O Silêncio Entre as Notas
Capítulo 1 — A Casa que Ainda Escutava
A casa dos Rivers era grande demais para três pessoas.
Grande demais para Diane, para sua mãe e para a memória de alguém que já não ocupava quarto algum.
Havia corredores onde o silêncio parecia mais antigo que os móveis. Salas que permaneciam fechadas por meses. Janelas altas demais para que uma pessoa pudesse abri-las sem esforço. Retratos de familiares mortos acompanhavam quem passava pelos corredores com a solenidade própria das famílias que haviam aprendido a transformar a própria história em decoração.
Do lado de fora, a propriedade se estendia por campos verdes até encontrar o lago.
Naquela manhã, a neblina estava baixa.
Diane Rivers observava-a da janela da biblioteca.
Segurava uma xícara de café que já havia esfriado havia vários minutos.
Não bebia.
Apenas a mantinha entre as mãos.
Aos trinta e dois anos, Diane tinha a aparência de alguém que aprendera cedo demais a economizar palavras.
Seus cabelos escuros estavam presos atrás da cabeça de maneira simples, sem o cuidado exagerado que sua mãe considerava necessário para uma mulher de sua posição. Vestia uma saia escura e uma blusa de mangas compridas. Nenhum colar. Nenhuma pulseira. Apenas um relógio pequeno no pulso esquerdo.
A governanta entrou discretamente.
— Senhorita Rivers?
Diane não se virou.
Pela maneira como a mulher pronunciara seu nome, já sabia que não se tratava do café da manhã.
— Minha mãe telefonou.
A governanta hesitou.
— Sim.
Diane continuou olhando o lago.
— Quando?
— Há cerca de quinze minutos.
— E o que ela deseja desta vez?
A pergunta não carregava raiva.
Isso tornava tudo um pouco pior.
A governanta aproximou-se.
Chamava-se Martha e trabalhava para a família havia mais de vinte anos. Conhecera Diane criança. Conhecera Eleanor.
Talvez por isso fosse uma das poucas pessoas na casa que sabia quando não insistir.
— Ela pediu que eu avisasse que voltará na sexta-feira.
Diane ergueu levemente as sobrancelhas.
— Sexta-feira?
— Sim.
— Ela não deveria estar em Boston?
— Houve uma mudança.
Diane finalmente tomou um gole do café.
Fez uma pequena careta ao perceber que estava frio.
— Minha mãe nunca muda uma viagem sem ter encontrado uma forma mais inconveniente de ocupar o próprio tempo.
Martha quase sorriu.
Quase.
— Ela também disse que receberemos uma hóspede.
Diane virou o rosto.
O olhar dela tinha uma particularidade que deixava algumas pessoas desconfortáveis.
Não era agressivo.
Era atento demais.
Diane olhava como quem retirava devagar as camadas de uma pessoa até alcançar aquilo que ela ainda não havia dito.
— Uma hóspede?
— Uma senhora chamada Marianne Lieberman.
Diane ficou imóvel por alguns segundos.
O nome não lhe era completamente desconhecido.
Ela o havia visto em jornais.
Talvez em uma revista.
Uma professora de música.
Piano, principalmente.
A compreensão chegou antes que Martha precisasse dizer qualquer coisa.
Diane colocou a xícara sobre a mesa.
— Não.
Martha suspirou.
— Diane...
— Ela contratou alguém.
— Eu não sei exatamente—
— Sabe.
Martha ficou em silêncio.
Diane desviou os olhos para a janela novamente.
A névoa sobre o lago começava a desaparecer.
— Minha mãe é uma mulher admirável.
— Diane.
— Ela consegue transformar preocupação em invasão com uma elegância impressionante.
— Talvez ela esteja apenas tentando ajudar.
Diane sorriu.
Não havia alegria alguma naquele sorriso.
— Pessoas que querem ajudar costumam perguntar onde dói antes de começar a apertar.
Martha observou-a por alguns instantes.
— Você não toca há muito tempo.
A mudança no rosto de Diane foi mínima.
Um pequeno endurecimento ao redor dos olhos.
Nada mais.
— Exatamente.
Martha compreendeu.
— Vou pedir para prepararem o quarto de hóspedes.
Diane fez um gesto leve com a cabeça.
A governanta caminhou até a porta.
Antes de sair, parou.
— Sua mãe sente sua falta.
Diane não olhou para ela.
— Minha mãe sente falta de muitas coisas.
Martha esperou.
Diane acrescentou:
— Quase nenhuma delas está viva.
A porta se fechou.
Diane permaneceu diante da janela.
Do outro lado da propriedade, o lago refletia o céu cinza.
E, junto à margem, quase escondida entre árvores antigas, estava a pequena casa do lago.
Por alguns segundos, Diane fixou os olhos nela.
Depois desviou.
---
O piano ficava na sala oeste.
Era um Steinway negro, enorme, impecavelmente conservado e completamente silencioso.
Diane não entrava naquela sala havia semanas.
Às vezes meses.
Naquele dia, entrou.
Não sabia exatamente por quê.
Talvez porque ouvir o nome de Marianne Lieberman tivesse feito a casa inteira parecer subitamente consciente da existência daquele instrumento.
As cortinas permaneciam fechadas.
Diane caminhou até o piano.
Parou diante dele.
Não levantou a tampa.
Passou apenas a ponta dos dedos sobre a madeira escura.
Uma camada fina de poeira não existia.
Naturalmente.
A equipe de empregados limpava o instrumento regularmente.
Como se esperassem alguém.
Diane retirou a mão.
Durante muitos anos, o piano havia sido a única coisa no mundo diante da qual ela não precisava pensar.
Depois Eleanor morreu.
E a música começou a pensar por ela.
Cada nota encontrava um lugar onde doer.
Cada melodia tinha algum fragmento da irmã.
A risada.
Os dedos errando uma escala.
Uma tarde de verão.
O cheiro de medicamentos.
Uma porta entreaberta.
A respiração fraca.
E a voz da mãe dizendo:
“Você deve continuar, Diane.”
Continuar.
Como se tocar pudesse impedir alguma coisa de terminar.
Diane caminhou para longe do instrumento.
Sobre uma pequena mesa, havia uma fotografia antiga.
Duas meninas.
Eleanor, aos dezesseis.
Diane, aos treze.
As duas estavam sentadas diante do piano da casa do lago.
Eleanor sorria para a câmera.
Diane olhava para Eleanor.
Isso sempre a incomodara.
Mesmo naquela idade, parecia que ela havia passado a vida inteira observando pessoas que acabariam indo embora.
Pegou a fotografia.
— Você sempre olhava para o lugar errado.
A voz surgiu atrás dela.
Diane não se assustou.
Virou-se devagar.
Margaret Rivers estava parada junto à porta.
Usava um elegante conjunto cinza, luvas claras e um chapéu perfeitamente alinhado com os cabelos. Aos cinquenta e oito anos, ainda carregava a beleza rígida de uma mulher acostumada a entrar em lugares e ser imediatamente notada.
Diane olhou para a mãe.
Depois para a mala que o motorista colocava no corredor.
— Sexta-feira chegou cedo.
Margaret tirou as luvas.
— Mudei meus planos.
— Martha mencionou.
— Pensei que você ficaria feliz em me ver.
— Pensou?
Margaret sustentou o olhar da filha.
Era uma das poucas pessoas que conseguia fazê-lo sem se sentir examinada.
Talvez porque tivesse criado aqueles olhos.
— Você poderia ao menos fingir.
Diane colocou a fotografia de volta.
— Nunca fui particularmente talentosa para mentir.
— Não. Apenas para tornar a verdade desagradável.
Diane inclinou levemente a cabeça.
— É uma arte subestimada.
Margaret respirou fundo.
Durante alguns segundos, nenhuma delas falou.
O relógio sobre a lareira marcou onze horas.
Margaret olhou para o piano.
Diane percebeu.
Naturalmente percebeu.
— Não.
Margaret voltou os olhos para ela.
— Eu não disse nada.
— Ainda.
— Marianne chega amanhã.
— Então mande-a embora amanhã.
— Não.
A resposta foi firme.
Diane encostou-se à lateral de uma cadeira.
— Há quanto tempo planeja isso?
— Algumas semanas.
— Algumas semanas.
— Diane—
— Você passou algumas semanas organizando a entrada de uma desconhecida na minha vida sem achar necessário informar a pessoa cuja vida estava organizando.
— Marianne não é uma desconhecida.
— Para mim, é.
— Ela é uma das melhores professoras de piano que encontrei.
Diane ficou olhando para a mãe.
Então sorriu.
Pequeno.
Quase triste.
— Claro.
Margaret estreitou os olhos.
— O que isso significa?
— Nada.
— Quando você diz “nada” dessa maneira, sempre significa alguma coisa.
Diane caminhou até a janela e abriu uma pequena fresta na cortina.
A luz cinzenta entrou na sala.
— Significa apenas que você continua procurando pessoas que possam devolver aquilo que perdeu.
Margaret ficou imóvel.
— Isso não tem relação com Eleanor.
Diane virou o rosto.
Seus olhos encontraram os da mãe.
Não havia raiva neles.
Só uma espécie de cansaço antigo.
— Tudo nesta casa tem relação com Eleanor.
Margaret empalideceu ligeiramente.
— Isso é injusto.
— Provavelmente.
Diane soltou a cortina.
— A verdade não tem obrigação de ser gentil.
Margaret aproximou-se.
— Você tinha uma carreira.
Diane não respondeu.
— Você tinha vinte e quatro anos e salas inteiras paravam para ouvi-la.
Silêncio.
— Pessoas viajavam para vê-la tocar.
Diane cruzou os braços.
— Imagino que tenham encontrado outras coisas para fazer.
— Você desperdiçou anos.
Agora os olhos de Diane mudaram.
Não muito.
Mas Margaret percebeu.
A filha baixou lentamente os braços.
— Cuidado.
— Com o quê?
— Com as palavras que escolhe.
Margaret ficou em silêncio.
Diane continuou:
— Algumas delas sobrevivem mais tempo do que as pessoas.
A mãe desviou os olhos primeiro.
Foi uma pequena vitória.
Diane não pareceu apreciá-la.
Margaret caminhou até o piano.
Tocou a madeira.
— Eleanor não gostaria disso.
Diane fechou os olhos por um instante.
Apenas um.
Quando voltou a abri-los, estavam frios.
— Não use uma morta para vencer uma discussão comigo.
Margaret retirou a mão do piano.
O silêncio tornou-se pesado.
Diane caminhou em direção à porta.
— Marianne ficará três meses — disse Margaret.
Diane parou.
Não se virou.
— Três meses?
— Foi o acordo.
— Desfaça.
— Não.
Diane permaneceu alguns segundos de costas para a mãe.
Então olhou sobre o ombro.
Havia algo quase sereno em sua expressão.
— Então não reclame quando a senhora Lieberman descobrir que dinheiro compra muitas coisas.
Margaret aguardou.
Diane concluiu:
— Mas não compra vontade.
E saiu.
---
No fim da tarde, Diane estava na casa do lago.
Era o único lugar da propriedade onde ninguém entrava sem sua permissão.
Ali, a madeira rangia.
As janelas não fechavam perfeitamente.
O tapete tinha pequenas manchas antigas.
As cortinas haviam perdido parte da cor.
Diane gostava daquilo.
Nada naquela casa fingia ser eterno.
Sentou-se perto da janela com um livro aberto sobre o colo.
Não lia.
Observava o lago.
O vento desenhava pequenas ondas sobre a superfície.
Por trás do vidro, seu reflexo aparecia misturado à água.
Durante algum tempo, pensou na mulher que chegaria no dia seguinte.
Marianne Lieberman.
Diane lembrava-se agora de onde vira o nome.
Uma matéria publicada dois anos antes.
“Uma educadora impiedosa com erros e generosa com talento.”
Diane quase sorriu.
Impiedosa.
Aquilo poderia ser divertido.
Ou profundamente irritante.
Provavelmente ambos.
Fechou o livro.
Atrás dela, coberto por um tecido bege, havia um pequeno piano vertical.
Diane não olhou diretamente para ele.
Mas sabia exatamente onde estava.
Sabia quantos passos separavam sua cadeira do banco.
Sabia qual tecla tinha uma pequena lasca no marfim.
Sabia qual nota desafinava durante o inverno.
Sabia tudo.
Ainda assim, não tocava.
Lá fora, o sol desaparecia atrás das árvores.
Diane encostou a cabeça no vidro.
E pensou que talvez o silêncio tivesse uma música própria.
Era apenas preciso permanecer tempo suficiente para escutá-la.
Na manhã seguinte, Marianne Lieberman chegaria à propriedade.
E, pela primeira vez em muitos anos, alguém entraria naquela casa sem compreender que certos silêncios não estavam esperando para ser quebrados.
Alguns estavam apenas esperando para ver quem teria coragem de permanecer diante deles.
O Silêncio Entre as Notas
Capítulo 2 — A Mulher do Outro Lado do Silêncio
Florença, Itália — 1954
Marianne Lieberman acreditava que havia uma diferença entre tocar uma música e compreendê-la.
A maioria de seus alunos chegava até ela sabendo a primeira coisa.
Poucos aprendiam a segunda.
— Outra vez.
O jovem sentado diante do piano ergueu os olhos para Marianne através do reflexo escuro da madeira.
— Professora, eu já toquei seis vezes.
— Eu contei sete.
— Então por que—
— Porque nas sete você cometeu o mesmo erro.
Ele soltou as mãos sobre as pernas.
Devia ter dezessete anos, talvez dezoito, e possuía aquela segurança própria dos jovens talentosos que ainda não haviam descoberto que talento algum os tornava imunes à mediocridade.
Marianne permaneceu atrás dele.
Não levantou a voz.
Nunca precisava.
— Qual foi o erro? — perguntou o rapaz.
— Se eu disser, você corrigirá porque eu disse.
— Não é esse o objetivo?
— Não.
O rapaz franziu a testa.
Marianne caminhou lentamente até o lado do piano.
Seus cabelos castanhos escuros estavam presos em um coque baixo, impecável, e o vestido cinza que usava parecia ter sido passado minutos antes, embora já fossem quase quatro da tarde.
Ela colocou a ponta dos dedos sobre a madeira.
— O objetivo é que você consiga ouvir quando estiver sozinho.
O rapaz olhou novamente para a partitura.
— Não estou ouvindo nada errado.
— Exatamente.
Ele suspirou.
Marianne percebeu.
Também percebeu que ele estava prestes a tocar novamente sem compreender.
— Levante.
O rapaz virou o rosto.
— Como?
— Você está cansado.
— Eu consigo continuar.
— Não disse que você não consegue. Disse que está cansado.
Ele permaneceu sentado.
Marianne esperou.
Algumas pessoas confundiam rigidez com impaciência.
Marianne não tinha pressa.
Essa era uma das razões pelas quais costumava vencer discussões.
Por fim, o rapaz levantou-se.
— Caminhe até a janela.
— Professora—
— Lorenzo.
O nome bastou.
Ele foi.
A sala dava para uma rua estreita de Florença. Do lado de fora, bicicletas passavam entre carros pequenos, vendedores conversavam junto às portas dos estabelecimentos e duas mulheres discutiam alguma coisa carregando sacolas de pão.
Marianne sentou-se no lugar do aluno.
— Agora, escute.
Lorenzo virou-se.
— A rua?
— Tudo.
Ele pareceu confuso.
Mesmo assim, obedeceu.
Marianne esperou alguns segundos.
— O que você ouve?
— Pessoas.
— Isso eu também vejo.
— Uma bicicleta.
— Continue.
— Um carro.
— Continue.
Ele ficou em silêncio.
Depois:
— Um sino.
Marianne assentiu.
— Mais distante.
Lorenzo fechou os olhos.
Alguns segundos se passaram.
— Dois homens conversando.
— Mais.
— Uma mulher chamando alguém.
Marianne observou o rapaz.
— Agora você está ouvindo.
Ele abriu os olhos.
Marianne levantou-se.
— Volte ao piano.
— E isso vai corrigir a passagem?
— Talvez.
— Talvez?
Marianne aproximou-se dele.
— Música não é colocar os dedos no lugar correto no momento correto, Lorenzo. Um relógio também consegue marcar o tempo e ninguém o convida para um concerto.
O rapaz sorriu involuntariamente.
Marianne apontou para o banco.
— Outra vez.
Dessa vez, quando ele começou, ela ouviu a diferença já nos primeiros compassos.
Não sorriu.
Mas seus olhos suavizaram.
Lorenzo percebeu pelo reflexo.
Era assim que os alunos de Marianne aprendiam a reconhecer sua aprovação.
Precisavam procurá-la nos detalhes.
Quase nunca nas palavras.
---
A última aula terminou pouco depois das cinco.
Marianne organizava algumas partituras quando ouviu duas batidas na porta.
— Senhorita Lieberman?
— Sim?
A secretária apareceu.
— Há uma chamada para a senhora.
Marianne olhou para o relógio.
— Quem é?
— Estados Unidos.
Isso a fez parar.
— Estados Unidos?
— Uma senhora Rivers.
Marianne permaneceu imóvel por um breve instante.
O nome não lhe dizia nada.
— Ela disse do que se trata?
— Trabalho.
Marianne colocou a última partitura sobre a mesa.
— Diga que atenderei.
O telefone ficava em uma sala menor, próxima à recepção.
Quando Marianne pegou o aparelho, a ligação apresentava o ruído característico das chamadas internacionais.
— Marianne Lieberman.
Alguns segundos.
Então uma voz feminina respondeu do outro lado.
— Senhorita Lieberman?
A dicção era perfeita.
Controlada.
A voz de alguém acostumado a não precisar repetir pedidos.
— Sim.
— Meu nome é Margaret Rivers.
— Boa tarde, senhora Rivers.
— Espero não estar interrompendo.
Marianne olhou pela janela.
Lorenzo atravessava a rua levando as partituras debaixo do braço.
— Interrompeu.
Houve um pequeno silêncio do outro lado.
Marianne acrescentou:
— Mas isso não significa que não possa falar.
Margaret soltou uma respiração que poderia ter sido o início de uma risada.
— Disseram que a senhora era direta.
— Quem disse?
— Pessoas que a conhecem.
— Então imagino que também tenham mencionado que não costumo aceitar alunos por telefone.
— Minha filha não é uma aluna comum.
Marianne encostou-se à mesa.
Não gostava daquele tipo de frase.
Quase todo pai rico acreditava que seu filho era extraordinário.
— Nenhum deles costuma ser para os pais.
Margaret não respondeu imediatamente.
— Diane Rivers.
Marianne baixou os olhos.
O nome, ao contrário do primeiro, ela conhecia.
Não pessoalmente.
Mas conhecia.
— A pianista?
— Sim.
Marianne endireitou a postura sem perceber.
Diane Rivers.
Ela se lembrava de concertos.
Recortes.
Críticas.
Um nome que havia aparecido com frequência em jornais americanos e ingleses alguns anos antes.
Depois, silêncio.
— Ela não toca mais.
A voz de Margaret perdeu alguma rigidez.
Marianne percebeu.
— Eu sei.
— Sabe?
— Pessoas desaparecem dos palcos. Os músicos percebem.
Margaret ficou em silêncio.
Marianne continuou:
— O que deseja de mim?
— Quero que ela volte.
— Não posso fazer uma pessoa voltar para um lugar onde não deseja estar.
— Ainda nem a conheceu.
— Não preciso conhecê-la para saber disso.
Houve novamente aquele pequeno ruído na ligação.
Então Margaret disse:
— Três meses.
Marianne franziu levemente a testa.
— Perdão?
— Quero contratá-la por três meses.
— Para quê exatamente?
— Para morar conosco.
Marianne afastou o telefone alguns centímetros do ouvido e tornou a encostá-lo.
— A senhora costuma começar propostas profissionais pela parte menos razoável?
Dessa vez Margaret riu.
Foi breve.
— Temos uma propriedade no interior do estado de Nova York. Minha filha vive lá. Quero que permaneça conosco durante três meses e trabalhe com ela.
— Sua filha concordou?
Silêncio.
Marianne já tinha sua resposta.
— Senhora Rivers.
— Diane é... difícil.
— Isso não respondeu minha pergunta.
— Não.
Marianne fechou os olhos.
— Então não.
— Senhorita Lieberman—
— Não trabalho com pessoas obrigadas.
— Ela não será obrigada.
— A senhora está contratando uma professora sem o consentimento dela para viver na casa dela durante três meses.
— A casa é minha.
Marianne ergueu uma sobrancelha.
— Tenho certeza de que esse argumento será extremamente útil para melhorar a relação entre as duas.
Margaret não respondeu.
Pela primeira vez, Marianne percebeu que havia acertado algo que não fazia parte daquela negociação.
Mudou discretamente o tom.
— Por que eu?
— Porque todos os outros falharam.
Marianne olhou para a porta fechada.
— Quantos?
— Quatro.
— Em quanto tempo?
— Dois anos.
— E todos foram contratados sem que ela pedisse?
Margaret hesitou.
— Sim.
Marianne soltou o ar devagar.
— Talvez eu consiga identificar o problema daqui da Itália.
— Não quero alguém que concorde comigo.
Aquilo chamou sua atenção.
Marianne permaneceu calada.
Margaret prosseguiu:
— Se quisesse alguém para concordar comigo, não teria telefonado para a senhora.
— E o que disseram a meu respeito?
— Que é insuportável.
Marianne sorriu.
— Começo a gostar das suas fontes.
— Disseram também que é excelente.
— Essa parte costuma vir depois.
— Quero alguém que não tenha medo dela.
Marianne deixou o sorriso desaparecer.
— Por que eu teria medo de sua filha?
Margaret demorou alguns segundos.
— Porque Diane tem uma maneira de fazer uma pessoa sentir que está sendo observada por dentro.
Marianne nada disse.
— Ela não grita — continuou Margaret. — Não faz cenas. Às vezes penso que seria mais fácil se fizesse. Diane apenas olha. E espera. Até que as pessoas comecem a falar demais para preencher o silêncio.
— Inteligente.
— Muito.
— E isso a incomoda?
— Às vezes.
Marianne olhou para o próprio reflexo no vidro da janela.
— Ainda não ouvi uma razão para viajar até Nova York.
— Ela foi extraordinária.
Havia algo diferente naquela frase.
Não orgulho.
Dor.
Marianne esperou.
— A primeira vez que ouvi Diane tocar sozinha, ela tinha sete anos. Não havia professor na sala. A irmã dela estava ao lado. Eleanor. Diane viu Eleanor errar uma peça e, quando ficou sozinha, sentou-se e reproduziu tudo o que tinha ouvido.
Margaret parou.
Marianne percebeu que a mulher respirava de maneira diferente.
— Eleanor era musicista também?
— Sim.
— Era?
O silêncio seguinte explicou muito.
Marianne não fez perguntas.
Margaret continuou:
— Ela morreu há oito anos.
Marianne baixou os olhos.
— Sinto muito.
— Diane parou pouco depois.
— Então esse não é um problema de técnica.
— Eu sei.
— E mesmo assim a senhora continua contratando professores de piano.
Outra pausa.
Dessa vez, longa.
— É a única coisa que sei fazer.
A sinceridade desarmou Marianne por um instante.
Ela se sentou.
Através da linha telefônica, duas mulheres que nunca haviam se encontrado permaneceram em silêncio.
— A senhora quer que sua filha volte a tocar — disse Marianne.
— Sim.
— Ou quer sua outra filha de volta?
Margaret não respondeu.
Marianne imediatamente soube que talvez tivesse ido longe demais.
Mas não retirou a pergunta.
Por fim, Margaret falou:
— Talvez seja por isso que preciso de alguém que não concorde comigo.
Marianne passou o polegar pela borda da mesa.
— Sua filha sabe por que parou?
— Nunca me disse.
— Talvez ninguém tenha perguntado corretamente.
— E a senhora saberia?
— Não.
Marianne olhou para as partituras sobre a mesa da sala ao lado.
— Mas sei reconhecer quando uma pessoa está tocando para outra.
Margaret aguardou.
— Se Diane voltar ao piano, senhora Rivers, não será para a senhora.
A voz de Margaret ficou baixa.
— Tudo bem.
— Nem para a irmã.
Silêncio.
— Tudo bem.
— Será para ela mesma.
Dessa vez Margaret demorou.
— É tudo que eu quero.
Marianne não acreditou completamente.
Mas acreditou o suficiente.
— Três meses?
— Três meses.
— Sem garantia de resultado.
— Aceito.
— E eu estabeleço as aulas.
— Aceito.
— Se sua filha disser que não quer tocar, não vou obrigá-la.
Margaret hesitou.
— Aceito.
— A senhora demorou.
— Estou aprendendo.
Marianne quase sorriu.
— E se eu concluir que o problema não é Diane?
Margaret compreendeu imediatamente.
— Ainda assim quero que me diga.
Marianne olhou novamente para Florença.
Viveu naquela cidade durante boa parte da vida.
Conhecia seus sinos.
Seus cafés.
Suas ruas.
Sabia quais janelas recebiam primeiro a luz da manhã.
Talvez justamente por isso a ideia de atravessar um oceano parecesse tão absurda.
E tão estranhamente atraente.
— Quando?
— Quanto antes.
Marianne suspirou.
— Isso também disseram sobre a senhora?
— O quê?
— Que é impaciente.
Margaret riu.
— Aceita?
Marianne permaneceu alguns segundos olhando para a rua.
Um músico que deixa de tocar.
Uma irmã morta.
Uma mãe desesperada.
Uma casa no interior de Nova York.
Três meses.
Ela deveria ter recusado.
— Envie os detalhes.
Margaret não escondeu o alívio.
— Obrigada.
— Não me agradeça ainda.
— Por quê?
Marianne apoiou o cotovelo na mesa.
— Sua filha pode me mandar embora no primeiro dia.
Margaret respondeu imediatamente:
— Diane dificilmente manda alguém embora.
— Então talvez tenhamos sorte.
— Ela faz algo pior.
Marianne esperou.
— Faz você desejar ter ido por conta própria.
A ligação terminou alguns minutos depois.
Marianne continuou sentada diante do telefone.
A secretária apareceu à porta.
— Está tudo bem?
Marianne olhou para ela.
— Vou para Nova York.
A mulher arregalou os olhos.
— Quando?
Marianne olhou para o telefone.
— Aparentemente antes de recuperar o bom senso.
---
Três dias depois, Marianne estava em um avião cruzando o Atlântico.
Não gostava de voar.
Não tinha medo.
Era diferente.
Marianne simplesmente não gostava de estar em um lugar onde não pudesse decidir quando sair.
Talvez isso explicasse várias outras coisas em sua vida.
Tinha um livro sobre o colo.
Passara quase uma hora na mesma página.
Quando finalmente desistiu de fingir que lia, olhou pela pequena janela.
Nuvens.
Nada além delas.
Pensou em Diane Rivers.
Havia encontrado alguns recortes antigos antes de viajar.
Fotografias de apresentações.
Em uma delas, Diane tinha vinte e três anos.
Sentada ao piano.
Cabelos escuros.
Pescoço erguido.
Olhos voltados para algum ponto que não aparecia na fotografia.
Não sorria.
Marianne passou mais tempo olhando para aquela imagem do que gostaria de admitir.
Talvez porque Diane não tivesse a aparência de alguém sendo fotografada.
Parecia estar ouvindo alguma coisa distante.
Margaret havia enviado também uma gravação.
Marianne a escutou na noite anterior à viagem.
Uma interpretação de Chopin.
Diane tinha vinte e dois anos.
Havia imperfeições.
Poucas.
Mas Marianne não se lembrava delas quando a música terminou.
Lembrava-se da sensação.
Diane não tocava como alguém tentando ser admirado.
Tocava como se houvesse alguma coisa dentro dela tentando escapar.
Marianne desligara o aparelho e ficara sentada no escuro.
Depois ouvira novamente.
Agora, acima das nuvens, perguntou-se que tipo de pessoa conseguia abandonar algo que fazia daquela maneira.
E imediatamente se corrigiu.
Pessoas abandonavam aquilo que amavam todos os dias.
Às vezes justamente porque amavam demais.
---
Nova York a recebeu com movimento.
Carros.
Buzinas.
Pessoas apressadas.
Prédios que pareciam competir pelo céu.
Marianne passou apenas algumas horas na cidade antes de seguir para o interior.
Um motorista enviado pela família Rivers aguardava por ela.
A viagem foi longa o suficiente para os prédios desaparecerem e serem substituídos por estradas ladeadas de árvores, pequenos municípios e campos que se estendiam além da vista.
Quando chegaram à propriedade, o fim da tarde já começava a modificar a luz.
Marianne olhou através da janela do automóvel.
Primeiro vieram os portões.
Depois uma estrada privada cercada por árvores antigas.
E então a casa.
Não.
Casa era uma palavra pequena.
A residência Rivers parecia pertencer a outro tempo.
Três pavimentos de pedra clara, grandes janelas, colunas na entrada e uma extensão de jardins que tornava difícil imaginar onde terminava a propriedade.
O motorista abriu a porta.
Marianne saiu.
Ficou alguns segundos olhando.
— Exagerado — murmurou.
— Perdão, senhora?
Ela olhou para o motorista.
— Nada.
A porta principal se abriu antes que chegassem aos degraus.
Uma mulher de aproximadamente cinquenta anos apareceu.
— Senhorita Lieberman?
— Sim.
— Martha Bell. Governanta da família.
Marianne estendeu a mão.
Martha pareceu ligeiramente surpresa, mas apertou-a.
— Bem-vinda.
— Obrigada.
Duas empregadas apareceram para levar a bagagem.
Marianne observou.
— Posso levar minha mala.
— Não será necessário.
— Eu sei. Mas posso.
Martha a observou por um instante.
Depois fez um pequeno sinal.
As empregadas levaram apenas as malas maiores.
Marianne ficou com a bolsa de mão.
Martha quase sorriu.
— A senhora Rivers não está?
— Precisou retornar à cidade esta manhã.
Marianne parou no primeiro degrau.
— Ela não está aqui?
— Voltará em alguns dias.
Marianne olhou lentamente para Martha.
— Naturalmente.
A governanta pareceu compreender.
— Posso mostrar a casa.
Marianne entrou.
O hall tinha um pé-direito enorme.
Uma escadaria dupla subia para o andar superior.
Havia flores frescas sobre uma mesa central.
Pinturas.
Cristais.
Prata.
Tudo era bonito.
Tudo era impecável.
E, ainda assim, a primeira impressão de Marianne foi estranha.
A casa parecia quieta demais.
Não tranquila.
Quietude e tranquilidade eram coisas diferentes.
A tranquilidade descansava.
Aquela casa parecia esperar.
Martha começou a mostrar os cômodos.
Sala de jantar.
Biblioteca.
Sala de leitura.
Escritório.
Jardim de inverno.
Salão principal.
Uma segunda sala de estar.
Marianne começou a suspeitar que os Rivers possuíam mais lugares para sentar do que pessoas para ocupá-los.
Parou diante de um corredor.
Na parede, fotografias antigas.
Família.
Marianne reconheceu Diane antes de Martha dizer qualquer coisa.
Mais jovem.
Talvez dezenove.
Ao lado dela, outra garota.
Loira.
Sorridente.
Marianne não perguntou.
Martha percebeu para onde olhava.
— Eleanor.
Marianne voltou os olhos para ela.
— A irmã.
Martha assentiu.
Nenhuma das duas acrescentou nada.
Continuaram.
No andar superior, Martha mostrou o quarto de Marianne.
Era maior do que seu apartamento em Florença.
Uma cama larga.
Penteadeira.
Armário.
Poltrona.
Uma janela com vista para os jardins laterais.
Marianne colocou a bolsa sobre a cama.
— Ficarei aqui durante todo o período?
— Sim.
— Três meses.
— Foi o que me disseram.
Marianne caminhou até a janela.
Ao longe, entre as árvores, conseguia ver parte do lago.
— A propriedade termina onde?
Martha aproximou-se.
— Muito além do lago.
— Há uma construção perto da água.
Martha ficou quieta por um segundo.
— A casa do lago.
— Também pertence à família?
— Sim.
— Não vi durante a visita.
Martha desviou os olhos para a janela.
— Aquela parte não faz parte da visita.
Marianne virou o rosto.
— Por quê?
— Diane está lá.
Foi a primeira vez que alguém naquela casa mencionou o nome sem utilizar "senhorita Rivers".
Marianne percebeu.
— Ela mora lá?
— Não exatamente.
— Então?
Martha juntou as mãos diante do corpo.
— É onde vai quando deseja ficar sozinha.
— E com que frequência deseja isso?
Martha olhou para Marianne.
— Bastante.
Marianne voltou a observar a construção.
— Ela sabe que cheguei?
— Sabe que chegaria hoje.
— Não foi o que perguntei.
Martha demorou um pouco.
— Não sei.
Marianne soltou uma pequena respiração pelo nariz.
— Começo a entender sua mãe.
— Isso é bom?
Marianne olhou para Martha.
— Ainda estou decidindo.
---
Depois de desfazer parte da mala e trocar o casaco, Marianne tentou descansar.
Durou nove minutos.
Levantou-se.
Ela não conhecia aquele lugar.
Não conhecia as pessoas.
E, acima de tudo, não gostava de ficar parada esperando acontecimentos.
Saiu do quarto.
Os corredores estavam silenciosos.
Passou pela escadaria.
Desceu.
O sol já desaparecia atrás das árvores.
Foi então que viu uma porta que Martha não havia aberto.
Marianne parou.
Olhou para os dois lados.
Depois para a porta.
Não havia nada que indicasse que não pudesse entrar.
Girou a maçaneta.
A sala estava escura.
Cheirava a madeira e tecido fechado.
Marianne encontrou o interruptor.
Uma luz amarelada acendeu.
E então ela viu.
O piano.
Ficou imóvel.
Era um Steinway de cauda negro.
Magnífico.
Marianne entrou.
A porta fechou-se lentamente atrás dela.
Havia alguma coisa quase ofensiva em um instrumento como aquele estar escondido em uma sala fechada.
Aproximou-se.
Passou os dedos sobre a tampa.
Poeira.
Marianne franziu o cenho.
Na verdade, não era muita.
Provavelmente os empregados limpavam ao redor.
Mas havia uma fina camada próxima à parte superior, especialmente junto ao suporte de partituras.
Ela encontrou um pano sobre um móvel lateral.
Hesitou.
Então começou a limpar.
Não estava pensando em Diane.
Pelo menos foi o que disse a si mesma.
Retirou a poeira devagar.
Passou o pano pelas bordas.
Abriu a tampa.
As teclas surgiram.
Marianne ficou olhando.
Uma delas possuía uma pequena marca.
Outra estava ligeiramente mais amarelada.
Havia história naquele instrumento.
Não decoração.
Ela puxou o banco.
Sentou-se.
Pousou as mãos sobre as pernas.
Não deveria tocar.
Sabia disso.
Não por alguma regra.
Por instinto.
Algumas coisas pertenciam profundamente às pessoas mesmo quando estavam abandonadas.
Marianne olhou para as teclas.
E então fez exatamente aquilo que não deveria.
Colocou as mãos sobre elas.
A primeira nota foi baixa.
Quase tímida.
Escutou.
O instrumento estava bem afinado.
Ela tocou outra.
Depois uma terceira.
E, sem perceber exatamente quando tomou a decisão, começou.
Debussy.
Clair de Lune.
Não escolheu conscientemente.
A música simplesmente veio.
Marianne fechou os olhos.
A casa desapareceu.
A viagem desapareceu.
Margaret Rivers.
O contrato.
Diane.
Tudo.
Restou apenas o piano.
Seus dedos percorriam as teclas com uma delicadeza que poucos de seus alunos conheciam.
A mulher rígida desaparecia quando Marianne tocava sozinha.
Não precisava corrigir ninguém.
Não precisava observar postura.
Nem tempo.
Nem precisão.
Apenas escutava.
E tocava.
---
Na casa do lago, Diane Rivers ergueu os olhos do livro.
Ficou completamente imóvel.
Uma nota.
Depois outra.
O vento não faria aquilo.
Por alguns segundos, ela acreditou que tivesse imaginado.
Então veio a melodia.
O livro escorregou lentamente de seus dedos.
Diane levantou-se.
Não respirava direito.
O piano.
Alguém estava tocando o piano.
Seu corpo reagiu antes que sua mente conseguisse organizar qualquer pensamento.
Abriu a porta da casa do lago.
Desceu os pequenos degraus.
Atravessou a margem.
Depois o jardim.
Seus passos ficaram mais rápidos.
A música continuava.
Bonita.
Esse foi o pior detalhe.
Não havia violência nas mãos de quem tocava.
Não havia exibicionismo.
A pessoa conhecia o instrumento.
Conhecia música.
Diane entrou pela porta lateral da casa.
Uma empregada tentou falar alguma coisa.
Ela passou sem ouvir.
A melodia atravessava os corredores.
Cada nota parecia encontrar dentro dela algum lugar que permanecera fechado durante anos.
Diane acelerou.
Não corria.
Diane Rivers jamais corria dentro de casa.
Mas estava perto.
Quando chegou ao corredor da sala oeste, parou.
A porta estava entreaberta.
A música vinha dali.
Diane aproximou-se devagar.
Empurrou a porta.
E a viu.
Uma mulher estava sentada ao piano.
De costas parcialmente para a entrada.
Cabelos castanhos presos de maneira elegante.
Um vestido escuro marcando uma postura impecavelmente ereta.
As mãos se moviam sobre as teclas.
Mas foi o rosto que deteve Diane.
Marianne tocava de olhos fechados.
E havia uma paz em sua expressão que Diane não esperava encontrar em alguém dentro daquela sala.
Nenhuma pretensão.
Nenhuma expectativa.
Marianne não tocava para impressionar ninguém.
Não sabia que havia alguém observando.
Diane permaneceu junto à porta.
Por alguns segundos, esqueceu por que estava irritada.
Apenas olhou.
Os dedos de Marianne deslizavam.
A cabeça ligeiramente inclinada.
A respiração acompanhando a frase musical.
A luz do fim da tarde atravessava uma pequena abertura das cortinas e alcançava parte de seu rosto.
Diane observou a linha do nariz.
Os cílios.
A curva discreta da boca.
A postura das mãos.
Percebeu que Marianne não usava aliança.
O pensamento surgiu sem autorização.
Diane franziu o cenho consigo mesma.
Então avançou.
O salto de seu sapato encontrou o piso de madeira.
Tac.
Marianne abriu os olhos.
As mãos pararam.
A última nota permaneceu no ar por um instante.
E então seus olhos encontraram os de Diane.
Nenhuma delas falou.
Marianne imediatamente soube quem era.
Não precisava de apresentação.
A mulher diante da porta tinha o mesmo rosto das fotografias.
Mas fotografias eram coisas insuficientes.
Diane Rivers era mais difícil pessoalmente.
Não mais bonita.
Embora fosse.
Mais presente.
Seus cabelos escuros estavam soltos naquela tarde, caindo sobre os ombros de maneira que parecia quase acidental. Vestia uma saia azul-marinho e uma blusa clara. Não havia qualquer tentativa evidente de elegância nela.
Mesmo assim, Marianne teve a impressão de que a sala havia reorganizado sua atenção quando Diane entrou.
E os olhos.
Margaret havia falado deles.
Agora Marianne compreendia.
Diane não apenas a encarava.
Estudava.
Marianne sustentou o olhar.
Algo estranho aconteceu no silêncio entre as duas.
Não reconhecimento.
Elas nunca haviam se encontrado.
Também não intimidade.
Seria absurdo.
Era apenas uma sensação súbita de que aquela cena deveria ser lembrada.
Como quando uma música apresenta sua primeira nota e, por alguma razão inexplicável, você sabe que a última terá importância.
Diane foi a primeira a romper o silêncio.
— Afaste-se do piano.
A voz era baixa.
Firme.
Marianne retirou lentamente as mãos das teclas.
Diane entrou.
Seus passos não tinham mais pressa.
Ela olhou para o pano usado para limpar o instrumento.
Depois para a tampa aberta.
Depois novamente para Marianne.
— Ninguém toca nele.
Marianne levantou-se.
Diane continuou:
— Além de mim e da minha irmã.
A última palavra saiu diferente.
Quase imperceptivelmente.
Mas Marianne ouviu.
Havia passado a vida inteira ensinando pessoas a escutar.
Ela percebeu a mudança.
Não perguntou.
Não mencionou Eleanor.
Apenas fechou cuidadosamente a tampa sobre as teclas.
Então se virou para Diane.
— Peço desculpas.
Diane esperava resistência.
Talvez uma justificativa.
Recebeu apenas aquilo.
Marianne fez uma pequena reverência com a cabeça.
Elegante.
Quase antiga.
— Não sabia.
Diane continuou olhando.
— Agora sabe.
— Agora sei.
Silêncio.
Marianne poderia ter dito quem era.
Não disse.
Diane também não perguntou.
Durante alguns segundos, as duas apenas se observaram.
Marianne percebeu que Diane apertava discretamente o polegar contra o dedo indicador.
Tensão.
Diane percebeu que Marianne mantinha a respiração controlada, mas havia uma pequena rigidez em seus ombros.
Desconforto.
Nenhuma demonstrou ter percebido nada.
— Foi você quem limpou? — perguntou Diane.
Marianne olhou para o pano.
— Sim.
— Por quê?
— Estava empoeirado.
Diane ergueu ligeiramente uma sobrancelha.
— Há empregados para isso.
— Eu vi.
— E ainda assim resolveu fazer o trabalho deles.
Marianne fitou-a.
— Poeira não costuma perguntar quem deveria removê-la.
Por um instante, algo mudou nos olhos de Diane.
Marianne quase acreditou que ela fosse sorrir.
Não aconteceu.
— Você é Marianne Lieberman.
Não era uma pergunta.
— Sou.
Diane inclinou levemente a cabeça.
Era um movimento pequeno.
Observador.
— Imaginei que fosse mais velha.
Marianne não demonstrou surpresa.
— E eu imaginei que fosse mais simpática.
Diane ficou imóvel.
Marianne percebeu imediatamente que havia ultrapassado alguma fronteira.
Então viu.
Um movimento mínimo no canto da boca de Diane.
Não exatamente um sorriso.
A lembrança de um.
— Minha mãe não lhe contou? — perguntou Diane.
— Contou muitas coisas.
— Então deveria ter vindo preparada.
— Vim.
Diane olhou para as malas invisíveis como se pudesse vê-las no andar de cima.
— Não parece.
Marianne cruzou lentamente as mãos diante do corpo.
— A senhora Rivers também me avisou que você costuma fazer pessoas desejarem ir embora.
O olhar de Diane ficou mais atento.
— Ela disse isso?
— Disse.
— Minha mãe fala demais quando está nervosa.
— Ela estava nervosa?
Diane aproximou-se alguns passos.
Parou do outro lado do piano.
Agora havia apenas o instrumento entre elas.
— Você me diga.
Marianne sustentou seu olhar.
— Ainda não a conheço o suficiente.
— Não.
Diane passou a ponta do dedo sobre a área que Marianne havia limpado.
— Não conhece.
O silêncio voltou.
Marianne percebeu que havia alguma coisa estranha naquele momento.
Diane estava irritada.
Era evidente.
Mas não parecia querer sair.
E Marianne, que deveria pedir licença e deixá-la sozinha, também não se moveu.
Diane olhou novamente para o piano.
— O que estava tocando?
Marianne demorou um segundo.
— Debussy.
— Eu sei.
Marianne ergueu discretamente uma sobrancelha.
Diane olhou para ela.
— Perguntei para saber se você sabia.
Dessa vez Marianne sorriu.
Pouco.
— Imagino que tenha passado no teste.
Diane observou aquele sorriso.
Demorou um segundo a mais do que deveria.
Então desviou os olhos.
— Não havia teste.
— Claro.
Diane voltou a encará-la.
— Não faça isso novamente.
O sorriso desapareceu do rosto de Marianne.
— Não farei.
Diane examinou-a como se procurasse alguma ironia.
Não encontrou.
Marianne parecia sincera.
Isso a incomodou de maneira inesperada.
Era mais fácil lidar com pessoas que insistiam.
Mais fácil afastá-las.
— Há outro piano — disse Diane.
Marianne franziu a testa.
Diane percebeu que havia falado sem planejar.
— Onde?
Diane permaneceu em silêncio.
Pensou na casa do lago.
No instrumento coberto.
Na fotografia.
Em Eleanor.
— Não importa.
Marianne não insistiu.
Esse foi o segundo detalhe que Diane percebeu.
O primeiro havia sido a maneira como ela tocava.
Diane virou-se.
Caminhou até a porta.
Parou.
Marianne aguardou.
Sem olhar para trás, Diane disse:
— Senhorita Lieberman.
— Sim?
— A música estava bonita.
Marianne ficou imóvel.
Diane continuou:
— O piano continua proibido.
Marianne permitiu que um sorriso muito pequeno surgisse.
— Compreendido.
Diane abriu a porta.
Antes de sair, olhou para Marianne sobre o ombro.
Os olhos das duas se encontraram novamente.
Dessa vez por menos tempo.
Mas havia alguma coisa diferente.
Não menos distante.
Talvez mais consciente.
Diane saiu.
Seus passos desapareceram pelo corredor.
Marianne continuou de pé ao lado do piano.
Olhou para a porta vazia.
Depois para as teclas escondidas sob a tampa.
Margaret Rivers tinha razão.
A filha realmente possuía uma maneira peculiar de olhar para alguém.
Mas estava errada em outra coisa.
Marianne não sentira vontade de ir embora.
Esse era precisamente o problema.
---
Diane atravessou o corredor.
Não sabia para onde ia.
Isso era incomum.
Diane quase sempre sabia exatamente para onde estava indo, mesmo quando não tinha motivo algum para chegar.
Desceu três degraus.
Parou.
Voltou.
Depois mudou novamente de direção.
Uma empregada carregando toalhas quase esbarrou nela.
— Senhorita Rivers!
Diane afastou-se.
— Desculpe.
A mulher pareceu surpresa.
Diane Rivers raramente pedia desculpas por estar no caminho dentro da própria casa.
Ela continuou andando.
A música ainda permanecia em sua cabeça.
Não deveria.
Havia ouvido Clair de Lune centenas de vezes.
Tocara aquela peça.
Eleanor tocara aquela peça.
Mas agora, quando tentava lembrá-la, não via Eleanor.
Via uma mulher desconhecida sentada diante do piano.
Olhos fechados.
Mãos elegantes.
Luz sobre o rosto.
Diane apertou a mandíbula.
Ridículo.
Chegou à porta que levava ao jardim.
Saiu.
O ar frio tocou seu rosto.
Só então percebeu que respirava rápido demais.
