A madeira úmida do assoalho rangia com o peso de algo que não deixava pegadas, enquanto o cheiro ácido de querosene e mofo impregnava o ar frio daquela noite de 1925. No quarto tétrico iluminado apenas pelo bruxulear fraco de uma vela de cebo, Mark tentava conter o próprio grito mordendo o punho até sentir o gosto metálico de seu próprio sangue. Nas suas costas, a Marca do Sacrifício não era apenas um símbolo: era uma chaga viva, uma carne rasgada de onde escorria um pus escuro e quente que manchava o linho pesado de sua camisa.
Em 1925, a fé não trazia consolo; trazia uma sentença. O silêncio do céu sobre aquele vilarejo isolado era mais cruel do que qualquer ameaça verbal. Para Mark, aos seus dezesseis anos, a figura do Criador havia deixado de ser a de um pai misericordioso para se tornar a de um arquiteto perverso — alguém que olhava para a dor humana não com compaixão, mas com a indiferença de um açougueiro diante do rebanho.
— Ele não está ouvindo, garoto — sussurrou uma voz que parecia vir de dentro das próprias paredes encharcadas pela chuva, um som seco como o roçar de asas secas de insetos. — O Deus que você invoca no seu terço é o mesmo que desenhou o altar onde você vai sangrar. Anjos e demônios vestem a mesma roupagem quando o assunto é a sua carne.
O ambiente ao redor de Mark parecia se decompor em tempo real. O gesso do teto estalava, soltando poeira sobre a mesa onde uma Bíblia antiga repousava com as páginas corroídas pela umidade. A cada batida do seu coração acelerado, a dor nas costas se intensificava, como se agulhas em brasa estivessem costurando sua alma à carne do mundo. Ele sabia que o alinhamento profano se aproximava. O ano de 1925 marcava a terceira etapa de um ritual geracional que começou muito antes e que só terminaria quando o último Filho de Set fosse consumido.
Do lado de fora, no pátio coberto pela névoa espessa da madrugada, as galinhas e os cães da propriedade já haviam se calado — não por sono, mas pelo pavor de algo que espreitava no limite das sombras. Duas figuras altas e sem rostos definidos permaneciam estáticas sob a chuva fina: uma envergava vestes brancas imaculadas que não se molhavam, a outra carregava trapos negros cobertos de fuligem. Ambas olhavam para a janela do quarto de Mark, não como inimigas em guerra, mas como cúmplices em perfeita harmonia, aguardando o momento exato em que o sangue do Terceiro Filho amadurecesse para a colheita.
Mark caiu de joelhos sobre o chão frio, as mãos trêmulas agarradas ao peito enquanto o tecido de sua camisa grudava na ferida aberta. Ele olhou para a parede de tábuas e viu a sombra de sua própria figura distorcida pela luz da vela — mas a sombra não se mexia quando ele se mexia. A sombra permaneceu ereta, encarando-o com dois pontos brilhantes onde deveriam estar os olhos, antecipando o pesadelo e a grande farsa sobre a qual todo aquele universo fora construído.
A jornada de Mark em 1925 não seria uma história de salvação ou martírio sagrado, mas o relato claustrofóbico de uma alma encurralada no centro de uma mentira divina.
CAPÍTULO 1
Em 1925, a fé em nosso vilarejo não era um escudo; era uma coleira, apertada o suficiente para sufocar qualquer resquício de alegria. Cercada por uma floresta densa e impenetrável, a vila tinha um único farol para a sanidade: um lago de águas paradas e escuras. Ele era a bússola daqueles que precisavam adentrar a mata em busca de caça e o guia de retorno para os que se perdiam nas sombras das árvores. Mas o lago carregava uma lei absoluta, cravada na mente de cada morador: *ninguém jamais deveria tocar em suas águas.* A lenda antiga ditava que o lago era sagrado, um espelho do julgamento divino. Aquele que ousasse molhar os pés nele não apenas se amaldiçoaria, mas arrastaria a cólera dos céus sobre todas as casas da vila. Homens se revezavam nas margens com espingardas e tochas, garantindo que a pureza do lago permanecesse intocada pela imundície humana.
A vila era erguida sobre a madeira e o fanatismo. Seus habitantes eram cegos pelo temor a um Deus implacável. Tudo o que fugia à rigidez das escrituras era um pecado mortal com cheiro de enxofre. O clima era tão pesado, tão carregado de vigilância e culpa, que um simples sorriso no meio da rua era motivo de desconfiança. Sorrir era abaixar a guarda. Sorrir era flertar com o maligno, pois a religião exigia uma devoção forjada na dor e no temor constante.
