida?
— Eu disse que não precisava — a menina soluçou, encolhendo os ombros. — A minha mãe disse que ninguém me podia ver a tomar banho. Mas ele... ele empurrou-me. Trancou a porta da casa de banho. E lá dentro, ele fez coisas que me magoaram muito.
O arrebentar da barragem foi instantâneo.
— JÁ CHEGA! — Um homem encorpado, diácono da igreja, saltou do banco na terceira fila. O rosto dele estava transfigurado de ódio. — SEU PASTOR DE MERDA!
Ele correu pelo corredor, subiu o altar de um salto e atirou-se sobre Ezequiel com a força de um touro. Os dois caíram no chão, e o som de carne a ser esmurrada irrompeu na igreja.
A mulher atirou a cabeça para trás e a sua risada distorcida, aguda e avassaladora, preencheu o ambiente. A presença dela ativou uma influência demoníaca invisível. A histeria coletiva tomou conta do recinto sagrado.
Enquanto o pastor era esmurrado até o sangue começar a jorrar sobre os tapetes vermelhos do altar, a mulher não parou. Aumentou o tom de voz, que agora soava como trombetas fúnebres na mente da multidão.
Ela começou a recitar os nomes. Um por um. Os homens com quem a esposa do pastor se tinha deitado.
Ouvindo os nomes dos seus maridos a saírem da boca daquela entidade, as mulheres da congregação enlouqueceram. O verniz do conservadorismo e da santidade quebrou-se. Esposas atiraram-se contra os maridos, cravando as unhas nos seus rostos. Maridos tentavam sufocar as mulheres que os acusavam. Homens espancavam-se com os hinários pesados de capa dura.
A igreja virou um poço de carnificina humana. Ossos a quebrar, dentes a voar, gritos de fúria e esguichos de sangue a pintar as paredes de madeira e os vidros das janelas. A hipocrisia estava a devorar-se a si mesma, movida por uma raiva incontrolável. Todos se matavam. Um por um.
A mulher fechou os olhos, respirando o cheiro do caos e do sangue como se fosse o incenso mais puro.
Quando abriu os olhos novamente, dezenas de corpos mutilados pelos próprios vizinhos e familiares forravam o chão. Ninguém mais respirava, a não ser a garotinha que fora abusada.
A menina continuava parada no exato mesmo lugar, o urso apertado contra o peito, observando o banquete de atrocidades sem derramar uma única lágrima. Os seus olhos infantis refletiam o sangue fresco de Ezequiel, que jazia com o crânio esmagado no altar.
A mulher sorriu. Ajoelhou-se graciosamente à frente da menina, o vestido escuro a tocar a poça de sangue que escorria dos degraus, e estendeu-lhe a mão.
— Vamos, criança... — a voz da mulher agora era suave, fria e absolutamente letal. Ela olhou para a cruz manchada de vermelho no fundo da igreja. — Pois Cristo retorna.
FIM.