Caminhou em direção ao lago.
Não correu.
Dessa vez, fez questão disso.
Ao chegar à pequena casa, entrou e fechou a porta.
O livro continuava no chão.
Diane abaixou-se.
Pegou-o.
Sentou-se.
Abriu na mesma página.
Leu uma linha.
Depois outra.
Não compreendeu nenhuma.
Fechou o livro.
Ficou olhando pela janela.
— Marianne Lieberman.
Pronunciou o nome em voz baixa.
Não gostou do modo como soou naquele lugar.
Como se a casa tivesse escutado.
Virou-se.
No fundo do cômodo, o tecido bege ainda cobria o velho piano.
Diane permaneceu olhando.
Durante muito tempo.
Então se levantou.
Deu três passos em direção a ele.
Parou.
A mão chegou a tocar o tecido.
Não puxou.
Do lado de fora, a noite começava a cobrir o lago.
Diane pensou na última coisa que havia visto antes de sair daquela sala.
Os olhos de Marianne.
Não eram submissos.
Também não eram desafiadores.
Marianne havia recebido sua ordem sem baixar os olhos.
Isso incomodava Diane.
Pessoas costumavam fazer uma das duas coisas diante dela.
Recuavam.
Ou tentavam enfrentá-la.
Marianne não fizera nenhuma.
Apenas permanecera.
Diane retirou a mão do tecido.
— Três meses.
Disse para ninguém.
Três meses eram longos.
Longos o bastante para alguém perturbar os hábitos de uma casa.
Longos o bastante para cometer erros.
Longos o bastante para aprender coisas que seria melhor não saber.
Diane voltou à janela.
Do outro lado do lago, algumas luzes da mansão começavam a acender.
Em algum ponto daquela casa, Marianne Lieberman agora caminhava por corredores que até aquela manhã não sabiam que ela existia.
Diane observou as janelas.
Uma delas se iluminou no segundo andar.
Provavelmente o quarto de hóspedes.
Diane permaneceu ali.
Olhando.
Até perceber o que estava fazendo.
Então fechou a cortina.
Mas, naquela noite, pela primeira vez em muitos anos, não foi a irmã que apareceu em seus pensamentos antes de dormir.
Foi uma desconhecida de olhos fechados diante de um piano que ninguém deveria tocar.
E Diane odiou perceber que ainda conseguia ouvir a música.
Capítulo 3 — O Lago ao Amanhecer
Marianne acordou antes do relógio.
Por alguns segundos, permaneceu deitada sem compreender exatamente onde estava.
O teto era alto demais.
As cortinas não eram as suas.
E o som que atravessava a janela entreaberta não pertencia a Florença.
Havia pássaros.
Folhas.
Água distante.
Então lembrou.
Nova York.
A propriedade Rivers.
Diane.
O pensamento surgiu rápido demais.
Marianne abriu os olhos completamente.
A luz da manhã entrava pelas cortinas numa faixa fina e clara, cortando o quarto em duas partes. Uma brisa suave movia o tecido e fazia o ar carregar o cheiro úmido das árvores.
Ela permaneceu alguns instantes imóvel, escutando.
Gostava das primeiras horas do dia.
Eram uma espécie de intervalo.
Antes das perguntas.
Antes das pessoas.
Antes de tudo começar a exigir alguma coisa.
Marianne afastou os lençóis.
O piso estava frio sob os pés.
Foi até a janela.
A manhã ainda se formava sobre os jardins.
Uma leve névoa permanecia baixa sobre o terreno e, entre as árvores, podia-se enxergar parte do lago. A água parecia imóvel.
Quase cinza.
Quase prata.
Marianne apoiou uma mão no parapeito.
Era bonito.
Mais bonito do que esperava.
Talvez por isso a casa parecesse ainda mais estranha.
Lugar demais para tanto silêncio.
Ela respirou fundo.
Depois fechou a janela.
Vestiu uma saia escura e uma blusa simples, prendeu os cabelos e saiu do quarto.
O corredor estava vazio.
A casa parecia diferente pela manhã.
Menos solene.
Talvez fosse a luz.
Talvez fosse o fato de Margaret ainda não estar ali.
Marianne desceu os degraus em silêncio.
Quando chegou ao primeiro andar, ouviu sons vindos de um corredor lateral.
Louça.
Água.
Talheres.
Seguiu o ruído.
A cozinha era muito maior do que imaginava.
Não tinha a formalidade do restante da casa.
Havia panelas penduradas, uma mesa central de madeira, potes de vidro, cestos com frutas e uma janela ampla voltada para os fundos da propriedade.
Uma das empregadas estava diante do fogão.
Marianne a reconheceu vagamente da chegada.
Era jovem.
Talvez vinte e poucos anos.
Cabelos castanhos presos sob um lenço claro.
Ela estava preparando uma bandeja com um bule de porcelana, duas torradas pequenas e uma xícara.
Marianne parou à porta.
— Bom dia.
A empregada virou-se rapidamente.
— Senhorita Lieberman.
Marianne percebeu o pequeno susto.
— Desculpe. Não pretendia assustá-la.
— Não, imagina.
A jovem enxugou as mãos no avental.
— Achei que ainda estivesse dormindo.
Marianne olhou para a janela.
— Seria um desperdício.
A empregada acompanhou seu olhar.
Marianne entrou.
— Que manhã bonita.
A jovem sorriu.
— É mesmo.
Depois voltou ao bule.
— As manhãs aqui são quase sempre assim.
— Quase sempre?
— No inverno é diferente. Mais silencioso.
Marianne ergueu uma sobrancelha.
— Ainda mais?
A jovem soltou uma risada pequena.
— A senhora já percebeu.
— É difícil não perceber.
A empregada colocou água quente no bule.
Marianne observou.
— Chá?
— Para a senhorita Rivers.
Marianne desviou os olhos para a bandeja.
— Ela toma todos os dias?
— Todos.
— No mesmo horário?
— Quase sempre.
Marianne aproximou-se da mesa.
— E sempre aqui?
— Não.
A empregada olhou rapidamente para ela.
— Geralmente levamos até a casa do lago.
Marianne ficou em silêncio por um instante.
— Ela dorme lá?
— Às vezes.
— E hoje?
— Acho que sim.
Marianne acompanhou os movimentos da jovem.
— Qual é seu nome?
Ela pareceu surpresa.
— Anna.
— Marianne.
Anna sorriu.
— Eu sei.
Marianne assentiu.
— Imaginei.
Anna terminou de arrumar a bandeja.
Marianne apontou para uma cesta.
— Posso?
— Claro.
Pegou um pão pequeno.
Depois encontrou outra xícara.
— E o chá?
Anna imediatamente se aproximou.
— Eu preparo para a senhora.
— Não precisa.
Marianne olhou para o bule.
— Suponho que não seja propriedade exclusiva de Diane.
Anna soltou uma risada involuntária.
— Não.
— Ótimo. Seria uma casa com regras demais.
Anna serviu outra xícara.
— A senhorita Rivers não tem tantas regras assim.
Marianne olhou para ela.
— Ontem descobri uma sobre o piano.
O sorriso da empregada desapareceu discretamente.
Marianne percebeu.
— Todos sabem?
Anna mexeu nas xícaras.
— Sobre o piano?
— Sim.
— Sabemos.
— E ninguém pensou em me avisar?
A jovem ficou desconfortável.
— Não imaginei que a senhora fosse entrar naquela sala.
Marianne levou a xícara à boca.
— Nem eu.
Anna ficou alguns segundos em silêncio.
Depois perguntou:
— Ela ficou muito brava?
Marianne pensou.
Lembrou dos olhos escuros.
Da ordem firme.
Da palavra irmã pronunciada de maneira diferente.
— Não sei.
Anna pareceu surpresa.
— A senhora não sabe?
— Ainda estou aprendendo como ela demonstra isso.
A jovem sorriu.
— Normalmente não demonstra.
Marianne encostou-se à mesa.
— Isso explica bastante.
Anna pegou a bandeja.
Antes de sair, Marianne perguntou:
— Ela sempre foi assim?
Anna parou.
— Assim como?
Marianne pensou antes de responder.
— Distante.
Anna olhou para o corredor.
— Não sei.
— Há quanto tempo trabalha aqui?
— Cinco anos.
Marianne compreendeu.
Depois de Eleanor.
— Então nunca a conheceu antes.
Anna não perguntou como Marianne sabia.
Apenas assentiu.
— Martha diz que ela era diferente.
— Quanto?
— Não sei.
Anna segurou a bandeja com as duas mãos.
— Acho que falava mais.
Marianne quase sorriu.
— Difícil imaginar.
Anna riu.
Depois ficou séria.
— Ela é uma boa pessoa.
Marianne olhou para ela.
— Não disse que não era.
— Eu sei.
Anna hesitou.
— Mas as pessoas às vezes acham.
— Porque ela não conversa?
— Porque parece que não quer ninguém perto.
Marianne baixou os olhos para o chá.
— Talvez ela realmente não queira.
— Talvez.
Anna olhou na direção da janela.
— Mas ela sempre percebe quando alguém está triste.
Marianne ergueu os olhos.
Anna continuou:
— Uma vez meu pai ficou doente. Eu não contei para ninguém. A senhorita Rivers percebeu porque eu derrubei uma bandeja.
— Isso não parece muito difícil de perceber.
— Eu derrubava coisas antes.
Marianne sorriu.
— Entendo.
— No dia seguinte, ela pagou o médico.
— Sem perguntar?
— Sem falar nada.
Anna passou a mão no avental.
— Eu só descobri porque o médico comentou.
Marianne ficou pensativa.
— Interessante.
— Ela é assim.
— Como?
Anna sorriu de leve.
— Finge que não se importa.
Marianne desviou os olhos para a janela.
— Algumas pessoas fazem isso muito bem.
Anna não respondeu.
Talvez tivesse entendido mais do que Marianne pretendia dizer.
— Preciso levar isso antes que esfrie.
Marianne assentiu.
— Claro.
Anna saiu.
Marianne permaneceu na cozinha.
Pegou o pão.
Partiu ao meio.
Tomou mais um gole do chá.
Era forte.
Bom.
Ela levou a xícara até a janela.
A vista dos fundos era ainda mais bonita do que a do quarto.
Os jardins terminavam numa descida suave.
Além deles, o lago ocupava boa parte da paisagem.
A névoa desaparecia lentamente.
Na margem, cercada por árvores, estava a pequena casa.
A casa do lago.
Marianne a observou.
Não parecia particularmente grandiosa.
Na verdade, era quase modesta diante da residência principal.
Madeira clara.
Varanda pequena.
Telhado inclinado.
Duas janelas voltadas para a água.
Marianne tomou outro gole.
— Por que você passa tanto tempo lá?
Perguntou em voz baixa.
Não esperava resposta.
— Porque ninguém costuma fazer perguntas de manhã.
Marianne quase deixou a xícara escapar.
Virou-se rapidamente.
Diane estava parada atrás dela.
Não fazia ideia de havia quanto tempo.
Usava calças escuras e uma camisa branca com as mangas dobradas até os antebraços.
Os cabelos estavam soltos.
Mais desarrumados do que no dia anterior.
Havia algo diferente nela pela manhã.
Menos construído.
Menos protegido.
Diane segurava a bandeja que Anna acabara de levar.
A xícara ainda estava cheia.
Marianne levou alguns segundos para reorganizar a expressão.
Diane percebeu.
— Assustei você.
Não era uma pergunta.
— Um pouco.
Diane colocou a bandeja sobre a mesa.
— Você não parece alguém que se assusta facilmente.
Marianne olhou para ela.
— Você não parece alguém que entra numa cozinha sem fazer barulho.
— Minha casa.
Marianne ergueu a xícara.
— Esse argumento é popular na sua família.
Diane ficou imóvel.
Depois, muito discretamente, um canto da boca se moveu.
Quase nada.
Marianne percebeu.
Diane caminhou até a janela.
Parou ao lado dela.
Não perto demais.
Também não longe.
As duas olharam para o lago.
— Gostou?
Marianne virou o rosto.
Diane ainda observava a paisagem.
— Da propriedade?
— Da casa.
Marianne seguiu o olhar dela.
A casa do lago.
— Achei muito bonita.
Diane finalmente olhou para Marianne.
Seus olhos se encontraram.
Foi rápido.
Ainda assim, alguma coisa naquela cozinha pareceu ficar mais quieta.
Marianne colocou a xícara sobre o parapeito.
— Tem uma aparência diferente do restante da propriedade.
Diane inclinou levemente a cabeça.
— Diferente como?
Marianne voltou a olhar para fora.
— Parece habitada.
Diane ficou em silêncio.
Marianne percebeu tarde demais que talvez aquela frase tivesse tocado alguma coisa.
— A casa principal também é habitada — disse Diane.
— Não foi isso que quis dizer.
— Eu sei.
Marianne olhou novamente para ela.
Diane mantinha os olhos sobre o lago.
— O restante da propriedade parece preservado — continuou Marianne. — Aquela casa parece usada.
— Isso deveria ser um elogio?
— É.
Diane permaneceu alguns segundos em silêncio.
— Então obrigada.
Marianne observou o perfil dela.
— Você passa muito tempo lá.
— Parece que já fez perguntas sobre mim.
Marianne não negou.
— Fiz algumas.
Diane a encarou.
— E conseguiu respostas?
— Algumas.
— Anna fala demais.
Marianne sorriu.
— Você percebe tudo?
Diane apoiou uma mão na borda da janela.
— Tudo, não.
— Só o que interessa?
— Não necessariamente.
Marianne esperou.
Diane olhou para ela.
— Às vezes o que menos interessa é o que mais revela.
Marianne sustentou aquele olhar.
— Isso parece cansativo.
— É.
Nenhuma das duas desviou imediatamente.
Diane foi a primeira.
Olhou para a casa do lago.
Depois caminhou em direção à porta dos fundos.
Marianne acompanhou com os olhos.
— Vai para lá?
Diane parou.
Não se virou completamente.
Apenas o suficiente para olhar por cima do ombro.
A postura era tranquila.
Segura.
O rosto praticamente impassível.
— Vou.
Marianne olhou outra vez para a construção.
— Realmente é bonita.
Diane manteve os olhos nela.
A resposta veio com uma segurança quase íntima.
— Ela é.
Havia alguma coisa na maneira como disse aquilo.
Não orgulho.
Afeto.
Marianne percebeu.
Diane abriu a porta.
A brisa entrou na cozinha.
Antes de sair, Diane voltou a olhar para ela.
Por uma fração de segundo.
Depois caminhou pelo jardim.
Marianne permaneceu parada.
Observando.
Viu Diane atravessar a grama.
Descer em direção ao lago.
O vento movimentou seus cabelos.
Não havia pressa nos passos.
Marianne tomou a xícara novamente.
O chá já começava a esfriar.
Ela bebeu mesmo assim.
---
Diane não deveria ter ido à cozinha.
Tinha voltado à casa principal apenas porque Anna esquecera o açúcar.
Essa foi a justificativa que encontrou.
Ainda que nunca usasse açúcar no chá.
Percebeu isso quando já estava do lado de fora.
Continuou andando.
Não olhou para trás.
Não precisava.
Sabia que Marianne provavelmente ainda estava diante da janela.
O pensamento a incomodou.
Ou talvez fosse o fato de saber exatamente como Marianne segurava a xícara.
As duas mãos quando estava distraída.
Uma só quando conversava.
Diane franziu levemente a testa.
Não precisava saber aquilo.
Ainda assim, sabia.
Quando chegou à casa do lago, deixou a porta aberta.
Entrou.
Colocou a bandeja sobre a pequena mesa.
Sentou-se perto da janela.
Não tocou no chá.
Ficou olhando a mansão ao longe.
A cozinha não era visível daquele ângulo.
Isso a desagradou de uma maneira inexplicável.
Diane voltou os olhos para o livro que deixara aberto.
Leu duas páginas.
Depois fechou.
— Irritante.
Disse para o quarto vazio.
Não estava claro a quem se referia.
---
Pouco depois das nove, Marianne decidiu caminhar pela parte da frente da propriedade.
Precisava organizar as ideias.
Margaret havia dito que chegaria naquele dia.
Marianne queria conversar com ela antes de qualquer tentativa formal de trabalho com Diane.
E havia coisas demais para esclarecer.
O encontro no piano.
A maneira como Diane havia falado da irmã.
A casa do lago.
A impressão cada vez mais forte de que o piano era apenas a superfície do problema.
Marianne desceu os degraus da entrada.
O ar estava mais quente agora.
A névoa havia desaparecido.
Um carro se aproximava pela estrada principal.
Marianne parou.
Reconheceu Margaret antes mesmo de o automóvel estacionar.
A porta abriu.
Margaret Rivers saiu.
Vestia um casaco claro, luvas e um chapéu discreto. Parecia tão impecável depois de uma viagem quanto Marianne normalmente parecia antes dela.
Um funcionário caminhou em direção às malas.
Marianne aproximou-se.
— Senhora Rivers.
Margaret virou-se.
Um sorriso surgiu.
— Senhorita Lieberman.
Marianne estendeu a mão.
Margaret apertou-a.
— Bem-vinda oficialmente.
— Obrigada.
Marianne olhou para as malas.
— Posso ajudar.
Margaret soltou uma pequena risada.
— Senhorita Lieberman, tenho quase certeza de que não atravessei metade do mundo para contratá-la como carregadora.
— Imagino que não.
Marianne pegou uma das bolsas menores mesmo assim.
Margaret observou.
— Vejo que pedir não adiantará.
— Geralmente não.
As duas caminharam em direção à casa.
— Tudo correu bem? — perguntou Margaret.
Marianne olhou para ela.
— A viagem?
— A chegada.
Marianne demorou um segundo.
— Sim.
Margaret percebeu.
— Essa pausa não me tranquiliza.
— Cheguei. Fui bem recebida. Conheci a casa. Meu quarto é confortável.
— E Diane?
Marianne manteve os olhos à frente.
— Conheci sua filha.
Margaret diminuiu levemente o passo.
— Já?
— Ontem.
— Como?
Marianne olhou para ela.
— Toquei o piano.
Margaret parou.
Marianne também.
Por alguns segundos, Margaret não disse nada.
— Você fez o quê?
Marianne não desviou o olhar.
— Toquei o piano da sala oeste.
Margaret respirou fundo.
— Ninguém avisou?
— Não.
— Marianne...
Era a primeira vez que usava apenas o primeiro nome.
— Imagino que tenha sido um erro.
— Foi.
Marianne respondeu com naturalidade.
Margaret olhou para a casa.
— Ela ficou furiosa?
— Não.
— Tem certeza?
Marianne ergueu uma sobrancelha.
— Não.
Margaret quase riu.
— Essa resposta é preocupante.
— Estou começando a compreender que sua filha possui um vocabulário emocional particular.
— Isso é uma maneira gentil de dizer.
— Não foi intenção ser gentil.
Margaret soltou uma respiração divertida.
Retomaram a caminhada.
— O que Diane disse?
Marianne pensou.
— Que ninguém toca naquele piano além dela e da irmã.
Margaret parou novamente.
Dessa vez, o rosto mudou completamente.
Marianne percebeu.
— Ela mencionou Eleanor?
— Sim.
— Pelo nome?
— Não.
Margaret desviou os olhos.
— Diane quase nunca fala dela.
— Talvez não precise.
Margaret virou-se.
— O que quer dizer?
Marianne olhou para as janelas da casa.
— A presença de Eleanor está em todo lugar.
Margaret ficou imóvel.
— Você chegou ontem.
— Não é uma observação difícil.
— Talvez para você.
Marianne aproximou-se dos degraus.
— Há fotografias nos corredores. Um piano fechado. Uma casa inteira que sabe que não deve falar sobre uma pessoa. Empregados que mudam de expressão quando alguém menciona música.
Margaret permaneceu atrás dela.
— E Diane?
Marianne olhou por cima do ombro.
— Diane muda quando menciona a irmã.
Margaret subiu os degraus lentamente.
— Como?
— Não sei ainda.
— Mas percebeu.
— Sim.
Margaret entrou no hall.
Um funcionário levou as malas.
As duas caminharam até uma pequena sala de estar.
Margaret retirou as luvas.
— Sente-se.
Marianne sentou-se numa poltrona.
Margaret ficou diante da janela.
— Quero perguntar uma coisa.
— Pergunte.
— Acha que ela pode voltar a tocar?
Marianne manteve os olhos nela.
— Essa ainda é sua primeira pergunta?
Margaret virou-se.
— Por quê?
— Depois de tudo que conversamos ao telefone, achei que pudesse ter mudado.
— Não entendo.
Marianne apoiou as mãos sobre os joelhos.
— Talvez devesse perguntar se sua filha quer voltar a viver antes de perguntar se quer voltar a tocar.
Margaret endureceu.
— Diane não está doente.
— Não disse que está.
— Ela não é frágil.
— Também não disse isso.
— Então o que está dizendo?
Marianne manteve o tom tranquilo.
— Que existe uma diferença entre estar vivo e participar da própria vida.
Margaret ficou em silêncio.
Marianne continuou:
— Sua filha tem trinta e dois anos.
— Eu sei a idade dela.
— Mora numa propriedade quase isolada. Passa grande parte do tempo sozinha. Não toca. Não viaja. Pelo que entendi, quase não recebe visitas.
— Ela escolheu isso.
Marianne inclinou levemente a cabeça.
— Escolheu?
Margaret olhou para ela.
— Está me acusando de alguma coisa?
— Ainda não a conheço o suficiente para acusar.
— Outra vez essa frase.
— É útil.
Margaret caminhou até um pequeno bar.
Serviu água.
— Diane sempre foi reservada.
— Antes de Eleanor?
A mão de Margaret parou sobre a garrafa.
Marianne observou.
— Martha contou?
— Não precisei perguntar muito.
Margaret colocou a garrafa de volta.
— Diane era diferente.
— Quanto?
Margaret permaneceu olhando para o copo.
— Ria mais.
Marianne ficou em silêncio.
— Tinha amigos — continuou Margaret. — Pessoas que vinham até aqui. Homens interessados nela.
Marianne não reagiu.
— Ela recusou todos.
— Isso é relevante?
Margaret olhou para Marianne.
— Estou tentando explicar.
— Entendo.
Marianne percebeu que Margaret esperava alguma reação à informação.
Não ofereceu.
— Ela viajava para apresentações — disse Margaret. — Conhecia pessoas. Tinha planos.
— E depois?
Margaret bebeu a água.
— Depois não tinha.
— Eleanor adoeceu quando?
— Dois anos antes de morrer.
— Diane continuou tocando durante esse período?
Margaret apertou o copo.
— Sim.
— Por vontade própria?
Silêncio.
Marianne compreendeu.
— Senhora Rivers.
Margaret desviou os olhos.
— Eleanor adorava ouvir Diane.
— Não foi o que perguntei.
— Eu sei.
— Diane continuou porque a irmã pediu?
— Às vezes.
— E outras vezes?
Margaret finalmente olhou para Marianne.
— Porque eu pedi.
Marianne não respondeu.
A expressão da mulher parecia menos controlada agora.
— Eu estava perdendo uma filha.
— E tentou manter a outra ocupada.
— Eu não sabia o que fazer.
— A maioria das pessoas não sabe.
Margaret sentou-se.
Pela primeira vez desde que Marianne a conhecera, parecia cansada.
— Quando Eleanor morreu, Diane não tocou por semanas.
Marianne esperou.
— Então um dia sentou-se ao piano.
Margaret baixou os olhos.
— Tocou uma peça que Eleanor amava.
— E?
Margaret demorou.
— Eu chorei.
Marianne permaneceu em silêncio.
— Depois disse que parecia que Eleanor ainda estava ali.
Marianne fechou os olhos por um instante.
Quando os abriu, Margaret a observava.
— Foi depois disso?
— Pouco a pouco.
— Ela parou.
Margaret assentiu.
— Sim.
Marianne inclinou-se levemente para frente.
— Talvez sua filha não tenha abandonado a música.
Margaret franziu o cenho.
— Como assim?
— Talvez tenha abandonado o papel que deram à música.
Margaret não respondeu.
Marianne continuou:
— Se toda vez que ela tocava alguém via a irmã, onde Diane ficava?
A pergunta pairou na sala.
Margaret desviou os olhos.
— Eu nunca quis apagar minha filha.
— Eu sei.
— Não sabe.
— Sei porque não estaria aqui se acreditasse nisso.
Margaret olhou novamente para ela.
Marianne suavizou o tom.
— Pessoas ferem umas às outras tentando impedir que algo se perca.
Margaret apertou os dedos sobre o copo.
— E agora?
— Agora não faremos nada.
— Nada?
— Por alguns dias.
Margaret parecia incrédula.
— Eu a trouxe da Itália para não fazer nada?
— Exatamente.
— Marianne—
— Diane já teve quatro professores.
— Sim.
— Todos chegaram tentando fazê-la tocar.
— Era o trabalho deles.
— E todos falharam.
Margaret ficou em silêncio.
Marianne se recostou.
— Eu não pretendo ser a quinta.
— Então o que pretende?
— Conhecê-la.
— Diane não vai facilitar.
— Não pedi facilidade.
Margaret a estudou.
— E se ela simplesmente não falar com você?
Marianne pensou na cozinha.
No lago.
Na maneira como Diane havia olhado por cima do ombro.
— Ela fala.
— Quando quer.
— Todos falam.
Margaret ergueu uma sobrancelha.
— Isso soa excessivamente confiante.
— Não quis dizer com palavras.
Margaret permaneceu quieta.
Marianne continuou:
— Sua filha diz muito quando olha.
Margaret soltou uma pequena risada sem alegria.
— Percebeu rápido.
— É difícil não perceber.
— E o que ela disse ontem?
Marianne pensou no primeiro olhar.
No piano.
Na maneira como Diane havia dito “minha irmã”.
Depois naquela manhã.
A casa do lago.
“Ela é.”
— Ainda estou ouvindo.
Margaret observou-a longamente.
— Talvez você realmente seja a pessoa certa.
Marianne não sorriu.
— Não tenha tanta certeza.
— Por quê?
Marianne desviou os olhos para a janela.
Ao longe, podia ver parte do lago.
— Porque pessoas não são partituras, senhora Rivers.
— Isso deveria me tranquilizar?
— Não.
Marianne voltou os olhos para ela.
— Partituras são muito mais fáceis.
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O almoço foi servido pouco depois do meio-dia.
Diane não apareceu.
Margaret percebeu imediatamente.
— Onde está minha filha?
Martha permaneceu junto à porta.
— Na casa do lago.
— Avise que estou aqui.
— Ela sabe.
Margaret fechou os olhos por um instante.
Marianne continuou cortando a comida.
— Não vai buscá-la?
Margaret olhou.
— Se eu for, ela ficará lá por mais tempo.
Marianne assentiu.
— Inteligente.
— Está elogiando Diane ou a mim?
— Ainda estou decidindo.
Margaret quase sorriu.
Durante alguns minutos, comeram em silêncio.
A mesa era grande demais para duas pessoas.
Marianne percebeu uma terceira cadeira vazia na extremidade.
Perguntou-se se costumava ser de Diane.
Não perguntou.
— Marianne.
— Sim?
Margaret segurava o garfo, mas não comia.
— Ontem, quando tocou o piano...
Marianne aguardou.
— O que tocou?
— Debussy.
Os olhos de Margaret mudaram.
— Clair de Lune?
— Sim.
Margaret soltou o talher.
Marianne percebeu.
— O quê?
— Era uma das peças de Eleanor.
Marianne ficou imóvel.
— Eu não sabia.
— Eu sei.
— Diane também tocava?
— Às vezes.
Marianne pensou no modo como Diane havia corrido até a sala.
Agora compreendia melhor.
— Talvez eu tenha feito mais estrago do que imaginava.
Margaret balançou a cabeça.
— Ela ficou lá?
— Onde?
— Enquanto tocava.
Marianne pensou.
— Não sei por quanto tempo.
— Mas ouviu.
— Sim.
Margaret ficou alguns segundos olhando para o prato.
— Há anos Diane sai da sala quando alguém toca.
Marianne ergueu os olhos.
— Ela não saiu.
— Não?
— Não.
Marianne lembrou da figura imóvel junto à porta.
— Ficou até eu parar.
Margaret olhou para ela.
E pela primeira vez naquele dia, algo parecido com esperança apareceu.
Marianne percebeu imediatamente.
— Não faça isso.
Margaret franziu o cenho.
— O quê?
— Transformar cada pequena coisa numa promessa.
— Não estou.
— Está.
Margaret desviou os olhos.
Marianne continuou:
— Se Diane percebe que você está esperando alguma coisa dela, vai se afastar.
— Conhece minha filha há menos de um dia.
— E mesmo assim isso parece evidente.
Margaret respirou fundo.
— É difícil não esperar.
Marianne olhou para a cadeira vazia.
— Talvez seja justamente isso que ela precise de você.
— O quê?
— Que pare de esperar.
Margaret não respondeu.
---
No começo da tarde, Diane finalmente voltou à casa principal.
Entrou pela porta lateral.
Não sabia que Margaret estava na sala de estar.
Ou talvez soubesse.
Marianne estava na biblioteca com um livro aberto quando ouviu vozes.
— Diane.
A voz de Margaret.
Marianne não pretendia ouvir.
Mas a porta estava entreaberta.
— Mãe.
Diane.
Fria.
Controlada.
— Não vai me abraçar?
Silêncio.
Marianne ergueu os olhos do livro.
— Você esteve fora por quatro dias.
— Isso não responde.
— Então provavelmente não.
Marianne reprimiu um sorriso.
Margaret soltou um suspiro.
— Conheceu Marianne.
— Sim.
— E?
— Ela toca bem.
Marianne congelou.
Margaret pareceu igualmente surpresa.
— Isso é tudo?
— O que mais deveria ser?
— Ela ficará três meses.
— Estou ciente.
— Quero que trate a situação com maturidade.
Silêncio.
Marianne quase conseguia imaginar o olhar de Diane.
— Interessante.
— O quê?
— Você contratar alguém sem me consultar e depois pedir maturidade.
Margaret respirou fundo.
— Diane—
— Estou sendo extremamente madura. Ainda não pedi que ela vá embora.
Marianne inclinou a cabeça.
Aquilo poderia ser considerado progresso.
— Não vai pedir.
— Não?
— Não.
Diane ficou em silêncio.
Então:
— Marianne parece capaz de decidir sozinha quando deve ir.
Marianne baixou os olhos para o livro.
A frase era curiosa.
Não hostil.
Quase respeitosa.
Margaret respondeu:
— Ela também não pretende ir.
— Veremos.
Os passos de Diane se aproximaram.
Marianne voltou rapidamente os olhos para a página.
A porta da biblioteca abriu.
Diane entrou.
Parou ao vê-la.
Marianne ergueu o rosto.
Os olhos das duas se encontraram.
Diane imediatamente percebeu que ela ouvira.
Marianne percebeu que Diane percebeu.
Nenhuma disse nada.
Então Diane caminhou até uma estante.
Retirou um livro.
— Boa tarde.
— Boa tarde.
Diane folheou algumas páginas sem realmente ler.
— Minha mãe já a interrogou?
Marianne fechou o próprio livro.
— Conversamos.
— É o modo educado de dizer sim.
— Ela se preocupa.
Diane soltou um som curto.
Não exatamente riso.
— Você a conhece há menos tempo do que me conhece.
— Ainda assim, isso é evidente.
Diane olhou para ela.
— E o que mais é evidente?
Marianne pensou.
— Que você não gosta quando as pessoas acreditam que entenderam você rápido demais.
Diane ficou imóvel.
Depois fechou o livro.
— Está aprendendo.
Marianne sorriu.
— Pensei que eu fosse a professora.
Diane sustentou seu olhar.
— Aqui?
Marianne percebeu o desafio.
Não agressivo.
Curioso.
— Ainda veremos.
Diane baixou os olhos para o livro.
— Está confiante.
— É diferente de certeza.
— Pessoas confundem.
— Você não.
Diane olhou novamente para ela.
Marianne imediatamente soube que havia dito alguma coisa importante.
Não sabia exatamente o quê.
O rosto de Diane não mudou.
Mas o silêncio sim.
— Não — respondeu Diane. — Eu não.
Marianne sustentou o olhar.
Por alguns segundos, havia apenas a biblioteca.
A luz da tarde.
Poeira flutuando junto à janela.
E duas mulheres tentando compreender uma conversa que ainda não tinha palavras suficientes.
Diane desviou primeiro.
Caminhou em direção à porta.
— Senhorita Lieberman.
— Sim?
Diane parou.
— Não entre na casa do lago.
Marianne não demonstrou surpresa.
— Não pretendia.
Diane olhou sobre o ombro.
— Ótimo.
Marianne inclinou levemente a cabeça.
— Mas isso faz parecer que há algo lá que você não quer que eu veja.
Diane permaneceu imóvel.
Depois, lentamente, seus olhos se estreitaram.
Não de raiva.
De interesse.
— Talvez eu só goste de ter uma porta que ninguém abre.
Marianne assentiu.
— Isso eu entendo.
Diane pareceu surpresa.
Muito pouco.
Mas Marianne viu.
— Entende?
— Sim.
— Então não vai perguntar por quê?
— Não.
Diane estudou seu rosto.
— Por quê?
Marianne sorriu.
— Isso foi uma pergunta.
Por um instante, Diane quase riu.
Dessa vez Marianne teve certeza.
Foi apenas um sopro pelo nariz.
Uma suavização súbita no olhar.
Depois desapareceu.
— Boa tarde, Marianne.
Foi a primeira vez.
Não senhorita Lieberman.
Marianne percebeu.
Diane também percebeu que ela percebeu.
E saiu antes que qualquer uma pudesse transformar aquilo em algo maior.
Marianne ficou olhando para a porta.
Depois abriu novamente o livro.
Não leu.
---
Margaret observava a filha da janela do segundo andar naquela noite.
Diane atravessava o jardim em direção à casa do lago.
Marianne surgiu alguns minutos depois no terraço.
Não seguiria.
Margaret percebeu.
A italiana apenas ficou ali, olhando a paisagem.
Diane chegou à margem.
Parou.
Por algum motivo, voltou o rosto.
Mesmo à distância, Margaret soube exatamente para onde olhava.
Para a casa.
Ou para alguém diante dela.
Marianne não se moveu.
As duas permaneceram separadas pelo jardim.
Não havia gesto.
Não havia palavra.
Depois Diane virou-se e continuou andando.
Margaret fechou a cortina.
Talvez Marianne realmente pudesse ajudá-la.
O pensamento trouxe alívio.
Mas, por alguma razão que ainda não conseguia explicar, trouxe também uma inquietação pequena.
Quase invisível.
---
Na casa do lago, Diane acendeu apenas uma luminária.
Sentou-se perto da janela.
Abriu um livro.
Ficou três minutos na mesma página.
Fechou.
Do outro lado da água, algumas janelas da mansão estavam acesas.
Diane reconhecia cada uma.
O quarto da mãe.
O corredor.
A sala de jantar.
Depois olhou para outra.
O quarto de hóspedes.
Luz.
Marianne estava acordada.
Diane ficou olhando por alguns segundos.
Então se irritou consigo mesma.
Levantou-se.
Fechou a cortina.
Ao virar, seus olhos encontraram o piano coberto.
Silêncio.
Diane caminhou até ele.
Parou diante do tecido.
Dessa vez, não apenas tocou.
Segurou uma extremidade.
Puxou.
O pano deslizou lentamente.
A madeira antiga apareceu.
Diane ficou imóvel.
Não se lembrava da última vez que havia descoberto completamente aquele instrumento.
Talvez anos.
Passou os dedos sobre a tampa.
Depois abriu.
As teclas estavam ali.
Algumas ligeiramente amareladas.
Uma pequena marca no dó central.
Eleanor fizera aquilo com um anel.
Diane sentou-se.
Não colocou as mãos nas teclas.
Apenas ficou ali.
Então fechou os olhos.
E ouviu, na memória, Marianne tocando.
A melodia voltou.
Mas não veio acompanhada da voz da mãe.
Nem de Eleanor.
Veio apenas como música.
Isso assustou Diane mais do que deveria.
Abriu os olhos.
Levantou-se.
Fechou o piano.
Mas não tornou a cobri-lo.
Do outro lado do lago, a luz do quarto de Marianne continuava acesa.
Diane ficou junto à janela.
Por alguns segundos, permitiu-se olhar.
Depois apagou a própria luz.
E ficou no escuro.
Capítulo 4 — Onde a Música Permanece
A manhã nasceu clara sobre a propriedade Rivers.
Marianne já estava acordada quando a primeira luz atravessou as cortinas do quarto.
Havia começado a reconhecer alguns sons da casa.
O ranger discreto do corredor antes das seis.
Os passos de Martha descendo a escadaria.
O ruído distante de louças sendo organizadas.
O vento encontrando alguma fresta nas janelas antigas.
E, por algum motivo que não saberia explicar, aquele conjunto de pequenos sons começava a lhe parecer menos estranho.
Vestiu-se sem pressa.
Uma saia escura.
Blusa clara.
Um casaco fino sobre os ombros.
Prendeu os cabelos.
Depois desceu.
Como nos outros dias, encontrou a cozinha já desperta.
Anna estava diante de uma bancada cortando maçãs enquanto outra empregada organizava pães ainda quentes em uma cesta.
O cheiro de café se misturava ao de canela.
Marianne parou à porta.
— Estou começando a suspeitar que vocês acordam antes do sol apenas para nos constranger.
Anna levantou os olhos.
— Bom dia, senhorita Lieberman.
— Bom dia.
— E não. O sol é que anda preguiçoso.
Marianne aproximou-se da mesa.
— Finalmente alguém nesta casa de quem posso discordar sem consequências.
Anna sorriu.
— A senhorita Rivers também acorda cedo.
Marianne pegou uma xícara.
— Isso não me surpreende.
— Por quê?
Marianne pensou por um instante.
— Ela não parece alguém que permita ao dia começar sem a autorização dela.
Anna riu.
— Talvez tenha razão.
Marianne se serviu de café.
Ao lado da cesta havia um pequeno pão redondo ainda morno.
Pegou um.
— O que estão preparando?
Anna apontou com a faca para as maçãs.
— Tortas.
— Para o café da manhã?
— Para o festival.
Marianne olhou para ela.
— Festival?
— Na cidade.
— Que cidade?
— Bellwood.
Marianne tentou lembrar.
O motorista havia passado por um pequeno município durante a viagem.
— Fica perto daqui?
— Uns vinte minutos de carro.
Anna continuou cortando as frutas.
— Talvez um pouco mais se a estrada estiver ruim.
Marianne puxou uma cadeira.
— E qual é a ocasião?
Anna pareceu surpresa.
— A senhora não sabe?
— Cheguei ao país há poucos dias.
— Claro.
Anna apoiou a faca na tábua.
— É o festival de Ação de Graças.
— Pensei que a Ação de Graças fosse apenas na próxima semana.
— É.
Anna voltou a sorrir.
— Por isso o festival começa antes.
Marianne tomou um gole de café.
— Americanos realmente precisam de uma semana inteira para agradecer?
— Precisamos de uma semana para comer.
Marianne soltou uma pequena risada.
— Isso parece mais honesto.
A outra empregada, que até então permanecera em silêncio, virou-se.
— Também tem desfile.
Marianne olhou para ela.
— Desfile?
— No dia de Ação de Graças.
Anna completou:
— Carros enfeitados, crianças das escolas, banda, bandeiras...
— E cavalos — acrescentou a outra.
Marianne franziu o cenho.
— Cavalos?
— Muitos.
— Parece menos organizado do que eu imaginava.
Anna riu.
— É justamente por isso que é bom.
Marianne partiu o pão.
— O que mais acontece?
— Música.
A palavra prendeu sua atenção.
— Música?
— Bastante.
Anna colocou as maçãs numa tigela.
— Tem gente tocando na praça, bandas, às vezes um grupo de jazz vem de outra cidade, e de noite fazem baile no salão comunitário.
— Baile?
— Sim.
— Dança?
— A senhora parece surpresa.
Marianne ergueu a xícara.
— Eu ensino música. Não deveria me surpreender com a existência de dança.
— Então dança?
Marianne olhou para Anna.
— Isso é interrogatório?
— Só curiosidade.
Marianne bebeu o café.
— Sei dançar.
Anna abriu um sorriso.
— Sabia.
— Como?
— A senhora anda como alguém que sabe.
Marianne olhou para os próprios pés.
— Essa é provavelmente a forma mais estranha de elogio que recebi este ano.
Anna riu.
— O festival é bonito. Principalmente à noite.
— Vocês vão?
Anna respondeu imediatamente:
— Vamos.
A outra empregada assentiu.
— Todo mundo vai.
— Todos?
— Quase.
Anna voltou a cortar as maçãs.
— É a única distração que temos por perto.
Marianne olhou pela janela.
A propriedade parecia ainda maior sob a luz da manhã.
— Imagino.
— No resto do ano é tudo muito quieto.
— Isso já percebi.
Anna diminuiu o movimento da faca.
— A senhora Rivers costumava levar todos quando as meninas eram mais novas.
Marianne voltou os olhos para ela.
— Diane e Eleanor?
Anna assentiu.
— Martha contou.
Marianne permaneceu calada.
Anna percebeu a mudança.
— Faz tempo que a senhorita Diane não vai.
— Quanto tempo?
— Não sei exatamente.
A outra empregada respondeu:
— Antes de eu trabalhar aqui.
Anna continuou:
— Martha diz que elas gostavam muito.
Marianne abaixou os olhos para o café.
— Diane gostava?
— Acho que sim.
— Você parece não ter certeza.
Anna deu de ombros.
— Com ela é difícil ter certeza.
Marianne pensou que aquilo era verdade.
— E a irmã?
— Eleanor?
— Sim.
Anna sorriu.
— Pelo que contam, ela adorava.
Marianne permaneceu em silêncio.
A música.
A dança.
Um festival cheio de gente.
Parecia combinar muito mais com o que havia ouvido sobre Eleanor do que com a mulher silenciosa que conhecera nos últimos dias.
Anna pegou outra maçã.
— A senhora deveria ir.
Marianne ergueu os olhos.
— Eu?
— Claro.
— Não conheço ninguém.
— Conhece a gente.
— Isso é perigosamente parecido com um convite.
— É um convite.
Marianne sorriu.
— Vou considerar.
Anna apontou a faca para ela.
— Isso quer dizer não?
— Significa que vou considerar.
— Italianos sempre respondem assim?
— Apenas quando americanos insistem demais.
Anna riu novamente.
Marianne terminou o café.
— E Diane?
Anna parou.
— O que tem ela?
— Vai?
A pergunta saiu simples.
Marianne percebeu a própria curiosidade apenas depois de fazê-la.
Anna também pareceu perceber.
— Provavelmente não.
— Já perguntou?
— Não.
— Então como sabe?
Anna olhou para a janela.
— Porque ela nunca vai.
Marianne acompanhou seu olhar.
Ao longe, o lago refletia a manhã.
— Pessoas mudam de ideia.
Anna sorriu.
— Talvez a senhora consiga convencê-la.
Marianne voltou imediatamente os olhos para ela.
— Não vim aqui para convencê-la a participar de festivais.
— Eu sei.
Marianne colocou a xícara na mesa.
— E não pretendo transformar cada coisa que Diane faz em parte do meu trabalho.
Anna inclinou a cabeça.
— Certo.
Marianne percebeu o tom divertido.
— Por que está sorrindo?
— Não estou.
Marianne levantou uma sobrancelha.
Anna rapidamente voltou a olhar para as maçãs.
— Definitivamente estava.
— A senhora está começando a parecer com ela.
Marianne ficou imóvel.
— Isso foi um insulto?
— Ainda estou decidindo.
Marianne encarou a jovem por alguns segundos.
Depois riu.
— Péssima influência.
Anna pareceu satisfeita.
---
Diane apareceu pouco antes das dez.
Marianne estava na biblioteca.
Tinha um livro aberto, mas havia passado vários minutos olhando pela janela.
Ouviu a porta abrir.
Não precisou levantar os olhos imediatamente.
Já reconhecia os passos.
Diane caminhava de maneira tranquila.
Sem pressa.
Sem arrastar os pés.
Era curioso o quanto uma pessoa podia revelar apenas pela maneira como atravessava uma sala.
— Senhorita Lieberman.
Marianne ergueu o rosto.
Diane estava parada diante da porta.
Vestia calças escuras, botas de caminhada e um casaco verde-musgo.
— Senhorita Rivers.
Diane a observou.
— Vamos caminhar.
Marianne fechou o livro.
— Isso foi um convite?
— Não exatamente.
— Uma ordem?
Diane inclinou levemente a cabeça.
— Você costuma questionar tudo?
— Apenas aquilo que me inclui.
Diane olhou para o livro.
— Pretendia ficar aqui o dia inteiro?
— Talvez.
— Então será bom sair.
Marianne permaneceu sentada por alguns segundos.
Diane não acrescentou nada.
Apenas esperou.
— Para onde?
— Caminhar.
— Isso eu entendi.
Diane virou-se.
— Então está pronta.
Marianne olhou para as próprias roupas.
— Aparentemente.
Diane saiu.
Marianne respirou fundo.
Fechou o livro.
E a seguiu.
---
A trilha começava atrás dos jardins.
Marianne nunca havia reparado nela.
Era estreita.
Duas fileiras de árvores formavam uma passagem natural que desaparecia floresta adentro.
Diane caminhava à frente.
Não muito distante.
Apenas o suficiente para deixar claro que conhecia o caminho e não pretendia explicar nada.
Marianne acompanhava.
No começo, nenhuma das duas falou.
A floresta era diferente do restante da propriedade.
Ali, tudo parecia menos controlado.
As árvores cresciam em direções irregulares.
Galhos se cruzavam acima do caminho.
Folhas secas quebravam sob os passos.
Havia pequenas flores perto das raízes e plantas altas acompanhando a trilha.
A brisa passava entre os troncos.
Marianne inspirou profundamente.
O ar tinha cheiro de terra úmida.
Diane continuava à frente.
Às vezes afastava um galho.
Às vezes diminuía discretamente o passo quando o caminho ficava mais íngreme.
Marianne percebeu.
Não disse nada.
Depois de alguns minutos, falou:
— Você costuma caminhar sem conversar?
Diane respondeu sem olhar para trás:
— Costumo caminhar para não precisar conversar.
— Entendo.
— Mas está conversando.
— Estou testando sua teoria.
Diane soltou um pequeno som pelo nariz.
Marianne não soube se era irritação ou divertimento.
Continuaram.
Uma folha caiu sobre o ombro de Diane.
Ela não percebeu.
Marianne viu.
Por um instante pensou em avisar.