Toda decisão, todo conflito e todo castigo passavam pelo Senhor da Vila, o homem mais velho do assentamento. Ele era a voz de Deus na terra, o juiz de cabelos brancos e pele enrugada a quem todos prestavam obediência cega.
Para Mark, no entanto, o inferno não era uma promessa após a morte; era a rotina de sua casa.
Sua família era a espinha dorsal da vila. Eram marceneiros. As casas, os móveis, os caixões — tudo nascia das mãos caladas de seu pai e do suor de Mark. Mas não havia amor naquela oficina, apenas o som seco do martelo e o cheiro de serragem que tentava disfarçar algo muito pior. O pai de Mark era um homem duro como carvalho velho, que governava a casa no mais absoluto silêncio. Não falava; apenas apontava, gesticulava ou lançava olhares carregados de desprezo. A mãe, pálida e submissa, era uma sombra que obedecia às ordens mudas do marido com a cabeça baixa.
O silêncio do pai tinha um motivo claro: nojo.
Mark carregava nas costas uma chaga que nunca fechava. A Marca. Não era um símbolo místico e belo, mas uma ferida purulenta, de bordas necrosadas, que exalava um cheiro insuportável de carne podre e sangue estragado. O fedor impregnava as roupas do garoto, a madeira que ele cortava e o ar por onde ele passava. Na vila, as pessoas atravessavam a rua para não cruzar com ele. Ninguém suportava ficar a menos de três metros de distância. O pai o olhava não como um filho, mas como um animal doente que ele não tinha coragem de abater. A única que se atrevia a chegar perto era sua mãe, que, no calar da noite, lavava as costas do rapaz com panos úmidos e lágrimas silenciosas. Não adiantava nada. O cheiro da putrefação sempre voltava, mais forte.
Até que veio a madrugada que mudaria tudo.
O sol ainda não havia rompido a linha das árvores. O frio da névoa de 1925 abraçava as casas de madeira quando um som rasgou o silêncio fúnebre do vilarejo. Não era o sino da capela. Era uma voz. Alta, gutural e carregada de um desespero que arranhou os ouvidos de todos os moradores.
O chefe do vilarejo estava de pé no centro da praça de terra batida, gritando para a escuridão.
Lampiões começaram a acender. Portas rangeram. Os moradores, enrolados em cobertores e casacos pesados, saíram para a rua, sonolentos e assustados. Mark saiu de sua casa, parando no degrau da varanda, com o pai e a mãe logo atrás.
O velho líder não parecia o juiz severo de sempre. Seus olhos estavam arregalados, injetados de sangue, refletindo a luz trêmula das lanternas dos moradores que se aglomeravam. Ele não olhava para ninguém em específico; ele olhava para *além* deles.
— DEUS TEM UM PROPÓSITO PARA CADA UM DE VOCÊS! — a voz do ancião ecoou, grossa e anormal, batendo contra as fachadas das casas. — Alguns nasceram para amar... outros para sofrer... e aqueles que nasceram para servir de Exemplo!
Um murmúrio de confusão e medo varreu a multidão. O pai de Mark franziu a testa, o maxilar travado em reprovação diante daquela quebra de ordem.
— Não tenham medo da morte, meus filhos! — continuou o velho, as mãos tremendo no ar gélido. — A morte é apenas uma porta. O verdadeiro horror começa quando vocês descobrem quem está esperando do outro lado!
O ar pareceu congelar. A heresia daquelas palavras paralisou a todos. Onde estava o discurso de salvação? Onde estava a promessa do Paraíso?
— Esta noite, alguns de vocês serão chamados! — O ancião deu um passo à frente, a saliva escorrendo pelo canto da boca. — E quando ouvirem seus nomes... NÃO RESPONDAM! Não importa se a voz vier do teto, debaixo dos seus pés ou de dentro da própria cabeça!
Mark sentiu um calor úmido e terrível se espalhar por suas costas. A Marca despertou. Como se as palavras do velho fossem combustível, o rasgo na pele latejou violentamente. O sangue escuro e o líquido amarelado começaram a vazar em abundância, encharcando a camisa do garoto.
O fedor ferroso e pútrido atingiu o nariz das pessoas próximas. A multidão recuou, cobrindo os rostos, olhando para Mark com asco.
O ancião não parou. Ele ergueu as mãos para o céu escuro, mas não em adoração. Era em terror.
— Porque nem toda voz que conhece o seu nome veio para salvá-lo! — Ele gritou, a garganta quase rasgando, enquanto lágrimas de pânico escorriam por suas rugas. — E se ouvirem a voz de "Deus"... CORRAM!
O silêncio que se seguiu foi o som do próprio abismo se abrindo debaixo da vila. O choque absoluto paralisou os fanáticos. Dizer para correr de Deus era o maior dos pecados, a blasfêmia final.