Não avisou.
Diane caminhou mais alguns metros.
Então tirou a folha sozinha.
Marianne desviou os olhos antes que ela pudesse perceber que vinha observando.
— A empregada comentou sobre um festival — disse Marianne.
Diane diminuiu o passo quase imperceptivelmente.
— Anna fala muito.
— Já me avisou.
— E aparentemente continua ouvindo.
— Ela é agradável.
— É.
Marianne notou a resposta rápida.
— Você gosta dela.
Diane olhou por cima do ombro.
— Preciso declarar isso?
— Não.
— Ótimo.
Marianne sorriu.
— Vai ao festival?
Diane voltou a olhar para a trilha.
— Não.
— Resposta rápida.
— Pergunta simples.
— Faz quanto tempo que não vai?
Diane não respondeu.
Marianne esperou alguns segundos.
— Isso significa que não lembra?
— Significa que não quero responder.
Marianne assentiu.
— Justo.
Diane olhou novamente para trás.
Talvez esperasse insistência.
Não houve.
Continuou andando.
A trilha se estreitou.
Por alguns minutos, só existiu o som dos passos.
Depois as árvores começaram a diminuir.
A luz ficou mais forte.
E, de repente, a floresta terminou.
Marianne parou.
Diante delas se estendia um campo enorme.
Verde.
Aberto.
O céu parecia ainda maior ali.
Não havia construções.
Nem cercas visíveis.
A grama baixa se movia suavemente com o vento.
Mais adiante, algumas árvores isoladas marcavam o horizonte.
Marianne olhou em volta.
— Não sabia que isso estava aqui.
Diane caminhou alguns passos para dentro do campo.
— Poucas pessoas sabem.
Marianne a acompanhou.
— A propriedade ainda é de vocês?
— Sim.
— Naturalmente.
Diane olhou para ela.
— Isso pareceu crítica.
— Foi inveja.
Diane continuou andando.
Então, sem qualquer cerimônia, deitou-se na grama.
Marianne ficou parada.
Diane cruzou as mãos sobre o abdômen.
Olhou para o céu.
Marianne observou aquela cena com uma estranha surpresa.
Não combinava com a Diane da mansão.
A mulher sempre ereta.
Sempre composta.
Sempre consciente dos próprios movimentos.
Ali ela simplesmente se deitou.
Marianne olhou para o chão.
Depois para o próprio casaco.
— Se estiver preocupada com a roupa, podemos voltar.
Diane continuava olhando para o céu.
Marianne ergueu uma sobrancelha.
— Não estou preocupada com a roupa.
Sentou-se ao lado dela.
Não se deitou.
Apoiou as mãos sobre a grama.
O vento tocou seu rosto.
Por um tempo, permaneceram em silêncio.
Diane fechou os olhos.
— Antigamente eu gostava de fazer essa caminhada.
Marianne olhou para ela.
— Para vir aqui?
— Sim.
Diane abriu os olhos.
O céu refletia neles.
— Era mais bonito quando eu era criança.
Marianne olhou ao redor.
— Talvez você fosse menor.
Diane virou o rosto.
— Isso altera a paisagem?
— Tudo parece maior.
Diane pensou.
— Talvez.
Marianne puxou uma folha de grama entre os dedos.
— E por que parou?
A pergunta ficou entre as duas.
Diane não respondeu imediatamente.
Seu olhar voltou para o céu.
Marianne não insistiu.
O vento atravessou o campo.
Depois de alguns segundos, Diane falou:
— Porque me faz lembrar dela.
Marianne permaneceu quieta.
Não havia necessidade de perguntar quem.
— Eleanor.
Diane assentiu.
Marianne olhou para o rosto dela.
Havia tristeza.
Mas nenhuma lágrima.
Era uma tristeza muito mais antiga do que o choro.
Algo que aprendera a morar ali.
— Você a amava muito — disse Marianne.
Diane virou o rosto devagar.
— Isso parece uma pergunta.
— Não é.
Diane a observou.
Depois voltou os olhos para o céu.
— Sim.
O silêncio retornou.
Marianne deixou que continuasse.
Diane respirou profundamente.
— Apesar de eu ser mais velha, Eleanor sempre pareceu... mais viva.
Marianne não falou.
— Eu nunca tive muito interesse nas coisas.
— Em nada?
Diane pensou.
— Em quase nada.
— Isso parece improvável.
— Não para mim.
Marianne permaneceu ouvindo.
Diane continuou:
— Eleanor queria experimentar tudo.
Uma pequena mudança apareceu em sua voz.
— Quando éramos crianças, queria correr até a floresta. Queria nadar mesmo quando a água estava fria. Queria aprender idiomas porque dizia que era absurdo existirem pessoas no mundo que poderiam dizer coisas que ela não entenderia.
Marianne sorriu de leve.
— Parece inquieta.
— Era.
Diane também quase sorriu.
— Minha mãe dizia que Eleanor começava dez coisas e terminava duas.
— E você?
— Eu não começava nenhuma.
Marianne olhou para ela.
— Até a música.
Diane ficou em silêncio.
Depois assentiu.
— Até a música.
O vento mexeu seus cabelos.
Ela não os afastou.
— Eleanor cantava.
— Bem?
Diane virou o rosto para Marianne.
— Muito.
Havia certeza na resposta.
— Melhor do que tocava?
— Não.
Diane pensou.
— Diferente.
Marianne aguardou.
— Quando ela cantava, parecia que não precisava provar nada para ninguém.
Diane olhou para o céu novamente.
— Piano era diferente.
— Como?
— Ela mudava.
Marianne sentiu a atenção se tornar ainda mais profunda.
Diane continuou:
— Ficava concentrada. Quase séria. E Eleanor raramente era séria.
Uma pequena lembrança pareceu atravessar seu rosto.
— Eu ficava sentada no chão e observava.
— Você não tocava?
— Não.
— Quanto tempo?
— Meses.
Diane passou os dedos pela grama.
— Talvez mais.
— Então por que começou?
Diane demorou.
— Pela maneira como ela parecia quando tocava.
Marianne não desviou os olhos.
Diane percebeu.
— Era a primeira vez que algo me fazia querer entender.
— Música?
— Não.
Diane virou o rosto.
— O que ela sentia.
Marianne permaneceu completamente imóvel.
Havia alguma coisa muito verdadeira naquela resposta.
Diane voltou a olhar para o campo.
— Eu queria saber o que existia dentro daquele piano para transformar Eleanor daquela maneira.
— E descobriu?
— Não.
— Mesmo depois de aprender?
Diane balançou lentamente a cabeça.
— Descobri outra coisa.
— O quê?
— Que o piano não fazia nada.
Marianne esperou.
— Era ela.
A brisa atravessou as duas.
Diane continuou:
— Eleanor me ensinou as primeiras escalas.
— Ela era paciente?
Diane soltou um pequeno riso.
Foi rápido.
Mas verdadeiro.
— Não.
Marianne sorriu.
— Isso parece contraditório.
— Era péssima professora.
— Então talvez eu ainda tenha alguma utilidade.
Diane olhou para ela.
— Talvez.
Marianne percebeu que aquela era provavelmente a coisa mais próxima de um elogio profissional que recebera desde que chegou.
Não comentou.
— Depois vieram professores — disse Diane. — Conservatório. Apresentações. Minha mãe percebeu que eu tinha facilidade.
— E você gostava?
Diane demorou.
— No começo.
— Depois não?
— Depois deixou de ser uma coisa entre mim e Eleanor.
Marianne compreendeu.
— Virou uma carreira.
— Sim.
— E ela?
— Ficou feliz.
Diane olhou para o horizonte.
— Mais do que eu.
Marianne permaneceu em silêncio.
Depois de algum tempo, perguntou:
— E a doença dela?
Diane não respondeu imediatamente.
A pergunta não pareceu ofendê-la.
Mas algo em seu rosto se fechou.
O campo continuava bonito.
Isso parecia quase injusto.
Diane puxou uma pequena folha de grama.
Girou-a entre os dedos.
— Começou devagar.
Marianne esperou.
— Primeiro cansaço.
Diane falava olhando para o céu.
— Depois dores.
Uma pausa.
— Médicos.
Outra.
— Muitos médicos.
Marianne baixou os olhos.
— Nós tínhamos dinheiro.
Diane soltou a folha.
— Descobri cedo que dinheiro é muito útil até encontrar alguma coisa que não esteja à venda.
Marianne não disse nada.
— Minha mãe levou Eleanor a todos os lugares.
— E você?
— Fiquei com ela.
Diane fechou os olhos por um momento.
— Quase sempre.
Marianne percebeu uma tensão diferente em seu rosto.
— Ela sabia?
— Que morreria?
— Sim.
Diane abriu os olhos.
Olhou diretamente para Marianne.
— Acho que sim.
A resposta foi baixa.
— Nós nunca conversamos claramente sobre isso.
Marianne sustentou seu olhar.
Diane prosseguiu:
— As pessoas falam sobre morte como se dizer a palavra pudesse apressá-la.
Marianne sentiu alguma coisa apertar dentro do peito.
Diane não chorava.
Não tremia.
Era precisamente isso que tornava tudo mais difícil de ouvir.
— E você? — perguntou Marianne.
Diane olhou para o céu.
— Eu nunca tive certeza de nada durante minha vida.
Marianne esperou.
Diane respirou.
— Portanto, a morte...
Ela fez uma pequena pausa.
— ...não foi algo a ser evitado.
Marianne permaneceu imóvel.
A frase poderia soar fria se dita por outra pessoa.
Ali, não.
Ali parecia a conclusão de alguém que havia passado anos tentando dar forma ao inevitável.
Marianne olhou para Diane por alguns segundos.
— Você acredita nisso?
Diane não respondeu.
Marianne percebeu que havia feito uma pergunta demais.
Abaixou a cabeça.
Tocou levemente a testa com dois dedos.
O gesto durou pouco.
Depois retirou a mão.
Diane viu.
Não comentou.
— Desculpe — disse Marianne.
— Por quê?
— Talvez não devesse ter perguntado.
Diane olhou para ela.
— Você perguntou.
— Sim.
— E agora?
Marianne respirou.
— Agora posso aceitar que talvez não queira responder.
Diane ficou alguns segundos olhando.
Depois virou-se novamente para o céu.
— Não sei no que acredito.
Marianne permaneceu quieta.
— Mas sei que não consegui impedir.
A voz de Diane ficou mais baixa.
— Nenhum de nós conseguiu.
Silêncio.
— Talvez tenha sido isso que eu quis dizer.
Marianne assentiu devagar.
Não havia resposta adequada.
E pela primeira vez desde que chegara, não tentou encontrar uma.
As duas ficaram ali.
O vento.
O campo.
O céu.
Nada mais.
Depois de alguns minutos, Diane se sentou.
Marianne olhou para ela.
Diane se levantou.
Bateu levemente a grama das roupas.
— Vamos.
Marianne levantou também.
— Para onde?
Diane já caminhava.
Não respondeu.
Marianne franziu o cenho.
— Você tem esse hábito irritante de não terminar conversas.
Diane continuou andando.
— Algumas terminam sozinhas.
— Essa não terminou.
Diane olhou por cima do ombro.
— Então talvez continue depois.
Marianne ficou parada um instante.
Depois a seguiu.
---
O caminho de volta pela floresta pareceu mais curto.
Talvez porque Marianne estivesse pensando demais.
Diane não falou.
E Marianne não tentou preencher o silêncio.
Havia aprendido alguma coisa naquela manhã.
Talvez não sobre o piano.
Talvez nem mesmo sobre Eleanor.
Mas sobre a maneira como Diane carregava a irmã.
Não como uma ferida aberta.
Como uma presença.
Um espaço permanentemente ocupado.
Quando chegaram ao fim da trilha, Marianne esperava que Diane seguisse em direção à mansão.
Não seguiu.
Virou para o lago.
Marianne parou por uma fração de segundo.
A casa do lago.
Diane continuou andando.
Não olhou para trás.
Marianne ficou onde estava.
Havia uma regra.
Diane havia sido clara.
Não entre.
Marianne observou-a se aproximar da pequena construção.
Então Diane parou.
Virou-se.
— Vai ficar aí?
Marianne ergueu ligeiramente as sobrancelhas.
— Você disse que eu não deveria entrar.
— Disse.
— E agora?
Diane abriu a porta.
— Agora estou entrando.
Marianne esperou.
Diane segurou a porta aberta.
Nada mais.
Não precisava.
Marianne caminhou até ela.
Ao passar, não disse obrigada.
Por alguma razão, pareceu que agradecer tornaria aquele gesto maior do que Diane queria admitir.
A casa era ainda mais simples por dentro.
Madeira.
Uma pequena sala.
Estante.
Poltronas.
Mesa.
Janelas voltadas para o lago.
Havia livros empilhados em vários lugares.
Alguns abertos.
Outros com papéis entre as páginas.
Marianne olhou ao redor.
Então viu o piano.
Ficava no fundo da sala.
Um piano vertical antigo.
A madeira escura estava marcada pelo tempo.
Não era tão imponente quanto o Steinway da mansão.
Mas havia algo naquele instrumento que imediatamente prendeu Marianne.
Ao redor dele, pequenos armários ocupavam boa parte da parede.
Diane abriu um deles.
Marianne viu partituras.
Muitas.
Pilhas organizadas.
Algumas antigas.
Outras com anotações.
Folhas soltas.
Cadernos.
Marianne se aproximou devagar.
— Tudo isso é seu?
— Parte.
— O restante era dela.
Diane assentiu.
Marianne olhou para as partituras.
Algumas tinham notas escritas à mão.
— Posso?
Diane permaneceu alguns segundos em silêncio.
Depois:
— Sim.
Marianne retirou uma partitura.
Beethoven.
Havia anotações nas margens.
Duas caligrafias diferentes.
Uma mais organizada.
Outra inclinada.
— Vocês escreviam juntas.
Diane aproximou-se.
— Às vezes.
Marianne mostrou uma anotação.
— Essa é sua?
— Não.
— Eleanor.
— Sim.
Marianne leu.
“Mais devagar aqui. Não mate a música.”
Marianne sorriu.
— Gostei dela.
Diane olhou para a anotação.
— Ela escrevia isso em tudo.
— Não mate a música?
— Sim.
— Parece um bom princípio.
— Era uma crítica péssima.
Marianne riu.
Diane também demonstrou um sorriso mínimo.
Depois desviou os olhos.
Marianne devolveu a partitura.
Caminhou até o piano.
Passou os dedos pela lateral sem tocar nas teclas.
— É bonito.
Diane ficou atrás dela.
— Antigo.
— Isso não impede.
Marianne olhou para as marcas na madeira.
— Pelo contrário.
Diane permaneceu quieta.
Marianne virou-se.
— É aqui que se prende o tempo todo?
Diane ergueu uma sobrancelha.
— Prende?
Marianne percebeu a escolha da palavra.
— Talvez não tenha sido a melhor.
— Não.
— Então reformulo.
Marianne cruzou as mãos.
— É aqui que você desaparece quando não quer ficar na casa?
Diane observou-a.
— Melhor.
— E?
— Às vezes.
Marianne olhou novamente para o piano.
— Entendo.
Diane caminhou até o banco.
Tocou a madeira com a ponta dos dedos.
Depois olhou para Marianne.
— Sente-se.
Marianne ficou imóvel.
— Perdão?
Diane apontou para o piano.
— Sente-se.
Marianne olhou para o instrumento.
Depois para Diane.
— Achei que ninguém tocasse aqui.
— Ninguém toca sem eu permitir.
Marianne levou um segundo para compreender.
— E está permitindo.
— Momentaneamente.
Marianne aproximou-se do banco.
— Por quê?
Diane olhou para ela.
— Afinal foi para isso que veio, não é?
Marianne parou.
A frase tinha mais de uma camada.
— Certamente.
Sentou-se.
O banco rangeu discretamente.
Marianne pousou as mãos sobre as pernas.
Olhou para as teclas.
Depois para Diane.
Diane permaneceu de pé ao lado do piano.
Séria.
Com os braços cruzados.
Marianne percebeu que ela estava esperando.
Não como uma aluna.
Como alguém testando uma porta.
— Algum pedido? — perguntou Marianne.
Diane olhou para os armários.
Depois para o piano.
— Não.
Marianne respirou lentamente.
Abriu a tampa.
As teclas estavam um pouco gastas.
Algumas mais amareladas.
Ela colocou as mãos sobre elas.
Não tocou.
Por um instante, apenas sentiu o peso do instrumento.
Depois olhou novamente para Diane.
Diane não desviou.
Marianne voltou os olhos para o teclado.
Escolheu.
Beethoven.
Sonata nº 14.
O primeiro movimento.
As primeiras notas surgiram baixas.
Profundas.
O som era diferente do Steinway.
Menos brilhante.
Mais íntimo.
A madeira antiga parecia guardar alguma coisa dentro dela.
Marianne ajustou o toque.
Continuou.
Diane não se moveu.
O rosto permaneceu sério.
Mas seus olhos acompanharam as mãos de Marianne.
A música se espalhou pela pequena casa.
Não havia plateia.
Não havia mãe.
Não havia empregados.
Não havia contrato.
Apenas o piano.
O lago.
E duas mulheres dentro de um lugar que carregava anos de silêncio.
Marianne tocava com cuidado.
Não tentava impressionar.
Sabia que qualquer excesso seria um erro.
Diane caminhou até a janela.
Ficou de costas.
Marianne percebeu.
Continuou tocando.
A Sonata nº 14 avançava devagar.
As notas pareciam acompanhar o movimento do lago do lado de fora.
Diane colocou uma mão no parapeito.
Fechou os olhos.
Por um instante muito breve, ouviu outra pessoa tocando.
Eleanor.
Depois a memória desapareceu.
Marianne continuava.
Diane abriu os olhos.
Não sabia se aquilo a aliviava ou a perturbava.
Talvez as duas coisas.
Marianne chegou ao fim do trecho.
Deixou a última nota desaparecer.
Não retirou imediatamente as mãos.
O silêncio que veio depois pareceu diferente.
Diane continuou diante da janela.
Marianne esperou.
Não perguntou se gostara.
Não perguntou se deveria continuar.
Não perguntou nada.
Depois de algum tempo, Diane falou:
— Eleanor tocava mais rápido.
Marianne olhou para ela.
— Essa peça?
— Sim.
— Ela estava errada.
Diane virou-se.
A resposta parecia quase ofensiva.
Marianne percebeu.
— Não quis dizer musicalmente.
— Então?
— Talvez ela simplesmente tivesse pressa.
Diane ficou olhando.
Marianne apontou discretamente para a partitura.
— Você disse que era espontânea.
— Era.
— Pessoas espontâneas tendem a correr até quando a música pede que fiquem.
Diane caminhou lentamente em direção ao piano.
— Você acha que conhecia minha irmã depois de ouvir duas histórias?
Marianne sustentou seu olhar.
— Não.
Diane parou.
— Então não fale como se conhecesse.
Marianne respirou pela boca.
Um gesto rápido.
Quase involuntário.
Depois assentiu.
— Tem razão.
Diane esperava alguma defesa.
Não veio.
Marianne fechou a tampa das teclas.
— Fui presunçosa.
Diane permaneceu imóvel.
— Não precisava concordar tão rápido.
Marianne olhou para ela.
— Preferia uma discussão?
Diane pensou.
— Talvez.
— Podemos organizar uma para amanhã.
Diane quase sorriu.
Quase.
— Você realmente é irritante.
— Essa reputação atravessou o Atlântico.
Diane desviou os olhos.
Marianne levantou-se.
— Posso perguntar uma coisa?
— Já perguntou.
Marianne ignorou.
— Por que me trouxe aqui?
Diane olhou para o piano.
— Já respondi.
— Não.
— Disse que foi para isso que você veio.
— Isso explica por que eu deveria tocar.
Marianne aproximou-se um passo.
— Não explica por que aqui.
Diane ficou em silêncio.
Marianne não insistiu.
Depois de alguns segundos, Diane passou os dedos sobre a madeira.
— Na sala da mansão, o piano não é meu.
Marianne franziu o cenho.
— É da família?
— Não.
Diane olhou para as teclas fechadas.
— É da minha mãe.
Marianne compreendeu que não se tratava de propriedade.
— E este?
— Era nosso.
A palavra saiu baixa.
Nosso.
Marianne não disse nada.
Diane continuou:
— Eu e Eleanor.
Então caminhou até o armário.
Fechou a porta das partituras.
— Se vou voltar a ouvir alguém tocar...
Fez uma pausa.
— Prefiro que seja aqui.
Marianne permaneceu imóvel.
Não havia triunfo naquilo.
Nenhuma vitória.
Apenas permissão.
Pequena.
Talvez temporária.
— Entendi — disse.
Diane olhou para ela.
— Não tenha certeza.
Marianne inclinou levemente a cabeça.
— Então estou começando a entender.
Diane aceitou a correção com um movimento quase imperceptível.
Caminhou até a porta.
— Está na hora de voltar.
Marianne pegou o casaco.
Antes de sair, olhou novamente para o piano.
— Diane.
Ela parou.
Foi a primeira vez que Marianne usou apenas seu nome daquela maneira.
Diane virou-se.
— Obrigada.
Diane ficou quieta.
— Pelo quê?
Marianne olhou ao redor.
— Por me deixar entrar.
Diane sustentou seu olhar por alguns segundos.
Depois abriu a porta.
— Não transforme isso em algo importante.
Marianne passou por ela.
— Não pretendo.
Diane saiu logo depois.
Fechou a porta.
As duas caminharam em direção à mansão.
Dessa vez lado a lado.
Não muito próximas.
Nenhuma falou.
Mas havia uma diferença.
Não entre elas.
Ainda não.
A diferença estava atrás.
Na pequena casa junto ao lago.
Pela primeira vez em anos, aquele piano havia sido tocado.
E Diane Rivers permitira que as notas permanecessem no ar até o fim.
Sem fugir.
Sem fechar a porta.
Sem pedir que parassem.
Por enquanto, aquilo bastava.
Capítulo 5 — O Que a Noite Guarda
A noite havia chegado devagar à propriedade Rivers, apagando primeiro as cores do jardim, depois a linha das árvores e, por último, o reflexo do céu sobre o lago. Quando as luzes da mansão começaram a se acender, uma a uma, Marianne já estava em seu quarto havia algum tempo.
Deitada sobre a cama, mantinha os olhos abertos e fixos no teto.
Não tinha sono.
Tentara ler. O livro permanecia sobre a mesa de cabeceira, aberto na mesma página havia mais de meia hora. Tentara escrever algumas notas sobre Diane, como costumava fazer com alunos novos, mas abandonara a ideia depois de duas linhas. Havia algo de inadequado em reduzir aquela mulher a observações de professora.
Resistência ao piano.
Trauma relacionado à irmã.
Dificuldade em verbalizar sentimentos.
Marianne chegara a escrever essas três frases.
Depois, riscara todas.
Pareciam pobres.
Pior: pareciam presunçosas.
Diane não era um problema à espera de uma solução elegante.
Essa talvez tivesse sido a primeira coisa realmente importante que Marianne aprendera desde que chegara.
Virou-se de lado.
A janela estava entreaberta, e uma brisa fina atravessava as cortinas. O tecido se movia lentamente, quase no mesmo ritmo da respiração dela. Do lado de fora, não se ouvia mais do que o vento e, muito ao longe, alguma ave noturna.
Mas Marianne continuava ouvindo outra coisa.
A voz de Diane.
“Era a primeira vez que algo me fazia querer entender.”
Depois:
“O que ela sentia.”
Marianne fechou os olhos.
A conversa no campo retornava em fragmentos. A maneira como Diane havia falado de Eleanor. Sem lágrimas. Sem descontrole. Quase sem alterar o tom.
Talvez fosse justamente aquilo que permanecesse em sua cabeça.
Marianne já conhecera pessoas que choravam ao falar dos mortos. Pessoas que evitavam mencionar nomes. Pessoas que transformavam lembranças em histórias engraçadas porque qualquer outro caminho seria insuportável.
Diane fazia algo diferente.
Falava da irmã como quem descrevia uma casa que ainda existia, mas onde não podia mais entrar.
E então havia o piano.
Aquele velho instrumento na casa do lago.
A permissão.
“Sente-se.”
Marianne abrira os olhos naquele momento e encontrara Diane olhando para ela como se aquele pedido tivesse custado mais do que deveria.
Não era uma aula.
Não fora confiança, ainda não.
Talvez tivesse sido apenas um teste.
Ou uma tentativa.
Diane não voltara a tocar. Nem encostara nas teclas. Mas permanecera dentro da casa enquanto Marianne tocava até a última nota desaparecer.
Isso não era pouco.
Marianne sentou-se na cama.
Apoiou os pés no chão.
Como fazê-la voltar?
Essa era, afinal, a razão oficial de sua presença ali.
Três meses.
Margaret Rivers esperava resultados.
Talvez esperasse um milagre.
Marianne detestava essa palavra.
Milagres eram quase sempre o nome dado ao trabalho que ninguém testemunhara.
Diane não precisava reaprender a técnica. Isso era evidente. Uma pianista daquele nível não esquecia completamente. Os dedos poderiam perder velocidade, resistência e precisão. O corpo poderia se tornar estranho ao instrumento por algum tempo.
Mas o verdadeiro obstáculo não estava nas mãos.
Marianne levantou-se.
Caminhou até a janela.
Ao longe, quase escondida pela escuridão, estava a casa do lago.
Uma pequena luz permanecia acesa.
Diane estava lá.
Marianne observou por alguns segundos.
Depois fechou a cortina.
Não gostou de perceber que soubera imediatamente qual janela procurar.
Talvez a resposta estivesse justamente naquilo que Diane havia dito durante a caminhada.
Ela não começara a tocar porque amava a música.
Começara porque queria compreender Eleanor.
Depois vieram professores, concertos, expectativas, carreira e a mãe.
A música deixara de ser descoberta e se transformara em obrigação.
E, depois da morte de Eleanor...
Marianne voltou a olhar para o quarto.
Talvez Margaret tivesse cometido o pior erro possível sem perceber.
Tentara devolver Diane ao piano usando justamente aquilo que a afastara dele: expectativas.
Marianne permaneceu parada por mais alguns minutos.
Então pegou o robe que estava sobre uma cadeira.
Não sabia exatamente o que procurava quando abriu a porta do quarto.
Só sabia que continuar deitada, pensando, não produziria resposta alguma.
A mansão já estava quase completamente silenciosa.
Marianne caminhou pelo corredor devagar, evitando fazer barulho. Desceu a escadaria e atravessou o hall.
A maior parte das luzes estava apagada.
Quando passou diante da sala oeste, parou.
A porta estava fechada.
Olhou para ela por alguns segundos.
Depois, abriu-a.
A sala estava mergulhada em escuridão.
Marianne acendeu apenas um dos abajures próximos à parede.
A luz amarelada revelou o piano.
O Steinway parecia ainda maior à noite.
Negro.
Polido.
Intacto.
Quase severo.
Marianne fechou a porta atrás de si.
Aproximou-se.
Dessa vez, não havia poeira.
Passou a mão pela madeira sem abrir o instrumento.
“Além de mim e da minha irmã.”
A voz de Diane voltou à memória.
Marianne puxou o banco.
Sentou-se.
Ficou olhando para a tampa fechada.
Não deveria estar ali.
Ou talvez pudesse estar.
Diane proibira que tocasse.
Não que se sentasse.
Marianne quase sorriu com o raciocínio.
Era uma justificativa infantil.
Ainda assim, permaneceu.
Depois de algum tempo, abriu cuidadosamente a tampa.
As teclas surgiram na penumbra.
Marianne colocou as mãos sobre as próprias pernas.
Observou.
Era estranho pensar que aquele instrumento já recebera Diane em outra época.
Uma Diane que viajava.
Que se apresentava.
Que talvez se sentasse ali durante horas.
Uma Diane anterior àquela que Marianne conhecera.
Levantou lentamente as mãos.
Manteve os dedos alguns milímetros acima das teclas.
Não tocou.
Fechou os olhos.
E imaginou.
Primeiro, a posição das mãos.
Depois, o peso dos braços.
O movimento do pulso.
Na mente, ouviu o início de uma peça.
Não conseguiu identificar qual.
Talvez porque não fosse música de verdade.
Seus dedos começaram a se mover no ar.
Suavemente.
Sem pressionar tecla alguma.
Um exercício que havia aprendido quando ainda era estudante: tocar sem som. Memorizar a distância. Sentir o movimento antes da nota.
O corpo lembrava.
Os dedos atravessavam o teclado sem encostá-lo.
Na imaginação, porém, havia som.
Marianne viu a si mesma sentada diante daquele piano em plena luz do dia.
Por um breve instante, a imagem mudou.
Não era mais apenas ela.
Havia alguém parado junto à janela.
Uma silhueta.
Escura.
Imóvel.
Marianne abriu os olhos.
A sala estava vazia.
Respirou fundo.
Olhou novamente para as teclas.
— Ridículo — murmurou.
Fechou os olhos outra vez.
Continuou.
Os dedos agora se moviam com mais firmeza.
A mão esquerda encontrava acordes inexistentes. A direita desenhava uma melodia silenciosa.
Por alguns minutos, Marianne esqueceu onde estava.
Até ouvir um ruído.
Pequeno.
Madeira sob um passo.
Abriu os olhos imediatamente.
Virou o rosto.
Martha estava parada perto da porta.
Usava um robe escuro sobre a camisola e segurava uma pequena lamparina.
As duas se olharam.
Martha parecia surpresa.
Depois, baixou imediatamente os olhos para as mãos de Marianne.
Marianne percebeu como devia parecer.
Sentada ao piano proibido.
Mãos sobre as teclas.
— Senhorita Lieberman...
Marianne retirou as mãos.
— Não toquei.
A resposta saiu rápida demais.
Martha ergueu o rosto.
— Não disse que tocou.
Marianne ficou em silêncio.
Martha quase sorriu.
— Desculpe. Não queria interromper.
Marianne olhou para o piano.
Depois, fechou cuidadosamente a tampa.
— Não estava fazendo nada.
— Parecia estar.
— Apenas pensando.
Martha entrou um pouco mais.
— Com as mãos?
Marianne olhou para ela.
— Às vezes, elas pensam melhor do que eu.
A governanta sorriu.
Marianne levantou-se.
— Não conseguiu dormir também?
Martha soltou uma respiração cansada.
— A idade começa a cobrar juros depois da meia-noite.
— Duvido que seja tão velha quanto gosta de dizer.
— Espere mais alguns anos.
Marianne ajeitou o robe.
— Veio buscar alguma coisa?
— Água.
Martha levantou a pequena lamparina.
— E vi a luz.
Marianne apagou o abajur.
— Posso acompanhá-la.
As duas saíram da sala.
Martha fechou a porta atrás delas.
Marianne olhou uma última vez para a madeira escura antes que desaparecesse.
---
A cozinha, àquela hora, parecia outro cômodo.
Sem o movimento das empregadas, o cheiro de pão, as panelas ou as conversas de Anna, havia apenas uma luz pequena sobre a mesa e o som da água sendo despejada em dois copos.
Martha colocou um deles diante de Marianne.
— Obrigada.
Marianne sentou-se.
Martha permaneceu de pé por alguns segundos, depois puxou a cadeira oposta.
— Não costuma dormir bem?
Marianne bebeu um pouco de água.
— Normalmente, sim.
— Então, é a casa.
— Talvez.
Martha sorriu.
— Ela faz isso com algumas pessoas.
— Impede que durmam?
— Faz pensar demais.
Marianne olhou ao redor.
— Isso eu acredito.
Martha repousou as mãos sobre a mesa.
Por alguns instantes, ficaram em silêncio.
Marianne não se incomodava com aquilo.
Na verdade, desde que chegara, começava a perceber que a casa ensinava uma pessoa a respeitar pausas.
— Posso fazer uma pergunta? — disse finalmente.
Martha a observou.
— Imagino que fará mesmo se eu disser não.
Marianne sorriu de leve.
— Estou ficando previsível.
— Um pouco.
Marianne girou o copo entre os dedos.
— Como Eleanor adoeceu?
O rosto de Martha mudou.
Não muito.
Mas a mudança foi imediata.
Marianne percebeu.
— Desculpe. Se for inadequado...
— Não.
Martha baixou os olhos.
— Não é inadequado.
Marianne esperou.
— Apenas faz tempo que alguém pergunta por ela como pessoa.
— Como costumam perguntar?
— Como tragédia.
Marianne ficou em silêncio.
Martha passou o polegar pela lateral do copo.
— Eleanor era muito jovem quando começou.
— Diane disse que primeiro veio o cansaço.
— Sim.
Martha assentiu devagar.
— No começo, ninguém imaginou nada grave. Ela sempre foi agitada. Dormia pouco. Queria fazer tudo. Então, quando começou a reclamar de cansaço, pensamos que finalmente o corpo tinha decidido obrigá-la a descansar.
Um sorriso breve apareceu.
Desapareceu logo depois.
— Depois vieram as dores.
Marianne permaneceu imóvel.
— E os médicos.
— Muitos.
— Muitos.
Martha olhou para a mesa.
— A senhora Rivers levou a filha para onde disseram que existia alguma possibilidade. Nova York. Boston. Depois, outros lugares. Se aparecia um nome, ela ia atrás.
— E Diane?
Martha ergueu os olhos.
— Diane ficou ao lado da irmã.
— Sempre?
— Sempre que podia.
Marianne pensou na maneira como Diane dissera aquilo no campo.
“Fiquei com ela.”
Duas palavras.
Apenas duas.
— Ela ainda tocava?
Martha levou algum tempo antes de responder.
— Sim.
— Para Eleanor?
— Muito.
Marianne encostou-se à cadeira.
Martha percebeu algo na expressão dela.
— Isso a incomoda?
— Não.
Marianne escolheu as palavras.
— Estou tentando entender em que momento a música deixou de ser dela.
Martha ficou olhando para ela.
— Talvez antes da morte.
— Também pensei nisso.
— Eleanor pedia que Diane tocasse quando as dores ficavam ruins.
Marianne baixou os olhos.
— E Diane tocava.
— Mesmo quando não queria.
Martha respirou fundo.
— Na época, parecia bonito.
Marianne levantou o rosto.
— E agora?
A governanta demorou.
— Agora acho que talvez tenhamos colocado peso demais em uma coisa que já era pesada.
O silêncio entre as duas aumentou.
Martha continuou:
— Quando existe alguém doente numa família, tudo começa a girar em volta da doença. Horários. Viagens. Comida. Conversas. Planos.
Marianne permaneceu muito quieta.
— E ninguém percebe quando isso começa — disse Martha. — Um dia, você está falando sobre o verão. No outro, está falando sobre exames. Depois, medicamentos. Depois, datas. Depois, o que o médico disse. E, quando percebe, faz meses que ninguém fala de outra coisa.
Marianne apertou discretamente os dedos ao redor do copo.
Martha não percebeu.
Ou fingiu não perceber.
— A casa mudou — continuou. — Antes, havia música em todos os cômodos. Eleanor cantava até subindo a escada. Diane reclamava. A mãe delas reclamava mais ainda.
Um sorriso triste.
— Depois, todos começaram a falar baixo.
Marianne olhou para a luz sobre a mesa.
— Isso acontece.
Martha assentiu.
— A doença não leva apenas a saúde de uma pessoa.
Marianne levantou lentamente os olhos.
— Não.
A resposta saiu diferente.
Mais baixa.
Martha percebeu.
— A senhora já viveu algo parecido?
Por um instante, Marianne não respondeu.
Seu olhar ficou preso ao copo.
— Sim.
Martha esperou.
Marianne passou o polegar sobre uma pequena gota de água na borda.
— De certa forma.
— Alguém da família?
A pergunta era simples.
Marianne inspirou pelo nariz, mas a resposta demorou mais do que deveria.
— Alguém próximo.
Martha observou-a.
— Sinto muito.
— Não precisa.
— Ainda está...
Martha não terminou.
Marianne levantou os olhos.
Havia alguma coisa diferente neles agora. Não tristeza exatamente. Vigilância.
— Algumas doenças não têm a delicadeza de terminar quando gostaríamos.
Martha ficou em silêncio.
Marianne percebeu imediatamente que havia dito demais.
Baixou a cabeça e tocou de leve a testa com dois dedos.
O gesto foi rápido.
Quando tornou a olhar para Martha, sua expressão já estava controlada.
— Desculpe. Não quero transformar a conversa em outra coisa.
Martha não insistiu.
— Não precisa se desculpar.
Marianne assentiu.
Por alguns segundos, ouviu-se apenas o relógio da cozinha.
Martha bebeu água.
— Então, entende melhor do que eu pensava.
Marianne olhou para ela.
— Entendo o que uma doença faz com uma casa.
— Mesmo quando a pessoa ainda está ali.
Marianne manteve o rosto imóvel.
— Principalmente quando ainda está.
Martha ficou quieta.
Havia perguntas nos olhos dela.
Marianne viu.
Mas a governanta não as fez.
Talvez por experiência.
Talvez por respeito.
Marianne agradeceu em silêncio.
— Eleanor mudou muito no fim? — perguntou.
Martha demorou um pouco.
— O corpo, sim.
— E ela?
A governanta sorriu.
— Menos do que todo mundo.
Marianne também sorriu.
— Diane disse que era espontânea.
— Isso é uma forma elegante de dizer que fazia o que queria.
— Imaginei.
Martha riu baixo.
— Quando já estava bastante fraca, um médico disse que ela deveria evitar sair da cama.
— E?
— Encontramos Eleanor no jardim na manhã seguinte.
Marianne soltou uma pequena risada.
— Naturalmente.
— Diane ficou furiosa.
— Com ela?
— Muito.
Martha olhou para as próprias mãos.
— Acho que era medo.
Marianne compreendeu.
— Às vezes, parecem iguais.
— Medo e raiva?
— Sim.
Marianne fitou a mesa.
— Principalmente quando não podemos controlar o motivo de nenhum dos dois.
Martha a observou novamente.
Marianne percebeu.
Dessa vez, não desviou.
— Diane gritava? — perguntou.
— Raramente.
— Difícil imaginar.
— Com Eleanor, era diferente.
Martha sorriu.
— A irmã conseguia tirá-la do sério.
— Isso eu gostaria de ter visto.
— Eleanor também.
A frase fez o sorriso desaparecer.
Martha pareceu perceber tarde demais o que dissera.
Marianne não corrigiu.
— Depois que ela morreu — continuou Martha —, Diane ficou alguns dias sem sair do quarto.
Marianne ouviu atentamente.
— Depois, foi para a casa do lago.
— E ficou.
— Quase uma semana.
— Sozinha?
— Não exatamente. Levávamos comida. A mãe tentava entrar. Diane não deixava.
Marianne olhou para a janela escura.
— Foi quando começou esse hábito.
Martha assentiu.
— Quando alguma coisa a atinge de verdade, ela vai para lá.
Marianne voltou os olhos para a governanta.
— Algo?
— Tristeza.
Martha fez uma pausa.
— Às vezes, aniversário. Alguma notícia. Uma data.
Marianne não perguntou quais.
— E o piano da casa do lago?
Martha a encarou.
— Você entrou.
— Hoje.
Martha pareceu surpresa.
— Diane levou você?
— Sim.
A governanta ficou em silêncio por alguns segundos.
— Isso é incomum.
Marianne imediatamente se recostou.
— Não significa nada.
Martha ergueu uma sobrancelha.
— Eu não disse que significava.
Marianne percebeu a própria resposta.
— Certo.
Martha quase sorriu.
— Apenas é incomum.
— Ela queria que eu tocasse.
Agora, a surpresa foi maior.
— Na casa do lago?
— Sim.
Martha olhou para Marianne como se procurasse algum detalhe escondido.
— O que tocou?
— Beethoven.
— A Sonata ao Luar?
— Sim.
Martha desviou os olhos.
Marianne percebeu.
— Também era de Eleanor?
— Muitas músicas eram.
— Entendo.
Martha balançou a cabeça.
— Não. Não é isso.
Marianne esperou.
— Era de Diane.
Marianne ficou imóvel.
— Como assim?
— Eleanor gostava, mas quem tocava aquela sonata o tempo todo era Diane.
Marianne lembrou-se da forma como Diane permanecera diante da janela.
— Ela nunca disse.
— Diane não diz muitas coisas.
— Isso também já percebi.
Martha apoiou os braços sobre a mesa.
— Talvez tenha escolhido bem.
— A música?
— Sim.
Marianne não parecia convencida.
— Ou talvez tenha escolhido por acaso.
— Algumas coisas parecem acaso porque só as entendemos depois.
Marianne sorriu de leve.
— Isso é perigosamente filosófico para este horário.
— É a água.
— Muito forte.
Martha riu.
O clima ficou mais leve por alguns instantes.
Marianne olhou para o relógio.
Passava da uma.
— Deveríamos dormir.
— Definitivamente.
As duas se levantaram.
Martha pegou os copos.
Marianne tentou ajudar.
— Deixe.
— Posso levar pelo menos o meu.
— Amanhã, Anna ficará ofendida se descobrir que permiti que uma convidada lavasse um copo à uma da manhã.
Marianne devolveu-o.
— Não quero causar uma crise doméstica.
Martha apagou a luz da cozinha.
As duas caminharam pelo corredor.
Diante da escadaria, Marianne parou.
— Martha.
A governanta virou-se.
— Sim?
Marianne hesitou.
— Sobre o que eu disse...
Martha esperou.
— A respeito da doença.
— Não precisa explicar.
Marianne sustentou o olhar.
— Prefiro que não mencione.
Martha compreendeu imediatamente.
— Não mencionarei.
Marianne assentiu.
— Obrigada.
— Boa noite, senhorita Lieberman.
— Boa noite.
Subiram.
No segundo andar, seguiram para lados diferentes.
Marianne entrou no quarto.
Fechou a porta.
A brisa ainda movia as cortinas.
Ficou parada alguns segundos.
Depois, foi até a cômoda.
Abriu a primeira gaveta.
Dentro, entre lenços cuidadosamente dobrados, havia um pequeno frasco de vidro.
Marianne olhou para ele.
Não o pegou.
Fechou a gaveta.
Foi até a cama.
Deitou-se.
Dessa vez, não pensou em como fazer Diane voltar ao piano.
Pensou apenas que talvez tivesse cometido um erro ao acreditar que poderia observar aquela família sem permitir que alguma coisa dela própria fosse observada de volta.
Apagou a luz.
---
Diane acordou cedo no dia seguinte.
Não havia motivo.
O céu ainda estava pálido quando abriu os olhos na pequena cama da casa do lago.
Ficou imóvel por alguns minutos.
Depois, olhou para o piano.
Ainda estava descoberto.
Não o cobrira desde o dia anterior.
Diane levantou-se.
Vestiu-se.
Prendeu os cabelos sem muita atenção e saiu.
A manhã estava fria.
Caminhou até a mansão.
Entrou pela porta dos fundos.
Anna já estava na cozinha.
— Bom dia, senhorita Rivers.
— Bom dia.
Anna preparava chá.
— Dormiu bem?
— O suficiente.
Diane olhou para a mesa.
Duas xícaras.
Anna percebeu.
— A senhorita Lieberman ainda não desceu.
Diane levantou os olhos.
— Não perguntei.
Anna não respondeu.
Diane pegou uma maçã.
— Por que há duas xícaras?
— Porque ela costuma tomar café aqui.
Diane olhou novamente.
— Entendo.
Anna escondeu um sorriso.
Diane percebeu.
— O quê?
— Nada.
— Você está sorrindo.
— Estou de bom humor.
Diane mordeu a maçã.
— Suspeito.
Anna riu.
Diane saiu da cozinha antes que a conversa continuasse.
Não foi para a biblioteca.
Também não voltou para a casa do lago.
Caminhou até os fundos da propriedade.
Parou perto do início da trilha.
Ficou ali.
A maçã ainda na mão.
Olhou para as árvores.
Depois, para a mansão.
Esperou.
Não sabia exatamente por quê.
Talvez quisesse caminhar.
Apenas isso.
Era o que disse a si mesma.
Cinco minutos se passaram.
Depois, dez.
Diane começou a se irritar.
Com o frio.
Com a espera.
Com o fato de estar esperando.
Estava prestes a seguir sozinha quando ouviu passos.
Virou o rosto.
Marianne apareceu vindo da casa.
Vestia um casaco claro e prendia os cabelos enquanto caminhava, como se tivesse saído com alguma pressa.
Ao ver Diane parada perto da trilha, diminuiu o passo.
As duas se olharam.
Marianne foi a primeira a falar.
— Está me esperando?
Diane olhou para as árvores.
— Vou caminhar.
— Isso não respondeu.
Diane mordeu novamente a maçã.
— Você vem?
Marianne permaneceu olhando para ela por um instante.
Depois, ajeitou o casaco.
— Vou.
Diane entrou na trilha.
Marianne a seguiu.
Nenhuma falou.
Naquela manhã, não houve perguntas sobre Eleanor.
Nem sobre o piano.
Nem sobre a noite anterior.
Diane caminhou à frente durante boa parte do percurso.
Marianne acompanhou.
Quando a trilha terminou e o grande campo apareceu, Diane foi até o mesmo lugar do dia anterior e deitou-se na grama.
Marianne parou.
Olhou para ela.
Depois, para o chão.
Dessa vez, não comentou sobre as roupas.
Sentou-se.
O céu estava limpo.
O vento corria baixo sobre a grama.
Diane fechou os olhos.
Marianne apoiou as mãos atrás do corpo e olhou para o horizonte.
Ficaram assim.
Sem conversar.
Sem precisar.
Depois de algum tempo, Diane abriu os olhos e viu Marianne ainda ali.
Não disse nada.
Fechou-os novamente.
No dia seguinte, caminharam outra vez.
E no outro também.
Nenhuma delas decidiu aquilo.
Nenhuma propôs horário.
Nenhuma chamou de hábito.
Diane simplesmente aparecia perto da trilha pela manhã.
Marianne surgia alguns minutos depois.
Às vezes, Diane ia à frente.
Às vezes, Marianne.
No campo, Diane se deitava.
Marianne se sentava ao lado.
Havia dias em que trocavam duas ou três frases.
Em outros, nenhuma.
Ainda não conheciam os silêncios uma da outra o suficiente para entendê-los.
Mas começaram, sem perceber, a reconhecê-los.
E, pouco a pouco, aquela caminhada deixou de pertencer somente a Diane.
Não porque ela a tivesse oferecido.
Nem porque Marianne a tivesse pedido.
Apenas porque, durante alguns minutos de cada manhã, duas mulheres que haviam passado tempo demais tentando compreender coisas impossíveis de controlar encontravam um lugar onde nenhuma delas precisava explicar nada.
Capítulo 6 — A Nota que Faltava
Naquela manhã, o sol alcançava o campo sem força suficiente para incomodar.
Havia calor, mas não o bastante para vencer completamente a brisa que atravessava a grama e chegava da floresta carregando o cheiro úmido das árvores. O céu estava quase sem nuvens, e a sombra projetada pelas copas próximas recortava parte do terreno em manchas irregulares.
Diane estava deitada como de costume.
Uma das pernas ligeiramente dobrada, as mãos repousadas sobre o abdômen e os olhos voltados para o céu.
Marianne permanecia sentada a poucos passos dela, olhando a linha onde o campo encontrava a floresta.
As caminhadas haviam se repetido por dias suficientes para que o silêncio deixasse de parecer uma ausência.
Nenhuma das duas precisava mais justificar por que estava ali.
Diane aparecia próximo à trilha.
Marianne a acompanhava.
Chegavam ao campo.
Diane se deitava.
Marianne se sentava.
Algumas manhãs traziam conversas.
Outras, não.
Aquela parecia destinada a pertencer ao segundo tipo.
Até que Marianne tossiu.
Foi uma tosse curta no início.
Ela virou discretamente o rosto, levou a mão fechada à boca e tentou controlá-la.
Não conseguiu.
Veio outra.
Mais áspera.
Depois outra.
Diane abriu os olhos.
Não se moveu imediatamente.
Apenas observou.
Marianne continuou tossindo durante alguns segundos, inclinando ligeiramente o corpo para frente.
Aquela não era uma tosse delicada o suficiente para ser ignorada.
Havia algo irritante nela. Profundo demais para alguém que simplesmente limpava a garganta.
Quando finalmente passou, Marianne inspirou devagar.
— Desculpe.
Diane permaneceu olhando.
Marianne limpou discretamente o canto dos lábios com os dedos.
— Engasguei.
Nenhuma resposta.
Marianne voltou os olhos para a floresta.
Diane ainda a observava.
Era esse o problema dos olhos dela.
Não faziam perguntas da maneira comum.
Pareciam esperar até que a mentira se cansasse primeiro.
Marianne passou a língua pela parte interna da boca e respirou normalmente outra vez.
— O quê?
Diane fechou os olhos.
— Nada.
Marianne sabia que não era verdade.
— Foi apenas uma tosse.
Diane não respondeu.
O vento passou entre elas.
Marianne olhou para o campo.
Depois para Diane.
Precisava mudar o assunto antes que aquela mulher começasse a desmontar uma explicação que Marianne não estava preparada para oferecer.
— Podemos tocar hoje?
Os olhos de Diane se abriram.
Marianne sustentou o olhar.
Durante alguns segundos, nenhuma das duas falou.
A pergunta parecia simples.
Mas naquela casa havia poucas coisas simples quando envolviam música.
Diane se sentou.
Olhou diretamente para Marianne.
Não para as mãos.
Não para o rosto em geral.
Para os olhos.
Marianne não desviou.
Diane se levantou.
Bateu levemente a grama do casaco.
— Vamos.
Marianne piscou.
— Isso foi um sim?
Diane já caminhava em direção à floresta.
— Você fala demais quando consegue o que quer.
Marianne se levantou.
— Nem comecei a falar.
— Exatamente.
Seguiu-a.
Entraram novamente na trilha.
A mudança de luz foi imediata.
O campo aberto desapareceu atrás delas e deu lugar ao verde mais escuro da floresta. Os passos produziram ruídos secos sobre pequenas folhas espalhadas pelo caminho.
Diane seguia à frente.
Marianne caminhava alguns passos atrás.
Nenhuma falou durante os primeiros minutos.
Até que Diane perguntou:
— O que foi aquilo?
Marianne soube imediatamente a que se referia.
Mesmo assim:
— O quê?
Diane continuou andando.
— A tosse.
Marianne desviou um galho.
— Já disse. Engasguei.
Diane diminuiu ligeiramente o passo.
— Com o quê?
A pergunta fez Marianne quase sorrir.
— Ar, suponho.
— Interessante.
— Por quê?
Diane olhou por cima do ombro.
O olhar permaneceu sobre ela por pouco mais de um segundo.
— Nunca vi alguém se engasgar tão violentamente com algo que precisa para continuar vivo.
Marianne sentiu uma pequena tensão atravessar os ombros.
— Sempre existe uma primeira vez.
Diane continuou olhando.
Marianne manteve a expressão neutra.
Então Diane tornou a virar-se para a frente.
Não perguntou novamente.
Marianne deveria ter sentido alívio.
Não sentiu.
Porque agora sabia que Diane havia guardado aquilo.
Continuaram em silêncio.
Passaram pelas árvores.
O vento fez algumas folhas se soltarem acima delas.
Uma caiu entre as duas.
Diane não olhou para trás outra vez.
Quando chegaram à propriedade, não seguiram para a mansão.
Diane tomou o caminho do lago sem precisar dizer nada.
Marianne acompanhou.
A água estava calma.
A pequena casa parecia ainda mais isolada sob a luz clara da manhã.
Diane abriu a porta.
Entrou primeiro.
Marianne veio logo atrás.
A luz atravessava as janelas voltadas para o lago, iluminando pequenas partículas de poeira suspensas no ar.
O velho piano permanecia descoberto.
As partituras estavam guardadas nos armários.
O banco continuava exatamente onde haviam deixado na última vez.
Diane caminhou até a janela.
Encostou um ombro na madeira e cruzou os braços.
Marianne retirou o casaco.
Colocou-o sobre uma das cadeiras.
Depois foi até o piano.
Sentou-se.
Abriu a tampa.
As teclas antigas surgiram.
Ela passou os olhos pelo teclado.
Não havia partitura sobre o suporte.
Diane percebeu.
— Não escolheu nada?
Marianne respondeu sem olhar para ela:
— Ainda não.
Pousou as mãos sobre as pernas.
Ficou alguns segundos em silêncio.
Depois ergueu os olhos para Diane.
Ela continuava encostada à janela.
Observando.
— Por que não se senta?
Diane franziu levemente o cenho.
— Não vou tocar.
— Não pedi para tocar.
— Está sentada diante de um piano.
— E você está em pé diante de uma janela.
Marianne inclinou a cabeça.
— Nenhuma dessas coisas obriga alguém a fazer aquilo que está à sua frente.
Diane continuou imóvel.
Marianne moveu-se no banco, deixando espaço livre ao lado.
— Vamos.
Diane ergueu uma sobrancelha.
— Vamos?
— Apenas sente-se.
— Aqui?
— Há outro banco escondido em algum lugar?
Diane olhou para o espaço vazio ao lado dela.
Depois para Marianne.
Fungou discretamente, como se a ideia não lhe agradasse.
Marianne esperou.
Não insistiu.
Diane descruzou os braços.
Atravessou lentamente o cômodo.
Parou ao lado do piano.
Marianne manteve os olhos nas teclas.
Diane olhou novamente para o banco.
Então se sentou.
O espaço era suficiente.
Mas não amplo.
O ombro de Diane ficou a poucos centímetros do de Marianne.
Ela colocou as duas mãos sobre as próprias pernas.
Os dedos permaneceram juntos.
Imóveis.
Marianne percebeu.
Não comentou.
— E agora? — perguntou Diane.
— Agora nada.
— Você me fez sentar para nada?
— Fiz você sentar porque estava em pé.
Diane virou o rosto.
Marianne deixou um pequeno sorriso aparecer.
— Confie em mim por alguns minutos.
A expressão de Diane mudou pouco.
— Essa é uma frase perigosa.
— Eu sei.
Marianne pousou as mãos sobre as teclas.
— Por isso pedi apenas alguns minutos.
Diane voltou os olhos para o piano.
Marianne inspirou.
E começou.
Diane tentou reconhecer a música já nos primeiros compassos.
Não conseguiu.
A mão esquerda de Marianne construiu uma sequência baixa e espaçada. A direita respondeu com uma melodia simples, quase incompleta.
Diane procurou mentalmente.
Schubert?
Não.
Talvez alguma peça italiana que desconhecia.
Outra sequência.
Não.
Havia alguma coisa estranha na estrutura.
As notas pareciam procurar umas às outras em vez de seguir um caminho determinado.
Diane inclinou discretamente a cabeça.
Marianne percebeu.
— Não tente descobrir.
Diane olhou para ela.
Marianne continuava tocando.
— Descobrir o quê?
— Que música é.
Diane voltou os olhos para as teclas.
— Não reconheço.
— Porque não existe.
Diane franziu o cenho.
— Está improvisando?
— Sim.
— Por quê?
Marianne diminuiu levemente o volume.
— Porque, se eu tocar algo que conhece, você vai começar a pensar em como deveria soar.
Diane permaneceu quieta.
— Vai reconhecer andamento, harmonia, interpretação. Vai comparar.
Marianne olhou para ela por um instante.
— E eu não quero que compare.
— Então o que quer?
Marianne voltou à melodia.
— Que ouça.
Diane fitou o teclado.
— Estou ouvindo.
— Não desse jeito.
— Existe outro?
Marianne não respondeu imediatamente.
A mão esquerda encontrou um acorde mais escuro.
— Feche os olhos.
Diane virou o rosto.
— Agora está me dando ordens.
— Considere uma sugestão feita com muita confiança.
Diane quase revirou os olhos.
Marianne percebeu.
— Pode continuar me julgando de olhos fechados.
Diane soltou uma respiração curta pelo nariz.
Depois voltou os olhos para o piano.
Por fim, fechou-os.
Marianne continuou.
Diane deixou os ombros relaxarem apenas um pouco.
A princípio, fez exatamente aquilo que Marianne pedira que não fizesse.
Analisou.
Percebeu a tonalidade.
A construção harmônica.
Os intervalos.
O modo como Marianne evitava resolver determinadas frases imediatamente.
Tentou antecipar a próxima nota.
Marianne mudou o caminho antes que ela conseguisse.
Diane franziu discretamente a testa.
Então desistiu.
E ouviu.
A música era triste.
Não de maneira desesperada.
Era uma tristeza cansada.
Aceita.
Como se cada nota carregasse alguma coisa que já tivesse sido chorada antes.
A mão direita de Marianne subiu lentamente.
A melodia pareceu respirar.
Diane viu uma imagem.
Não sabia de onde viera.
Uma pessoa diante de uma porta.
Não alguém sendo abandonado.
Alguém que estava partindo.
Sem violência.
Sem pressa.
Alguém que já compreendia que precisava ir.
Havia tristeza.
Mas não medo.
A sequência mudou.
Diane sentiu o peito apertar.
Não como acontecia quando ouvia alguma peça que Eleanor tocava.
Não era a violência súbita de uma lembrança.
Era diferente.
Como olhar para uma fotografia sem desejar que a pessoa nela pudesse sair do papel.
Diane respirou devagar.
As mãos ainda repousavam sobre suas pernas.
Marianne tocava sem olhar para ela.
Isso ajudava.
Diane abriu os olhos.
Olhou para as teclas.
Os dedos de Marianne moviam-se com precisão, mas não havia rigidez.
A música não estava sendo apresentada.
Estava acontecendo.
Diane observou.
Então sua mão direita se levantou.
Ela não percebeu imediatamente.
Os dedos saíram de sua perna e pairaram por alguns segundos próximos ao teclado.
Marianne viu.
Seu corpo percebeu antes de seus pensamentos.
Mas não alterou a música.
Não olhou diretamente.
Não diminuiu.
Não ofereceu espaço de propósito.
Continuou.
Diane aproximou a mão.
O dedo indicador tocou uma única tecla.
Uma nota.
Pequena.
Isolada.
Marianne a incorporou imediatamente à harmonia.
Diane abriu um pouco mais os olhos.
Marianne não reagiu.
Tocou outra sequência.
Diane pressionou uma segunda tecla.
Dessa vez no momento exato em que o acorde mudava.
Marianne ajustou a mão esquerda.
A nota de Diane passou a fazer parte da música.
Veio uma terceira.
Depois outra.
Diane não sabia em que momento começou a antecipar Marianne.
Talvez não antecipasse.
Talvez apenas escutasse.
Sua mão esquerda permaneceu sobre a perna por mais alguns compassos.
Então também se levantou.
Encontrou uma região mais baixa do teclado.
Marianne deslocou discretamente a própria mão para criar espaço.
Diane entrou.
A música mudou.
Não abruptamente.
Como se sempre tivesse esperado por aquela segunda voz.
Diane sentiu o peso das teclas.
A resistência antiga do mecanismo.
A madeira do banco.
A postura que seu corpo parecia lembrar sem pedir autorização à mente.
Os dedos conheciam aquele lugar.
Talvez sempre tivessem conhecido.
Marianne percebeu a mudança quase imediatamente.
Diane já não acrescentava notas ocasionais.
Estava tocando.
De verdade.
Não uma peça.
Não uma lembrança.
Não algo ensaiado.
Estava respondendo.
Marianne tocava uma frase.
Diane completava.
Diane alterava o acorde.
Marianne encontrava outra direção.
Não havia partitura.
Não havia regra previamente combinada.
Ainda assim, as duas permaneciam no mesmo tempo.
Marianne virou discretamente o rosto.
Observou Diane.
Ela olhava apenas para as teclas.
Séria.
Concentrada.
Havia uma pequena linha entre suas sobrancelhas.
Os lábios ligeiramente entreabertos.
Nenhuma emoção grandiosa.
Nenhum sorriso.
Mas Marianne viu algo que ainda não havia visto desde que chegara.
Presença.
Diane estava inteiramente ali.
Não na lembrança da irmã.
Não na expectativa da mãe.
Não no passado.
Ali.
Naquele banco.
Naquela manhã.
Marianne sentiu um sorriso surgir no canto da boca.
Pequeno.
Não por vitória.
Aquilo não lhe pertencia.
Apenas pela beleza simples do que estava acontecendo.
Diane percebeu o movimento pelo canto dos olhos.
Não olhou para ela.
Continuou tocando.
Na mansão, Anna organizava a sala de jantar.
Martha conferia correspondências.
Margaret conversava ao telefone em seu escritório.
Um funcionário varria folhas da entrada principal.
Ninguém sabia.
Ninguém imaginava que, a poucos metros dali, dentro da pequena casa junto ao lago, Diane Rivers estava tocando piano pela primeira vez em anos.
Talvez fosse melhor assim.
Sem plateia.
Sem anúncio.
Sem alguém esperando uma versão grandiosa daquele momento.
A música continuou.
Diane deixou os dedos se moverem com mais segurança.
A hesitação desapareceu pouco a pouco.
Algumas notas saíram mais duras do que pretendia.
A mão direita perdeu uma passagem.
Marianne não corrigiu.
Não faria isso.
Ainda não.
A música não precisava estar correta.
Precisava existir.
Marianne construiu novamente a melodia inicial.
Diane a reconheceu agora.
Não porque já a conhecesse.
Porque havia participado de sua criação.
Quando a sequência voltou, Diane acrescentou algo diferente.
Marianne acompanhou.
A improvisação se tornou mais lenta.
Mais profunda.
O som preencheu a pequena casa.
Do lado de fora, o lago se movia quase imperceptivelmente.
O sol começava a baixar um pouco, atravessando as janelas num ângulo mais quente.
Não haviam percebido quanto tempo passara.
A manhã tornara-se tarde.
E a tarde começava a se aproximar do crepúsculo.
A música encontrou o fim sem que nenhuma das duas decidisse onde ele estaria.
Marianne levou a harmonia para um acorde menor.
Diane percebeu.
Acrescentou a nota que faltava.
As mãos das duas desceram quase ao mesmo tempo.
O último acorde soou.
Profundo.
Demorado.
As cordas de aço vibraram dentro do velho piano, e o som passou para a madeira escura antes de se espalhar pela casa.
Nenhuma retirou as mãos imediatamente.
A nota permaneceu.
Depois começou a desaparecer.
Devagar.
Até restar apenas o lago do lado de fora e a respiração das duas.
Diane ficou olhando para o teclado.
Os dedos continuavam ligeiramente suspensos acima das teclas.
Não parecia acreditar completamente no que acabara de acontecer.
Marianne também não falou.
O silêncio que tomou a casa não era igual ao dos dias anteriores.
Não era ausência.
Era consequência.
Durante anos, a dor havia permanecido próxima demais de Diane.
Não como uma lembrança ocasional, mas como uma presença constante, pesada, que se infiltrara nas coisas mais simples. Nos corredores da mansão. Na casa do lago. Nas fotografias. Nas partituras guardadas. Na madeira daquele piano.
Havia dias em que até respirar parecia exigir alguma negociação com o passado.
E por muito tempo Diane acreditara que voltar a tocar significaria abrir novamente tudo aquilo que passara anos tentando manter quieto.
A música não havia surgido inicialmente como uma escolha bonita em sua vida.
Primeiro fora curiosidade.
Depois, admiração.
Mais tarde, profissão.
E no fim se tornara refúgio para uma irmã doente, obrigação para uma mãe desesperada e recordação de uma vida que já não existia.
Mas naquele dia não havia Eleanor pedindo que tocasse.
Não havia Margaret esperando.
Não havia público.
Diane não tocara para salvar ninguém.
Não tocara para provar que ainda era capaz.
Seus dedos simplesmente encontraram uma nota.
Depois outra.
E Marianne não fizera nada além de permitir que elas existissem.
Compartilhar aquele banco não eliminara a solidão.
Mas, durante alguns minutos, transformara-a em algo que podia ser dividido.
Diane piscou.
Olhou para as próprias mãos.
Então virou lentamente o rosto.
Marianne já a observava.
Os olhos das duas se encontraram.
Nenhuma sorriu.
A intensidade daquele momento não precisava disso.
Diane parecia perturbada.
Marianne não sabia se pela música ou pelo que ela significava.
Provavelmente pelos dois.
— Eu não percebi em que momento comecei a acompanhar você — disse Diane.
A voz saiu mais baixa que o habitual.
Marianne olhou novamente para as teclas.
— Talvez porque não estivesse tentando.
Diane continuou olhando para ela.
— Isso deveria fazer sentido?
— Para mim faz.
— Isso é conveniente.
Marianne deixou um pequeno sorriso aparecer.
— Você passou anos pensando demais antes de tocar uma única nota.
Diane desviou os olhos.
Marianne percebeu que deveria escolher com cuidado o que diria em seguida.
Não podia transformar aquele momento em uma aula.
Muito menos numa celebração.
— Quando começou a tocar comigo, não teve tempo para decidir se deveria.
Diane passou o polegar lentamente sobre a lateral do indicador.
— Eu poderia ter parado.
— Poderia.
— E você teria parado também?
Marianne pensou.
— Se percebesse que era isso que queria.
Diane olhou para ela.
— E se eu não soubesse?
Marianne permaneceu alguns segundos em silêncio.
— Então eu teria esperado até você saber.
A resposta fez Diane desviar o rosto.
Olhou para o lago.
A luz do fim da tarde começava a se espalhar sobre a água.
Marianne deixou as mãos repousarem sobre o colo.
— Diane.
— Não.
Marianne parou.
Diane continuava olhando para fora.
— Não diga que isso significa que estou pronta para voltar.
Marianne assentiu.
— Não ia dizer.
Diane virou-se.
— Ia dizer o quê?
Marianne pensou por um instante.
— Que você ainda sabe ouvir.
Diane não respondeu.
— E talvez isso seja mais importante agora do que tocar.
Os olhos dela voltaram para o teclado.
Marianne continuou:
— Tantas noites se passaram nesta casa com esse piano ao seu lado. Partituras ao redor. Memórias em cada canto.
Diane ficou imóvel.
— E mesmo assim você não foi embora.
— Eu moro aqui.
— Não estou falando da casa.
Diane levantou os olhos.
Marianne não tentou suavizar.
— Você poderia ter se livrado do piano.
Silêncio.
— Poderia ter queimado as partituras. Fechado a casa. Vendido tudo.
Diane não respondeu.
— Mas manteve cada coisa exatamente onde estava.
Diane olhou para os armários.
— Isso não significa que eu queria tocar.
— Não.
Marianne assentiu.
— Significa apenas que alguma parte sua nunca conseguiu deixá-las para trás.
Diane respirou fundo.
— Você fala como se isso fosse esperança.
— Não sei se é.
Marianne olhou para o piano.
— Talvez seja apenas dificuldade de despedida.
A palavra pareceu permanecer no ar.
Despedida.
Diane fechou os olhos por um segundo.
Soltou lentamente o ar.
Quando voltou a falar, sua voz estava diferente.
Menos firme.
— Eu simplesmente não consigo superá-la.
Marianne não se moveu.
Diane abriu os olhos.
— Quando olho para este piano, Marianne...
A mão dela passou devagar pela madeira acima das teclas.
— É a ela que vejo.
Marianne permaneceu quieta.
Diane não costumava dizer o nome dela daquela maneira.
Sem ironia.
Sem distância.
— Eu sei que morreu — continuou. — Não sou uma criança esperando que alguém abra uma porta e volte.
Marianne ouviu.
— Sei exatamente o que aconteceu. Sei quanto tempo passou. Sei todas as coisas sensatas que as pessoas dizem sobre aceitar uma perda.
Um pequeno sorriso amargo apareceu.
— Sou muito boa em compreender coisas que não consigo fazer.
Marianne baixou os olhos.
Diane olhou para o piano.
— A doença tirou de mim aquilo que, durante muito tempo, me deu um propósito.
Fez uma pausa.
— E não estou falando da música.
Marianne tornou a olhar para ela.
Diane continuou:
— Eleanor era...
Parou.
Parecia procurar uma palavra.
Nenhuma veio imediatamente.
— Era fácil olhar para ela e acreditar que o mundo tinha algum tipo de gentileza.
Marianne sentiu o peito apertar.
Diane passou os dedos sobre uma tecla sem pressioná-la.
— Ela era boa nas coisas sem fazer parecer que tentava ser. Cantava como se fosse a coisa mais natural do mundo. Tocava e fazia uma sala inteira ficar quieta sem pedir silêncio.
Os olhos de Diane estavam tristes.
Ainda assim, nenhuma lágrima surgiu.
— Não era apenas piano.
Marianne não desviou.
— Ela transmitia uma paz que eu nunca soube explicar.
Diane sorriu muito pouco.
— Talvez seja por isso que eu tenha começado a tocar. Passei a vida tentando descobrir como alguém conseguia fazer isso.
O sorriso desapareceu.
— Nunca descobri.
Marianne apoiou as mãos sobre as próprias pernas.
— Talvez não houvesse nada para descobrir.
Diane a encarou.
Marianne continuou:
— Algumas pessoas simplesmente deixam uma parte delas nas coisas que fazem.
Diane ficou alguns segundos em silêncio.
— E quando elas vão embora?
Marianne não respondeu imediatamente.
Diane voltou os olhos para as teclas.
— A morte dela não podia ser evitada.
A frase lembrava o que dissera no campo.
Mas agora havia algo diferente.
— Passei anos tentando aceitar isso como se aceitar tornasse tudo menor.
Diane engoliu em seco.
— Não torna.
Marianne permaneceu imóvel.
— A morte não levou apenas Eleanor. Levou a pessoa que eu era quando ela estava aqui.
A respiração de Marianne diminuiu.
Diane continuou:
— Depois dela, restaram as memórias.
Passou o dedo lentamente pela madeira.
— E a graça que ela deixava nas coisas.
Olhou para a janela.
— Às vezes penso que este mundo simplesmente não foi capaz de retê-la por muito tempo.
Marianne não disse nada.
Diane inclinou levemente a cabeça.
— Isso parece absurdo?
— Não.
— Parece poético demais.
— Você fala assim quando não consegue dizer de outro jeito.
Diane olhou para ela.
Por um instante, Marianne achou que tivesse ido longe demais.
Mas Diane não se fechou.
— Talvez.
Marianne respirou devagar.
— Mas você não precisa diminuir o que ela foi para conseguir continuar.
Diane desviou os olhos.
— As pessoas sempre dizem que preciso deixá-la ir.
— Eu não disse isso.
Diane voltou a encará-la.
Marianne manteve a voz tranquila.
— Talvez você precise deixar ir a obrigação de continuar sendo quem era quando ela estava viva.
Diane ficou completamente imóvel.
A frase pareceu encontrar alguma coisa que Marianne não tinha intenção de tocar.
Ela percebeu.
Mas não retirou.
— Não é a mesma coisa.
Diane olhou para as próprias mãos.
Por muito tempo.
Marianne deixou.
Não tentou completar.
Não tentou corrigir.
Não tentou explicar o luto de uma mulher que conhecia havia poucos dias.
Apenas permaneceu sentada.
Era o máximo que podia oferecer.
Diane apertou uma tecla.
Uma nota baixa surgiu.
Sozinha.
As duas olharam para ela.
— Hoje não parecia ela — disse Diane.
Marianne não compreendeu imediatamente.
— O quê?
Diane manteve o dedo sobre a tecla.
— A música.
Fez uma pausa.
— Enquanto tocávamos.
Marianne esperou.
— Por alguns minutos...
Diane retirou a mão.
— Eu não pensei nela.
A confissão pareceu assustá-la mais do que qualquer lembrança.
Marianne compreendeu.
— E isso incomoda você.
Diane soltou uma pequena risada sem humor.
— Não deveria?
— Não sei.
— Você tem resposta para quase tudo.
— Não para isso.
Diane virou-se para ela.
Marianne sustentou o olhar.
— Esquecer alguém por alguns minutos não é o mesmo que abandoná-la.
Diane não respondeu.
— Talvez seja apenas viver alguns minutos sem a dor.
Os olhos dela se desviaram.
Diane olhou para o lago.
Marianne viu a mandíbula se contrair.
Pensou que Diane encerraria a conversa.
Não encerrou.
— E se um dia eu conseguir fazer isso por horas?
— Então serão horas.
— Dias?
— Serão dias.
Diane fechou os olhos.
— E quando eu perceber que consigo viver sem pensar nela?
Marianne pensou antes de responder.
— Talvez finalmente entenda que nunca precisou sofrer o tempo todo para provar que a amava.
Diane abriu os olhos.
Marianne ficou imediatamente em silêncio.
Não havia mais nada que devesse dizer.
Aquela frase permaneceu entre as duas.
Diane olhou para ela.
Longamente.
Não havia gratidão.
Nem raiva.
Havia apenas alguma coisa que Marianne não soube nomear.
Talvez porque ainda fosse cedo demais.
Então Diane desviou.
As duas permaneceram sentadas no banco.
A luz do crepúsculo ocupava lentamente a casa.
Depois de algum tempo, Marianne fechou a tampa do piano.
Diane não a impediu.
— Devemos voltar — disse Marianne.
Diane continuou olhando para o lago.
— Daqui a pouco.
Marianne assentiu.
Não se levantou.
Ficaram mais alguns minutos.
Sem música.
Dessa vez, o silêncio não parecia uma coisa que precisasse ser vencida.
---
Quando finalmente saíram da casa do lago, o céu já estava alaranjado próximo ao horizonte.
Diane trancou a porta.
Marianne esperou ao lado.
Caminharam pela margem.
Depois de alguns passos, Diane perguntou:
— Aquela música.
— Sim?
— Você já havia tocado antes?
— Não.
— Nem uma parte?
— Não.
Diane olhou para ela.
— Inventou naquele momento?
— Sim.
— E sabia onde iria terminar?
Marianne balançou a cabeça.
— Não.
Diane continuou caminhando.
— Arriscado.
— Algumas músicas precisam disso.
— Não saber onde terminam?
— Sim.
Diane ficou em silêncio.
Marianne percebeu que ela havia entendido a metáfora.
Não comentou.
Chegaram próximas à mansão.
Antes de subirem os degraus, Diane parou.
Marianne também.
— Marianne.
— Sim?
Diane olhou diretamente para ela.
— Não conte à minha mãe.
A resposta veio imediata.
— Não contarei.
Diane pareceu surpresa pela ausência de perguntas.
— Nem a Martha.
— A ninguém.
Diane assentiu.
— Por enquanto.
— Pelo tempo que quiser.
Diane sustentou seu olhar por mais alguns segundos.
Então entrou.
Marianne ficou do lado de fora por um momento.
Olhou para a própria mão.
Aquela manhã começara com uma tosse.
Terminara com Diane Rivers tocando piano novamente.
Talvez houvesse alguma ironia naquilo.
Marianne respirou fundo.
Desta vez sem tossir.
Entrou na mansão.
---
Naquela noite, Diane voltou sozinha à casa do lago.
Não acendeu todas as luzes.
Apenas a luminária próxima ao piano.
Sentou-se no banco.
Ficou olhando para as teclas.
Por alguns minutos, não tocou.
Era um gesto antigo.
Sentar.
Observar.
Esperar que alguma coisa dentro dela decidisse o que fazer.
Mas daquela vez havia uma diferença pequena.
Diane estendeu a mão.
Pressionou a mesma nota que tocara primeiro naquela manhã.
O som surgiu.
Ela esperou.
Nenhuma lembrança veio imediatamente.
Pressionou outra.
Depois fechou os olhos.
Não continuou.
Ainda não.
Mas também não fechou o piano.
Ficou ali enquanto a nota desaparecia.
E, pela primeira vez em muito tempo, o silêncio que veio depois não pareceu uma punição.
Capítulo 7 — O Lugar dos que Ficam
Depois da manhã em que Diane tocou novamente, nada mudou de maneira evidente.
Talvez esse fosse o detalhe mais estranho.
Não houve conversa à mesa de jantar. Margaret não recebeu notícia alguma. Martha continuou administrando a casa como sempre, Anna continuou reclamando dos horários e nenhum dos empregados percebeu que, dentro da pequena casa junto ao lago, acontecera algo que durante anos parecera impossível.
Marianne cumpriu a promessa.
Não contou a ninguém.
Nem mesmo voltou a mencionar o assunto com Diane.
Na manhã seguinte, encontrou-a junto à entrada da trilha como se nada tivesse acontecido.
Diane usava um casaco escuro e segurava uma maçã. Marianne trazia as mãos nos bolsos para protegê-las do frio.
Olharam uma para a outra.
Nenhuma falou sobre o piano.
Diane apenas entrou na floresta.
Marianne a seguiu.
E assim começou uma semana que nenhuma das duas planejou.
Todos os dias eram diferentes o bastante para não parecerem repetidos, mas semelhantes o suficiente para começarem a adquirir a forma de uma rotina.
Pela manhã, caminhavam.
A floresta mudava conforme o tempo. Havia dias de céu completamente limpo, em que a luz atravessava as copas e desenhava manchas douradas sobre a trilha. Em outros, nuvens pesadas cobriam o campo e faziam o horizonte parecer mais próximo.
Diane quase sempre caminhava à frente.
Marianne deixara de interpretar aquilo como afastamento.
Era simplesmente a maneira dela.
Diane gostava de saber onde colocaria os pés antes de qualquer outra pessoa.
No campo, deitava-se na grama.
Marianne sentava-se ao seu lado.
Às vezes falavam.
Pouco.
Marianne comentava alguma coisa que havia lido. Diane corrigia uma interpretação. Diane apontava uma ave que Marianne não reconhecia. Marianne fazia alguma observação sobre a Itália e Diane perguntava como eram os invernos de Florença.
Na maioria das vezes, porém, permaneciam em silêncio.
Curiosamente, o silêncio havia deixado de exigir explicação.
Depois seguiam para a casa do lago.
Ali também se formara um hábito.
Marianne sentava-se ao piano.
Diane sentava-se ao lado.
Mas não tocava.
Não depois daquele primeiro dia.
Marianne nunca pediu.
Apenas escolhia uma música e começava.
Bach.
Schubert.
Beethoven.
Às vezes alguma composição italiana que Diane conhecia apenas de nome.
Em determinados dias, Marianne improvisava.
Diane escutava.
As mãos permaneciam quase sempre sobre as próprias pernas.
Marianne reparava.
Mas jamais olhava por tempo suficiente para transformar o gesto em pressão.
Uma vez, durante uma passagem particularmente baixa de Schubert, Diane levantou o indicador.
Marianne percebeu pelo canto dos olhos.
A mão de Diane chegou perto do teclado.
Parou.
Depois voltou para o colo.
Marianne não diminuiu a música.
Não sorriu.
Não comentou.
No dia seguinte, aconteceu novamente.
E no outro, não.
Talvez fosse assim que certas coisas voltavam.
Não por decisão.
Por aproximação.
A semana passou.
E então chegou o dia do festival.
---
A manhã estava mais fria.
O céu tinha um azul claro e limpo, embora algumas nuvens se acumulassem muito distantes, próximas ao horizonte.
A cidade de Bellwood já devia estar acordada.
Anna falara sobre aquilo durante todo o café da manhã.
Sobre as bandeiras.
As barracas.
As tortas.
As crianças.
Os músicos que haviam chegado na noite anterior.
O desfile aconteceria mais tarde, e o salão comunitário permaneceria aberto até a noite para o baile.
Marianne ouvira tudo enquanto bebia café.
Diane não apareceu.
Mas, como em todos os outros dias, estava junto à trilha quando Marianne saiu.
Não mencionaram a data.
Entraram na floresta.
O caminho estava coberto por uma camada maior de folhas. Os passos das duas quebravam o silêncio numa sequência irregular.
Diane seguia à frente.
Marianne observou suas costas por alguns minutos.
Pensou no festival.
Pensou em Anna dizendo que Diane não ia havia anos.
Pensou em Eleanor.
Não gostava da ideia de fazer daquela caminhada mais um instrumento para empurrar Diane em alguma direção.
Também não gostava da ideia de nunca perguntar nada por medo de receber uma resposta difícil.
Passaram por uma curva da trilha.
Marianne decidiu.
— Diane.
— Sim?
Ela não olhou para trás.
— Você iria à cidade comigo?
Diane continuou andando.
O movimento pareceu o mesmo.
Apenas pareceu.
Marianne já começava a perceber pequenas diferenças.
O passo de Diane ficou um pouco mais curto.
— Para o festival?
— Então você sabe.
— Sim.
Marianne afastou um galho diante do rosto.
— Anna contou.
Diane não respondeu.
Depois de alguns metros, disse:
— Eu costumava ir.
Marianne não perguntou com quem.
Não precisou.
Diane completou sozinha:
— Com minha irmã.
Marianne percebeu aquilo.
Não a frase.
A facilidade com que surgira.
Sem interrupção.
Sem aquela longa preparação que costumava anteceder qualquer menção a Eleanor.
Diane talvez não tivesse percebido.
Marianne não chamou atenção.
— Era bom? — perguntou apenas.
Diane continuou olhando para a trilha.
— Para ela.
— E para você?
— Eu ia com ela.
— Isso também não respondeu.
Diane soltou uma respiração pelo nariz.
— Está aprendendo meus truques.
— Tenho uma boa professora.
Diane quase virou o rosto.
Quase.
Marianne continuou:
— Então?
— Eu gostava de observá-la.
— No festival?
— Em qualquer lugar.
A resposta saiu simples.
Marianne esperou.
— Eleanor tinha uma facilidade irritante para pertencer aos lugares — continuou Diane. — Dez minutos depois de chegar, já conhecia alguém. Depois conhecia a família dessa pessoa. Depois estava ajudando a organizar alguma coisa que não era responsabilidade dela.
Marianne sorriu.
— Parece cansativo.
— Era.
— Você sente falta disso.
Diane não respondeu.
O silêncio já era resposta suficiente.
Marianne deixou que alguns passos se passassem.
— Vai comigo?
Dessa vez Diane parou.
Marianne também.
Por alguns segundos, Diane permaneceu de costas.
Então disse:
— Vamos voltar.
Marianne franziu o cenho.
— Diane.
Ela já havia se virado.
Passou por Marianne e começou a caminhar na direção contrária.
Marianne a acompanhou.
Não perguntou imediatamente.
Sabia que, se pressionasse no primeiro segundo, Diane apenas aumentaria a distância.
Caminharam vários metros.
Diane mantinha o rosto à frente.
Quando a saída da floresta começou a aparecer entre as árvores, falou:
— Hoje quero ficar sozinha, se não se importa.
Marianne parou.
Diane deu mais dois passos antes de perceber.
Virou-se.
Marianne continuava onde estava.
— O que foi?
Marianne a encarou.
— Por que foge?
O rosto de Diane endureceu.
— Não estou fugindo.
— Estávamos caminhando para um lugar e você decidiu voltar depois de uma pergunta.
— Isso não é fugir.
— Como chama?
— Mudar de ideia.
Marianne sustentou o olhar.
— Você muda muito de ideia quando alguma coisa lembra Eleanor.
Diane ficou completamente imóvel.
Marianne soube que havia atravessado uma linha.
Mas não recuou.
— Não faça isso.
— O quê?
— Fale dela como se a conhecesse.
— Não estou falando de Eleanor.
Marianne aproximou-se um passo.
— Estou falando de você.
Diane desviou o rosto.
— Ainda pior.
— Talvez.
— Você foi contratada para me fazer tocar piano.
— Eu sei.
— Então limite-se a isso.
Marianne levantou ligeiramente o queixo.
— Se realmente acredita que seu problema com o piano começa e termina nas teclas, posso fazer isso.
Diane voltou a encará-la.
— Não comece.
— Não comecei nada.
— Então termine.
Marianne respirou.
Diane tornou a caminhar.
Marianne a seguiu.
— Eu apenas a convidei para um festival.
— E eu não quero ir.
— Então diga que não quer ir.
Diane parou novamente.
— Eu não quero ir.
— Certo.
Marianne assentiu.
Diane pareceu surpresa.
— Certo?
— Sim.
— Então por que continua falando?
— Porque você não disse isso quando perguntei.
Diane estreitou os olhos.
— E o que eu disse?
— “Vamos voltar.”
Silêncio.
— Há diferença.
Diane desviou o olhar.
Marianne percebeu.
— Você poderia ter dito não.
— Estou dizendo agora.
— Depois de tentar desaparecer da conversa.
A mandíbula de Diane se contraiu.
— Você tem uma necessidade desagradável de terminar todas as conversas?
— Não.
Marianne manteve a voz baixa.
— Só as que alguém tenta encerrar no lugar da outra pessoa.
Diane soltou uma pequena risada seca.
— Que conveniente.
— Diane...
— Não.
A palavra saiu firme.
Marianne parou.
Diane a encarou.
— Você não entende.
Marianne permaneceu imóvel.
— Não — respondeu.
A simplicidade fez Diane hesitar.
— O quê?
— Eu disse que não entendo.
Diane parecia esperar outra coisa.
Marianne continuou:
— Não sei como era ir àquele festival com sua irmã. Não sei onde vocês ficavam. Não sei de que música ela gostava, que comida comprava ou quais eram as coisas que dizia no caminho de volta.
Diane não se moveu.
— Então não vou fingir que compreendo essa parte.
A dureza no rosto dela diminuiu apenas um pouco.
— Mas sei outra coisa.
— Qual?
Marianne olhou para as árvores ao redor.
— Sei que há uma diferença entre preservar uma lembrança e construir a vida inteira ao redor dela.
Diane não respondeu.
— E quem decidiu qual das duas coisas estou fazendo?
— Ninguém.
Marianne fez uma pausa.
— Talvez seja justamente o problema.
Diane olhou para ela com frieza.
— Você acha que uma semana é suficiente para me conhecer?
— Não.
— Então pare de falar como se fosse.
— Não estou tentando conhecer você inteira.
Marianne olhou diretamente para ela.
— Estou apenas falando do que estou vendo.
Diane cruzou os braços.
— E o que exatamente está vendo?
Marianne poderia ter respondido imediatamente.
Não fez.
Escolheu as palavras com cuidado.
— Uma mulher que consegue falar da irmã quando está segura, mas que ainda reorganiza a própria vida para não encontrar os lugares onde foi feliz com ela.
Diane não piscou.
O silêncio mudou.
Marianne continuou:
— Isso não é uma crítica.
— Soou como uma.
— Talvez porque qualquer coisa que toque nessa ferida pareça acusação.
Diane desviou os olhos.
— Não é uma ferida.
— O que é?
— Minha irmã.
Marianne assentiu lentamente.
— Exatamente.
Diane tornou a olhar para ela.
— Você fala sobre luto como se fosse uma coisa separada da pessoa.
— Porque às vezes precisa ser.
A expressão de Diane endureceu outra vez.
— Não para mim.
— Então me diga a diferença.
Diane soltou os braços.
— Eleanor não foi algo que aconteceu comigo. Ela existiu.
— Eu sei.
— Não sabe.
A voz dela aumentou muito pouco.
Ainda assim, Marianne percebeu.
— Ela não era doença. Não era morte. Não era uma lembrança bonita que eu deveria guardar numa gaveta enquanto saio para viver.
Diane respirou fundo.
— Era minha irmã.
Marianne permaneceu quieta.
— Eu a conhecia antes de qualquer médico saber seu nome. Antes de remédios. Antes de as pessoas começarem a entrar no quarto e olhar para ela como se já estivesse indo embora.
Os olhos de Diane estavam firmes.
Nenhuma lágrima.
— E depois que morreu, todos começaram a agir como se meu trabalho fosse aprender a perdê-la corretamente.
Marianne baixou um pouco o rosto.
Diane continuou:
— “Você precisa sair, Diane.”
— “Precisa voltar a tocar.”
— “Precisa ver pessoas.”
— “Precisa seguir em frente.”
Ela soltou uma risada breve e amarga.
— Pessoas gostam dessa expressão.
Marianne continuou ouvindo.
— Seguir em frente.
Diane olhou para a floresta.
— Como se a vida fosse uma estrada e os mortos fossem apenas alguma coisa que ficou alguns quilômetros atrás.
Marianne não respondeu.
Diane voltou a encará-la.
— Então não me diga que estou fugindo porque não quero passar uma tarde fingindo que aquele lugar não significa nada.
— Eu não quero que finja.
— Então o que quer?
A pergunta veio mais forte.
Marianne permaneceu alguns segundos em silêncio.
— Que pare de acreditar que a única maneira de respeitar o que significou é nunca mais permitir que o lugar signifique outra coisa.
Diane ficou imóvel.
Marianne respirou devagar.
— Uma lembrança não é destruída porque outra nasceu no mesmo lugar.
Diane desviou os olhos.
— Parece bonito quando diz assim.
— Não precisa ser bonito.
— Mas é fácil.
— Não.
A resposta foi imediata.
Diane olhou para ela.
Marianne balançou lentamente a cabeça.
— Não é fácil.
Por um momento, alguma coisa passou pelo rosto dela.
Quase invisível.
Mas Diane percebeu.
— Você fala com muita certeza.
Marianne ficou quieta.
Diane esperou.
— Porque sei o que é olhar para alguma coisa comum e perceber que ela deixou de ser comum — disse Marianne.
A voz estava mais baixa.
— Uma cadeira. Uma janela. Uma rua. Uma música.
Ela respirou.
— Há momentos em que uma pessoa passa por nossas vidas e deixa tantas marcas que depois parece impossível olhar para qualquer lugar sem encontrá-la.
Diane não desviou os olhos.
Marianne continuou:
— E passamos muito tempo acreditando que a dor é uma forma de fidelidade.
Diane franziu levemente a testa.
— Fidelidade?
— Sim.
Marianne olhou para o chão por um instante.
— Como se sofrer menos significasse amar menos.
O vento atravessou as árvores.
Diane permaneceu imóvel.
— Mas não significa — disse Marianne.
Diane não respondeu.
— A dor muda, Diane. Isso não é traição.
Marianne voltou a encará-la.
— O amor não precisa continuar doendo para continuar existindo.
A frase atingiu alguma coisa.
Diane desviou o rosto imediatamente.
Marianne viu.
Não avançou.
Alguns segundos se passaram.
— Você não pode saber disso — disse Diane.
— Por quê?
— Porque...
Ela parou.
Marianne esperou.
— Porque as pessoas que dizem essas coisas quase sempre estão falando de alguém que conseguiram superar.
Marianne respirou pela boca por um instante.
Curto.
Controlou.
Diane não percebeu o motivo, apenas o gesto.
— Talvez não exista isso — respondeu Marianne.
— O quê?
— Superar alguém.
Diane voltou a olhar para ela.
— Então todo esse discurso—
— Eu não disse para superar Eleanor.
Marianne aproximou-se apenas o necessário para a conversa não precisar de voz alta.
— Acho que as pessoas usam essa palavra porque precisam acreditar que o luto tem uma linha de chegada.
Diane ficou em silêncio.
— Não tem.
Marianne olhou para a trilha.
— Você não acorda uma manhã e descobre que finalmente venceu a morte de alguém.
Tornou a encará-la.
— Você apenas aprende a carregar a ausência de um jeito que deixe espaço para outras coisas.
Diane baixou os olhos.
— Algumas ausências ocupam espaço demais.
— Então não tente expulsá-las.
Marianne deu de ombros muito levemente.
— Aprenda a construir ao redor.
Diane permaneceu olhando para o chão.
— Parece cansativo.
— É.
Marianne quase sorriu, mas não havia humor suficiente para isso.
— Viver costuma ser.
Silêncio.
Diane caminhou até uma árvore próxima.
Encostou a mão no tronco.
Marianne não a seguiu.
Deixou alguns passos entre as duas.
— Eu tinha vinte e quatro anos quando ela morreu — disse Diane.
Marianne não falou.
— Passei os últimos meses convencida de que, se prestasse atenção suficiente, conseguiria perceber alguma coisa que os médicos não percebiam.
A mão de Diane continuava sobre a árvore.
— Eu reparava em tudo. Se respirava diferente. Se comia menos. Se demorava mais para levantar. Se dormia por mais tempo.
Sua voz diminuiu.
— Como se observar pudesse impedir.
Marianne sentiu um aperto no peito.
Diane soltou a árvore.
— No fim, eu sabia que estava pior antes mesmo de alguém dizer.
Virou-se.
— E não serviu para nada.
Marianne sustentou o olhar.
— Talvez por isso você observe tanto.
Diane ficou imóvel.
A frase pareceu pegá-la de surpresa.
Marianne não acrescentou nada.
Diane olhou para as próprias mãos.
— Talvez.
Era uma admissão pequena.
Quase inaudível.
Marianne deixou passar.
Diane voltou a caminhar.
Dessa vez devagar.
Marianne acompanhou sem ficar ao lado.
Alguns metros depois, Diane falou:
— No festival, Eleanor sempre queria dançar.
Marianne escutou.
— Com quem?
— Qualquer pessoa.
Uma pequena suavidade apareceu na voz dela.
— Uma vez convenceu um homem de quase setenta anos a dançar com ela porque disse que ele estava desperdiçando uma música sentado.
Marianne sorriu.
— Gosto cada vez mais dela.
Diane olhou por cima do ombro.
Não havia incômodo dessa vez.
— Ele também gostou.
— Imagino.