O cheiro que exalava de Mark tornou-se insuportável. Seu pai olhou para a camisa ensanguentada do filho, o rosto contorcido de nojo e ódio. Sem dizer uma única palavra, o homem virou as costas e se afastou, entrando em casa e fechando a porta, deixando Mark sozinho no degrau, exposto à multidão e ao frio.
Mark não chorou. Já estava acostumado ao abandono. Ele apenas apertou o próprio punho, suportando a dor excruciante nas costas, e voltou seu olhar para o líder do vilarejo.
O ancião abaixou os braços lentamente. Seu olhar ensandecido percorreu os rostos apavorados de seu rebanho até parar e se fixar, com um sorriso quebrado e macabro.
— Ele... — sussurrou o velho, mas a voz carregou pelo vento até os ouvidos de cada morador. — Ele finalmente encontrou vocês.
CAPÍTULO 2
As palavras do ancião pairaram sobre a vila como uma nuvem de cinzas, mas o medo do pecado era maior do que o instinto de sobrevivência. Em silêncio, a multidão se dissipou. Ninguém ousava discutir os desígnios que vinham da boca do líder. O terror foi engolido a seco, e os moradores voltaram aos seus deveres de cabeça baixa, fingindo que a promessa de perdição não passara de um devaneio matinal.
Na varanda, a mãe de Mark esfregou as mãos trêmulas no avental e olhou para o filho, ignorando a mancha escura de sangue e pus que já secava na camisa dele.
— Pegue seu machado, Mark — ela disse, a voz embargada pela tensão. — Seu pai precisa de madeira nova para as tábuas. Vamos logo.
O garoto assentiu em silêncio. Pegou o machado pesado encostado na parede da oficina e seguiu os passos apressados da mãe em direção à linha das árvores.
A floresta ao redor do vilarejo amanhecera submersa em uma neblina tão densa e branca que parecia leite derramado. O ar era gélido, úmido e cheirava a musgo podre. A cada passo, as árvores retorcidas desapareciam engolidas pelo nevoeiro, reduzindo o mundo a um raio de poucos metros de visão.
— Fica perto de mim, Mark — avisou a mãe, não ousando levantar muito a voz. — Como não estamos enxergando o chão, corremos sérios riscos de esbarrar na margem do lago e escorregarmos. Você sabe o que acontece com quem toca naquelas águas.
— Sim, mãe — respondeu ele, apertando o cabo de madeira do machado.
Eles caminharam com lentidão aterradora até encontrarem um tronco largo e caído que servia para o corte. Mark desferiu o primeiro golpe. O som da lâmina rachando a madeira ecoou abafado pela névoa. Ele ergueu o machado para o segundo golpe, mas parou no meio do ar.
Um grito rasgou o silêncio da floresta.
Era um som humano, agudo e desesperado, como o de uma mulher cujas cordas vocais estivessem sendo esfoladas vivas.
A mãe de Mark arregalou os olhos, mas rapidamente forçou os ombros a relaxarem.
— Ignora, Mark — ela sussurrou, catando alguns galhos do chão com pressa. — A floresta tende a pregar peças na mente das pessoas. É o vento. Volte a cortar.
— Mas, mãe... — Mark hesitou, olhando para o véu branco de neblina de onde o som viera. — Tem alguém gritando. Parece mesmo uma mulher.
— Ignore! — ela cortou, com uma agressividade nascida do pânico. — Vamos logo com isso. Aqui é perigoso.
Mark acelerou. Os golpes caíam rápidos, o suor misturando-se à dor latente em suas costas. Assim que juntaram as hastes e as toras menores nos braços, viraram-se para refazer o caminho de volta. O chão estava liso. Eles deram três passos até que o som de algo molhado cedeu sob a bota da mãe. Squelch.
Ela travou no mesmo instante, o corpo inteiro rígido como pedra.
— Parado! — ela gritou num sussurro rasgado. — Não se mexa, Mark!
O garoto congelou, os músculos travados. A mãe olhou devagar para baixo. A bota dela estava afundada em uma lama negra e fétida. A neblina se dissipou rasteira apenas o suficiente para revelar a borda de águas escuras e paradas a centímetros de seus pés. O lago sagrado.
— Droga... — ela xingou, o rosto pálido perdendo o resto de cor que tinha. — Mark... anda para trás. Devagar, para não escorregar.
Mark deu um passo para trás. Cauteloso. Lento. A mãe fez o mesmo, libertando a bota da lama negra com um som de sucção.
Assim que os dois se distanciaram da margem, o grito soou novamente.
Dessa vez, não era um lamento distante. Soou absurdo, inumano, quebrado — e estava bem atrás deles.