— Minha mãe ficou horrorizada.
— Agora gosto ainda mais.
Diane soltou uma pequena risada.
Verdadeira.
Durou pouco.
Mas existiu.
Continuaram andando.
— E você? — perguntou Marianne.
— Eu o quê?
— Dançava?
— Não.
— Nunca?
— Eleanor tentou.
— E falhou?
Diane olhou para a frente.
— Algumas vezes.
Marianne ergueu uma sobrancelha.
— Algumas?
Diane percebeu.
— Uma vez.
— Então você dançou.
— Não abuse da informação.
Marianne sorriu.
— Jamais.
— Está sorrindo.
— Não estou.
Diane olhou para ela.
— Péssima mentirosa.
— E você muito observadora.
O comentário não tinha peso.
Ainda não.
Diane voltou os olhos para o caminho.
Chegaram ao fim da floresta.
A mansão já era visível.
A casa do lago também.
Diane diminuiu o passo.
— Ainda não quero ir ao festival.
Marianne assentiu.
— Tudo bem.
Diane olhou para ela, desconfiada.
— Só isso?
— O convite continua sendo convite mesmo depois de recusado.
— Não vai insistir?
— Já insisti demais.
Diane permaneceu em silêncio.
Marianne continuou andando.
Diane ficou para trás por alguns segundos.
Então a alcançou.
— O que fará lá?
Marianne olhou de lado.
— No festival?
— Sim.
— Anna pretende me obrigar a comer alguma coisa que chamou de torta de abóbora.
— É horrível.
— Ela disse que você gostava.
Diane franziu o cenho.
— Anna fala demais.
— Isso já estabelecemos.
Diane caminhou mais alguns passos.
— Há música na praça.
— Eu sei.
— O grupo que toca no fim da tarde costuma ser melhor do que os outros.
Marianne a observou.
— Costuma?
Diane percebeu a armadilha.
— Costumava.
— Entendo.
Ela desviou os olhos.
Marianne não provocou.
Quando chegaram próximo à casa principal, Diane parou.
— Hoje eu realmente quero ficar sozinha.
Dessa vez Marianne não questionou.
— Tudo bem.
Diane pareceu esperar alguma continuação.
Não veio.
— Vai para o festival?
— Vou.
— Com Anna?
— Anna, Martha e aparentemente metade dos funcionários da propriedade.
Diane assentiu.
Marianne caminhou em direção à entrada.
Antes de subir os degraus, virou-se.
Diane ainda estava parada no jardim.
— Diane.
— O quê?
Marianne pensou antes de falar.
— Não precisa ir a lugar nenhum para provar que está melhor.
Diane ficou olhando.
— E também não precisa ficar para provar que ainda sente falta dela.
Nenhuma das duas falou por alguns segundos.
Depois Marianne entrou na mansão.
Diane permaneceu sozinha.
---
A casa do lago recebeu Diane pouco depois.
Ela fechou a porta.
Tirou o casaco.
Deixou-o sobre uma cadeira.
Durante alguns minutos, permaneceu perto da janela olhando o movimento na propriedade.
Os empregados preparavam-se para sair mais tarde.
De vez em quando alguém atravessava o jardim carregando caixas ou sacolas.
Diane viu Anna correr atrás de Martha com alguma coisa nas mãos.
Não conseguiu ouvir o que diziam.
Depois viu Marianne.
Ela atravessou parte do jardim em direção à mansão.
Diane acompanhou-a com os olhos.
Parou.
Irritou-se consigo mesma.
Virou-se.
O piano estava atrás dela.
Diane caminhou até o banco.
Sentou-se.
Não abriu a tampa.
Apenas ficou olhando.
As palavras de Marianne continuavam na cabeça.
“O amor não precisa continuar doendo para continuar existindo.”
Diane fechou os olhos.
Detestava frases que pareciam simples e permaneciam depois que a conversa acabava.
Mais ainda quando faziam sentido.
Passou a mão pela madeira.
Eleanor.
Festival.
Dança.
Luzes.
Música.
Durante anos, Diane fizera um trabalho cuidadoso para manter algumas lembranças onde pertenciam.
Ou onde acreditava que pertenciam.
Não visitava Bellwood no Dia de Ação de Graças.
Não atravessava determinadas ruas.
Não entrava em algumas lojas.
Não ouvia certas canções.
Era mais fácil pensar que estava preservando alguma coisa.
Mas a pergunta de Marianne havia deixado um desconforto novo.
Preservando o quê?
Diane abriu o piano.
Pressionou uma tecla.
A nota apareceu.
Depois desapareceu.
Ela tocou outra.
Não continuou.
Ficou olhando para as mãos.
— Você gostaria de ir.
Disse em voz baixa.
Não sabia se falava com Eleanor.
Ou consigo mesma.
Talvez com as duas.
Levantou-se.
Foi até um dos armários.
Abriu.
Entre partituras antigas havia uma pequena caixa.
Diane a retirou.
Sentou-se novamente.
Dentro havia fotografias.
Pegou uma.
Eleanor diante de uma barraca em Bellwood.
Devia ter vinte anos.
Tinha um lenço preso aos cabelos e segurava uma maçã caramelizada. Ao lado dela, Diane parecia profundamente contrariada com alguma coisa.
Diane passou o polegar pela fotografia.
Lembrou-se.
Eleanor havia derrubado açúcar em seu casaco dez minutos antes.
— Você era insuportável.
Um sorriso surgiu.
Depois enfraqueceu.
Diane permaneceu olhando para a fotografia por muito tempo.
Pela primeira vez, a lembrança não veio acompanhada imediatamente do quarto de hospital.
Não havia médicos.
Não havia dor.
Só Eleanor.
Viva.
Com açúcar nos dedos.
Rindo porque Diane estava furiosa.
Os olhos de Diane arderam.
Nenhuma lágrima caiu.
Ela guardou a fotografia.
Fechou a caixa.
Depois ficou sentada diante do piano.
---
A propriedade começou a esvaziar no meio da tarde.
Margaret não iria ao festival. Tinha correspondências e uma reunião marcada para o início da noite.
Martha quase precisou ser arrastada por Anna para entrar no carro.
Marianne apareceu por último.
Vestia um casaco escuro sobre um vestido simples. Os cabelos estavam presos, embora alguns fios já tivessem se soltado com o vento.
Anna reclamava de alguma coisa perto do automóvel.
Marianne respondeu.
Diane observava tudo da janela da casa do lago.
Não podia ouvir.
Marianne pareceu olhar na direção do lago.
Diane afastou-se da janela antes de descobrir se aquilo era verdade.
O motor do carro ligou.
Alguns segundos depois, o automóvel desapareceu pela estrada.
A propriedade ficou quieta.
Diane permaneceu junto à janela.
Por alguns instantes, não fez nada.
A frase voltou.
“Uma lembrança não é destruída porque outra nasceu no mesmo lugar.”
Diane fechou os olhos.
Depois olhou para a fotografia sobre a mesa.
Tomou uma decisão antes que tivesse tempo de analisá-la demais.
— Droga.
Saiu da casa do lago.
---
Subiu os degraus da mansão com passos rápidos e atravessou o corredor sem chamar ninguém.
O quarto estava silencioso quando entrou.
Abriu o guarda-roupa.
Por alguns segundos, apenas observou as roupas.
Vestidos que quase nunca utilizava.
Alguns permaneciam ali havia anos.
Diane passou os dedos por tecidos escuros, cinzentos, azuis.
Então parou.
Vinho.
Retirou o vestido.
Era elegante sem ser excessivo, ajustado na cintura e com a saia descendo pouco abaixo dos joelhos. As mangas terminavam discretamente acima dos cotovelos, e o tecido escuro adquiria tons avermelhados quando atingido pela luz.
Diane ficou alguns segundos olhando para ele.
Não lembrava a última vez que o usara.
Talvez nunca.
Trocou-se.
Soltou os cabelos, depois tornou a prendê-los parcialmente, deixando algumas mechas escuras junto ao rosto.
Colocou brincos pequenos.
Parou diante do espelho.
A mulher refletida parecia diferente.
Não mais jovem.
Não mais feliz.
Apenas alguém que, naquela tarde, havia decidido sair de casa.
Isso bastava.
Pegou um casaco.
Desceu.
Não chamou o motorista.
Não pediu outro carro.
Talvez porque, se transformasse a decisão numa preparação, ainda tivesse tempo para desistir.
Então começou a caminhar.
---
A estrada que levava a Bellwood era longa, mas Diane conhecia cada curva.
Já a percorrera inúmeras vezes quando jovem.
O vento movimentava a barra do vestido sob o casaco.
Seus sapatos não eram os mais adequados para uma caminhada daquela distância, mas ela não voltou.
Caminhava devagar.
Sem pressa.
A princípio, escutava apenas os próprios passos.
Depois começaram a surgir lembranças.
Eleanor correndo alguns metros à sua frente.
Eleanor reclamando porque Diane não queria entrar numa barraca.
Eleanor dizendo que algum músico tocava rápido demais.
Eleanor rindo.
Diane continuou.
Dessa vez, não tentou afastar nenhuma imagem.
Deixou que viessem.
Talvez Marianne estivesse certa sobre outra coisa.
Nem toda lembrança precisava terminar na morte.
---
O carro que levava Marianne, Martha, Anna e alguns dos empregados já estava consideravelmente à frente.
Conversas preenchiam o interior.
Anna falava sobre qual barraca visitaria primeiro.
Martha insistia que ela já havia comido demais antes mesmo de chegarem.
Marianne estava próxima à janela, observando a paisagem passar.
O veículo entrou numa curva longa da estrada.
Uma das empregadas, sentada do lado oposto, virou casualmente o rosto para fora.
Viu alguma coisa.
Franziu o cenho.
Olhou novamente.
Uma figura vinha pela estrada atrás deles.
Muito distante.
Uma mulher caminhando sozinha.
— Pare o carro.
O motorista não pareceu ouvi-la.
— Pare o carro.
Algumas conversas cessaram.
Martha olhou para ela.
— O que aconteceu?
A empregada aproximou o rosto da janela, tentando enxergar melhor.
Então arregalou os olhos.
— Pare o carro! É a senhorita Diane!
O motorista freou.
Marianne virou o rosto imediatamente.
— Diane?
— Lá atrás!
Marianne se inclinou para olhar pela janela traseira.
Por alguns segundos, enxergou apenas a estrada.
Então viu.
Uma pequena silhueta vinha surgindo depois da curva.
Devagar.
Casaco escuro.
Sob ele, o movimento de um vestido em tom vinho.
Marianne ficou imóvel.
Não esperou que Diane alcançasse o automóvel.
Abriu a porta.
— Senhorita Lieberman! — chamou Martha.
Marianne já havia descido.
Começou a caminhar depressa.
Depois acelerou.
E, antes mesmo de perceber, corria.
O vento atingia seu rosto enquanto diminuía a distância.
Diane percebeu alguém vindo em sua direção.
Diminuiu os passos.
Reconheceu Marianne.
Ficou parada.
Marianne continuou correndo até chegar perto o suficiente para precisar diminuir.
Parou alguns passos diante dela.
Estava ofegante.
Levou uma mão ao peito enquanto tentava recuperar o ar.
Diane a observou dos pés à cabeça.
Depois olhou na direção do carro.
Depois novamente para Marianne.
— Você correu até aqui?
Marianne tentou responder, mas precisou respirar primeiro.
— Evidentemente.
Diane ergueu uma sobrancelha.
— Por quê?
— Eu poderia fazer a mesma pergunta.
Marianne inspirou profundamente.
Ainda estava cansada.
— Por que decidiu vir?
Diane não respondeu imediatamente.
Marianne recuperou um pouco da respiração.
— De última hora ainda.
Diane olhou para a estrada.
O vento movimentou uma mecha de seus cabelos.
— Não sei.
Marianne permaneceu observando.
Diane percebeu.
— Não faça essa cara.
— Que cara?
— A de quem acha que entende alguma coisa.
Marianne quase sorriu, ainda ofegante.
— Estou cansada demais para entender qualquer coisa agora.
Diane olhou para ela.
Por um breve instante, seus olhos desceram até o peito de Marianne, percebendo a intensidade da respiração.
Depois voltaram ao rosto.
— Não precisava ter corrido.
— Também não precisava ter vindo andando.
— Eu queria caminhar.
Marianne olhou para os sapatos dela.
— Com isso?
Diane acompanhou o olhar.
— Foi uma decisão recente.
— Percebi.
Marianne finalmente conseguiu respirar melhor.
Foi então que pareceu reparar verdadeiramente no vestido.
O vinho aparecia sob o casaco escuro e contrastava com a pele clara de Diane.
Marianne não comentou.
Apenas olhou por um segundo a mais.
Diane percebeu.
Naturalmente.
— O quê?
Marianne levantou os olhos.
— Nada.
— Você estava olhando.
— Estava.
Diane esperou.
Marianne apenas disse:
— Vamos. O carro está esperando.
Virou-se.
Diane permaneceu parada por um instante.
— Marianne.
Ela olhou para trás.
Diane estava com as mãos nos bolsos do casaco.
— Eu ainda posso mudar de ideia.
Marianne sustentou o olhar.
— Pode.
Nenhuma tentativa de convencê-la.
Nenhum sorriso triunfante.
Apenas aquilo.
Diane olhou além dela, para o carro parado na estrada.
Depois para a direção de Bellwood.
E começou a caminhar.
Marianne acompanhou.
Dessa vez sem correr.
Quando chegaram ao automóvel, Anna abriu a porta com um sorriso tão grande que Diane imediatamente apontou para ela.
— Uma palavra e eu volto para casa.
Anna fechou a boca.
Martha virou discretamente o rosto para a janela.
Marianne entrou primeiro.
Diane veio depois.
Havia um lugar livre ao lado dela.
Sentou-se.
A porta fechou.
O carro voltou a andar.
Durante alguns segundos ninguém falou.
Então Marianne virou discretamente o rosto.
— Vinho.
Diane olhou para ela.
— O quê?
— O vestido.
Diane estreitou os olhos.
— Você disse que não estava olhando.
— Eu disse “nada”. É diferente.
Diane ficou encarando-a por alguns segundos.
Depois virou-se para a janela.
O canto de sua boca se moveu quase imperceptivelmente.
Lá fora, as primeiras construções de Bellwood começavam a aparecer.
E, pela primeira vez em muitos anos, Diane Rivers estava voltando ao festival.
Capítulo 8 — Aquilo que Não Tinha Nome
Bellwood apareceu aos poucos depois da última curva da estrada.
Primeiro vieram as luzes.
Pequenos pontos amarelados espalhados entre as árvores, ainda discretos sob o fim de tarde. Depois surgiram os telhados, a torre da igreja, algumas chaminés e, por fim, a rua principal tomada pelo movimento do festival.
Dentro do carro, a mudança foi imediata.
Anna praticamente se inclinou sobre a janela.
— Olhem aquilo!
Outra das empregadas riu.
— Você vem todos os anos.
— E todos os anos continua bonito.
— Todos os anos você diz isso também.
Martha, sentada à frente, soltou um suspiro.
— Se vocês duas começarem antes de chegarmos, eu volto para a propriedade sozinha.
Anna não pareceu ouvi-la.
— Tem mais barracas este ano.
— Como consegue enxergar daqui? — perguntou uma das mulheres.
— Consigo.
— Você inventou.
— Não inventei.
Enquanto as duas discutiam, Marianne permaneceu quieta.
Ao seu lado, Diane também.
Nenhuma participava da euforia dentro do carro.
Marianne observava a cidade pela janela, tentando reconhecer os detalhes que Anna descrevera durante toda a semana.
Diane parecia olhar para algo diferente.
Não exatamente para Bellwood.
Talvez para aquilo que Bellwood já havia sido.
Marianne percebeu, mas não perguntou.
O carro desceu pela estrada principal.
À medida que se aproximavam, as vozes da cidade começaram a alcançar o interior do veículo.
Música distante.
Pessoas conversando.
Crianças correndo.
O som de motores.
Alguma coisa metálica caindo e alguém rindo logo depois.
Quando entraram na rua principal, já era impossível olhar para um único lugar.
Barracas ocupavam os dois lados da via. Algumas vendiam alimentos, outras tecidos, utensílios domésticos, enfeites feitos à mão, brinquedos de madeira, doces, chapéus e pequenas peças de artesanato.
Lâmpadas haviam sido penduradas entre os postes e sobre algumas tendas. Embora o céu ainda guardasse o resto da luz do dia, Bellwood parecia preparada para permanecer acordada até muito depois de escurecer.
Homens de chapéu caminhavam carregando sacolas.
Mulheres conversavam diante das barracas.
Crianças atravessavam a rua com maçãs caramelizadas nas mãos.
Um vendedor anunciava tortas em voz alta.
Em outra esquina, alguém tocava acordeão enquanto duas meninas batiam palmas.
Diane observou tudo através do vidro.
O rosto não demonstrava muito.
Mas seus olhos não paravam.
Marianne percebeu.
Quando o carro diminuiu para estacionar, Diane falou tão baixo que quase pareceu pensar em voz alta:
— Eu tinha esquecido de como era movimentado.
Marianne virou discretamente o rosto.
Diane continuava olhando pela janela.
Não havia tristeza evidente.
Apenas uma espécie de estranhamento.
Como se reconhecesse um lugar que havia continuado existindo sem pedir sua permissão.
Marianne voltou os olhos para a cidade.
— Parece que Bellwood não aprendeu a ficar quieta.
Diane respondeu depois de alguns segundos:
— Nunca aprendeu.
O carro parou.
Anna abriu a porta quase antes de o motorista terminar.
— Devagar — repreendeu Martha.
— Eu estou devagar.
— Você quase caiu.
— Mas não caí.
Em menos de dois minutos, as empregadas estavam do outro lado da rua discutindo para onde ir primeiro.
Martha tentou acompanhá-las.
— Às sete na praça! — gritou uma delas.
— Sete e meia! — respondeu Anna.
— Sete!
Anna já havia desaparecido entre as pessoas.
Martha olhou para Marianne.
— Se eu não voltar, diga à senhora Rivers que fiz o possível.
Marianne sorriu.
— Direi que morreu em serviço.
Martha balançou a cabeça e foi atrás delas.
De repente, sobraram apenas Diane e Marianne junto ao automóvel.
As duas observaram a multidão.
Marianne olhou para Diane.
— Elas nos abandonaram.
— Você parece surpresa.
— Achei que ao menos fingiriam preocupação com a estrangeira.
Diane começou a caminhar.
— Você atravessou o Atlântico sozinha. Acho que consegue sobreviver a Bellwood.
Marianne a seguiu.
— Isso foi um voto de confiança?
— Não exagere.
Entraram na rua principal.
Marianne imediatamente percebeu uma diferença entre caminhar por Bellwood e vê-la de dentro do carro.
Havia cheiros por toda parte.
Canela.
Carne assada.
Café.
Madeira queimada.
Maçã.
Algum perfume forte demais usado por uma mulher que acabara de passar por elas.
Marianne olhava para tudo com uma curiosidade que tentava disfarçar e não conseguia.
Diane percebeu.
— Nunca esteve em algo assim?
— Festivais existem na Itália.
— Não foi o que perguntei.
Marianne olhou para ela.
— Você realmente gosta de usar minhas próprias perguntas contra mim.
— É eficiente.
— Estive em festivais, sim.
Marianne observou uma barraca de doces.
— Mas não neste.
— Felizmente.
— Por quê?
— Já temos uma italiana mandando em todo mundo na propriedade. Bellwood não sobreviveria a duas.
Marianne virou o rosto lentamente.
Diane continuou caminhando como se não tivesse dito nada.
Marianne quase sorriu.
— Isso foi uma piada?
— Não.
— Foi.
— Não prove.
Marianne desistiu.
Por alguns minutos, apenas caminharam.
Diane conhecia o lugar.
Isso se tornava evidente na forma como evitava determinadas partes mais lotadas e sabia quais pequenas passagens entre barracas levavam novamente à rua principal.
Ela não demonstrava a mesma empolgação das empregadas.
Mas também não parecia querer ir embora.
Aquilo já era suficiente.
Marianne parou diante de uma barraca coberta por grandes peças de tecido.
Diane deu mais dois passos antes de perceber.
Virou-se.
Marianne estava olhando para rolos de lã, algodão estampado, veludo e seda dispostos em prateleiras improvisadas.
Um tecido verde-escuro estava aberto sobre a mesa.
Ao lado, havia um vermelho profundo e outro azul-claro.
Marianne passou os dedos por uma das peças.
— Bonito.
A vendedora sorriu.
— Chegou de Nova York na semana passada.
Marianne examinou o tecido.
Diane aproximou-se.
— Vai comprar?
— Talvez.
— Essa palavra novamente.
Marianne olhou para ela.
— Não sabia que estava contando.
— Eu conto muitas coisas.
Marianne deixou o tecido sobre a mesa.
— Isso eu já percebi.
Continuaram.
Algumas barracas depois, Marianne parou tão bruscamente que Diane quase esbarrou nela.
— O que foi?
Marianne não respondeu.
Seu olhar estava preso a uma pequena tenda do outro lado da rua.
Diane acompanhou.
Instrumentos musicais.
Havia violinos pendurados no fundo, dois bandolins, um mandolim de corpo arredondado, algumas gaitas expostas em pequenas caixas, um clarinete, um saxofone e três violões acústicos apoiados em suportes.
Marianne atravessou a rua quase imediatamente.
Diane observou.
Aquilo era novo.
Até aquele momento, Marianne sempre parecera controlar a velocidade com que fazia qualquer coisa.
Ali não.
Chegou à barraca e imediatamente olhou para um dos violinos.
O vendedor, um homem de cabelos grisalhos e óculos redondos, aproximou-se.
— Pode pegar, senhorita.
Marianne retirou o instrumento com cuidado.
Virou-o.
Examinou o arco.
— Alemão?
O homem ergueu as sobrancelhas.
— Sim.
— Mittenwald?
— Foi o que me disseram.
Marianne analisou a madeira.
— Não parece ruim.
— Eu diria que é excelente.
Ela olhou para ele.
— Eu disse que não parece ruim.
O vendedor sorriu.
— Professora?
— Como sabe?
— Músicos olham primeiro para o instrumento. Professores olham para tudo que pode estar errado nele.
Diane, alguns passos atrás, ouviu.
Marianne soltou uma pequena risada.
— Justo.
Devolveu o violino.
Então viu o mandolim.
Pegou-o.
Passou os dedos pelo corpo do instrumento.
Diane se aproximou.
— Conhece?
Marianne olhou para ela como se a pergunta fosse ofensiva.
— Sou italiana.
— Isso não responde.
— Responde o suficiente.
O vendedor riu.
Marianne mostrou o instrumento a Diane.
— Mandolim napolitano. Ou pelo menos inspirado nos modelos de Nápoles.
— Qual a diferença?
Marianne pareceu genuinamente satisfeita com a pergunta.
— Formato. Construção. Número e disposição das cordas. O mandolim como conhecemos hoje passou por muitas mudanças, mas os modelos napolitanos acabaram se tornando os mais reconhecidos.
Diane observou o rosto dela.
Marianne falava de maneira diferente.
Não era apenas conhecimento.
Era prazer.
Seus olhos se moviam rapidamente entre os instrumentos, e havia uma leveza rara em sua expressão.
— Já tocou? — perguntou Diane.
Marianne olhou para o mandolim.
— Mal.
— Mal?
— O suficiente para humilhar o instrumento.
O vendedor protestou:
— Duvido.
— Deveria ter mais fé no meu julgamento.
Ela colocou o mandolim no lugar.
Pegou o clarinete.
— Este é mais interessante.
Diane cruzou os braços.
— Por quê?
— Porque parece simples até você tentar fazer um som decente.
— Você tocou?
— Sim.
— Bem?
Marianne pensou.
— Melhor que mandolim.
Diane olhou para o saxofone.
— E aquilo?
Marianne acompanhou.
— Saxofone.
— Isso eu sei.
— Então por que perguntou?
— Para saber o que diria.
Marianne ergueu uma sobrancelha.
— Adolphe Sax. Belga. Desenvolveu o instrumento no século passado tentando criar algo que tivesse parte da força dos metais e certa flexibilidade dos instrumentos de madeira.
Diane a encarou.
Marianne percebeu.
— O quê?
— Você sabe mesmo.
— Achei que já estivesse estabelecido que sei algumas coisas.
— Algumas?
Marianne devolveu o clarinete.
— Música foi uma escolha profissional ruim.
— Por quê?
— Porque, depois que começa a estudar, descobre que nunca termina.
Diane observou novamente os instrumentos.
— Isso a incomoda?
Marianne demorou pouco.
— É justamente o que gosto.
A resposta fez Diane ficar quieta.
Marianne pegou uma gaita.
Depois examinou um violão.
Falou sobre diferentes construções de caixa, cordas de aço, a forma como certos instrumentos tinham mais projeção que outros.
Mostrou a Diane a diferença entre dois arcos de violino.
Explicou por que madeira envelhecida poderia alterar o som.
Discutiu com o vendedor sobre uma peça de encaixe.
O homem discordou.
Marianne respondeu.
Ele riu.
Ela também.
Diane ficou ao lado durante todo o tempo.
Em algum momento, deixou de prestar atenção exatamente ao que Marianne dizia.
Passou a observá-la.
A maneira como segurava um instrumento com cuidado.
Como inclinava a cabeça ao ouvir uma nota.
Como os dedos tocavam a madeira antes mesmo de tocar as cordas.
Como conseguia parecer mais jovem sem que nada em seu rosto tivesse mudado.
Diane percebeu algo simples.
Marianne amava aquilo.
Não apenas piano.
Música.
Tudo.
O som.
A construção.
A história.
Os erros.
As possibilidades.
Havia uma espécie de devoção nela.
Diane reconheceu porque já havia visto antes.
Em Eleanor.
A percepção trouxe uma pontada breve.
Mas não doeu da mesma maneira.
Talvez porque Marianne não lembrasse Eleanor.
Apenas amava alguma coisa com a mesma inteireza.
— Senhorita Rivers?
Diane piscou.
Marianne estava olhando para ela.
— O quê?
— Perguntei se quer ouvir.
Ela segurava um pequeno violão.
Diane aproximou-se.
Marianne dedilhou alguns acordes simples.
— Som muito aberto.
Diane ouviu.
— Bonito.
— É.
O vendedor assentiu.
— Leve.
Marianne riu.
— Estou hospedada em outro continente.
— Então leve para o continente errado.
— Excelente técnica de venda.
Diane olhou para o relógio preso ao pulso.
Ficou surpresa.
— Marianne.
— Sim?
— Estamos aqui há quase uma hora.
Marianne olhou para ela.
Depois para o relógio da barraca.
— Não.
Diane ergueu o pulso.
Marianne aproximou-se para ver.
— Isso está certo?
— Normalmente.
O vendedor respondeu:
— Quando alguém gosta de instrumento, relógio deixa de prestar serviço.
Marianne devolveu o violão.
— Parece que ele está tentando justificar nos manter aqui.
— E funcionou — disse Diane.
Marianne olhou para ela.
Diane já se afastava.
— Vamos.
Marianne agradeceu ao vendedor e a seguiu.
Quando voltaram à rua principal, a luz havia mudado.
O fim de tarde estava quase terminado.
As lâmpadas das barracas agora dominavam a cidade.
Marianne olhou em volta.
— Realmente passou uma hora.
— Eu avisei.
— Você poderia ter me tirado de lá.
Diane virou o rosto.
— Parecia feliz.
A resposta fez Marianne ficar quieta.
Diane continuou andando.
Não percebeu imediatamente o efeito da frase.
Ou fingiu não perceber.
Foi então que a música chegou.
Mais forte.
Vinda da direção da praça.
Violino.
Acordeão.
Contrabaixo.
Palmas.
E vozes.
Diane parou.
— Começou.
Marianne olhou na direção do som.
— Já?
Diane fez um pequeno gesto com a cabeça.
— Passamos tempo demais na barraca.
— Culpa sua.
Diane a encarou.
— Minha?
— Continuou fazendo perguntas.
— E você continuou respondendo.
— Então dividimos a responsabilidade.
— Generoso.
Seguiram a música.
Quanto mais se aproximavam da praça, maior se tornava a multidão.
As barracas diminuíam e davam lugar a um espaço aberto cercado por prédios baixos. Cordões de lâmpadas cruzavam o alto de uma construção a outra. Pequenas bandeiras decoravam postes. Uma plataforma de madeira havia sido montada perto da igreja, onde músicos tocavam.
Homens, mulheres e crianças ocupavam quase todo o lugar.
Alguns apenas assistiam.
Outros já se preparavam para dançar.
Diane parou na entrada da praça.
Marianne observou o rosto dela.
— Não mudou nada — disse Diane.
A frase não tinha alegria nem tristeza.
Talvez um pouco das duas.
Marianne olhou ao redor.
— Nada?
Diane apontou discretamente.
— A banda ficava ali.
Depois para uma barraca próxima.
— Eles sempre vendiam sidra naquele canto.
Olhou para uma varanda.
— E as pessoas mais velhas sentavam ali para criticar quem estava dançando.
Marianne sorriu.
— Tradição importante.
— Uma das mais respeitadas.
Diane continuou observando.
Por alguns segundos, Marianne pensou que ela pudesse querer ir embora.
Não quis.
Ficou.
A música terminou.
Palmas ocuparam a praça.
Então um homem subiu à plataforma e ergueu os braços.
Diane soltou uma respiração pequena.
— Ah, não.
Marianne olhou.
— O quê?
— Eu tinha esquecido disso.
— Do quê?
O homem começou a anunciar a velha brincadeira do festival.
Pares seriam formados ao acaso.
A música começaria.
A cada sinal, todos deveriam trocar de parceiro com a pessoa mais próxima.
Marianne ouviu.
— Parece inofensivo.
Diane virou lentamente o rosto.
— Você ainda não viu.
A música recomeçou.
Pessoas começaram a se mover.
Um homem aproximou-se de Marianne e estendeu a mão.
Ela olhou para Diane.
— Acho que fui convocada.
Diane fez um gesto curto.
— Vá.
Marianne aceitou a mão do desconhecido.
O homem a conduziu para a dança.
Marianne olhou para Diane por cima do ombro.
Seus olhos estavam arregalados pela surpresa, e um sorriso involuntário apareceu.
Diane acenou apenas uma vez.
Então alguém tocou seu braço.
Ela virou-se.
Um senhor de meia-idade fez uma pequena reverência.
— Senhorita?
Diane olhou para a mão oferecida.
Por um instante, pareceu considerar fugir.
Então aceitou.
A praça inteira começou a se mover.
A música era rápida, mas não complicada.
Uma dança comunitária.
Passos simples.
Giros.
Trocas.
Marianne seguiu o ritmo sem dificuldade.
Diane também.
Ela não sorria.
Mas não parecia desconfortável.
O primeiro sinal veio.
Os pares se separaram.
Marianne foi puxada por outro homem.
Diane acabou diante de uma mulher mais velha que segurou suas mãos sem pedir licença.
— Você está muito séria para uma dança.
Diane respondeu:
— É meu rosto.
A mulher riu.
Outro sinal.
Mais trocas.
A praça tornou-se um movimento quase contínuo.
Pessoas passavam.
Mãos se encontravam.
Corpos giravam.
Rostos desapareciam e surgiam novamente.
Marianne perdeu Diane de vista.
Depois a encontrou do outro lado.
Diane estava dançando com um rapaz mais jovem, claramente tentando seguir o passo dela.
Marianne quase sorriu.
Outro sinal.
Trocaram novamente.
Diane passou para alguém diferente.
Marianne também.
A música acelerou.
Mais palmas.
Mais risos.
Por alguns minutos, nenhuma das duas conseguiu se aproximar.
Então veio outra troca.
Marianne virou.
Diane também.
E ficaram frente a frente.
Por um instante, a praça pareceu ficar mais distante.
Não silenciosa.
A música continuava.
As pessoas continuavam dançando.
Mas a atenção das duas se prendeu.
Marianne levantou a mão.
Um gesto simples.
Permitido pela brincadeira.
Diane olhou para ela.
Depois para a mão estendida.
Por um breve segundo, hesitou.
Então levantou a própria mão.
Os dedos se encontraram.
Marianne conduziu o primeiro passo.
Diane acompanhou.
Nenhuma falou.
Não havia motivo.
Era apenas uma dança.
Uma tradição.
Uma troca aleatória entre dezenas de pessoas.
Qualquer um olhando de fora veria exatamente isso.
Mas alguma coisa mudou para Marianne.
Não no primeiro toque.
Nem no primeiro giro.
Foi quando Diane levantou os olhos.
Marianne encontrou o olhar dela.
E não conseguiu desviar.
Diane parecia diferente sob aquelas luzes.
O vestido vinho surgia quando o casaco se abria durante os movimentos. Algumas mechas haviam se soltado dos cabelos. O rosto continuava sério, mas havia uma suavidade que Marianne não costumava ver dentro da mansão.
Ela conhecia aqueles olhos.
Já os havia encontrado no piano.
Na cozinha.
Na floresta.
Na casa do lago.
Mas ali havia alguma coisa que Marianne não soube reconhecer.
Ou talvez tenha reconhecido antes que desejasse.
O próximo passo aproximou as duas.
Não demais.
A dança não permitia intimidade real.
Ainda assim, foi suficiente.
Marianne sentiu o próprio coração alterar o ritmo.
Não pela dança.
Sabia distinguir.
Passara a vida inteira ouvindo ritmo.
Diane continuava olhando.
Marianne sentiu uma inquietação subir pelo peito.
Algo novo.
Inesperado.
Inadequado demais para ser examinado no meio de uma praça.
O rosto de Diane.
A mão dela.
A proximidade.
A sensação absurda de não querer que o próximo sinal viesse.
E então Marianne compreendeu.
Ou compreendeu o suficiente para sentir medo.
Seu corpo reagiu antes da razão.
Soltou a mão de Diane.
Deu um passo para trás.
Diane franziu o cenho.
— Marianne?
O sinal de troca ainda não havia tocado.
Marianne respirou.
— Desculpe.
— O que—
— Desculpe.
Virou-se.
Saiu da roda.
Passou entre duas pessoas.
Depois entre outras.
Diane ficou parada.
Um novo parceiro tentou aproximar-se.
Ela levantou a mão.
— Não.
Saiu também.
Marianne caminhava depressa pela lateral da praça.
Diane a seguiu.
Não chamou imediatamente.
Havia gente demais.
Marianne atravessou uma rua.
Depois outra.
O som da música começou a diminuir.
Diane continuou atrás.
---
Marianne só diminuiu quando as últimas casas ficaram para trás.
Bellwood havia sido construída numa região irregular, e uma pequena elevação começava depois da rua mais afastada do centro. Havia um caminho estreito subindo entre árvores baixas até um terreno aberto no alto.
Marianne seguiu por ele.
Talvez quisesse apenas distância.
Talvez ar.
Quando chegou ao topo, a música da praça parecia pertencer a outro lugar.
A lua já estava visível.
O céu estava limpo.
Lá embaixo, Bellwood brilhava com pequenas luzes.
Marianne parou próxima à margem do terreno, onde o solo descia suavemente antes de encontrar uma pequena vala coberta por vegetação.
Ficou olhando a cidade.
Tentou respirar.
O que havia acontecido?
A pergunta era ridícula.
Sabia exatamente o que havia acontecido.
Era justamente esse o problema.
Marianne Lieberman passara a vida inteira cercada de música porque música tinha regras.
Mesmo quando improvisava, existia estrutura.
Tom.
Ritmo.
Tensão.
Resolução.
Uma dissonância podia ser compreendida.
Uma pausa podia ser medida.
Até o silêncio tinha duração.
Aquilo não.
Não sabia onde colocar aquilo.
Não sabia sequer como chamar.
Ou talvez soubesse e não quisesse.
Ouviu passos atrás.
Fechou os olhos por um instante.
Diane.
Naturalmente.
— Marianne?
Ela não se virou.
Os passos se aproximaram.
— O que foi aquilo?
Marianne continuou olhando para a cidade.
Diane parou alguns metros atrás.
— Eu fiz alguma coisa?
Marianne não respondeu.
— Marianne.
Dessa vez havia menos firmeza na voz de Diane.
Mais preocupação.
Ela se aproximou.
— Olhe para mim.
Marianne abaixou a cabeça.
Diane esperou.
Nenhuma resposta.
Então tocou o ombro dela.
O gesto foi cuidadoso.
Marianne se virou.
Diane retirou a mão quase imediatamente.
Os olhos das duas se encontraram.
Marianne parecia calma agora.
Calma demais.
Como alguém que havia tomado uma decisão durante os poucos minutos em que ficara sozinha.
Diane observou.
— Eu fiz alguma coisa?
Marianne respondeu enfim:
— Não.
— Então por que saiu daquele jeito?
Marianne olhou para ela.
Por alguns segundos, parecia procurar a forma correta de dizer.
— Foi justamente o contrário.
Diane franziu levemente o cenho.
— Como assim?
Marianne desviou os olhos para Bellwood.
— Você não fez nada.
Uma pausa.
— E ainda assim aconteceu alguma coisa.
Diane permaneceu quieta.
Marianne respirou devagar.
— Não sei explicar melhor.
— Tente.
A palavra não veio como ordem.
Veio quase baixa.
Marianne soltou uma pequena risada sem humor.
— Você sempre pede coisas difíceis como se fossem simples.
Diane inclinou a cabeça.
— Pessoas costumam tornar difíceis as coisas que têm medo de dizer.
Marianne olhou para ela.
— E você sabe disso por experiência?
— Bastante.
Silêncio.
Marianne voltou os olhos para a cidade.
— Passei a vida inteira entendendo o que sinto quando estou diante da música.
Diane ouviu.
— Mesmo quando uma peça me incomoda, sei por quê. Mesmo quando alguma coisa me comove, consigo reconhecer o movimento, a nota, o momento em que aconteceu.
Marianne juntou as mãos diante do corpo.
— É confortável.
— Entender?
— Sim.
Diane esperou.
— Hoje...
Marianne parou.
Abaixou um pouco o rosto.
Tocou de leve a testa com dois dedos.
Diane viu.
Não comentou.
Marianne retirou a mão.
— Hoje, por alguns segundos, eu não soube reconhecer o que estava sentindo.
Diane ficou imóvel.
O som distante da música chegava muito fraco até o morro.
— Enquanto dançávamos? — perguntou.
Marianne assentiu.
— Sim.
Diane desviou os olhos.
Não por vergonha.
Talvez por precisar de tempo.
— E isso assustou você.
— Assustou.
— Por quê?
Marianne olhou para ela quase com incredulidade.
— Você realmente precisa perguntar?
Diane sustentou o olhar.
— Preciso ouvir a sua resposta. Não a minha.
Aquilo fez Marianne ficar quieta.
Durante alguns segundos, a única coisa entre elas foi o vento.
Então Marianne falou:
— Porque nunca me aconteceu.
Diane não se moveu.
— Nunca?
Marianne balançou a cabeça.
— Não assim.
A voz estava baixa.
Séria.
— Não com ninguém.
Diane absorveu a resposta lentamente.
Marianne continuou antes que perdesse coragem.
— Não passei a juventude esperando casamento. Nunca me interessou construir a vida ao redor de alguém. Minha profissão sempre pareceu suficiente.
Olhou para Bellwood.
— Música era suficiente.
Diane falou:
— E agora deixou de ser?
Marianne virou-se.
— Não.
Pensou.
— Não sei.
Diane não gostou da resposta ou talvez gostasse demais da honestidade.
— Então o que aconteceu?
Marianne apertou os dedos.
— Eu estava olhando para você.
A frase permaneceu no ar.
Diane não desviou.
— E?
Marianne respirou.
— E por um instante não quis que a música acabasse.
Diane ficou completamente imóvel.
Marianne continuou:
— Não porque gostasse da dança.
Um pequeno sorriso triste.
— Nem sequer gosto muito de dançar.
Diane não respondeu.
— Eu não queria que acabasse porque sabia que, quando acabasse, teria que pensar sobre o motivo de não querer.
Diane olhou para ela durante muito tempo.
Nenhuma das duas tinha pressa agora.
— E chegou a alguma conclusão? — perguntou Diane.
Marianne quase riu.
— Infelizmente.
O rosto de Diane ficou mais sério.
— Qual?
Marianne olhou diretamente para ela.
A pergunta seguinte saiu baixa:
— Você realmente quer que eu diga?
Diane demorou.
Era 1954.
Algumas palavras não eram apenas palavras.
Tinham consequências.
Mesmo longe da praça, mesmo sozinhas no escuro, existiam coisas que duas mulheres sabiam que não podiam dizer com a mesma facilidade com que outras pessoas diziam.
Diane compreendeu o peso da pergunta.
— Quero que diga apenas o que consegue dizer sem mentir.
Marianne baixou os olhos.
Foi a frase mais gentil que Diane poderia ter escolhido.
Talvez por isso tenha sido pior.
— Eu senti alguma coisa por você.
Diane não respirou por um instante.
Marianne continuou:
— Não sei se gosto de admitir.
— Porque sou uma mulher?
Marianne fechou os olhos brevemente.
Diane havia dito.
Direto.
Sem contorno.
Quando Marianne tornou a abri-los, encontrou o rosto dela tão controlado quanto antes.
— Também.
Diane assentiu muito pouco.
— E o restante?
Marianne pensou.
— Porque você é você.
Diane ergueu uma sobrancelha.
— Isso parece uma ofensa.
Marianne quase sorriu.
— Não é.
A leveza durou apenas um segundo.
— Você é minha aluna, pelo menos oficialmente.
Diane olhou para ela.
— Tenho trinta e dois anos.
— Eu sei.
— Não sou uma estudante do conservatório.
— Também sei.
— Então não use isso para esconder o restante.
Marianne ficou quieta.
Diane percebeu imediatamente que havia acertado.
— Está bem — disse Marianne.
Respirou.
— O restante é que eu não estava preparada.
— Para sentir alguma coisa?
— Para sentir alguma coisa que não pudesse organizar.
Diane cruzou lentamente os braços.
— Tudo precisa ser organizado?
— Na minha vida, sim.
— Deve ser exaustivo.
Marianne soltou uma respiração.
— É funcional.
— Não foi hoje.
Marianne levantou uma sobrancelha.
Diane viu.
— Não.
Marianne respondeu quase resignada.
— Hoje não foi.
Diane desviou os olhos para a cidade.
— E por isso saiu correndo.
— Não corri.
Diane olhou para ela.
— Marianne.
— Caminhei muito rápido.
— Você quase derrubou um homem.
— Ele estava no caminho.
Diane segurou uma pequena reação no canto da boca.
Não chegou a sorrir.
— Entendo.
O silêncio voltou.
Dessa vez mais delicado.
Marianne observou Diane.
— Você está muito calma.
— Preferia que gritasse?
— Não.
— Então?
Marianne levou alguns segundos.
— Não sei o que esperava.
Diane olhou para a lua.
— Talvez seja esse o seu problema.
— Qual?
— Espera saber o que vai acontecer antes que aconteça.
Marianne ficou quieta.
— A música não ensinou isso a você?
— O quê?
Diane voltou os olhos para ela.
— Algumas das melhores notas existem porque alguém decidiu não seguir exatamente a partitura.
Marianne a encarou.
— Isso vindo de você é quase ofensivo.
— Por quê?
— Você passou anos sendo conhecida pela precisão.
— Talvez por isso eu saiba o preço dela.
A resposta apagou qualquer humor.
Marianne olhou para Diane.
— E você?
Diane ficou imóvel.
— Eu o quê?
— Sentiu alguma coisa?
A pergunta finalmente chegara.
Diane não respondeu rápido.
Marianne percebeu que ela poderia não responder.
Estava pronta para aceitar.
Mas Diane falou:
— Quando você soltou minha mão...
Fez uma pausa.
— Pensei que tivesse feito algo errado.
Marianne baixou os olhos.
— Não fez.
— Eu sei agora.
— Isso não respondeu.
Diane olhou diretamente para ela.
— Estou aprendendo com você.
Marianne não sorriu.
Esperou.
Diane soltou os braços.
— Eu não sei o que senti.
Foi a resposta.
Simples.
Sem metáfora.
Talvez justamente por isso tão honesta.
— Faz muito tempo que não deixo ninguém perto o suficiente para precisar descobrir.
Marianne escutou.
— Então não vou inventar uma resposta apenas porque você encontrou uma antes de mim.
Marianne assentiu.
— É justo.
— Mas...
Diane parou.
Marianne esperou.
— Não queria que você tivesse ido embora daquele jeito.
O olhar de Marianne mudou.
— Por quê?
Diane levou alguns segundos.
— Porque estava gostando de dançar.
A resposta parecia pequena.
Mas Marianne compreendeu o que custara.
Diane acrescentou:
— Com você.
Marianne ficou completamente imóvel.
A música distante parecia ter parado, embora provavelmente não tivesse.
— Diane...
— Não transforme isso numa resposta maior do que é.
Marianne respirou.
— Não vou.
— Está tentando.
— Estou tentando não tentar.
Diane quase sorriu.
Então ficou séria novamente.
— Você disse que nunca sentiu isso por ninguém.
— Sim.
— Nem por um homem?
— Não.
— Nunca esteve apaixonada?
Marianne balançou a cabeça.
— Não.
Diane observou-a.
— Estranho.
Marianne ergueu a sobrancelha.
— Obrigada.
— Não quis dizer dessa forma.
— Como quis?
Diane pensou.
— Você entende música como se tivesse passado a vida procurando emoção dentro dela.
Marianne ficou quieta.
— Talvez tenha feito exatamente isso.
— Por quê?
Marianne olhou para a lua.
— Porque música nunca pede que você explique o que sente antes de permitir que sinta.
Diane absorveu a frase.
— Pessoas pedem.
— Frequentemente.
— Eu pedi.
Marianne olhou para ela.
— Pediu.
— E se arrepende de ter respondido?
Marianne demorou.
— Não.
— Mesmo agora?
— Principalmente agora.
Diane permaneceu em silêncio.
Marianne continuou:
— Eu teria voltado para a Itália daqui a alguns meses e provavelmente passaria anos tentando descobrir o que aconteceu naquela praça.
— Dramática.
— Italiana.
Diane soltou um som baixo que quase virou risada.
Marianne também.
Depois a seriedade voltou.
— Existe outra coisa — disse Marianne.
Diane esperou.
— Estamos em uma cidade pequena.
— Eu sei.
— E estamos em 1954.
Diane sustentou seu olhar.
— Também sei o ano.
— Não faça pouco disso.
— Não estou fazendo.
Marianne respirou.
— Duas mulheres podem dançar daquela maneira numa brincadeira de festival e ninguém pensar duas vezes.
Diane ouviu.
— Mas se alguém acreditasse que havia outra coisa...
Não terminou.
Não precisava.
Diane olhou para as luzes da cidade.
— As pessoas costumam se importar muito com aquilo que não conseguem controlar.
— E podem ser cruéis.
— Sim.
— Isso não assusta você?
Diane pensou.
— Muitas coisas me assustam.
Olhou para Marianne.
— Aprendi que medo não é sempre um aviso para parar. Às vezes é apenas a prova de que existe algo a perder.
Marianne ficou em silêncio.
A frase encontrou um lugar desconfortável.
— Você fala assim de propósito? — perguntou.
— Assim como?
— Como se quisesse deixar uma frase na cabeça de alguém por uma semana.
Diane desviou o olhar.
— Não tenho culpa se você pensa demais.
Marianne soltou uma pequena risada.
Depois ficou quieta.
Diane caminhou até uma parte mais baixa do terreno e sentou-se na grama.
Marianne observou.
— Vai ficar aí?
Diane olhou para ela.
— Você fez a mesma pergunta quando a levei para o campo.
Marianne lembrou.
Então se aproximou.
Sentou-se ao lado.
Não muito perto.
A distância entre elas era pequena o bastante para que soubessem que existia.
Grande o bastante para que nenhuma precisasse decidir o que fazer com isso.
Ficaram olhando Bellwood.
As luzes.
A praça distante.
Pequenas figuras se movendo ao redor.
A música recomeçou.
— Perdemos a dança — disse Marianne.
Diane respondeu:
— Talvez seja melhor.
— Achei que estivesse gostando.
— Estava.
Marianne virou o rosto.
Diane percebeu.
— Não comece.
— Não disse nada.
— Seus olhos disseram.
Marianne voltou a olhar para a cidade.
— Então agora você também interpreta olhos?
— Sempre interpretei.
— E o que os meus disseram?
Diane ficou quieta.
Marianne esperou.
— Que está tentando decidir se deveria se arrepender.
Marianne virou-se lentamente.
Diane continuou olhando para frente.
— Acertou?
Marianne pensou.
— Não.
Diane assentiu.
— Ótimo.
— Isso a deixa aliviada?
Diane demorou.
— Um pouco.
Marianne não comentou.
Alguns minutos se passaram.
A noite estava mais fria.
Diane aproximou o casaco do corpo.
Marianne percebeu.
— Devemos voltar.
— Ainda não.
— Está com frio.
— Sobrevivo.
— Essa frase é muito usada nesta família.
Diane olhou para ela.
— Está preocupada?
— Estou observando.
— Essa também é minha frase.
Marianne sorriu.
— Influência ruim.
Diane voltou a olhar a lua.
Pela primeira vez desde que Marianne chegara, havia algo diferente no silêncio entre as duas.
Não era romance.
Ainda seria cedo demais para uma palavra tão grande.
Também não era apenas amizade.
Alguma fronteira havia se tornado visível.
E o problema de enxergar uma fronteira era nunca mais poder fingir que ela não existia.
Marianne havia atravessado apenas o suficiente para reconhecer o outro lado.
Diane ainda não sabia se desejava segui-la.
Talvez nenhuma precisasse decidir naquela noite.
Depois de algum tempo, Diane se levantou.
Marianne fez o mesmo.
Começaram a descer o morro.
No meio do caminho, Marianne perguntou:
— Diane.
— Sim?
— Quando voltarmos à praça... devemos fingir que esta conversa não aconteceu?
Diane parou.
Virou-se.
Os olhos das duas se encontraram sob a luz fraca da lua.
— Não.
Marianne esperou.
Diane continuou:
— Podemos simplesmente não falar sobre ela.
— Qual a diferença?
Diane pensou.
— Fingir é negar que aconteceu.
A voz saiu calma.
— Silêncio é apenas escolher quem merece ouvir.
Marianne ficou olhando para ela.
Talvez fosse a primeira vez naquela noite que alguma coisa em seu rosto realmente relaxava.
— Entendi.
Diane começou a caminhar.
Depois de alguns passos, disse sem olhar para trás:
— E Marianne?
— Sim?
— Da próxima vez que se assustar comigo...
Marianne esperou.
Diane virou o rosto por cima do ombro.
— Não saia correndo.
Marianne ficou imóvel.
Diane continuou descendo.
Depois de um instante, Marianne a seguiu.
— Eu já disse que não corri.
Diane não olhou para trás.
— Claro.
— Caminhei rapidamente.
— Quase derrubou um homem.
— Ele estava no caminho.
Diane finalmente sorriu.
Marianne viu.
E dessa vez não se afastou.
Capítulo 9 — A Distância Entre Duas Notas
Quando Diane e Marianne voltaram à praça, a música já havia terminado.
As pessoas que antes ocupavam o centro de Bellwood dançando agora se espalhavam entre as barracas, procurando comida quente, conversando em pequenos grupos ou simplesmente caminhando sob as fileiras de lâmpadas acesas sobre a rua principal. Algumas crianças ainda corriam entre os adultos, embora o cansaço começasse a aparecer nos rostos dos pais.
Diane diminuiu o passo ao perceber que a roda havia se desfeito.
Marianne caminhava ao seu lado.
Nenhuma mencionou o que havia acontecido no alto do morro.
Talvez não fosse necessário.
Ou talvez fosse cedo demais.
Havia uma diferença entre evitar um assunto e permitir que ele permanecesse quieto por algum tempo. Diane parecia compreender isso. Marianne também.
A conversa havia mudado alguma coisa entre elas, mas não de uma forma que pudesse ser vista facilmente.
Diane ainda mantinha as mãos nos bolsos do casaco. Marianne continuava com a postura firme e os cabelos cuidadosamente presos, apesar dos fios que o vento havia soltado. Caminhavam com a mesma distância de antes.
Ainda assim, quando passaram por um grupo numeroso de pessoas e Marianne precisou reduzir o passo, Diane também diminuiu sem perceber.
Não a deixou para trás.
Mais adiante, uma mulher atravessou a rua carregando duas crianças pela mão. Diane desviou para dar passagem e, ao fazê-lo, seu braço tocou de leve o de Marianne.
Nenhuma se afastou bruscamente.
Foi apenas um contato breve.
Comum.
Quase insignificante.
Mas depois da conversa que haviam acabado de ter, coisas comuns haviam perdido parte da simplicidade.
— A dança terminou — disse Marianne.
Diane olhou para a praça.
— Parece que sim.
— Talvez tenhamos ficado fora por mais tempo do que pensei.
— Ficamos.
Marianne virou o rosto.
— Está arrependida?
Diane demorou um instante para compreender.
— De ter ido atrás de você?
— De ter perdido o restante da dança.
Diane olhou outra vez para a praça.
— Não.
A resposta veio sem hesitação.
Marianne não perguntou mais nada.
Caminharam entre as barracas.
Bellwood parecia diferente à noite. O cheiro de lenha queimada misturava-se ao de café e especiarias. As luzes suavizavam as fachadas dos prédios e faziam algumas vitrines parecerem mais elegantes do que provavelmente eram durante o dia.
Anna apareceu de repente diante delas com um prato nas mãos.
— Onde estavam?
Martha surgiu logo atrás.
— Anna.
— Estou apenas perguntando.
Diane olhou para Marianne.
Marianne olhou para Diane.
Foi rápido.
Martha percebeu.
Anna não.
— Caminhando — respondeu Diane.
— Por quase uma hora?
— Bellwood cresceu muito desde a última vez que vim.
Anna pareceu aceitar a explicação sem dificuldade.
— Vocês perderam a melhor parte.
Diane ergueu uma sobrancelha.
— Duvido.
— A música estava excelente.
Marianne respondeu:
— Nós ouvimos parte.
Anna entregou o prato a Diane.
— Experimente.
Diane olhou para aquilo.
— O que é?
— Torta de abóbora.
— Não.
Anna fez uma expressão ofendida.
— A senhora gostava.
— Eu tinha menos discernimento.
Marianne escondeu um sorriso.
Anna voltou-se para ela.
— A senhora experimenta.
Marianne aceitou o prato.
— Estou começando a entender por que todos aqui fazem o que você manda.
— Porque tenho razão.
— Essa parte ainda não está comprovada.
Diane observou Marianne provar um pequeno pedaço.
— E então? — perguntou Anna.
Marianne mastigou lentamente.
Olhou para Diane.
— Não é horrível.
Diane a encarou.
— Isso é o melhor que consegue oferecer?
— Estou tentando manter boas relações diplomáticas com sua cidade.
Anna riu.
Diane desviou os olhos, mas havia um pequeno movimento no canto da boca.
Era diferente.
Nas semanas anteriores, Diane sorria como quem cometia um descuido e logo precisava corrigi-lo. Naquela noite, parecia menos preocupada em esconder cada pequena reação.
Marianne percebeu.
Não comentou.
Durante o restante do festival, permaneceram próximas do grupo, embora Anna e as outras empregadas constantemente desaparecessem entre barracas diferentes. Martha conversou com conhecidos da cidade. Alguns reconheceram Diane.
Isso foi mais difícil.
Uma senhora idosa aproximou-se dela perto de uma banca de café.
— Diane Rivers?
Diane ficou imóvel por um instante.
— Senhora Whitmore.
A mulher abriu um sorriso.
— Meu Deus, quanto tempo.
Marianne permaneceu a alguma distância.
— Você não vem a Bellwood há anos.
— Eu sei.
A senhora segurou as mãos de Diane por alguns segundos.
— Sua irmã adorava esta época.
Marianne viu o rosto de Diane mudar.
Muito pouco.
Mas mudou.
No passado, talvez aquela frase tivesse sido suficiente para fazê-la encerrar a conversa.
Diane apenas assentiu.
— Adorava.
A senhora Whitmore sorriu com tristeza.
— Era impossível acompanhar aquela menina.
— Continua sendo — respondeu Diane.
A mulher pareceu não compreender imediatamente.
Então sorriu.
— Sim. Imagino que algumas pessoas continuem nos dando trabalho mesmo depois que partem.
Diane não respondeu.
Mas também não se afastou.
Quando a senhora foi embora, Marianne aproximou-se.
— Está bem?
Diane olhou para ela.
— Estou.
Marianne não insistiu.
Diane pareceu observar essa decisão.
— Ela tinha uma loja aqui — explicou.
— A senhora Whitmore?
— Sim. Eleanor comprava fitas para o cabelo com ela.
Marianne assentiu.
— Entendo.
Diane começou a caminhar novamente.
Depois de alguns passos, completou:
— Eu odiava as fitas.
Marianne olhou para ela.
— Por quê?
— Eleanor insistia em escolher para mim também.
— E você usava?
Diane manteve o olhar adiante.
— Às vezes.
Marianne sorriu.
— Gostaria de ter visto.
Diane lançou-lhe um olhar lateral.
— Não gostaria.
— Tenho certeza de que gostaria.
— Não lhe mostrarei fotografias.
— Então existem fotografias.
Diane percebeu tarde demais.
Parou.
Marianne ergueu levemente as sobrancelhas.
— Interessante.
Diane voltou a andar.
— Esqueça.
— Não esquecerei.
— Marianne.
— Não estou pedindo para vê-las.
— Mas está pensando.
— Isso não pode ser proibido.
Diane permaneceu séria por alguns segundos.
Depois soltou um pequeno suspiro.
— Você se tornou inconveniente muito rapidamente.
— Talvez esteja ficando mais à vontade.
Diane olhou para ela.
A frase tinha outra dimensão agora.
Marianne percebeu assim que a disse.
As duas ficaram em silêncio.
Diane foi a primeira a desviar.
— Talvez — respondeu.
Nada além disso.
Mas Marianne guardou a palavra.
---
O festival começou a esvaziar pouco depois das dez.
As famílias com crianças foram as primeiras a partir. Algumas barracas já recolhiam mercadorias, e os músicos desmontavam parte dos equipamentos no pequeno palco da praça. A temperatura havia caído bastante, e o vento tornava difícil permanecer parado por muito tempo.
Martha reuniu o grupo próximo ao automóvel.
Anna apareceu por último carregando duas sacolas.
— Você comprou a cidade? — perguntou Martha.
— Quase.
— Não temos lugar para isso.
— Temos sim.
— No seu colo.
Anna entrou no carro reclamando.
Diane observou a cena enquanto ajeitava o casaco.
Marianne estava próxima dela.
— Cansada? — perguntou.
Diane olhou para a rua iluminada uma última vez.
— Mais do que gostaria de admitir.
— Então não admita.
Diane virou o rosto.
— Um conselho surpreendentemente ruim vindo de você.
— Já dei bons demais por um dia.
Entraram.
Diane sentou-se novamente ao lado de Marianne.
No início, Anna ainda tentou conversar. Comentou sobre as compras, sobre alguém que havia encontrado, sobre uma barraca que prometera voltar a visitar no ano seguinte.
Aos poucos, sua voz diminuiu.
Depois desapareceu.
O carro ficou em silêncio.
A estrada para a propriedade Rivers estava quase completamente escura. Apenas os faróis iluminavam a faixa de terra à frente, enquanto árvores surgiam e desapareciam de ambos os lados.
Martha adormeceu.
Uma das empregadas apoiou a cabeça no vidro.
Anna segurava as sacolas contra o peito e também parecia prestes a dormir.
Diane olhava pela janela.
Marianne permanecia ao seu lado.
Nenhuma falou.
De vez em quando o movimento do carro fazia seus ombros se aproximarem. Uma curva mais forte os fazia se tocar levemente e se afastar novamente.
Na terceira vez, Marianne percebeu.
Diane também.
Nenhuma mudou de posição.
Aquilo a surpreendeu mais do que deveria.
Marianne voltou os olhos para a estrada.
A conversa no morro continuava viva em sua memória.
“Eu senti alguma coisa por você.”
Talvez tivesse sido imprudente.
Talvez devesse ter guardado aquilo.
Em 1954, sinceridade nem sempre era uma virtude segura. Marianne sabia disso. Mulheres aprendiam cedo quais partes de si podiam ser mostradas e quais precisavam permanecer protegidas.
Ainda assim, não se arrependia.
Isso a preocupava.
Virou discretamente o rosto.
Diane continuava olhando pela janela.
A luz irregular da estrada atravessava seu perfil de tempos em tempos.
Não parecia desconfortável.
Nem assustada.
Talvez apenas pensativa.
Marianne fechou os olhos por alguns minutos.
Não dormiu.
---
Quando chegaram à propriedade, o relógio da mansão já se aproximava das onze.
Os empregados desceram do carro lentamente, todos dominados pelo cansaço.
Anna pegou as sacolas.
Martha ordenou que deixasse metade para o dia seguinte.
Diane caminhou em direção à casa.
Marianne veio alguns passos atrás.
O interior da mansão estava aquecido e silencioso.
Margaret já havia se recolhido.
Martha desejou boa noite a todos antes de seguir pelo corredor. Anna mal conseguiu responder antes de subir as escadas.
Em poucos minutos, restaram apenas Diane e Marianne no hall.
Marianne retirou as luvas.
— Foi um dia longo.
Diane assentiu.
— Foi.
As duas caminharam até a escadaria.
Marianne subiu os primeiros degraus.
Diane permaneceu embaixo.
Marianne percebeu e virou-se.
— Tenha uma boa noite, Diane.
Diane levantou os olhos.
— Marianne.
Ela parou.
— Sim?
Diane hesitou.
Não era comum.
Marianne esperou.
— Pode me ajudar com uma coisa?
— Claro.
Diane passou uma das mãos discretamente pela lateral do vestido.
— Amarrei o vestido sozinha antes de sair.
Marianne aguardou.
— E?
— E fiz isso com bastante pressa.
Marianne finalmente compreendeu.
O vestido vinho possuía um fechamento de laços na parte posterior, oculto sob o casaco durante boa parte da noite.
— Está presa nele?
Diane pareceu levemente contrariada com a maneira como aquilo soava.
— Não diria presa.
— E como diria?
— Diria que fui excessivamente confiante.
Marianne permitiu-se um pequeno sorriso.
— Entendo.
Diane olhou em direção ao corredor.
— Pode ajudar?
— Naturalmente.
— Obrigada.
Marianne desceu novamente.
Diane não subiu para o quarto principal.
Seguiu pela porta dos fundos.
Marianne franziu levemente a testa.
— Não vai para o quarto?
— Minhas coisas estão na casa do lago.
Era verdade.
Diane passava cada vez mais noites ali.
Marianne pegou o próprio casaco novamente.
Saíram.
A noite estava fria e silenciosa. O lago refletia a lua como uma faixa pálida sobre a água.
Diane caminhou à frente.
Marianne a acompanhou.
Dessa vez, o silêncio entre elas não era igual ao das caminhadas matinais.
Talvez fosse cansaço.
Talvez fosse a conversa no morro.
Talvez fosse simplesmente o fato de que ambas estavam conscientes demais da outra.
Diane abriu a casa do lago.
Acendeu uma luminária.
A luz pequena aqueceu a madeira do interior.
O piano permanecia junto à janela.
Diane tirou o casaco e o deixou sobre uma cadeira.
O vestido vinho apareceu inteiro pela primeira vez.
Marianne desviou os olhos quase imediatamente.
Não por falta de interesse.
Justamente pelo contrário.
Diane caminhou até o banco do piano.
Sentou-se de frente para as teclas.
— Aqui será mais fácil.
Marianne se aproximou.
Parou atrás dela.
O fechamento do vestido era mais complicado do que imaginava.
Diane realmente fizera um trabalho ruim.
Os laços estavam presos de maneira desigual, e um deles havia formado um pequeno nó próximo à cintura.
Marianne segurou a ponta do tecido.
— Realmente amarrou isso de qualquer maneira.
Diane olhou para o piano.
— Tive pressa.
— Estou percebendo.
— Pretendia caminhar até a cidade e já começava a escurecer.
Marianne examinou o nó.
— Ainda acho extraordinário que tenha considerado uma boa ideia ir a pé vestida assim.
— Funcionou.
— Quase.
Diane virou o rosto um pouco.
— Está me repreendendo?
— Estou avaliando suas decisões.
— Não pedi avaliação.
— Também não pediu para que o vestido se transformasse num problema.
Diane soltou um pequeno suspiro.
— Tem razão.
Marianne parou.
— Isso foi uma admissão?
— Não se acostume.
— Tentarei.
Voltou ao nó.
Durante alguns minutos, apenas os dedos de Marianne se moveram.
Era um gesto simples.
Prático.
Ainda assim, a proximidade tornava difícil tratá-lo como algo completamente indiferente.
Marianne estava suficientemente perto para sentir o perfume discreto que permanecia nos cabelos de Diane. Não era forte. Algo floral, quase apagado depois de tantas horas fora.
Diane mantinha as costas eretas.
As mãos repousavam sobre as próprias pernas.
Nenhuma falou.
Marianne tentou soltar outro laço.
Não conseguiu.
— Você realmente fez um trabalho admirável.
— Pare de julgar.
— Estou tentando compreender a engenharia.
— É apenas um vestido.
— Neste momento, discordo.
Diane respirou fundo.
Depois olhou para o teclado à sua frente.
O piano estava aberto.
Talvez o tivesse deixado assim antes de saírem.
Marianne não sabia.
Diane estendeu lentamente a mão.
Tocou uma tecla.
A nota soou.
Marianne parou por uma fração de segundo.
Olhou para os dedos dela.
Diane não virou o rosto.
Pressionou outra tecla.
Depois outra.
Marianne não perguntou o que estava fazendo.
Retomou cuidadosamente o trabalho com o laço.
Diane continuou.
As primeiras notas não formavam uma peça reconhecível.
Marianne tentou identificar por hábito.
Desistiu quase imediatamente.
Não importava.
Havia algo hesitante no começo.
Diane tocava como quem procura uma frase que ainda não sabe dizer.
Uma nota mais baixa.
Depois outra.
Uma sequência simples.
Marianne soltou finalmente um dos nós.
Diane continuou tocando.
As mãos começaram a se mover com mais segurança.
Não havia partitura.
Marianne percebeu.
Era dela.
Ou talvez estivesse surgindo naquele momento.
Diane não olhou para trás.
A música começou a preencher a pequena casa.
Havia tristeza.
Mas não a tristeza sufocante que Marianne ouvira quando Diane falava de Eleanor.
Era algo diferente.
Mais aberto.
Como se a melancolia tivesse aceitado dividir espaço com outra coisa.
Não exatamente esperança.
Talvez descanso.
Marianne parou novamente.
O laço estava quase totalmente desfeito.
Não queria interromper.
Diane tocava porque queria.
Essa era a diferença.
Não havia pedido.
Não havia convite.
Não havia Marianne sentada ao lado guiando o caminho.
Diane Rivers estava tocando sozinha.
Por escolha.
Marianne terminou de desfazer o último nó com cuidado.
A parte posterior do vestido afrouxou ligeiramente.
Ela imediatamente deu um passo para trás, respeitando a intimidade de Diane.
— Pronto — disse baixo.
Diane não respondeu.
Continuou tocando.
Marianne ficou onde estava.
Deveria ir embora.
Talvez fosse o mais correto.
Mas não conseguiu.
A música a manteve ali.
Diane não precisava de plateia.
Marianne sabia.
Ainda assim, havia alguma coisa naquele som que parecia permitir sua presença.
Então se aproximou novamente.
Não por trás.
Contornou o banco.
Diane percebeu.
Não parou.
Marianne sentou-se ao lado dela.
Deixou espaço suficiente entre as duas.
Não tocou.
Apenas ouviu.
Diane manteve os olhos sobre o teclado.
Os dedos pareciam mais seguros agora.
Algumas passagens revelavam o tempo afastada do instrumento. A mão esquerda perdia força em determinados momentos. Certas transições poderiam ser mais limpas.
Marianne não pensou como professora.
Isso a surpreendeu.
Não queria corrigir nada.
A música seria pior se fosse perfeita.
Porque o que Diane colocava ali não era técnica.
Era verdade.
Marianne ouviu.
E compreendeu.
Havia Eleanor em algumas notas.
Não a Eleanor doente.
A menina que corria pela floresta.
A mulher que cantava.
A irmã que dançava com desconhecidos num festival.
Havia também Diane.
A mulher que ficara.
Aquela talvez fosse a parte mais importante.
Pela primeira vez, a música não parecia ser apenas uma lembrança de alguém que morreu.
Também parecia pertencer a quem continuava viva.
A sequência começou a diminuir.
Diane encontrou um acorde.
Sustentou.
Depois o deixou desaparecer.
A última nota permaneceu por alguns segundos.
Então o silêncio voltou.
Diane retirou lentamente as mãos do teclado.
Ficou olhando para elas.
Marianne também.
Nenhuma falou imediatamente.
Diane foi a primeira a virar o rosto.
Seus olhos encontraram os de Marianne.
Não havia ansiedade neles.
Havia uma espécie de vulnerabilidade que Marianne ainda não conhecia bem.
— O que achou? — perguntou Diane.
Marianne não respondeu de imediato.
Pensou.
— Belo.
Diane continuou olhando.
Marianne acrescentou:
— E triste.
— Triste?
— Sim.
Diane desviou os olhos para o piano.
— Achei que estivesse menos triste.
— Está.
— Isso não faz sentido.
— Faz.
Marianne olhou para as teclas.
— A tristeza não desapareceu.
Fez uma pausa.
— Apenas deixou de ocupar tudo.
Diane ficou quieta.
— E o que mais ouviu?
Marianne pensou novamente.
— Alívio.
Diane franziu levemente o cenho.
— Não senti alívio.
— Talvez não enquanto tocava.
Marianne olhou para ela.
— Mas sua música sentiu.
Diane sustentou o olhar por um longo instante.
— Você diz coisas perigosas quando está cansada.
— Talvez o cansaço diminua a prudência.
— Não deveria.
— Concordo.
Nenhuma desviou.
A casa parecia mais silenciosa do que antes.
Diane percebeu a distância entre os rostos.
Marianne também.
Não havia acontecido nada.
Ainda.
Diane continuava sentada.
Marianne também.
Mas os olhos permaneceram presos um ao outro por tempo demais para que aquilo pudesse ser confundido com uma conversa comum.
Marianne lembrou-se da praça.
Da mão de Diane na sua.
Da sensação que a fizera sair dali quase sem pensar.
Dessa vez não havia música ao redor.
Nem pessoas.
Nem uma tradição que justificasse proximidade.
Só as duas.
Isso tornava tudo mais claro.
E mais perigoso.
Diane não se afastou.
Marianne percebeu.
O olhar de Diane desceu por um instante.
Não até o corpo.
Até a boca.
Depois voltou aos olhos.
Marianne sentiu o próprio peito apertar.
Era uma resposta.
Não completa.
Mas resposta.
Diane inclinou-se muito pouco.
Talvez sem perceber.
Marianne também.
A distância diminuiu.
Nenhuma tocou a outra.
O silêncio se tornou quase insuportavelmente nítido.
Diane podia sentir a respiração de Marianne.
Marianne conseguia ver uma pequena mecha escura caída próxima à face dela.
Mais alguns centímetros.
Nada além disso.
Marianne fechou os olhos por um instante.
Quando os abriu, recuou.
Rápido.
Não de maneira brusca, mas suficientemente clara para romper o momento.
Diane ficou imóvel.
A surpresa apareceu no rosto antes que conseguisse escondê-la.
Marianne se levantou.
— Desculpe.
Diane continuou sentada.
— Marianne...
Ela não respondeu.
Pegou o casaco.
Diane virou-se no banco.
— Espere.
Marianne parou próximo à porta.
Não se virou imediatamente.
Diane observava suas costas.
— Eu fiz alguma coisa?
A pergunta lembrava a do morro.
Marianne fechou os olhos.
— Não.
Virou-se.
O rosto estava controlado, mas havia uma tensão evidente nele.
— Não fez.
— Então por que está se desculpando?
Marianne ficou em silêncio.
Diane esperou.
— Porque por um instante esqueci que sentir alguma coisa e agir sobre ela são decisões diferentes.
Diane absorveu a frase.
— E teria sido um erro?
Marianne não respondeu rápido.
Era precisamente esse tipo de pergunta que não admitia facilidade.
— Não sei.
Diane permaneceu séria.
— Você costuma saber.
— Não sobre isso.
— Outra vez.
Marianne assentiu.
— Outra vez.
Diane olhou para ela por alguns segundos.
— Está com medo.
Marianne não negou.
— Sim.
— De mim?
— Não.
— Então?
Marianne voltou os olhos para a porta.
— Do que uma escolha pode mudar.
Diane ficou em silêncio.
Marianne continuou:
— Algumas coisas, depois que acontecem, não podem voltar a ser apenas possibilidade.
A frase permaneceu entre elas.
Diane desviou os olhos para o piano.
— Talvez nem tudo precise voltar.
Marianne olhou para ela.
Diane não a encarava agora.
Passava a ponta dos dedos pela borda das teclas.
Marianne sentiu o impacto da resposta.
Mesmo assim, não se aproximou.
— Boa noite, Diane.
Diane ergueu os olhos.
— Vai embora?
— Vou.
— Para pensar?
Marianne demorou.
— Para não decidir cansada.
Diane assentiu lentamente.
Aquilo, pelo menos, ela parecia respeitar.
— Boa noite, Marianne.
Marianne abriu a porta.
O vento frio entrou.
Antes de sair, olhou para Diane uma última vez.
Ela ainda estava sentada ao piano, o vestido frouxo nas costas, as mãos próximas das teclas e o rosto muito mais difícil de interpretar do que Marianne gostaria.
Então saiu.
---
Marianne atravessou o caminho até a mansão depressa.
Não correu.
Dessa vez não.
Mas também não diminuiu.
Entrou pela porta lateral.
A casa estava completamente silenciosa.
Subiu as escadas.
Abriu o quarto.
Entrou.
Fechou a porta atrás de si.
Ficou parada.
A respiração estava mais forte do que deveria.
Não por esforço.
Passou as mãos pelo rosto.
Depois foi até a janela.
A casa do lago permanecia iluminada.
Uma única janela.
Marianne ficou olhando.
— O que está fazendo? — murmurou para si mesma.
Não havia resposta.
Talvez estivesse perguntando sobre aquela noite.
Talvez sobre Diane.
Talvez sobre os últimos dias.
Passara anos acreditando que a vida que construí era suficiente.
E era.
Não havia mentira nisso.
Tinha trabalho.
Reconhecimento.
Música.
Independência suficiente para uma mulher de sua época.
Nunca esperara marido.
Nunca desejara filhos.
Nunca sentira falta daquilo que outras pessoas insistiam que um dia lhe faria falta.
E então Diane Rivers apareceu.
Não como alguém procurando espaço.
Era justamente o contrário.
Diane parecia determinada a não oferecer espaço a ninguém.
Talvez por isso Marianne não soubesse quando começara a entrar.
Sentou-se na cama.
A conversa no morro voltou.
Depois o piano.
Depois aqueles poucos centímetros que haviam separado seus rostos.
Marianne tocou levemente a testa com os dedos.
Fechou os olhos.
Não estava arrependida.
Isso continuava sendo o problema.
Deitou-se sem trocar imediatamente de roupa.
Demorou muito até o sono chegar.
---
Na casa do lago, Diane permaneceu exatamente onde Marianne a deixara.
O vento fazia a cortina se mover.
O vestido continuava parcialmente aberto nas costas, mas Diane parecia ter esquecido.
O piano estava diante dela.
Não tocava.
Apenas olhava.
Era o que fazia quando alguma coisa a perturbava.
Sentava-se no banco e esperava.
Naquela noite, porém, não era Eleanor que ocupava seus pensamentos.
Diane levou a mão aos próprios lábios.
Não os tocou.
Parou antes.
Abaixou a mão.
Fechou os olhos.
Não havia acontecido nada.
Essa era a verdade.
Nenhum beijo.
Nenhuma promessa.
Nenhuma palavra que não pudesse ser recolhida.
Ainda assim, algo havia mudado.
Diane percebeu isso com uma clareza desconfortável.
Durante anos, o piano havia sido o lugar onde ia procurar alguém que perdera.
Naquela noite, estava sentada diante dele pensando em alguém que permanecia a poucos metros de distância.
E talvez essa diferença fosse maior do que estava preparada para compreender.
Capítulo 10 — Aquilo que Permanece
Nos dias seguintes, Marianne tornou-se diferente.
Não de uma forma que chamasse a atenção de todos na casa. Para Margaret, continuava sendo a professora italiana disciplinada que havia atravessado o oceano para devolver sua filha ao piano. Para Martha e as demais empregadas, mantinha a mesma educação, os mesmos horários e a mesma postura impecável.
Diane, porém, percebeu.
Percebia porque Marianne havia deixado de permanecer depois das aulas. Porque as pequenas conversas que antes surgiam sem motivo desapareceram. Porque, quando caminhavam, Marianne já não fazia perguntas que pudessem levar a algum lugar além da música.
Até mesmo seus olhares haviam mudado.
Antes, Marianne sustentava os olhos de Diane mesmo quando discordava dela.
Agora os desviava.
Não sempre.
Apenas quando permaneciam tempo demais.
Diane não perguntou o motivo.
Não precisava.
Sabia exatamente quando aquilo havia começado.
Na casa do lago.
Na noite em que quase se beijaram.
Marianne havia tomado uma decisão depois daquele momento, e Diane não participara dela.
Era isso que mais a incomodava.
A professora havia voltado.
A mulher que caminhava ao seu lado no campo, que ouvia quando Diane falava da irmã, que permanecia sentada com ela diante do piano sem exigir nenhuma nota, parecia ter recuado para algum lugar onde Diane já não conseguia alcançá-la.
Ainda assim, não disse nada.
Durante alguns dias, apenas observou.
Marianne dizia bom dia.
Diane respondia.
Marianne perguntava se desejava trabalhar alguma peça.
Diane dizia que não.
Marianne aceitava.
Então tocava sozinha enquanto Diane permanecia ao lado, como antes.
Mas já não era como antes.
A distância não estava no banco.
Estava em Marianne.
E Diane sabia reconhecer quando alguém começava a partir muito antes de chegar à porta.
---
Marianne também sabia que Diane havia percebido.
Talvez desde o primeiro dia.
Tentava não pensar nisso.
A decisão de manter distância lhe parecera razoável quando estava sozinha no quarto. O que acontecera entre elas na casa do lago podia ter seguido adiante por poucos centímetros. Um movimento. Uma hesitação a menos.
E depois?
Marianne não encontrou resposta alguma que tornasse a continuação simples.
Vivera tempo suficiente para compreender que nem todo sentimento devia ser seguido apenas porque era verdadeiro.
Havia o trabalho.
A reputação que construiu durante anos.
Diane talvez voltasse aos palcos. Talvez voltasse a ter o nome nos jornais, a viajar, a apresentar-se diante de salas lotadas.
E o mundo onde ambas viviam não seria gentil se soubesse.
Marianne conhecia a época em que estava.
Sabia o tipo de rumor capaz de destruir uma mulher sem que ela sequer tivesse oportunidade de se defender.
Não precisava haver condenação pública.
Bastava que algumas portas deixassem de se abrir.
Por isso, distância.
Era melhor.
Ao menos era o que repetia a si mesma.
Mas todas as manhãs, quando encontrava Diane, precisava tomar novamente a mesma decisão.
E decisões que precisam ser tomadas todos os dias talvez nunca tenham sido tão firmes quanto imaginamos.
---
Numa manhã, Marianne acordou no horário habitual.
Vestiu-se, prendeu os cabelos e desceu para tomar café.
Anna estava na cozinha.
— Bom dia, senhorita Lieberman.
— Bom dia.
Marianne sentou-se.
O lugar de Diane permanecia vazio.
Não perguntou.
Tomou o café.
Comeu pouco.
Depois pegou o casaco e saiu.
Diane não estava junto à trilha.
Marianne esperou alguns minutos.
Nada.
Começou a caminhar.
A princípio imaginou que Diane já tivesse ido ao campo.
Não estava.
A grama permanecia vazia sob o sol da manhã.
Marianne ficou alguns instantes olhando para o lugar onde Diane costumava se deitar.
Voltou.
Seguiu até a casa do lago.
Bateu na porta.
Nada.
Olhou pela janela.
Vazia.
Aquilo a incomodou mais do que deveria.
Marianne retornou em direção à mansão.
No meio da trilha, parou.
Havia um som.
Muito baixo.
Quase escondido entre o vento e as folhas.
Continuou andando.
O som ficou mais claro.
Uma nota.
Depois outra.
Marianne ergueu o rosto.
Piano.
Acelerou.
Quando saiu da floresta, a música já podia ser ouvida com clareza.
Vinha da mansão.
Da sala oeste.
Marianne atravessou o jardim.
Entrou.
A música ocupava os corredores.
Não era apenas alguém experimentando as teclas.
Era uma execução firme.
Precisa.
Limpa.
Marianne diminuiu o passo.
Quanto mais se aproximava da sala, mais percebia aquilo que acreditara talvez ter desaparecido com os anos.
A técnica de Diane.
Não completamente intacta, porque nenhum corpo abandona um instrumento por tanto tempo sem cobrar alguma coisa.
Mas estava ali.
A força.
A sensibilidade.
O domínio das pausas.
A compreensão de que uma nota não termina quando o dedo abandona a tecla.
Marianne chegou à porta.
Diane estava sentada ao Steinway.
O piano que ninguém podia tocar.
O piano que durante anos permanecera fechado.
Marianne não entrou.
Ficou na porta.
Diane não tinha partitura.
Marianne tentou reconhecer a peça.
Não conseguiu.
Então deixou de procurar.
Apenas ouviu.
Havia algo diferente naquela música.
Diane não parecia tocar para lembrar Eleanor.
Nem para provar alguma coisa à mãe.
Nem para mostrar a Marianne que havia conseguido voltar.
Tocava porque alguma coisa precisava ser dita e não encontrara outra forma.
A música atravessava a casa inteira.
Marianne fechou os olhos por alguns segundos.
E compreendeu.
A distância que tentara criar entre as duas não havia apagado nada.
Apenas tornara tudo mais dolorosamente claro.
Lembrou-se novamente da casa do lago.
Da proximidade.
Do instante em que recuara.
Por um momento, sentiu arrependimento.
Não porque acreditasse que sua decisão tivesse sido errada.
Ainda compreendia perfeitamente por que havia se afastado.
Mas, naquela manhã, ao ouvir Diane tocar sozinha, soube que gostaria de ter descoberto o que aconteceria se não tivesse recuado.
Abriu os olhos.
A música começava a terminar.
Diane reduziu o movimento.
Um último acorde percorreu o instrumento.
Depois silêncio.
A nota ainda vibrava quando Diane retirou as mãos.
Ficou alguns segundos olhando para o teclado.
Então virou-se.
Seus olhos encontraram Marianne.
Nenhuma delas falou.
Diane levantou-se.
Marianne permaneceu junto à porta.
Diane caminhou em sua direção.
Havia algo diferente em seus olhos.
Não era raiva.
Mas Marianne conhecia o bastante para saber que Diane não havia tocado daquela maneira para depois permitir que a conversa terminasse em cordialidade.
Parou diante dela.
— Isto é horrível.
Marianne franziu levemente a testa.
— O quê?
Diane sustentou seu olhar.
— Descobrir como alguém se sente, mesmo quando essa pessoa diz tão pouco... e depois vê-la se afastar como se nada tivesse acontecido.
Marianne ficou em silêncio.
Diane prosseguiu:
— Você não conversa comigo como antes. Não permanece ao meu lado. Já não pergunta nada que não tenha relação com o piano.
A voz continuava baixa.
— Até quando olha para mim, parece lembrar-se de que não deveria estar olhando.
Marianne respirou lentamente.
— Tem razão.
Diane pareceu surpresa pela resposta.
Apenas por um instante.
Depois se aproximou um pouco.
— Então diga.
Marianne não respondeu.
— Vamos, Marianne.
Diane esperou.
— Diga o que sente.
Marianne permaneceu imóvel.
Talvez tivesse ensaiado aquela conversa sozinha durante dias. Nenhuma das respostas apareceu quando precisou delas.
Diane continuou olhando.
— Achei que fosse mais corajosa.
Marianne abaixou um pouco a cabeça.
O silêncio durou alguns segundos.
Então respondeu:
— Também achei que fosse mais corajosa.
Diane deixou escapar uma respiração curta.
— Chegamos a um ponto curioso.
Marianne levantou os olhos.
— Qual?
— Você talvez pense que sou mais dócil do que realmente sou.
— Nunca pensei isso.
— Mas espera que eu aceite sua distância sem perguntar por quê.
Marianne não respondeu.
Diane aproximou-se mais.
Não havia dureza em sua expressão agora.
Apenas decisão.
— Olhe para mim.
Marianne já a olhava.
— Para quem estou olhando?
Marianne ficou em silêncio.
Abaixou a cabeça.
Dois dedos tocaram de leve sua testa.
Diane observou o movimento.
— Quando não sabe o que dizer, faz isso.
Marianne parou.
Lentamente ergueu o rosto.
— O quê?
— Abaixa a cabeça e toca a testa.
Marianne a encarou.
Diane continuou:
— Quando perde o controle, levanta a sobrancelha.
Uma pausa.
— E quando alguma coisa a perturba de verdade, respira pela boca.
Por alguns segundos, Marianne não conseguiu dizer nada.
Diane havia percebido.
Não apenas naquele dia.
Era impossível saber há quanto tempo.
Marianne inspirou devagar.
— Você tem me observado.
Diane sustentou seus olhos.
— Eu observo todos.
— Não desse modo.
Diane ficou quieta.
Marianne esperou uma explicação.
Ela não veio.
— Há quanto tempo? — perguntou Marianne.
Diane desviou o olhar apenas por um instante.
— Não saberia dizer.
— Diane.
— Não comecei a contar.
Marianne abaixou os olhos.
Diane continuou:
— Algumas coisas são percebidas antes que entendamos por que as percebemos.
Marianne tornou a encará-la.
Diane falou mais baixo:
— Sua presença é constituída desses estados passageiros. Pequenos aspectos. Momentos tão breves que poderiam desaparecer antes que outra pessoa os notasse.
Marianne permaneceu imóvel.
— E ainda assim — continuou Diane — são eles que mais se aproximam da verdade.
Marianne olhou profundamente para ela.
— Nem tudo é passageiro.
Diane não se moveu.
Marianne completou:
— Alguns sentimentos são profundos demais para desaparecer apenas porque decidimos que seria melhor assim.
O silêncio tornou-se mais pesado.
Diane deu mais um passo.
Marianne não recuou de imediato.
Os rostos estavam próximos.
Os olhos permaneciam presos.
Diane parecia procurar alguma coisa nela.
Talvez uma confirmação.
Talvez coragem.
Marianne sentiu novamente o mesmo impulso daquela noite.
E novamente deu um passo para trás.
Diane reagiu antes que pensasse.
Segurou sua mão.
Marianne parou.
Olhou para os dedos de Diane.
Depois para o rosto dela.
Diane não apertava com força.
Apenas a segurava.
— Não faça isso outra vez.
Marianne respirou.
— Diane...
— Se realmente quiser ir, eu não vou impedi-la.
A voz de Diane estava calma.
— Mas não recue apenas porque está com medo daquilo que já sabe.
Marianne permaneceu quieta.
Diane soltou lentamente parte da pressão da mão, oferecendo-lhe a possibilidade de se afastar.
Marianne não se afastou.
— Sua presença é feita de momentos passageiros — repetiu Diane. — Mas não acredito mais que tudo em você seja.
Marianne ergueu os olhos.
— Nem tudo é passageiro.
Diane esperou.
— O que sinto não foi embora.
A resposta veio simples.
Sem proteção.
Diane respirou mais fundo.
— Mesmo depois de tentar?
Marianne assentiu.
— Mesmo depois de tentar.
Nenhuma delas se moveu.
A mão de Diane ainda segurava a de Marianne.
Dessa vez, foi Marianne quem se aproximou um pouco.
Diane percebeu.
Não fez nada além de permanecer.
Os olhos das duas se encontraram de uma forma diferente.
Já não havia pergunta suficiente para justificar outra conversa.
Diane soltou devagar a mão de Marianne.
Não porque quisesse distância.
Porque não precisava mais segurá-la.
Marianne continuou ali.
Diane se aproximou.
Marianne também.
Por um instante, ficaram tão próximas que qualquer movimento poderia encerrar ou transformar tudo aquilo.
Nenhuma desviou o olhar.
Diane perguntou baixo:
— Ainda vai se afastar?
Marianne respondeu depois de alguns segundos:
— Não desta vez.
Diane fechou os olhos.
Marianne fez o mesmo.
E se beijaram.
Não houve pressa.
O primeiro contato foi delicado, quase cauteloso, como se ambas soubessem que atravessavam uma fronteira que vinha sendo desenhada muito antes daquele momento.
Marianne levou alguns segundos para permitir que o corpo relaxasse.
Diane não tentou apressá-la.
O beijo permaneceu breve.
Mas sincero.
Quando se afastaram, nenhuma das duas recuou completamente.
Os rostos continuaram próximos.
Marianne abriu os olhos primeiro.
Diane também.
Durante alguns segundos, apenas se olharam.
Nenhum sorriso.
Nenhuma frase destinada a explicar o que acabara de acontecer.
Talvez qualquer palavra diminuísse o momento.
Diane olhou para Marianne como se tentasse descobrir se ela voltaria a fugir.
Marianne permaneceu.
Isso bastou.
Ao fundo, o piano ainda estava aberto.
A sala que durante anos existira apenas para guardar silêncio agora parecia diferente.
Diane virou o rosto na direção dele.
Marianne acompanhou seu olhar.
Aquela manhã começara com Diane tocando sozinha.
Talvez fosse justamente isso que precisasse acontecer antes de qualquer outra coisa.
Ela precisava encontrar a própria música antes de permitir que alguém se aproximasse dela novamente.
Diane voltou os olhos para Marianne.
Marianne ainda estava ali.
E, pela primeira vez, nenhuma das duas tentou transformar o que sentia em distância.
Capítulo 11 — O Que os Olhos Não Negam
O primeiro beijo terminou, mas nenhuma das duas se afastou.
Diane abriu os olhos.
Marianne já a observava.
Por semanas, haviam aprendido a reconhecer uma à outra nos detalhes mais discretos: uma respiração diferente, um olhar interrompido cedo demais, uma mão que permanecia imóvel quando desejava se mover, uma frase abandonada antes do fim.
Naquela manhã, nada mais precisava ser escondido.
Marianne ainda estava perto o suficiente para que Diane sentisse sua respiração. A cautela continuava em seus olhos, porque parecia fazer parte dela, mas havia outra coisa agora.
Permanência.
Diane sustentou o olhar.
Marianne também.
E foi justamente naquele silêncio que ambas compreenderam que o beijo não havia criado aquilo.
Apenas revelara.
Marianne havia se tornado importante antes que Diane percebesse.
Diane já ocupava um lugar em Marianne antes que ela tivesse coragem de admitir.
Nenhuma das duas sabia em que manhã aquilo começara.
Talvez no piano.
Talvez no campo.
Talvez numa conversa sobre Eleanor.
Talvez não existisse um instante exato.
Alguns sentimentos não chegam como tempestades.
Instalam-se como luz entrando lentamente por uma janela, até que um dia percebemos que o quarto inteiro mudou.
Diane tocou o rosto de Marianne.
Dessa vez, não houve hesitação.
Marianne virou levemente a face contra a palma de sua mão.
Seus olhos continuaram presos aos dela.
E se beijaram outra vez.
O segundo beijo foi diferente.
Não havia mais a surpresa do primeiro.
Havia escolha.
Marianne segurou Diane pela cintura e a trouxe para mais perto. Diane levou a mão até sua nuca, deixando os dedos entre os cabelos presos.
A contenção das últimas semanas apareceu naquele gesto.
Não como violência.
Como necessidade.
Beijaram-se mais profundamente, ainda descobrindo o ritmo uma da outra, mas sem a cautela que antes as obrigava a interromper cada aproximação.
Quando se separaram para respirar, nenhuma recuou.
Marianne encostou a testa na de Diane.
Os olhos das duas permaneceram abertos.
Diane viu algo que ainda não conhecia naquele rosto tão disciplinado.
Entrega.
E Marianne encontrou nos olhos de Diane uma coisa ainda mais rara.
Confiança.
Diane não disse nada.
Apenas segurou sua mão.
E a conduziu para fora da sala.
---
A caminhada até a casa do lago aconteceu quase inteira em silêncio.
Não porque faltassem palavras.
Havia palavras demais.
Nenhuma parecia necessária.
O vento atravessava as árvores, movimentando os cabelos de Diane. Marianne caminhava ao lado dela, não atrás.