A mãe de Mark soltou um soluço de pavor, largando as madeiras menores. Ela procurou desesperadamente a origem do som na névoa, mas não viu nada além de sombras.
— Corra! — ela ordenou, agarrando um galho grosso como arma e empurrando o filho. — Corre, Mark!
Eles dispararam, dando a volta pelo perímetro invisível do lago em direção à vila. O grito estourou de novo, agora muito mais alto, vibrando no peito de Mark. Era um som de caçada. A coisa na névoa não estava sofrendo; estava procurando por eles. Galhos grossos começaram a estalar e quebrar violentamente logo atrás de suas costas, como se algo pesado e rápido estivesse rasgando a floresta para alcançá-los.
A respiração de Mark queimava. A marca em suas costas latejava em sincronia com os passos pesados que o perseguiam.
Através do nevoeiro, a mãe viu a silhueta das primeiras casas de madeira da vila. A salvação. Mark estava logo atrás dela, o som da respiração dele ofegante.
O grito da mulher eclodiu a meros palmos da nuca do garoto.
— NÃO OLHA PRA TRÁS, MARK! — a mãe berrou, as pernas falhando enquanto ela cruzava a linha da floresta e pisava na terra batida da vila.
Ela conseguiu sair. Virou o corpo rapidamente para puxar o filho, ofegante, esperando vê-lo cruzar a margem. Mark estava quase lá. Faltava um único passo.
Mas algo agarrou o braço do garoto com uma força brutal.
Mark foi puxado para trás. Ele perdeu o equilíbrio e caiu com um baque surdo de peito no chão, o machado voando de sua mão.
— MARK! — a mãe gritou, caindo de joelhos para tentar alcançá-lo.
Foi então que a névoa cedeu. A figura que segurava o braço de seu filho emergiu parcialmente das sombras. Tinha o formato de uma mulher, mas as proporções estavam erradas. O corpo era esguio demais, vestido em farrapos ensopados com a água negra do lago.
A mulher lentamente inclinou a cabeça para o lado em um ângulo que quebraria o pescoço de qualquer humano. Ela cravou os olhos na mãe de Mark. O rosto era uma abominação — retorcido, pálido como um cadáver afogado e deformado de um jeito que a mente se recusava a processar. E então, a criatura sorriu. Foi um sorriso tão grotesco, escancarado e perturbador, revelando dentes podres e compridos, que a mãe de Mark sentiu o suor frio escorrer por sua espinha, o corpo inteiro tremendo em puro choque primitivo.
Com um puxão violento, a criatura arrastou Mark para dentro da escuridão da floresta.
— MÃE! — o grito do garoto rasgou a vila, as unhas cravando na terra batida, deixando marcas de desespero no chão. — ME AJUDA! MÃE!!!
— MARK! — ela berrou de volta, a voz falhando em puro horror.
As portas da vila se abriram. Os moradores, atraídos pelos gritos, testemunharam a cena estáticos, engolidos pelo pavor. Antes que a mãe pudesse se levantar para mergulhar na floresta atrás do filho, mãos ásperas e fortes a agarraram pelos ombros.
Era o chefe da vila.
— Deixe-o — a voz do ancião soou fria e resoluta acima do caos. — Já não há mais nada a se fazer. Deus o encontrou.
A mãe olhou para o velho, os olhos arregalados, injetados de loucura e espanto.
— Não! — ela gritou, debatendo-se. Com um solavanco, ela se soltou do ancião, levantando-se com tudo para correr direto para as árvores amaldiçoadas.
Mas uma mão pesada como chumbo agarrou seu pulso, travando-a no lugar. Ela olhou para trás, ofegante. Era seu marido. O pai de Mark.
Ele a segurava com firmeza inabalável.
— Ajuda seu filho! — ela implorou, as lágrimas lavando seu rosto, a voz destruída. — Ele foi levado! Solta, temos que ir atrás dele!
O pai de Mark olhou para o vazio escuro da floresta, de onde os gritos do filho já não podiam ser ouvidos. O maxilar dele estava tenso, mas seus olhos não carregavam tristeza. Apenas conformismo e uma frieza cadavérica. Pela primeira vez em anos, ele abriu a boca para falar. Sua voz soou como terra seca caindo sobre um caixão.
— Ele já foi.
A mãe o encarou. O choque daquelas palavras quebrou o último pilar de força que sustentava suas pernas. Ela soltou um gemido surdo, a surpresa e a agonia fundindo-se em um único sentimento. Suas pernas cederam, e ela caiu de joelhos na terra fria. Ali, diante da floresta negra que engolira seu único filho, sob o olhar silencioso de um vilarejo que não se importava, ela começou a chorar.