De vez em quando seus braços se tocavam.
Nenhuma se afastava.
Quando chegaram à casa, Diane abriu a porta.
Marianne entrou.
O piano estava ali.
As partituras.
A janela.
A pequena cama ao fundo.
Era o mesmo lugar em que Diane passara tantas noites sozinha.
Mas naquela manhã ela fechou a porta sabendo que não estava entrando ali para desaparecer.
Estava permitindo que alguém entrasse com ela.
Virou-se.
Marianne permanecia próxima à porta.
Os olhos se encontraram novamente.
Diane aproximou-se.
Marianne esperou.
Não havia professora.
Não havia aluna.
Não havia uma mulher tentando salvar outra.
Havia apenas duas mulheres que finalmente compreendiam que, durante semanas, haviam construído alguma coisa sem perceber.
Diane levou a mão ao rosto de Marianne.
O polegar percorreu suavemente sua face.
Marianne fechou os olhos por um instante.
Quando tornou a abri-los, Diane continuava ali.
— Olhe para mim — pediu Marianne, quase num sussurro.
Diane não perguntou por quê.
Apenas permaneceu.
Marianne a observou como se quisesse guardar aquele instante com uma precisão impossível.
Então a beijou.
Dessa vez, não houve interrupção.
Diane respondeu imediatamente.
O beijo tornou-se mais profundo.
As mãos, antes cuidadosas demais, começaram a descobrir com mais confiança onde poderiam permanecer.
Marianne soltou os cabelos de Diane.
Eles caíram sobre seus ombros.
Diane levou as mãos às costas dela, trazendo-a ainda mais para perto.
O piano permaneceu silencioso.
Talvez porque, pela primeira vez, nenhuma delas precisasse dele para dizer o que sentia.
Marianne beijou Diane novamente.
E novamente.
Cada beijo parecia desfazer uma parte da distância que ela própria havia tentado construir.
Diane percebeu isso.
Não pelos gestos.
Pelos olhos.
Sempre pelos olhos.
Quando Marianne se afastava apenas o suficiente para respirar, procurava Diane imediatamente.
Como se precisasse confirmar que ela permanecia ali.
E Diane permanecia.
A borda da cama tocou suas pernas.
Diane parou.
Marianne também.
Por alguns segundos, ficaram imóveis.
A intensidade não desapareceu.
Apenas ganhou consciência.
Marianne tocou suavemente a mão de Diane.
Nenhuma pergunta foi feita.
Não precisava.
Diane levou os dedos aos botões da roupa de Marianne.
Soltou o primeiro.
Depois outro.
Devagar.
Marianne não desviou os olhos.
Era justamente isso que tornava aquele momento tão íntimo.
Não a nudez que surgiria.
Mas o fato de serem vistas.
Realmente vistas.
Sem o piano.
Sem o luto.
Sem a postura impecável.
Sem a mulher forte que Diane aprendera a representar.
Sem a professora inabalável que Marianne apresentava ao mundo.
Apenas elas.
As roupas foram sendo deixadas de lado sem pressa.
Uma peça sobre a cadeira.
Outra próxima à cama.
Os dedos de Marianne tremeram discretamente ao tocar Diane.
Diane percebeu.
Não comentou.
Apenas segurou aquela mão e a beijou.
Marianne levantou os olhos.
Por alguns segundos, alguma coisa nela pareceu profundamente vulnerável.
Diane aproximou-se.
O beijo seguinte foi lento.
Mais íntimo do que todos os anteriores.
E quando se deitaram, nenhuma das duas precisou explicar por que estava ali.
A luz atravessava a janela e se espalhava pelas paredes de madeira.
O lago continuava do lado de fora.
O mundo também.
Dentro da casa, porém, havia apenas a respiração das duas.
O calor.
As mãos aprendendo uma à outra.
Os beijos que começavam cuidadosos e se tornavam mais intensos conforme a confiança crescia.
Diane percebeu que Marianne continuava procurando seus olhos.
Até nos momentos em que as palavras já não serviam.
Então fez o mesmo.
O desejo estava ali.
Claro.
Humano.
Mas havia alguma coisa ainda mais forte.
A sensação de finalmente poder tocar aquilo que durante semanas existira apenas em olhares interrompidos.
Marianne acariciou o rosto de Diane.
Diane fechou os olhos.
Um beijo em sua testa.
Outro em sua face.
Depois seus lábios novamente.
Não houve pressa.
Não havia motivo para haver.
Durante tanto tempo haviam resistido ao sentimento que, agora, permitir que ele existisse parecia mais importante do que qualquer urgência.
Fizeram amor naquela casa junto ao lago.
Sem discursos.
Sem promessas grandiosas.
Sem necessidade de transformar o momento em algo perfeito.
Houve nervosismo.
Houve pequenas hesitações.
Respirações interrompidas.
Mãos que paravam apenas para encontrar os olhos da outra e ter certeza de que ainda havia confiança ali.
E havia.
Sempre havia.
A cada vez que Diane olhava para Marianne, encontrava menos medo.
A cada vez que Marianne olhava para Diane, parecia enxergar uma mulher diferente daquela que conhecera semanas antes.
Não porque Diane tivesse sido consertada.
Ela nunca precisara disso.
Mas porque, aos poucos, começava a permitir que a vida voltasse a tocá-la.
E Marianne estava descobrindo algo igualmente assustador.
Passara anos acreditando que música bastava.
Talvez tivesse bastado.
Até Diane.
A intimidade entre elas cresceu até que o tempo perdeu importância.
A manhã avançou.
A luz mudou.
O piano permaneceu fechado.
E, pela primeira vez, a casa do lago guardou uma lembrança que não pertencia a Eleanor.
Pertencia a Diane.
Pertencia a Marianne.
Pertencia às duas.
---
Depois, ficaram deitadas.
O quarto estava quieto.
As roupas continuavam espalhadas onde haviam sido abandonadas, e a luz mais clara do dia atravessava a cortina próxima à cama.
Diane estava de lado.
Marianne também.
Nenhuma cobria completamente o corpo, mas já não havia constrangimento.
A intimidade mais difícil não estava naquilo que tinham acabado de compartilhar.
Estava agora.
No depois.
Quando não havia mais desejo para esconder o que sentiam.
Diane olhava para Marianne.
Longamente.
Marianne fez o mesmo.
Nenhuma parecia disposta a quebrar o silêncio.
Os dedos de Diane repousavam próximos à mão dela.
Depois de algum tempo, Marianne entrelaçou os dedos aos seus.
Diane olhou para as mãos.
Depois para os olhos dela.
Havia uma serenidade estranha em Marianne.
Como se uma mulher que sempre soubera exatamente o lugar de cada nota finalmente aceitasse uma música que não conseguia controlar.
Marianne levou a mão livre ao rosto de Diane.
Passou os dedos suavemente por sua face.
Diane não se moveu.
— Você caiu do céu — disse Marianne.
Diane franziu levemente a testa.
A palavra a atingiu de maneira diferente.
Os olhos de Diane permaneceram presos aos dela.
Marianne aproximou-se um pouco.
Havia sinceridade demais em seu olhar.
Passou o polegar pela face de Diane.
— Apenas caiu na minha vida quando eu já havia me convencido de que não precisava encontrar mais ninguém.
Diane ficou completamente quieta.
Marianne prosseguiu, muito baixo:
— E agora não consigo imaginar como tudo parecia suficiente antes de você chegar.
Diane sentiu alguma coisa apertar dentro do peito.
Não respondeu imediatamente.
Talvez porque não houvesse resposta digna.
Apenas olhou.
E Marianne compreendeu.
Era assim entre elas.
Algumas das coisas mais importantes nunca precisavam chegar à boca.
Diane aproximou-se.
Encostou a testa na de Marianne.
Seus olhos permaneceram abertos.
Marianne esperou.
Diane passou os dedos pelos cabelos dela.
Marianne fechou os olhos por um instante.
Quando tornou a abri-los, havia algo novo ali.
Algo que Diane ainda não sabia chamar de amor.
Mas já não poderia chamar de acaso.
Marianne aproximou os lábios dos dela.
O beijo foi pequeno.
Sem a intensidade dos anteriores.
Talvez por isso tenha sido ainda mais íntimo.
Quando terminou, continuaram próximas.
Diane observou Marianne como se tentasse memorizar seu rosto.
Marianne fez o mesmo.
Nenhuma delas sabia o que viria depois.
Naquele instante, porém, isso não importava.
Porque Diane compreendera alguma coisa que passara anos evitando:
há pessoas que entram em nossa vida fazendo barulho suficiente para serem percebidas.
Outras chegam quase em silêncio.
Sentam-se ao nosso lado.
Esperam.
Aprendem nossos olhos.
E, quando finalmente percebemos o que aconteceu, já não conseguimos lembrar como era o mundo antes de serem parte dele.
Diane apertou suavemente a mão de Marianne.
Marianne permaneceu.
E naquela casa construída durante tantos anos ao redor da ausência, duas mulheres finalmente descobriram o contrário dela.
Presença.
Capítulo 12 — O Preço de Voltar
Depois daquela manhã na casa do lago, alguma coisa entre Diane e Marianne deixou de precisar de explicação.
Não passaram a falar sobre o que eram.
Não houve promessas.
Nenhuma das duas tentou encontrar uma palavra suficientemente segura para definir aquilo que começava a existir.
Apenas continuaram.
E talvez fosse justamente essa continuidade que tornasse tudo mais verdadeiro.
As caminhadas pela manhã permaneceram.
O campo também.
Diane continuava deitando-se na grama, olhando o céu entre as nuvens, enquanto Marianne se sentava ao lado. Em alguns dias conversavam. Em outros, permaneciam em silêncio durante quase todo o tempo.
Mas o silêncio já não era o mesmo.
Antes, havia servido para protegê-las.
Agora parecia aproximá-las.
Diane olhava mais.
Não apenas como sempre observara as pessoas.
Havia uma diferença.
Começou a reparar na forma como a luz da manhã mudava a cor dos olhos de Marianne. No modo como ela prendia os cabelos quando pretendia tocar por muitas horas e os deixava menos rígidos quando não esperava sair da propriedade. Percebeu que Marianne costumava passar o polegar pela borda da xícara antes de tomar café quando estava distraída.
Percebeu também que, enquanto lia, movimentava discretamente os lábios em algumas frases.
E Marianne começou a perceber quando Diane estava olhando.
Não perguntava.
Apenas levantava os olhos do que estivesse fazendo e a encontrava.
Às vezes, nenhuma desviava.
Era nesses momentos que pareciam conversar melhor.
---
O piano voltou a fazer parte dos dias de Diane.
Não como antes.
Não ainda.
Mas com frequência suficiente para que a mansão voltasse a ter música.
Pela manhã, depois da caminhada, as duas seguiam para a casa do lago.
Em outros dias permaneciam na mansão.
Diane já não evitava o Steinway da sala oeste.
A primeira vez que abriu o instrumento diante de Margaret, a mãe ficou parada no corredor durante alguns minutos sem conseguir entrar.
Diane percebeu.
Não parou.
Também não olhou.
Continuou tocando.
A música terminou.
Quando se virou, Margaret já não estava.
Diane não foi atrás.
Aquilo não era para ela.
Essa talvez fosse uma das maiores diferenças.
Durante anos, Diane havia associado o piano a alguém.
Eleanor.
Sua mãe.
As pessoas que a ouviam.
Os professores.
Os críticos.
Agora começava, pouco a pouco, a descobrir o que significava tocar sem oferecer a música a ninguém.
Marianne compreendia isso.
Nunca lhe perguntava:
“Como se sente?”
Nunca dizia:
“Está melhor.”
Nunca transformava cada música numa vitória.
Sentava-se ao lado e corrigia quando precisava corrigir.
— Outra vez.
Diane lançava-lhe um olhar frio.
— Ficou ruim?
— Ficou confortável.
— E isso é pior?
— Para você, sim.
Diane tocava outra vez.
Marianne ouvia.
— Melhor.
— Apenas melhor?
— Quer elogios ou quer recuperar a mão esquerda?
Diane olhava para ela.
Marianne sustentava.
Diane tornava a tocar.
Era assim.
Não havia piedade no ensino de Marianne.
Diane gostava disso mais do que admitia.
Às vezes tocavam juntas.
Nesses momentos, algo curioso acontecia.
Diane já não precisava olhar constantemente para o teclado.
O corpo começava a recordar.
Então seus olhos procuravam Marianne.
Marianne percebia.
E, mesmo sem interromper a música, olhava de volta.
Uma fração de segundo.
Depois outra.
As mãos continuavam tocando.
Era quase absurdo que duas pessoas pudessem dizer tanto sem abrir a boca.
Num desses dias, Marianne perdeu uma entrada.
Apenas uma.
Diane percebeu imediatamente.
Continuou tocando até o fim.
Quando a última nota desapareceu, virou o rosto.
— Errou.
Marianne manteve as mãos sobre as teclas.
— Percebi.
— Você não costuma errar.
— Pessoas erram.
Diane continuou observando.
— Eu estava olhando para você.
Marianne finalmente virou o rosto.
— Eu sei.
Os olhos permaneceram juntos por alguns segundos.
Diane compreendeu.
Não disse nada.
Marianne também não.
Era suficiente.
---
Foi durante essas semanas que Diane começou a notar a tosse.
A primeira vez ainda podia ser explicada.
Aquela manhã no campo.
Marianne havia tossido de maneira forte e depois dissera que se engasgou.
Diane guardara o episódio.
Não por suspeita.
Por hábito.
Agora, porém, havia outros.
Pequenos demais para chamar atenção de quem não estivesse observando.
Durante o café da manhã, Marianne às vezes virava discretamente o rosto e tossia dentro de um lenço.
Uma vez.
Duas.
Depois voltava à conversa como se nada tivesse acontecido.
Quando caminhavam, acontecia menos.
Mas acontecia.
Certa manhã, perto do fim da trilha, Marianne parou por alguns segundos.
Tossiu.
Dessa vez, abafou o som com a mão.
Quando Diane virou-se, ela já caminhava novamente.
— Está bem?
Marianne levantou os olhos.
— Sim.
Diane ficou parada.
Marianne também.
— Tem certeza?
— Tenho.
Diane observou seu rosto.
Nenhum sinal evidente.
Marianne estava tranquila.
Talvez um pouco mais pálida.
Ou talvez Diane estivesse procurando alguma coisa porque se lembrava da primeira tosse.
— O ar está mais frio hoje — disse Marianne.
Diane não respondeu.
Continuou caminhando.
Mas não esqueceu.
Nos dias seguintes, começou a perceber que Marianne havia desenvolvido o hábito de tossir quando acreditava estar sozinha.
Ao sair da biblioteca.
No corredor.
Perto da janela da cozinha.
Sempre baixo.
Sempre controlado.
Como se o mais importante não fosse a tosse passar.
Era ninguém ouvi-la.
Diane ouviu.
E começou a olhar.
Ainda não perguntou.
Não porque não estivesse preocupada.
Porque conhecia suficientemente Marianne para saber que uma pergunta feita cedo demais seria recebida com uma resposta pronta.
Então esperou.
Observou.
E guardou.
---
Margaret começou a aparecer com mais frequência.
No princípio, vinha a cada poucos dias.
Depois passou a ficar duas ou três noites seguidas na mansão.
As viagens diminuíram.
Telefonava menos de outros lugares.
Passava mais tempo perto da sala oeste.
Nunca entrava enquanto Diane tocava.
Mas escutava.
Diane sabia.
Marianne também.
Certa tarde, Diane executava uma peça de Schubert quando Marianne percebeu Margaret parada no corredor.
A mulher tinha os olhos fixos na filha.
Não havia orgulho simples em seu rosto.
Havia algo mais próximo de alívio.
Talvez até culpa.
Marianne desviou os olhos.
Aquela relação não lhe pertencia.
Quando Diane terminou, Margaret entrou.
— Marianne.
— Senhora Rivers.
— Posso falar com Diane?
Marianne olhou para Diane.
Diane fechou o piano.
— Não precisa sair.
A frase veio rápida.
Margaret percebeu.
Marianne também.
Diane não pareceu se importar.
Margaret hesitou.
— É um assunto de família.
Diane levantou-se.
— Então Marianne pode terminar o que estava fazendo em outro cômodo.
O olhar das duas se encontrou.
Marianne compreendeu.
— Estarei na biblioteca.
Saiu.
Diane acompanhou-a com os olhos até a porta.
Só então se voltou para a mãe.
Margaret percebeu aquilo também.
Mas não comentou.
Ainda.
— Está tocando muito bem.
Diane passou a mão pela borda do piano.
— Estou tocando.
— Não seja modesta.
— Não estou sendo.
Margaret aproximou-se.
— Faz anos que não ouço esta casa assim.
Diane não respondeu.
Margaret olhou para o instrumento.
— Pensei que nunca ouviria novamente.
— Também pensei.
A mãe sorriu.
Havia emoção verdadeira ali.
— Você não imagina o que isso significa para mim.
Diane ergueu os olhos.
A frase incomodou.
Margaret percebeu.
— Não quis dizer dessa forma.
— Mas disse.
— Diane...
— Estou tocando porque quero tocar.
— Eu sei.
— Tem certeza?
Margaret respirou fundo.
— Estou tentando aprender.
Aquilo fez Diane silenciar.
A resposta era melhor do que esperava.
Durante alguns segundos, apenas ficaram diante do piano.
Então Margaret sorriu de novo.
— Talvez tenha sido uma boa escolha trazer Marianne.
Diane desviou os olhos.
— Talvez.
Margaret observou-a.
— Gosta dela.
Diane levantou o rosto.
— Ela é boa no que faz.
— Não perguntei isso.
Diane sustentou os olhos da mãe.
Margaret pareceu considerar dizer algo mais.
Não disse.
Apenas voltou sua atenção para o piano.
— Estou feliz por você.
Diane assentiu.
A conversa terminou ali.
Mas Margaret continuou voltando.
---
Com o passar dos dias, sua alegria começou a adquirir outra forma.
Primeiro vieram perguntas.
Quanto tempo Diane conseguia tocar sem sentir fadiga?
Quais peças estava estudando?
A mão esquerda havia recuperado a força?
Marianne acreditava que ela poderia reconstruir um repertório?
Diane respondia apenas quando julgava necessário.
Depois começaram os comentários.
Um antigo conhecido havia perguntado por ela.
Um maestro ainda se lembrava de uma apresentação em Nova York.
Um empresário havia comentado que seria extraordinário vê-la voltar.
Diane percebeu o caminho antes de a mãe chegar ao fim.
Não disse nada.
Esperou.
Margaret sempre acabava mostrando aquilo que queria.
---
Numa tarde, Marianne estava na biblioteca.
Tinha algumas partituras abertas sobre a mesa e fazia anotações quando ouviu música na sala oeste.
Diane.
Reconheceu imediatamente.
Não se levantou.
Havia aprendido que nem toda música de Diane precisava de testemunha.
Poucos minutos depois, ouviu passos no corredor.
Margaret.
A música continuou.
Depois terminou.
Silêncio.
Marianne voltou para as partituras.
Não pretendia ouvir.
Mas a voz de Margaret atravessou o corredor.
— Está pronta para se apresentar novamente?
Marianne ergueu os olhos.
Na sala oeste, Diane ainda estava sentada diante do piano.
Olhou para a mãe.
— O quê?
Margaret aproximou-se.
— Perguntei se está pronta para voltar a se apresentar.
Diane ficou alguns segundos em silêncio.
— Não.
Margaret pareceu não escutar a resposta.
Ou talvez já tivesse decidido que ela não importava.
— Consegui um concerto para você.
Diane não se mexeu.
A expressão mudou antes mesmo das palavras.
— Conseguiu o quê?
— Um concerto.
— Eu ouvi.
Diane se levantou devagar.
— Estou perguntando o que a fez acreditar que tinha esse direito.
Margaret respirou.
— Diane...
— Como ousa?
A voz não aumentou.
Isso a tornou mais dura.
Margaret parou.
— Não fale comigo dessa maneira.
— Então não organize minha vida sem me consultar.
— Estou tentando ajudá-la.
Diane soltou uma respiração.
— Foi exatamente assim que tudo começou da última vez.
Margaret ficou séria.
— Não é a mesma coisa.
— É exatamente a mesma coisa.
Diane apontou para o piano.
— Você olha para mim sentada aqui e acredita que tudo voltou a ser como antes.
— Não disse isso.
— Não precisou.
Margaret sustentou o olhar da filha.
— Você voltou a tocar.
— Sim.
— Está recuperando sua técnica.
— Sim.
— Então por que não voltar ao palco?
Diane ficou em silêncio durante alguns segundos.
Quando respondeu, cada palavra saiu medida.
— Porque tocar e pertencer a um palco não são a mesma coisa.
Margaret aproximou-se.
— Você nasceu para aquilo.
— Não diga o que nasci para fazer.
— Eu vi você diante de centenas de pessoas.
— E eu estava lá, mãe.
Diane tocou o próprio peito.
— A diferença é que você viu a pianista. Eu precisei viver dentro dela.
Margaret desviou os olhos por um instante.
Diane prosseguiu:
— Não voltei a tocar para voltar a ser quem era.
— Então para quê?
Diane olhou para o piano.
— Porque senti vontade.
Margaret pareceu frustrada com a simplicidade.
— Diane, mulheres como você não podem passar a vida inteira fazendo apenas aquilo que sentem vontade.
Diane tornou a olhar para ela.
— Mulheres como eu?
Margaret percebeu que havia aberto uma porta difícil.
Mesmo assim, atravessou.
— Você tem trinta e dois anos.
Silêncio.
— Sei minha idade.
— Então sabe que não pode continuar vivendo desta maneira indefinidamente.
Diane não piscou.
Margaret continuou:
— Você não é mais uma jovem de vinte anos que pode desaparecer por alguns meses e depois decidir o que pretende fazer.
— Desaparecer?
— Não distorça minhas palavras.
— Estou tentando entendê-las.
Margaret respirou fundo.
— Existe uma família. Existe um nome. Existe tudo aquilo que seu pai e eu construímos durante décadas.
Diane observou-a com uma frieza cada vez maior.
— Finalmente chegamos.
— Aonde?
— À verdade.
Margaret apertou os lábios.
— Não transforme isso em crueldade.
— Não preciso transformar.
A frase atingiu a mãe.
Margaret permaneceu firme.
— Há expectativas, Diane. Quer você goste ou não.
— De quem?
— Da sociedade em que vive.
— Não perguntei onde vivo. Perguntei de quem são essas expectativas.
Margaret não respondeu imediatamente.
Diane continuou:
— Suas?
— Também.
Silêncio.
A honestidade surpreendeu as duas.
Margaret se aproximou mais.
— Olhe para sua vida.
Diane não desviou.
— Eu estou olhando.
— Vive numa propriedade afastada. Não frequenta recepções. Não mantém relações sociais. Não se apresenta. Não demonstra interesse em casamento.
Diane ficou imóvel.
— E?
— E isso não pode continuar para sempre.
— Por quê?
Margaret perdeu um pouco da paciência.
— Porque não pode.
Diane soltou uma risada curta, sem humor.
— Excelente argumento.
— Não seja infantil.
O olhar de Diane endureceu.
Margaret percebeu tarde demais.
— Infantil?
— Você sabe o que quero dizer.
— Sei exatamente.
Diane aproximou-se.
— Quer dizer que uma mulher adulta só é considerada adulta se escolher alguma das vidas que você considera aceitáveis.
— Não disse isso.
— Então diga melhor.
Margaret ficou em silêncio.
Quando voltou a falar, a voz estava mais baixa.
— Você precisa voltar a ocupar um lugar no mundo.
Diane não respondeu.
— Se não pretende voltar à carreira, então precisa considerar outra vida.
Diane a encarou.
— Que vida?
Margaret hesitou.
Foi apenas um instante.
Mas Diane compreendeu antes mesmo que ela dissesse.
— Não.
— Nem sabe o que vou dizer.
— Sei.
Margaret prosseguiu mesmo assim:
— Casamento.
A palavra ficou na sala.
Diane não se moveu.
Na biblioteca, Marianne deixou lentamente o lápis sobre a mesa.
Não queria ouvir.
Mas agora era impossível não ouvir.
Margaret continuou:
— Existem homens respeitáveis. Famílias que conhecemos há anos. Você não precisaria...
Diane levantou a mão.
— Pare.
Margaret obedeceu por um instante.
— Você está sugerindo seriamente que eu me case com alguém porque não quero voltar aos palcos?
— Estou dizendo que precisa escolher um caminho.
— Um caminho que lhe agrade.
— Um caminho que faça sentido.
— Para quem?
Margaret fechou os olhos.
— Diane, uma mulher da sua idade não pode permanecer indefinidamente sem qualquer perspectiva de família, carreira ou posição.
Diane sustentou seu olhar.
— Tenho uma vida.
— Tem isolamento.
A frase atingiu mais fundo.
Diane não respondeu imediatamente.
Margaret percebeu.
Talvez tenha se arrependido.
Mas continuou.
— Durante anos aceitei porque você estava sofrendo.
— Aceitou?
— Não use cada palavra contra mim.
— É difícil quando são tão reveladoras.
Margaret respirou fundo.
— Eu lhe dei tempo.
Diane mudou.
Pouco.
Mas algo em seus olhos ficou completamente frio.
— Deu?
Margaret permaneceu em silêncio.
— Minha irmã morreu e você me deu tempo?
— Não foi isso que quis dizer.
— Mas foi o que disse.
— Diane...
— Quanto tempo era permitido?
A voz dela baixou.
— Um ano? Dois? Oito?
Margaret empalideceu.
— Pare.
— Quando exatamente meu luto deixou de ser dor e começou a ser inconveniente para a família?
— Isso é injusto.
— Talvez.
Diane aproximou-se.
— Mas não fui eu quem entrou nesta sala falando sobre a imagem da família.
Margaret fechou a expressão.
Então, finalmente, disse aquilo que vinha evitando.
— Como fica nossa imagem?
Diane ficou imóvel.
Margaret prosseguiu:
— Como fica tudo aquilo que construí e mantive durante todos esses anos? O que as pessoas dizem quando perguntam por você? Que minha filha abandonou a carreira? Que vive escondida numa propriedade? Que não pretende constituir família?
Diane não desviou os olhos.
— Então é isso.
— Não é apenas isso.
— Mas está aí.
Margaret respirou.
— Você precisa entender a posição em que estamos.
Diane olhou para o piano.
Depois novamente para a mãe.
— Não.
A resposta saiu baixa.
— O quê?
— Não preciso.
Margaret pareceu surpresa.
Diane continuou:
— Passei anos entendendo sua dor. Suas expectativas. Seu medo. Até sua maneira de falar de Eleanor através de mim.
Margaret ficou imóvel.
— Não faça isso.
— Passei anos sem fazê-lo.
Diane se aproximou lentamente.
— Talvez tenha sido meu erro.
O silêncio na sala tornou-se pesado.
— Não sou Eleanor.
Margaret fechou os olhos.
— Eu sei.
— Então pare de tentar construir uma vida que pareça digna da filha que perdeu usando a filha que permaneceu.
Margaret abriu os olhos.
A frase a atingiu.
Diane percebeu.
Não retirou.
— Isso é cruel.
— Cruel foi me fazer acreditar durante anos que continuar vivendo significava continuar aquilo que Eleanor não pôde terminar.
Margaret respirava mais profundamente agora.
— Eu queria que tivesse um futuro.
— Então permita que seja meu.
A mãe ficou em silêncio.
Diane olhou para o piano.
— Eu voltei a tocar.
Sua voz mudou.
Menos dura.
Mais triste.
— Não sabe o que isso me custou.
Margaret observou a filha.
— Talvez não.
Diane tornou a olhar para ela.
— Não transforme isso novamente numa dívida.
Margaret abaixou os olhos.
Durante alguns segundos, nenhuma falou.
Então Margaret disse:
— O concerto está marcado.
Diane ficou imóvel.
— Cancele.
— Não posso.
— Pode.
— Pessoas foram contatadas.
— Então contate novamente.
Margaret ergueu o rosto.
— E se eu não cancelar?
Diane sustentou seus olhos.
Longamente.
Quando respondeu, não havia hesitação.
— O palco ficará vazio.
Margaret não disse nada.
Diane passou por ela.
Na porta, parou.
Não olhou para trás.
— E não volte a me oferecer a um homem como alternativa.
Margaret fechou os olhos.
Diane completou:
— Passei tempo demais tentando voltar a ser uma pessoa. Não permitirei que me transforme novamente numa função.
Saiu.
---
Marianne ouviu os passos no corredor.
Baixou os olhos para as partituras antes que Diane aparecesse à porta da biblioteca.
Diane parou.
As duas se olharam.
Marianne soube imediatamente que Diane sabia que ela ouvira.
Nenhuma mencionou.
Diane entrou.
Fechou a porta.
Ficou parada.
O rosto estava firme, mas seus olhos não.
Marianne levantou-se.
Diane olhou para ela.
Não havia pedido.
Mesmo assim, Marianne aproximou-se.
Parou diante dela.
Diane sustentou seus olhos durante alguns segundos.
Então disse apenas:
— Toque comigo.
Marianne não perguntou por quê.
Pegou as partituras.
E a seguiu.
Porque havia momentos em que consolo era uma palavra pequena demais.
E música, entre elas, já havia aprendido a dizer o restante.
Capítulo 13 — Aquilo que Escolhem por Nós
Diane acordou no meio da noite sem saber exatamente por quê.
Por alguns segundos, permaneceu imóvel, olhando para a escuridão do quarto.
A casa estava silenciosa.
Do lado de fora, o vento passava pelas árvores próximas à mansão e fazia os galhos tocarem de leve uma das janelas. Diane fechou os olhos novamente, esperando que o sono voltasse.
Não voltou.
Virou-se.
O relógio marcava pouco depois das duas.
Sentou-se na cama.
Talvez tivesse sido um sonho.
Não se lembrava.
Vestiu um robe escuro sobre a camisola e saiu do quarto.
O corredor estava quase inteiramente mergulhado na penumbra. Apenas uma pequena luminária permanecia acesa próximo à escadaria.
Diane desceu.
Pretendia ir até a cozinha.
Água.
Talvez chá.
Qualquer coisa que justificasse estar acordada àquela hora.
Foi quando percebeu uma luz vindo do salão.
Parou.
A porta estava entreaberta.
Dentro, a lareira ainda queimava.
Margaret estava sentada numa poltrona próxima ao fogo, um livro aberto sobre as pernas e uma xícara de chá na pequena mesa ao lado.
Diane ficou observando por um instante.
A mãe levantou os olhos.
— Está acordada.
Diane apoiou a mão no batente.
— Parece que sim.
Margaret fechou o livro.
— Não consegue dormir?
— Poderia perguntar o mesmo.
— Eu nunca dormi bem nesta casa.
Diane entrou.
A frase não era nova.
A propriedade guardava fantasmas diferentes para cada uma delas.
Margaret apontou para a poltrona em frente.
— Sente-se.
Diane hesitou.
Depois obedeceu.
Sentou-se.
A luz da lareira projetava sombras sobre o rosto da mãe.
Margaret serviu chá em outra xícara.
— Não precisa.
— Já servi.
Diane aceitou.
Ficaram alguns instantes sem conversar.
O fogo estalou.
Margaret voltou os olhos para a filha.
— Tenho observado você.
Diane tomou um pequeno gole.
— Isso normalmente precede alguma coisa desagradável.
Margaret ignorou o comentário.
— As aulas estão lhe fazendo bem.
Diane deixou a xícara sobre o pires.
— Estão.
— Mais do que imaginei.
Margaret passou os dedos pela capa do livro.
— No início, estava convencida de que mandaria Marianne embora também.
Diane ergueu os olhos.
— Como fiz com os outros?
— Exatamente.
— Você colaborou bastante para que eu os mandasse embora.
Margaret soltou uma respiração pelo nariz.
— Eu estava tentando ajudá-la.
— Essa frase tem sido responsável por algumas das piores decisões tomadas por você em meu nome.
Margaret permaneceu em silêncio.
Depois assentiu muito pouco.
— Talvez.
A admissão surpreendeu Diane.
Mas não o suficiente para que relaxasse.
Margaret olhou para o fogo.
— Ainda assim, Marianne permaneceu.
— Porque é melhor que os outros.
A resposta veio simples.
Margaret virou o rosto.
— Tem certeza de que foi apenas por isso?
Diane ficou imóvel.
A xícara permaneceu entre suas mãos.
— Aonde quer chegar?
Margaret não respondeu imediatamente.
Fechou o livro completamente e o deixou sobre a mesa.
A mudança no gesto bastou.
Diane colocou a xícara ao lado.
— Mãe.
Margaret respirou fundo.
— Uma das empregadas veio falar comigo.
Diane não se moveu.
— Sobre o quê?
— Sobre você.
Silêncio.
Margaret continuou:
— E Marianne.
Diane sustentou os olhos da mãe.
— O que exatamente foi dito?
— Que vocês se tornaram muito próximas.
Diane não demonstrou nada.
— Próximas.
Margaret assentiu.
— Sim.
— Essa é a acusação?
— Não seja irônica.
— Estou tentando compreender qual crime cometi desta vez.
Margaret endureceu o rosto.
— Diane.
— Diga.
A voz dela continuava baixa.
— O que ouviu?
Margaret demorou.
— Que vocês passam tempo demais juntas.
— Marianne foi contratada para permanecer nesta casa durante três meses.
— Não me refiro às aulas.
Diane ficou quieta.
Margaret prosseguiu:
— Caminhadas sozinhas. Horas na casa do lago. Portas fechadas.
Diane desviou os olhos por apenas um instante.
Foi suficiente.
Margaret viu.
— E, aparentemente, não apenas durante o dia.
Diane levantou novamente o olhar.
As duas se encararam.
Margaret não precisava dizer mais.
Mesmo assim, disse.
— Disseram que Marianne passou a noite na casa do lago.
O silêncio pareceu engrossar.
Diane não respondeu.
Margaret falou com mais cuidado:
— Não me interessa ouvir detalhes.
— Ainda bem.
— Interessa-me saber se existe fundamento no que estão insinuando.
Diane manteve o rosto imóvel.
— E o que estão insinuando?
Margaret olhou para a filha como se a obrigasse a não tornar aquilo mais difícil.
— Uma intimidade indecorosa.
Diane não se moveu.
— Uma afeição imprópria entre duas mulheres.
A palavra seguinte demorou.
— Uma inclinação que, se se tornar conhecida, será tratada como escandalosa, moralmente condenável e, por muitos, como uma perversão.
Diane levantou-se.
O movimento foi tão rápido que a xícara sobre o pires tremeu.
Margaret permaneceu sentada.
— Sente-se.
— Não.
— Diane.
— Não se atreva a falar dela dessa maneira.
Margaret ergueu os olhos.
— Estou falando do que o mundo dirá.
— Não. Está escolhendo cuidadosamente palavras cruéis e colocando-as na boca do mundo para não precisar admitir que também pensa assim.
A expressão de Margaret mudou.
— Você não sabe o que penso.
— Então diga.
Margaret ficou em silêncio.
Diane esperou.
Nada.
Seus olhos começaram a brilhar.
Não de fragilidade.
De uma raiva que se recusava a se transformar em grito.
— Foi o que imaginei.
Margaret se levantou lentamente.
— Não vou discutir moralidade com você às duas da manhã.
— Não. Vai apenas decidir minha vida novamente.
— Estou tentando impedir que a destrua.
Diane deu uma pequena risada, sem humor.
— Que curioso.
— O quê?
— Durante anos achou que minha vida já estava destruída porque eu não tocava.
Margaret permaneceu imóvel.
— Agora voltei a tocar e encontrou outra maneira de considerar que estou arruinando tudo.
— Isso é diferente.
— Porque agora não se trata do piano.
Diane aproximou-se.
— Trata-se de eu ter escolhido alguma coisa que você não escolheu antes.
A frase atingiu Margaret.
Ela se endireitou.
— Amanhã Marianne irá embora.
Diane parou.
O fogo estalou atrás delas.
Por um instante, o rosto de Diane ficou vazio.
Como se não tivesse compreendido.
Então:
— O quê?
Margaret falou com firmeza.
— Amanhã pela manhã, Marianne deixará esta casa.
Diane respirou profundamente.
— Não.
— Não estou pedindo sua permissão.
Diane fechou os olhos por um segundo.
Quando os abriu, havia lágrimas neles.
— Então continuará exatamente como sempre foi.
Margaret franziu a testa.
— O que isso quer dizer?
— Que quando alguma coisa em mim não corresponde ao que imaginou, você a remove.
— Marianne não é uma coisa.
— Finalmente concordamos.
A voz de Diane tremeu muito pouco.
— Então não fale como se pudesse simplesmente mandá-la embora e esperar que tudo volte ao lugar.
Margaret permaneceu firme.
— Ela foi contratada por mim.
— Para me ensinar.
— E ultrapassou limites que jamais deveriam ter sido ultrapassados.
Diane deu mais um passo.
— Fui eu quem os atravessou também.
A resposta silenciou Margaret.
Diane continuou:
— Não faça dela uma corruptora apenas porque é mais fácil do que olhar para sua filha e admitir que ela escolheu alguma coisa sozinha.
Margaret empalideceu.
— Você não sabe o que está dizendo.
— Sei perfeitamente.
— Está envolvida demais para compreender.
— Não me trate como uma criança.
— Então não se comporte como alguém que ignora as consequências.
Diane apertou os lábios.
Uma lágrima finalmente escapou.
Ela a deixou cair.
— Consequências.
Margaret respirou.
— Sim.
— Essa palavra é muito útil.
Diane passou a mão pelo rosto.
— Serve para justificar qualquer crueldade desde que seja dita por alguém convencido de estar sendo razoável.
— Não seja injusta.
— Injusta?
A voz de Diane permaneceu baixa, mas agora havia dor nela.
— Marianne foi a primeira pessoa em anos que entrou nesta casa sem tentar me transformar em Eleanor.
Margaret ficou imóvel.
Diane prosseguiu:
— A primeira que se sentou ao meu lado sem me dizer o que deveria sentir. A primeira que ouviu sem procurar uma forma de me corrigir.
A lágrima seguinte veio.
— E agora você olha para isso e vê vergonha.
Margaret desviou os olhos.
— Eu vejo perigo.
— Para quem?
— Para você.
Diane balançou lentamente a cabeça.
— Não.
Uma pausa.
— Para o nome.
Margaret tornou a olhar para ela.
— Não finja que isso não importa.
— Importa a você.
— Deve importar a você também.
— Por quê?
— Porque é o nome que terá até morrer.
Diane respondeu imediatamente:
— E esta é a vida que terei até morrer.
O silêncio caiu entre elas.
Margaret não encontrou resposta.
Diane continuou:
— Não me peça para preservar um nome destruindo tudo aquilo que faz com que eu queira continuar carregando-o.
A frase ficou na sala.
Margaret olhou para a filha como se tivesse levado um golpe.
Mas não recuou.
— Marianne partirá.
Diane engoliu em seco.
— Não.
— E você irá se casar.
Diane ficou completamente imóvel.
O absurdo da frase foi tão grande que por alguns segundos não houve reação.
— Diga novamente.
— Há um homem.
Diane fechou os olhos.
— Claro que há.
— Chama-se Charlie Harrison.
Diane abriu os olhos.
Margaret continuou:
— Tem aproximadamente sua idade. Vem de uma família respeitável, com relações políticas importantes. É instruído, financeiramente independente e—
— Pare.
Margaret não parou.
— A família Harrison já foi informada de que existe interesse.
Diane a encarou.
O rosto estava duro.
As lágrimas, porém, continuavam descendo.
— Interesse de quem?
Margaret ficou em silêncio.
Diane aproximou-se.
— Meu não foi.
— Ainda não o conheceu.
— Não importa.
— Importa muito.
— Não.
Diane limpou o rosto com as costas da mão.
— O que importa é que discutiu casamento envolvendo meu nome sem sequer me dizer.
Margaret respirou profundamente.
— Fiz o que considerei necessário.
Diane soltou uma risada quebrada.
— Naturalmente.
— Charlie é um bom homem.
— Isso deveria me comover?
— Deveria ao menos fazê-la ouvi-lo.
— Não quero ouvi-lo.
— Diane—
— Não quero saber se é gentil. Não quero saber quais escolas frequentou. Não quero saber quanto dinheiro possui ou quem conhece em Washington.
A voz de Diane finalmente aumentou um pouco.
— Não quero saber se dança bem, se gosta de música ou se sabe conversar durante um jantar.
Margaret permaneceu parada.
Diane continuou, agora mais baixa:
— Porque não importa quão bom seja um homem quando o erro é eu ser obrigada a escolhê-lo.
Margaret apertou os lábios.
— Há casamentos que começam com muito menos e permanecem por toda uma vida.
Diane a fitou.
— Permanecer não é a mesma coisa que viver.
Margaret pareceu ofendida.
— Você fala como se eu estivesse condenando você.
— Está.
— Estou oferecendo segurança.
— Está oferecendo uma cela bem decorada.
Silêncio.
Margaret desviou o rosto para o fogo.
— Você está sendo dramática.
Diane respirou.
— Não.
A resposta foi calma.
— Dramático seria dizer que morreria antes de me casar.
Margaret voltou a encará-la.
Diane prosseguiu:
— Não morrerei.
Uma pausa.
— Vou continuar vivendo.
Seus olhos estavam cheios de lágrimas.
— É precisamente isso que parece incomodar você. Continuo vivendo de maneiras que não consegue controlar.
Margaret pareceu abalada.
— Nunca quis controlar você.
Diane olhou para ela durante vários segundos.
— Talvez seja isso que torne tudo mais triste.
Margaret franziu o cenho.
Diane continuou:
— Acho que realmente acredita nisso.
A mãe abaixou os olhos.
A frase doeu mais do que uma acusação.
Diane respirou fundo.
— Não vou me casar com Charlie Harrison.
Margaret permaneceu quieta.
— E Marianne não irá embora por uma decisão tomada sem mim.
— Diane—
— Não.
Ela limpou o rosto novamente.
— Passei anos permitindo que o silêncio parecesse consentimento.
A voz falhou ligeiramente.
— Acabou.
Margaret levantou o queixo.
— Enquanto viver sob este teto—
Diane a interrompeu.
— Este teto também é meu.
Margaret congelou.
— Não transforme isso numa disputa de propriedade.
— Não estou.
Diane olhou ao redor.
— Estou lembrando que pertenço a esta família tanto quanto você.
Voltou os olhos para a mãe.
— Não sou uma convidada em minha própria vida.
Margaret parecia cansada agora.
Mais velha.
Por um instante, Diane viu não a mulher que tentava comandá-la, mas uma mãe assustada com alguma coisa que não compreendia.
Isso tornou tudo pior.
Porque ainda a amava.
— Você acha que estou fazendo isso porque não amo você — disse Margaret.
Diane permaneceu quieta.
— É exatamente o contrário.
Diane fechou os olhos.
— Sei.
Margaret pareceu surpresa.
Diane abriu-os novamente.
— E talvez seja essa a parte mais difícil.
Uma lágrima desceu.
— Pessoas podem nos ferir profundamente enquanto estão convencidas de que estão nos amando.
Margaret não falou.
Diane respirou fundo.
— Amor não transforma uma decisão errada em uma decisão justa.
O fogo estalou.
Nenhuma das duas se moveu.
Margaret olhou para a filha.
— E se eu disser que não permitirei?
Diane ficou em silêncio por alguns segundos.
Não perguntou o que exatamente a mãe não permitiria.
Marianne.
O casamento recusado.
A vida que começava a escolher.
Talvez tudo.
— Então finalmente teremos de descobrir qual de nós realmente acredita que minha vida me pertence.
Margaret perdeu o ar por um instante.
Diane virou-se.
— Diane.
Ela parou.
Não olhou para trás.
A voz da mãe veio mais baixa.
— Eu não quero perder você também.
Diane fechou os olhos.
Ali estava.
Eleanor.
Sempre Eleanor.
Mesmo quando não diziam o nome.
Diane virou lentamente o rosto.
Margaret estava diante da lareira.
Parecia menor.
Assustada.
Diane sentiu outra lágrima descer.
— Então pare de me tratar como se me manter perto significasse decidir quem devo ser.
Margaret não respondeu.
Diane continuou:
— Eleanor morreu, mãe.
A voz quase falhou.
— Eu não.
Margaret fechou os olhos.
Diane sustentou a própria respiração.
— Por favor, aprenda a diferença.
E saiu.
---
O corredor estava escuro.
Diane caminhou sem direção por alguns segundos.
Não queria voltar para o quarto.
Não queria ir à casa do lago.
Não queria procurar Marianne.
Talvez porque, se a visse naquele momento, tudo se tornaria real demais.
Então ouviu o silêncio da sala oeste.
Parou.
Entrou.
O piano estava diante dela.
Diane acendeu apenas um pequeno abajur.
A luz atingiu parte do instrumento.
Sentou-se no banco.
Não abriu o teclado.
Apenas colocou as mãos sobre a tampa fechada.
Ficou assim.
Os olhos presos à madeira negra.
A conversa voltava em fragmentos.
“Amanhã ela irá embora.”
“Você irá se casar.”
“Como fica nossa imagem?”
Charlie Harrison.
Um homem que não conhecia já havia sido informado de que poderia receber seu futuro.
Diane abaixou a cabeça.
As lágrimas voltaram.
Dessa vez não tentou impedir.
Caíram silenciosamente sobre suas mãos.
Não soluçou.
Não fez ruído.
Apenas deixou.
Depois de algum tempo, abriu o piano.
As teclas apareceram.
Diane colocou as mãos sobre elas.
Não tocou.
Permaneceu imóvel.
Era um gesto que conhecia bem.
Quando alguma coisa a perturbava profundamente, sentava-se diante do piano e olhava.
Antes, o silêncio a protegia.
Naquela noite, parecia apenas cansá-la.
Diane apoiou os braços sobre a madeira.
Depois o rosto sobre eles.
Ficou ali.
O relógio da mansão marcou três.
Depois quatro.
A lareira no salão se apagou.
Margaret subiu para o quarto.
A casa mergulhou completamente em silêncio.
Diane continuou no piano.
Em algum momento, o cansaço venceu.
Sua respiração se tornou mais lenta.
Os olhos se fecharam.
E quando a primeira luz da manhã começou a aparecer nas janelas da mansão, Diane Rivers dormia sobre o piano que, durante anos, ninguém tivera permissão para tocar.
Não porque estivesse esperando Eleanor.
Não naquela noite.
Dessa vez, o medo tinha outro nome.
Marianne.
Capítulo 14 — O Que se Faz em Nome do Amor
Margaret permaneceu sozinha no salão depois que Diane saiu.
Por algum tempo, não se moveu.
O fogo na lareira já estava baixo. Restavam brasas e algumas chamas pequenas que ocasionalmente voltavam a subir, iluminando a poltrona vazia onde Diane estivera sentada.
A xícara da filha continuava sobre a mesa.
Quase intocada.
Margaret olhou para ela.
Depois para a porta.
As últimas palavras de Diane permaneciam na sala muito depois de sua partida.
Eleanor morreu, mãe. Eu não.
Margaret fechou os olhos.
A frase doía porque era verdadeira.
Talvez mais verdadeira do que estivesse preparada para admitir.
Durante anos, convencera-se de que tudo o que fizera nascera do amor.
Os médicos.
As viagens.
Os professores.
As tentativas de devolver Diane ao piano.
Agora Charlie Harrison.
Sempre havia uma justificativa.
Sempre uma forma de chamar controle de cuidado.
Mesmo assim, Margaret não mudou de decisão.
Porque o medo possuía uma habilidade peculiar de sobreviver até mesmo às verdades que o contradiziam.
Apagou a pequena luminária junto à poltrona.
Pegou um casaco.
E saiu.
---
A propriedade estava completamente silenciosa.
Margaret atravessou o jardim sozinha.
O vento da madrugada era frio, e uma camada fina de umidade cobria a grama. A lua permanecia alta sobre o lago, projetando um caminho pálido sobre a água.
A casa do lago estava escura.
Margaret parou diante dela.
Durante alguns segundos, pensou em voltar.
Não voltou.
Abriu a porta com cuidado.
A pequena casa estava fria e silenciosa.
O piano permanecia próximo à janela.
Partituras ocupavam uma das mesas.
Na cama, Marianne dormia.
Margaret fechou a porta devagar.
Não acendeu todas as luzes.
Apenas uma pequena luminária próxima à cama.
Marianne não acordou.
Margaret tirou o casaco e o colocou sobre a cadeira.
Então sentou-se na ponta da cama.
Esperou.
Não sabia por quanto tempo.
Dez minutos.
Talvez mais.
Marianne se moveu lentamente.
Virou-se procurando alguma coisa ao lado.
Sua mão encontrou apenas o lençol vazio.
Abriu os olhos.
Diane não estava ali.
Ainda sonolenta, ergueu um pouco a cabeça.
Foi então que viu Margaret.
O sono desapareceu imediatamente.
Marianne sentou-se com rapidez, puxando o lençol contra o corpo.
— Senhora Rivers.
Margaret não se moveu.
— Não precisa se assustar.
Marianne olhou para ela.
Havia inteligência demais naquela mulher para que precisasse perguntar por que estava ali.
Mesmo assim, perguntou:
— Aconteceu alguma coisa com Diane?
Margaret sustentou seu olhar.
— Não.
Marianne relaxou apenas o suficiente para respirar.
Margaret continuou:
— Eu já sei.
O silêncio mudou.
Marianne não fingiu não compreender.
Não perguntou o que Margaret sabia.
Apenas permaneceu olhando.
— Entendo — respondeu.
Margaret observou-a.
Talvez esperasse negação.
Talvez desculpas.
Marianne não ofereceu nenhuma das duas coisas.
— Quando a contratei — começou Margaret —, esperava que acontecesse exatamente aquilo que aconteceu com os anteriores.
Marianne permaneceu quieta.
— Diane mandou todos embora.
— Eu sei.
— Alguns duraram semanas. Um não chegou a completar quatro dias.
Margaret deixou escapar uma respiração cansada.
— Durante muito tempo pensei que o problema estivesse neles.
Fez uma pausa.
— Depois compreendi que ela simplesmente não os queria aqui.
Marianne baixou os olhos por um instante.
— E se pergunta por que comigo foi diferente.
Margaret assentiu.
— Sim.
Marianne não respondeu.
Margaret observou o rosto dela.
— Ainda não sei.
— Talvez não haja uma resposta simples.
— Há quase sempre uma resposta simples. O difícil é aceitá-la.
Marianne ergueu os olhos.
Margaret continuou:
— Eu a contratei para fazer minha filha voltar ao piano.
— Sim.
— E conseguiu.
Dessa vez havia algo sincero na voz dela.
Gratidão.
Talvez até admiração.
— Em poucas semanas fez aquilo que pessoas muito respeitadas não conseguiram em anos.
Marianne não demonstrou orgulho.
— Diane voltou porque quis.
Margaret franziu ligeiramente o cenho.
— Não diminua o que fez.
— Não estou diminuindo.
Marianne falou com calma.
— Apenas não quero receber crédito por uma decisão que foi dela.
Margaret observou-a por alguns segundos.
— Talvez seja justamente isso.
Marianne não perguntou.
— Os outros tentaram fazê-la tocar.
Margaret olhou para o piano.
— Você esperou que ela decidisse.
Marianne permaneceu em silêncio.
Margaret voltou a encará-la.
— É tão boa quanto disseram.
— Obrigada.
— Talvez melhor.
Nenhuma satisfação apareceu no rosto de Marianne.
Margaret percebeu.
Então foi diretamente ao motivo daquela visita.
— Seus serviços não serão mais necessários.
Marianne não se moveu.
A frase pareceu permanecer no ar.
— A partir de hoje.
Ainda assim, Marianne conservou a postura.
Somente os dedos apertaram um pouco o lençol.
— Senhora Rivers...
Margaret ergueu discretamente a mão.
Não com arrogância.
Como quem sabia que, se permitisse que a conversa se alongasse demais, talvez ela própria não conseguisse terminá-la.
— Não vim para discutir sua competência.
— Imagino que não.
— E não pretendo humilhá-la.
Marianne sustentou o olhar.
— Então por que veio pessoalmente?
Margaret pensou antes de responder.
— Porque seria covardia mandar Martha fazer isso.
Marianne aceitou a resposta com um leve movimento da cabeça.
Margaret continuou:
— Sou grata pelo que fez por Diane.
— Eu sei.
— Mas gratidão não torna possível aquilo que não pode continuar.
Marianne desviou os olhos para a janela.
A lua ainda refletia no lago.
— Diane sabe que está aqui?
— Não.
Marianne voltou o rosto imediatamente.
Margaret manteve a expressão firme.
— Conversei com ela.
— Sobre nós.
— Sim.
Marianne respirou fundo.
— E?
Margaret levou alguns segundos.
— Ela não reagiu como eu esperava.
Isso quase provocou um sorriso em Marianne.
Quase.
— Diane raramente reage como esperam.
— Percebi.
Houve silêncio.
Margaret olhou para as próprias mãos.
— Não pense que desconheço o que estou fazendo.
Marianne a observou.
— Não pensei.
— Minha filha vai me odiar por algum tempo.
— Talvez.
A resposta direta fez Margaret erguer os olhos.
Marianne continuou:
— Talvez por muito tempo.
Margaret absorveu aquilo sem se defender.
— Ainda assim, farei o que considero necessário.
Marianne assentiu muito pouco.
— Imagino.
— Você concorda?
Marianne ficou em silêncio.
Quando respondeu, não havia agressividade.
— Com a maneira como está fazendo? Não.
Margaret não se moveu.
— Com seu medo?
Marianne olhou para a janela.
— Compreendo.
Margaret pareceu surpresa.
— Compreende?
— Sim.
Marianne voltou a encará-la.
Era suficiente.
— Uma história dessas não terminaria apenas em comentários — continuou Marianne. — Não para Diane. Não se voltasse aos palcos.
Margaret permaneceu imóvel.
— Nem para mim.
A voz de Marianne continuava controlada.
— Eu perderia alunos antes mesmo de alguém perguntar se havia verdade no rumor.
— Então sabe por que estou aqui.
— Sei.
— Isso torna mais fácil?
Marianne olhou para ela por um longo momento.
— Não.
A palavra foi dita sem qualquer emoção aparente.
Justamente por isso carregou tanto peso.
Margaret desviou os olhos.
— Diane irá se casar.
Marianne ficou imóvel.
A diferença em sua expressão foi mínima.
Mas existiu.
— Entendo.
Margaret percebeu.
— Um homem chamado Charlie Harrison.
Marianne não disse nada.
— Tem a idade dela. É de uma família respeitável, com posição política e social muito sólida.
O silêncio de Marianne permaneceu.
Margaret prosseguiu:
— A família já concordou.
Marianne finalmente falou:
— E Diane?
Margaret apertou os lábios.
— Ainda não.
Marianne sustentou seu olhar.
Nenhuma das duas precisava fingir que aquela resposta significava pouco.
— Então não está decidido — disse Marianne.
Margaret demorou.
— Estará.
Marianne baixou o rosto.
Por alguns segundos, pareceu muito distante.
Margaret observou.
— Eu não lhe disse isso para feri-la.
Marianne levantou os olhos novamente.
— Imagino que não.
— Disse porque precisa compreender que não há lugar para indecisão agora.
Marianne respirou fundo.
A palavra casamento havia feito algo que toda a conversa anterior não conseguira.
Tornara a despedida concreta.
Até aquele momento, partir ainda podia ser uma ordem.
Algo que Diane poderia contestar.
Algo que Marianne poderia recusar.
Charlie Harrison transformava aquilo numa vida inteira sendo reorganizada ao redor de Diane.
E Marianne compreendeu, com uma lucidez dolorosa, que sua permanência poderia tornar tudo ainda mais difícil para ela.
Não pensou em si.
Pensou em Diane diante do piano.
Diane rindo no campo.
Diane voltando ao festival depois de tantos anos.
Diane finalmente conseguindo pronunciar o nome de Eleanor sem desaparecer por dias.
Pensou na mulher que começava a voltar ao mundo.
E teve medo de se tornar o motivo pelo qual esse mundo a destruiria novamente.
Margaret percebeu que alguma coisa havia mudado no rosto dela.
— Professora Lieberman.
Marianne olhou.
— Eu sei que minha filha se importa com você.
A voz de Margaret baixou.
— Talvez mais do que deveria.
Marianne não corrigiu.
— E acredito que você se importa com ela.
Marianne continuou em silêncio.
Margaret inclinou um pouco o rosto.
— Então sabe por que estou pedindo que vá.
Marianne sustentou seus olhos.
— A senhora não está pedindo.
Margaret ficou imóvel.
— Tem razão.
Marianne olhou para as próprias mãos.
Depois soltou lentamente o lençol.
— Irei embora.
A resposta foi tão simples que Margaret pareceu não compreendê-la imediatamente.
— Hoje?
— Sim.
Margaret respirou.
— Marianne...
— Não precisa explicar novamente.
A professora levantou-se e pegou o robe que estava próximo à cama.
Vestiu-o com calma.
Não havia lágrimas.
Nem indignação.
Apenas uma serenidade que parecia exigir esforço demais.
Margaret também se levantou.
— Eu providenciarei o pagamento integral dos três meses.
Marianne olhou para ela.
— Não.
— É o contrato.
— Trabalhei o período que estive aqui.
— Não se trata de caridade.
— Eu sei.
Marianne manteve a voz firme.
— Ainda assim, aceite apenas o valor correspondente ao meu trabalho.
Margaret percebeu que discutir seria inútil.
— Como preferir.
Marianne caminhou até a janela.
O lago estava quieto.
— Ela estava feliz.
Margaret não compreendeu.
— Diane.
Marianne continuou olhando para fora.
— Nos últimos dias.
Margaret permaneceu em silêncio.
— Não feliz da maneira simplista que as pessoas gostam de dizer quando alguém para de sofrer por alguns minutos.
Marianne falou devagar.
— Estava presente.
Virou-se.
— Não tire isso dela.
Margaret a observou.
— Não pretendo.
— Pretender não basta.
A frase veio firme.
Não ofensiva.
Margaret sentiu o peso.
Marianne continuou:
— Se realmente quer protegê-la, não transforme novamente o piano em obrigação.
Margaret baixou os olhos.
— O concerto.
Marianne percebeu.
— Ela contou?
— Não.
— Então ouviu.
Margaret não negou.
Marianne aproximou-se.
— Se obrigá-la a subir naquele palco, talvez consiga a apresentação que deseja.
Fez uma pausa.
— Mas não saberá o que perdeu para consegui-la.
Margaret permaneceu quieta.
— Diane voltou ao piano porque deixou de sentir que alguém a esperava do outro lado das teclas.
Marianne fitou-a com seriedade.
— Não coloque outra pessoa lá.
Margaret não respondeu.
Talvez porque soubesse que Marianne tinha razão.
Talvez porque ainda não soubesse o que fazer com isso.
Pegou o casaco.
— Partiremos providenciar o carro pela manhã.
— Obrigada.
Margaret caminhou até a porta.
Parou antes de sair.
— Marianne.
A professora olhou.
— Sinto muito.
Marianne sustentou seu olhar.
Não havia raiva.
O que havia era pior.
Compreensão.
— Eu também.
Margaret abriu a porta.
O frio entrou.
— Boa noite.
Marianne respondeu:
— Boa noite, senhora Rivers.
Margaret saiu.
A porta fechou.
---
Marianne permaneceu de pé por muito tempo.
Não se sentou.
Não voltou para a cama.
Olhou para o lugar onde Diane normalmente dormia.
O travesseiro ainda guardava a marca de outras noites.
A casa do lago parecia diferente.
Vazia antes mesmo de ela partir.
Marianne caminhou até o piano.
Passou a mão pela madeira.
Não tocou.
Pensou em acordar Diane.
Procurá-la.
Contar tudo.
Dizer que Margaret estivera ali.
Que pretendia mandá-la embora.
Que havia um homem.
Charlie Harrison.
Pensou em Diane olhando para ela com aqueles olhos que nunca permitiam uma mentira confortável.
E soube que, se falasse com ela naquela noite, talvez não conseguisse partir.
Essa foi a razão pela qual não foi.
Não covardia.
Talvez fosse.
Mas Marianne preferiu chamá-la de escolha.
Mesmo sabendo que escolhas feitas para proteger alguém também podiam ferir.
---
O amanhecer começou lentamente.
Marianne não voltou a dormir.
Quando o céu clareou, pegou a mala.
Arrumou suas roupas com o mesmo cuidado com que chegara.
Vestidos dobrados.
Livros.
Partituras.
Lenços.
Poucas fotografias.
Cada objeto devolvido à mala tornava a partida mais real.
Abriu uma gaveta.
O pequeno frasco de vidro estava ali.
Ficou olhando para ele.
Depois o pegou.
Guardou entre dois lenços.
Fechou a mala.
Parou diante do espelho.
A mulher refletida parecia exatamente a mesma que chegara semanas antes.
Cabelos presos.
Postura reta.
Rosto controlado.
Mas Marianne sabia que isso era mentira.
A Itália parecia pertencer a outra vida.
E a professora que desembarcara naquela propriedade convencida de que três meses seriam apenas trabalho já não existia da mesma maneira.
Olhou uma última vez para a cama.
Depois para o piano.
Saiu.
---
Na mansão, o silêncio da manhã era incomum.
Marianne entrou pela porta lateral com a mala.
Martha estava no corredor.
Ao vê-la, parou.
Os olhos foram imediatamente para a bagagem.
Depois voltaram para Marianne.
Nenhuma das duas precisou perguntar.
Martha compreendeu.
— Vai embora.
Marianne assentiu.
— Hoje.
Martha demorou um instante.
— Diane sabe?
Marianne não respondeu.
Martha fechou os olhos por um segundo.
— Marianne.
— Não torne mais difícil.
A governanta olhou para ela.
Havia tristeza em seu rosto.
— Não sou eu quem vai tornar.
Marianne sustentou seu olhar.
Sabia.
Martha afastou-se devagar.
— O carro estará pronto em algum tempo.
— Obrigada.
Marianne continuou pelo corredor.
Cada passo parecia mais pesado.
Passou pela cozinha.
Pela biblioteca.
Pela sala onde havia conhecido Margaret.
Então chegou ao grande salão.
Parou.
Diane estava ali.
Sentada.
Sozinha.
De frente para a enorme janela.
Ainda vestia o robe da noite anterior.
Os cabelos estavam desarrumados, e havia uma quietude estranha em sua postura.
A luz da manhã desenhava sua silhueta diante do vidro.
Marianne olhou para ela.
Depois para a mala em sua própria mão.
Diane não se virou imediatamente.
Talvez tivesse ouvido os passos.
Talvez o som da mala sobre o piso tivesse sido suficiente.
Alguns segundos se passaram.
Então Diane moveu lentamente o rosto.
Seus olhos encontraram Marianne.
Primeiro olharam para ela.
Depois para a mala.
E voltaram para seus olhos.
Marianne permaneceu parada na entrada do salão.
Diane não disse nada.
Marianne também não.
Ainda.
E foi assim que se encontraram naquela manhã:
uma pronta para partir;
a outra compreendendo, apenas pelo que via, que alguma coisa havia sido decidida enquanto ela dormia.
Capítulo 15 — Não Me Imagine Culpada
Diane permaneceu sentada por alguns segundos.
Os olhos ainda estavam presos à mala na mão de Marianne.
Não precisou perguntar o que aquilo significava.
Sabia.
Talvez tivesse sabido desde o instante em que viu Marianne parada na entrada do salão, imóvel demais, com o rosto controlado demais, como alguém que já havia tomado uma decisão difícil e agora se obrigava a sustentá-la.
Diane se levantou.
Devagar.
Marianne acompanhou o movimento com os olhos.
Quando Diane começou a caminhar em sua direção, Marianne abaixou a cabeça.
Foi um gesto pequeno.
Quase involuntário.
E então deu um passo para trás.
Muito pouco.
Talvez nem um passo inteiro.
Mas Diane viu.
Naturalmente.
Parou diante dela.
Olhou novamente para a mala.
Depois para Marianne.
— Iria embora sem se despedir?
Marianne levantou os olhos apenas por um instante.
Depois os baixou novamente.
— Diane...
— Olhe para mim.
A voz não foi alta.
Não havia raiva suficiente nela para isso.
Havia algo pior.
Mágoa.
Marianne respirou fundo e finalmente levantou o rosto.
Os olhos das duas se encontraram.
Diane sustentou aquele olhar.
— Isto é terrível.
Marianne não respondeu.
Diane prosseguiu:
— Agora que me possui um pouco... está me culpando?
Marianne franziu levemente a testa.
— Não.
— Está.
A resposta veio imediata.
— Você sabe que está.
Marianne abriu a boca para responder.
Diane não permitiu.
— Já não está ao meu lado.
A voz dela baixou.
— Não do modo como estava.
Marianne ficou imóvel.
— Está me culpando pelo que vem depois.
Diane engoliu em seco.
— Pelo casamento.
A palavra pareceu estranha em sua boca.
Quase ofensiva.
Marianne desviou os olhos.
Diane percebeu.
— Vê?
Silêncio.
— É exatamente isso.
A respiração de Diane ficou mais difícil.
— Não está mais solidária comigo.
Marianne voltou a olhá-la.
Dessa vez não tentou negar.
— Tem razão.
Diane ficou parada.
Talvez qualquer outra resposta tivesse sido mais fácil de suportar.
Negação.
Discussão.
Uma justificativa.
Mas não aquilo.
A aceitação simples.
Os olhos de Diane começaram a brilhar.
Ainda assim, sua voz permaneceu firme.
— Vamos logo.
Marianne não se moveu.
— Diga o que sente.
Silêncio.
Diane esperou.
Um segundo.
Depois outro.
Marianne continuava imóvel.
— Achei que fosse mais corajosa.
A frase não veio como provocação.
Veio triste.
Quase decepcionada.
Marianne fechou os olhos por um instante.
Quando os abriu, havia algo cansado neles.
— Também achei que fosse mais corajosa.
Diane respirou fundo.
Um pequeno tremor atravessou seu queixo.
Controlou.
— Chegamos ao ponto.
Marianne permaneceu quieta.
Diane se aproximou um pouco mais.
— Você me acha dócil.
— Não.
— Pior.
Diane sustentou os olhos dela.
— Acha que sou cúmplice.
Marianne franziu a testa.
— Diane...
— Acha que vou aceitar.
A voz ficou mais baixa.
— Que vou vestir alguma coisa adequada, entrar numa igreja, sorrir para um homem que escolheram por mim e permitir que todos chamem aquilo de futuro.
Marianne desviou o olhar.
Diane continuou:
— E então imagina meu prazer.
A frase saiu amarga.
— Minha casa. Meu marido. Minha posição. Talvez crianças.
Seus olhos se encheram ainda mais.
— Tudo correto.
— Tudo respeitável.
Marianne finalmente falou:
— É uma forma de não ter esperança.
Diane parou.
As palavras a atingiram com precisão.
Marianne continuou, quase num sussurro:
— Se eu não imaginar nada além disso... talvez seja mais fácil partir.
Uma lágrima escapou dos olhos de Diane.
Ela não limpou.
Deixou que descesse.
— Então imagine.
Marianne permaneceu imóvel.
— Imagine-me feliz.
A voz de Diane falhou pela primeira vez.
Respirou.
— Ou infeliz, se isso a conforta.
Outra lágrima surgiu.
— Imagine-me ao lado dele.
Marianne fechou os olhos.
Diane deu mais um passo.
— Imagine-me vivendo uma vida inteira porque era a vida que todos consideravam mais aceitável.
Marianne tornou a abrir os olhos.
Diane já estava perto.
Muito perto.
— Mas não me imagine culpada.
Marianne abaixou a cabeça.
Dessa vez, levou dois dedos à testa.
Diane viu.
O mesmo gesto.
O mesmo silêncio.
Mas agora não havia ternura em percebê-lo.
Havia dor.
— Então...
Diane engoliu em seco.
— Diga o que sente.
Marianne continuou com a cabeça baixa.
A mala ainda estava em uma das mãos.
A outra permanecia junto ao rosto.
Por alguns segundos, pareceu que não diria nada.
Então soltou a mala.
Ela tocou o chão com um som baixo.
Marianne levantou lentamente a cabeça.
Os olhos estavam úmidos.
Diane nunca os tinha visto assim.
— Eu gosto de você.
Diane ficou completamente imóvel.
Marianne respirou fundo.
— Eu quero você.
As palavras saíram com dificuldade.
Mas saíram.
— Mais do que deveria.
Diane não desviou os olhos.
Marianne continuou:
— E é justamente por isso que preciso ir.
Diane franziu a testa.
Uma dor silenciosa atravessou seu rosto.
Marianne prosseguiu:
— Porque não posso ter você.
A voz falhou.
Marianne parou.
Tentou recuperar o controle.
Não conseguiu completamente.
— Não posso ficar nesta casa vendo sua vida ser decidida enquanto finjo que isso não me destrói.
Diane continuou olhando.
Marianne respirou pela boca.
— Não posso estar ao seu lado e me obrigar a agir como se não soubesse como é segurá-la.
Uma pausa.
— Como é acordar ao seu lado.
Outra.
— Como é ouvir você tocar e saber quando está triste antes mesmo de olhar para seu rosto.
Diane sentiu outra lágrima descer.
Marianne continuou:
— E não posso permanecer aqui esperando que um dia você pertença a uma vida na qual eu nunca poderia existir.
O silêncio tomou o salão.
Diane olhou para ela durante alguns segundos.
Depois caminhou em sua direção.
Um passo.
Outro.
Marianne não recuou.
Dessa vez, não.
Diane parou tão perto que qualquer movimento poderia aproximá-las ainda mais.
Os olhos das duas se encontraram.
Marianne parecia cansada de fugir.
Diane parecia cansada de ser deixada.
Por alguns segundos, apenas se olharam.
Nada naquela casa pareceu existir além daquele espaço entre as duas.
Diane levantou o rosto.
Sua voz saiu baixa.
Firme.
Mesmo com as lágrimas.
— Eu quero você.
Marianne prendeu a respiração.
Diane não desviou.
Capítulo 16 — Não Olhe para Trás
As palavras de Diane permaneceram entre as duas.
Eu quero você.
Por alguns segundos, Marianne apenas a olhou.
A firmeza que ainda restava em seu rosto começou a desaparecer devagar.
Primeiro, os olhos se encheram.
Depois uma lágrima desceu por sua face.
Marianne não a enxugou.
Outra veio logo depois.
Diane nunca a tinha visto chorar.
Aquilo lhe pareceu mais íntimo do que qualquer coisa que haviam dividido na casa do lago.
Marianne respirou fundo.
Tentou falar.
A voz não saiu na primeira tentativa.
Então olhou para Diane e perguntou:
— As pessoas sempre se apaixonam por coisas que não podem ter?
Diane permaneceu olhando para ela.
Havia lágrimas em seu próprio rosto.
Mesmo assim, respondeu sem hesitar:
— Sempre.
Marianne baixou os olhos.
Talvez porque soubesse que aquela resposta não era consolo.
Era apenas verdade.
E algumas verdades não existem para aliviar ninguém.
Passos surgiram no corredor.
Nenhuma das duas se moveu.
Margaret apareceu à entrada do salão.
Parou ao vê-las.
Diane e Marianne estavam muito próximas.
A mala permanecia no chão.
Margaret olhou primeiro para a filha.
Depois para Marianne.
Não comentou as lágrimas.
— Já arrumou as malas?
Marianne recuperou a postura com uma lentidão dolorosa.
Passou os dedos discretamente pelo rosto.
— Certamente.
Diane continuou olhando para ela.
Marianne abaixou-se e segurou a mala.
Por um instante, pareceu que iria diretamente para a porta.
Mas não foi.
Caminhou até Margaret.
A mulher permaneceu imóvel, esperando talvez alguma despedida formal.
Um agradecimento.
Uma frase educada.
Marianne deixou a mala no chão.
E a abraçou.
Margaret ficou rígida de surpresa.
Os braços permaneceram imóveis por alguns segundos.
Não compreendia.
Talvez jamais compreendesse completamente.
Marianne não disse nada.
Apenas permaneceu ali.
Não havia acusação naquele abraço.
Nem perdão.
Talvez houvesse apenas o reconhecimento doloroso de que Margaret também amava Diane, ainda que esse amor tivesse aprendido formas cruéis de protegê-la.
Devagar, Margaret levantou os braços.
Abraçou Marianne de volta.
Nenhuma falou.
Quando se separaram, Marianne olhou para ela apenas uma vez.
Margaret pareceu querer dizer alguma coisa.
Não disse.
Marianne pegou a mala novamente.
Então se virou para Diane.
Foi mais difícil.
Muito mais.
Diane permanecia exatamente onde estava.
O rosto ainda molhado pelas lágrimas.
Os braços ao lado do corpo.
Mas havia algo em sua postura que parecia estar se desfazendo aos poucos.
Marianne caminhou até ela.
Parou.
Durante alguns segundos, apenas se olharam.
Aquela forma de conversar que haviam aprendido parecia cruel agora.
Porque nenhuma das duas conseguia esconder nada.
Diane viu que Marianne não queria partir.
Marianne viu que Diane estava pedindo, sem palavras, que ela ficasse.
Talvez por isso nenhuma delas falou.
Marianne colocou a mala no chão.
E abraçou Diane.
Diane a segurou imediatamente.
Com força.
Muito mais do que Marianne esperava.
Enterrou o rosto junto ao seu pescoço e fechou os olhos.
Marianne também a apertou contra o corpo.
Por alguns instantes, o restante da casa desapareceu.
Não havia Margaret.
Não havia carro esperando.
Não havia casamento.
Não havia reputação.
Não havia mundo.
Apenas as duas tentando prolongar alguns segundos que já sabiam condenados a terminar.
Diane respirou profundamente.
Reconheceu o perfume de Marianne.
O calor de seu corpo.
A maneira como seus braços a envolviam.
Guardou tudo.
Sem perceber que estava fazendo isso.
Como fizera anos antes com Eleanor.
A diferença era cruel.
Naquela época, observava cada detalhe porque sabia que a morte estava se aproximando.
Agora fazia o mesmo porque alguém ainda vivo estava escolhendo ir embora.
Diane apertou Marianne ainda mais.
Não queria soltá-la.
Talvez Marianne também não quisesse.
Os segundos passaram.
Nenhuma se afastou.
Até que Marianne finalmente começou a relaxar os braços.
Diane percebeu.
E apertou novamente.
Só um pouco.
Um pedido infantil demais para ser pronunciado.
Marianne fechou os olhos.
Por um instante, pareceu que desistiria de tudo.
Que largaria a mala.
Que diria a Margaret que não iria.
Que escolheria Diane e enfrentaria o que viesse depois.
Mas então abriu os olhos.
E compreendeu novamente por que estava partindo.
Com cuidado, afastou-se.
Diane ainda segurava seus braços.
Marianne olhou para as mãos dela.
Depois para seu rosto.
Os olhos se encontraram.
Marianne chorava em silêncio.
Diane também.
Nenhuma tentou esconder.
Marianne tocou o rosto dela uma última vez.
O polegar passou suavemente pela lágrima junto à face de Diane.
Então retirou a mão.
— Adeus.
Foi tudo.
Diane não conseguiu responder.
Marianne pegou a mala.
Virou-se.
E caminhou.
Um passo.
Depois outro.
Diane permaneceu imóvel.
Acompanhou cada movimento.
A distância entre elas aumentava lentamente.
Marianne atravessou o salão.
Passou por Margaret.
Chegou ao corredor.
Diane continuou olhando.
Talvez esperasse que ela parasse.
Talvez esperasse que se virasse.
Marianne não fez nenhuma das duas coisas.
Chegou à porta principal.
Um empregado já a aguardava para carregar a mala.
Do lado de fora, um carro estava parado diante da mansão.
O motorista mantinha a porta aberta.
Marianne entregou a bagagem.
Desceu os degraus.
Diane deu alguns passos até a janela.
Parou diante dela.
Viu Marianne atravessar o jardim diante da casa.
O peito começou a doer.
Não como uma metáfora.
Doía realmente.
Uma pressão profunda, quase física.
E por um momento Diane voltou a ter vinte e quatro anos.
Voltou ao quarto de Eleanor.
Ao silêncio depois da última respiração.
À estranha sensação de que o mundo continuava existindo apesar de alguma coisa essencial ter acabado.
A dor não era a mesma.
Jamais poderia ser.
Mas conhecia o lugar de onde vinha.
Era a mesma região escura do corpo onde a ausência começava.
Marianne chegou ao carro.
Diane colocou a mão sobre o vidro da janela.
Queria chamá-la.
O nome chegou à garganta.
Não saiu.
Marianne entrou.
Em momento algum olhou para trás.
Não quando atravessou o jardim.
Não quando chegou ao carro.
Não quando a porta foi fechada.
Porque sabia.
Sabia que Diane estava naquela janela.
Sabia exatamente onde encontraria seus olhos.
E sabia que, se olhasse apenas uma vez, não teria força para continuar.
Voltaria.
Voltaria para dentro daquela casa.
Voltaria para Diane.
E talvez nunca mais conseguisse partir.
O carro começou a se mover.
Diane permaneceu diante da janela.
Observou até ele chegar ao portão.
Até diminuir de tamanho.
Até desaparecer atrás das árvores.
Mesmo depois disso, continuou olhando.
Como se alguma parte dela ainda acreditasse que o carro voltaria.
Não voltou.
Margaret estava alguns metros atrás.
Não disse nada.
Talvez finalmente tivesse entendido que não havia frase capaz de melhorar aquilo.
Diane retirou lentamente a mão do vidro.
O salão parecia maior.
Vazio demais.
O piano estava a poucos metros.
Por semanas, Marianne havia ocupado os espaços daquela casa sem fazer esforço algum.
A cozinha.
A biblioteca.
O campo.
A trilha.
A casa do lago.
O banco diante do piano.
Agora Diane conseguia enxergá-la justamente porque já não estava em nenhum deles.
Virou-se.
Seus olhos encontraram o piano.
Mas não caminhou até ele.
Não naquele momento.
Margaret observou a filha.
— Diane...
Diane levantou a mão.
Não olhou para ela.
Margaret se calou.
E Diane fez o mesmo.
Não por raiva.
Não como castigo.
O silêncio simplesmente voltou.
Entrou nela com a facilidade de alguma coisa antiga que conhecia perfeitamente o caminho.
Durante semanas, Marianne conseguira fazer com que Diane falasse.
Sobre Eleanor.
Sobre música.
Sobre medo.
Sobre aquilo que desejava.
Conseguira fazê-la tocar novamente.
Rir.
Olhar para alguém e querer que essa pessoa permanecesse.
Agora Marianne estava indo embora.
E Diane sentia, com uma clareza que quase a sufocava, que não era apenas uma mulher atravessando o portão da propriedade.
Era uma parte de sua vida.
Uma parte que havia surgido sem convite, ocupado silenciosamente um lugar dentro dela e, quando Diane finalmente teve coragem de reconhecer que a queria ali, precisou partir.
Diane olhou novamente para a estrada vazia.
Uma lágrima desceu.
Depois outra.
Não limpou nenhuma.
Pensou na pergunta de Marianne.
As pessoas sempre se apaixonam por coisas que não podem ter?
E na resposta que dera.
Sempre.
Naquele momento, Diane desejou estar errada.
Mas o carro não voltou.
Marianne não olhou para trás.
E, pela primeira vez desde que voltara a tocar, Diane não ouviu música alguma dentro de si.
Certo. Corrigi mantendo **a sequência exatamente como você montou**, sem interromper a leitura da carta com reações de Diane. Ela lê a carta inteira primeiro; só depois vem o impacto emocional.
Capítulo 17 — Os Olhos Não Mentem
O tempo havia passado desde a despedida.
Marianne continuara sua vida da maneira que sabia: ensinando.
Mas já não era a mesma mulher que havia deixado a propriedade dos Rivers anos antes.
Estava mais magra.
O rosto havia perdido parte da cor, e a pele adquirira uma aparência diferente, mais frágil. As roupas pareciam maiores sobre o corpo, e aquilo que durante tanto tempo conseguira esconder já não podia mais ser disfarçado.
A doença avançara.
As tosses tornaram-se frequentes.
Mais fortes.
Às vezes, Marianne precisava interromper uma aula apenas para recuperar o fôlego.
Durante anos escondera tudo.
Dos alunos.
Dos conhecidos.
De Diane.
Principalmente de Diane.
Agora já não sabia quanto tempo lhe restava.
Os médicos haviam parado de lhe dar respostas claras, e Marianne também parara de pedir.
Naquela tarde, estava sentada ao lado de um aluno diante do piano.
Observava atentamente enquanto ele tocava.
Apesar da fraqueza, permanecia a mesma professora exigente.
Postura impecável.
Olhar atento.
Ouvidos incapazes de ignorar uma nota executada incorretamente.
O aluno terminou uma peça.
Marianne assentiu discretamente.
Ele virou a página.
Começou outra.
Marianne voltou o rosto para a janela.
Lá fora, o dia estava cinzento.
Uma tosse surgiu.
Ela levou discretamente um lenço à boca.
Esperou passar.
Então ouviu as primeiras notas da nova música.
Marianne congelou.
Seus olhos deixaram a janela.
Virou-se rapidamente para o piano.
O aluno continuou tocando.
Marianne conhecia aquela melodia.
Não existia em nenhum livro.
Não pertencia a compositor algum.
Não deveria estar ali.
Aquela música havia sido criada entre duas pessoas.
Ela e Diane.
Na casa do lago.
Tinham tocado uma para a outra.
E, até onde Marianne sabia, somente as duas conheciam aquilo.
— Pare.
O aluno tirou imediatamente as mãos do piano.
Assustado, olhou para a professora.
Marianne permaneceu encarando as teclas.
— Onde aprendeu essa música?
O rapaz hesitou.
— Eu... vi em um concerto.
Marianne levantou os olhos.
— Num concerto?
— Sim, senhora.
Sua respiração mudou.
— Sabe me dizer o nome de quem tocou?
O aluno respondeu:
— Diane Rivers.
Marianne ficou imóvel.
Apenas aquele nome foi suficiente para fazer desaparecer todos os anos entre elas.
Diane.
Ela se sentou melhor na cadeira.
Olhou novamente para o piano.
A música delas.
Diane havia tocado aquela música diante de outras pessoas.
Depois de todos aqueles anos.
Marianne respirou profundamente.
— Por hoje é só.
O aluno pareceu confuso.
— Senhora?
— Na semana que vem retornaremos de onde paramos.
Ele percebeu que não deveria insistir.
Recolheu suas coisas.
— Boa tarde, professora.
Marianne apenas assentiu.
O rapaz saiu.
A porta se fechou.
Marianne permaneceu sentada.
Olhou para a janela.
Durante muito tempo.
Pensou em Diane.
Na primeira vez que a vira.
Na forma como ela a expulsara do piano.
Nas caminhadas.
No campo.
Na casa do lago.
Na dança.
Nos olhos.
No beijo.
Naquela manhã em que finalmente deixaram de fugir uma da outra.
E na última vez que a viu.
Eu também quero você. E quero ser sua.
Marianne fechou os olhos.
Durante todos aqueles anos, evitara escrever.
Sabia onde Diane morava.
Era impossível não saber.
O marido de Diane pertencia a uma família conhecida e politicamente influente.
O nome dela também continuara aparecendo nos jornais após seu retorno aos concertos.
Marianne soubera do casamento.
Soubera da vida que Diane construíra.
E permanecera longe.
Até aquele dia.
Até ouvir aquela música.
Até perceber que talvez seu tempo estivesse terminando.
Levantou-se.
Foi até a mesa.
Sentou-se.
Pegou papel e caneta.
E decidiu arriscar uma última vez.
---
Do outro lado daquela história, Diane também havia seguido a vida.
Naquela tarde, encontrava-se sentada na sala de sua casa.
Sua filha estava próxima, tocando violão.
Diane a observava em silêncio.
A menina tentava repetir uma passagem havia alguns minutos.
Errou.
Recomeçou.
Diane deixou que tentasse novamente.
A menina terminou e olhou para a mãe.
Diane fez um pequeno gesto afirmativo.
— Melhor.
A garota sorriu.
Diane voltou os olhos para a janela.
Alguma coisa próxima à porta chamou sua atenção.
Correspondência.
— Eleanor.
A menina parou de tocar.
— Sim?
— Por gentileza, chame Bela para preparar um chá.
Eleanor colocou o violão de lado.
— Está bem.
Levantou-se e seguiu em direção à cozinha.
Diane ficou sozinha.
Olhou novamente para a porta.
Depois se levantou.
Caminhou até a entrada.
Havia algumas correspondências.
Pegou-as.
Então viu um envelope diferente dos demais.
Na frente estava escrito:
Para uma grande amiga.
Diane parou.
Não virou o envelope.
Não precisou.
Alguma coisa dentro dela reconheceu antes que seus olhos pudessem confirmar.
Seu peito apertou profundamente.
Uma lágrima desceu lentamente por seu rosto.
Ela nem percebeu.
Virou o envelope.
Viu o nome.
Marianne Lieberman.
Diane fechou os olhos.
Segurou o envelope contra o peito durante alguns segundos.
Depois entrou novamente.
Sentou-se.
Suas mãos tremiam discretamente.
Abriu a carta.
E leu.
---
Querida Diane,
se esta carta chegou a você, saiba que já não me encontro com vida.
E saiba que não existem acidentes e tudo volta ao seu lugar. Nenhuma explicação minha poderá satisfazê-la.
Eu não queria ter ido embora. Talvez eu nunca tenha conseguido lhe explicar isso da maneira que deveria.
Eu estava doente.
Já estava doente quando cheguei à sua casa e não tive coragem de lhe contar. Você já sofria pela morte de Eleanor, e eu não queria que alguém que começava a se aproximar de você lhe trouxesse novamente a possibilidade de outra perda.
Mas hoje compreendo que, mesmo se tivesse contado, você teria ficado ao meu lado.
Você teria escolhido ficar.
E fui eu quem não lhe permitiu fazer essa escolha.
Desde o dia em que fui embora, sinto que perdi algo importante. E desde então essa sensação nunca me abandonou.
Pensei em você todos os dias.
Pensei nos dias que passamos juntas.
Pensei em nossas caminhadas, no campo, na casa do lago, no piano e na maneira como você me olhava.
Você foi o meu anjo que caiu do céu.
Apareceu na minha vida por acaso quando eu já acreditava que não precisava encontrar mais ninguém. E, depois de você, nunca mais consegui acreditar que aquilo que eu tinha antes era suficiente.
Com você aprendi que os olhos não mentem.
Você conseguia me ler apenas olhando para mim. Percebia quando eu estava perturbada, quando não sabia o que dizer, quando estava tentando esconder alguma coisa.
E foi justamente pelos seus olhos que percebi que estava me apaixonando por você.
Só me odeio por não ter respondido rápido o bastante.
Por não ter sido corajosa quando ainda havia tempo.
E por ter ido embora.
Sei que talvez nunca consiga me perdoar por isso.
Mas espero que um dia consiga.
Você nunca saiu dos meus pensamentos.
Nunca deixei de lembrar de você.
Nunca deixei de lembrar do que tivemos.
E nunca deixei de amar aquilo que existiu entre nós.
Eu queria ter ficado.
Queria ter descoberto o que aconteceria se naquela manhã eu tivesse largado minhas malas e escolhido você.
Mas não escolhi.
E essa foi uma decisão que carreguei comigo por todos esses anos.
Espero que me perdoe um dia pela minha falta de coragem.
Você foi o meu anjo que caiu do céu.
E, se existe alguma coisa que eu gostaria que soubesse antes que esta carta termine, é que eu amei você.
Com carinho.
Marianne.
---
Diane terminou a carta.
Ficou imóvel.
Não voltou nenhuma linha.
Não precisou.
As palavras pareciam estar gravadas dentro dela.
Somente então percebeu outro pequeno papel junto à carta.
Pegou-o.
Havia um endereço.
Um cemitério.
E o lugar onde Marianne estava enterrada.
Diane olhou novamente para a assinatura.
Marianne.
As lágrimas começaram a cair.
Uma.
Depois outra.
Então muitas.
Diane apertou a carta contra o peito.
O choro veio de maneira tão profunda que precisou se inclinar.
Durante todos aqueles anos, Marianne estivera em algum lugar.
Mesmo distante.
Mesmo sem escrever.
Mesmo fora de sua vida.
Ainda existia.
E essa existência permitira a Diane guardar uma esperança que nunca tivera coragem de admitir.
Talvez um dia.
Talvez por acaso.
Talvez numa cidade.
Num concerto.
Numa estação.
Talvez seus olhos se encontrassem novamente.
Agora essa possibilidade não existia mais.
Marianne estava morta.
Diane chorou.
Por Marianne.
Por si mesma.
Pelos anos.
Pela despedida.
Por tudo aquilo que poderia ter sido e não foi.
Depois de algum tempo, chamou:
— Bela.
A criada apareceu.
Ao ver Diane, percebeu imediatamente que alguma coisa havia acontecido.
Não perguntou.
Diane segurava a carta.
— Preciso que fique com Eleanor.
Bela assentiu.
— Claro, senhora.
— Vou viajar.
— Por quanto tempo?
Diane olhou para a carta.
— Não sei.
Bela não perguntou mais nada.
— Cuidarei dela.
Diane assentiu.
— Obrigada.
---
Algum tempo depois, Diane chegou ao cemitério.
Desceu do carro sozinha.
O endereço indicado na carta estava dobrado dentro de sua bolsa.
Caminhou entre os túmulos.
Seu coração batia de maneira dolorosa.
Não sabia o que esperava encontrar.
Talvez ainda existisse alguma parte dela esperando descobrir que tudo aquilo tinha sido um erro.
Então viu uma pessoa parada alguns metros adiante.
Uma mulher.
Estava diante de um túmulo.
Diane aproximou-se.
Devagar.
A mulher não percebeu imediatamente.
Diane chegou perto o suficiente para enxergar o nome gravado na pedra.
Parou.
Marianne Lieberman.
O mundo pareceu desaparecer.
Uma lágrima escorreu.
Diane tentou respirar.
Não conseguiu.
O choro veio antes que pudesse controlá-lo.
Levou a mão à boca.
As pernas perderam força por um instante.
A mulher ao lado virou-se.
Olhou para Diane.
Observou seu rosto.
E então disse:
— Diane?
Diane levantou os olhos.
Ainda chorava.
— Sim.
A mulher a encarou durante alguns segundos.
Diane tentou controlar a respiração.
— Quem é você?
A mulher olhou para o túmulo.
Depois novamente para Diane.
— Sou a mãe dela.
Diane ficou imóvel.
A mulher aproximou-se um pouco.
— Ela me contou muito sobre você.
Diane abaixou o rosto.
Outra lágrima caiu.
A mãe de Marianne continuou:
— Ela me avisou que você viria um dia.
Diane voltou a olhá-la.
A frase doeu profundamente.
Marianne acreditara que ela viria.
Mesmo depois de todos aqueles anos.
A mulher olhou para a filha enterrada diante delas.
Depois tocou suavemente o braço de Diane.
— Vou deixá-la em paz com ela.
Diane não conseguiu responder.
Apenas assentiu.
A mãe de Marianne se afastou.
Diane ficou sozinha diante do túmulo.
Durante muito tempo, chorou.
Não tentou impedir.
Não tentou manter postura.
Não havia ninguém diante de quem precisasse fingir força.
Sentou-se lentamente na grama.
Olhou para o nome de Marianne.
E começou a lembrar.
O piano.
A primeira discussão.
A caminhada até o campo.
A casa do lago.
Marianne tocando para ela.
O festival.
A dança.
A maneira como Marianne fugira depois de perceber o que sentia.
O primeiro beijo.
Os olhos delas naquela manhã.
O corpo de Marianne junto ao seu.
A despedida.
O abraço que nenhuma das duas queria terminar.
Marianne caminhando até o carro.
Sem olhar para trás.
E agora a carta.
Você foi o meu anjo que caiu do céu.
Diane chorou até não conseguir mais.
Depois, aos poucos, sua respiração se acalmou.
Permaneceu sentada.
Olhou para o túmulo.
Passou a mão lentamente sobre o nome gravado na pedra.
— Eu te olhava e pensava...
Sua voz falhou.
Diane respirou profundamente.
— Será o grande amor da minha vida... ou a dor mais profunda que irei sentir?
Seus olhos se encheram mais uma vez.
Um pequeno sorriso triste surgiu entre as lágrimas.
— Você foi os dois.
Diane ficou olhando para o nome dela.
Depois disse aquilo que Marianne não conseguiu ouvir enquanto estava viva.
— Também te amo, Marianne.
O vento passou entre as árvores.
Diane permaneceu diante dela.
Não disse mais nada.
Durante tantos anos, foram os olhos que disseram aquilo que nenhuma das duas conseguiu colocar em palavras a tempo.
Agora Diane finalmente havia dito.
Só que Marianne já não podia olhar de volta.
Fim.